{"id":2260,"date":"2024-05-20T21:08:49","date_gmt":"2024-05-21T00:08:49","guid":{"rendered":"https:\/\/anibalsilveira.org\/?page_id=2260"},"modified":"2024-05-20T21:08:49","modified_gmt":"2024-05-21T00:08:49","slug":"lar-abrigado-no-juqueri-um-inicio","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/anibalsilveira.org\/en\/lar-abrigado-no-juqueri-um-inicio\/","title":{"rendered":"Lar Abrigado no Juqueri: um in\u00edcio."},"content":{"rendered":"<p class=\"has-text-align-center\"><strong>LAR ABRIGADO<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><strong><sup>Paulo Cezar Naglio Palladini<br>Arquivos da Coordenadoria de Saude Mental do Estado de S\u00e3o Paulo<br>Vol XLIV &#8211; janeiro\/84 a Dezembro\/84- N\u00famero \u00daNICO<\/sup><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong>INTRODU\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A popula\u00e7\u00e3o internada no Juqueri, atualmente, est\u00e1 constitu\u00edda por pessoas problematizadas ps\u00ecquicamante e cronificadas. As quest\u00f5es que envolvem a cronifica\u00e7\u00e3o em Sa\u00fade Mental s\u00e3o complexas, e as propostas de trabalho desenvolvidas neste campo variadas e dependentes, em parte, de abordagens que enfoquem predominantemente os aspectos biol\u00f3gicos, psicol\u00f3gicos e socias (4,6,8). \u00c9 sabido que, embora os avan\u00e7os na terap\u00eautica psiqui\u00e1trica sejam consider\u00e1veis, parte dos<br>pacientes n\u00e3o responde favoralmente ao tratamento. Por outro lado, mesmo sob condi\u00e7oes extremamente desfavor\u00e1veis porcentagem consider\u00e1vel mant\u00e9m razo\u00e1vel n\u00edvel de funcionamento. Franco da Rocha (5) afirmava , em 1912,atingir 10% dos internados cr\u00f4nicos os ps\u00ecquicamente v\u00e1lidos e aptos para o trabalho,<\/p>\n\n\n\n<p>Contel.t&amp; Loureiro (2), estudando a adapta\u00e7ao intra-hospitalar de pacientes psiqui\u00e1ricos cronicamente hospitalizaos, encontraram 34,45% de internados com grande probabilidade de alta, que se mantinham aut\u00f4nomos , em remiss\u00e3o de sintomas e exerciam atividades no hospital. Para este grupo tem sido proposta e criada modalidade terap\u00eautica denominada Halfway House ou Pens\u00e3o Protegida (1,2,3,9).<\/p>\n\n\n\n<p>O objetivo deste trabalho \u00e9 apresentar a experi\u00eancia inicial com modalidade deste tipo no Juqueri, aqui chamada Lar Abrigado, que faz parte do processo de transforma\u00e7ao por que vem passando a institui\u00e7\u00e3o e \u00e9 uma tentativa de romper com sua estrutura convencional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong>UMA CONCEITUA\u00c7AO DO LAR ABRIGADO<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Consiste o Lar Abrigado em uma unidade pequena, descaracterizada em seus aspectos hopitalares, onde se procura, atrav\u00e9s da conviv\u00eancia, formas condignas de exist\u00eancia com recupera\u00e7\u00e3o da autonomia, das rela\u00e7oes sociais, da participa\u00e7\u00e3o nas decis\u00f5es, da coopera\u00e7ao no trabalho, do est\u00edmulo para perceber e pensar a pr\u00f3pria condi\u00e7ao. Neste contexto \u00e9 facilitado o desenvolvimento do potencial individual de crescimento, sempre operante, mesmo nas mais adversas circunst\u00e2ncias, por meio da solidariedade, confian\u00e7a, e respeito \u00e0 singularidade, aos sentimentos e escolhas do outro como pessoa (7,10,11). O funcionamento do Lar Abrigado implica no trabalho em grupo com a instala\u00e7ao da Reuni\u00e3o Geral como um dos seus principais modos de organiza\u00e7\u00e3o, al\u00e9m da forma\u00e7\u00e3o de grupos volunt\u00e1rios para as mais diversas tarefas. Das Reuni\u00f5es Gerais participam todos os envolvidos com o programa, sejam internados, funcion\u00e1rios ou t\u00e9cnicos. Proporciona-se apenas uma estrutura de suporte, para que amplas possibilidades de atua\u00e7ao se desenvolvam. As normas de conv\u00edvio s\u00e3o estabelecidas pelo grupo e as atividades necess\u00e1rias \u00e0 sua manuten\u00e7\u00e3o e aperfei\u00e7oamento distribu\u00eddas de acordo com a aptid\u00e3o de cada um em dado momento. N\u00e3o h\u00e1 regras fixas nem pap\u00e9is rigidamente definidos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong>EXPERI\u00caNCIA PILOTO NO JUQUERI<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O primeiro La Abrigado no Juqueri come\u00e7ou a funcionar em fevereiro de 1984, ocupando um edif\u00edcio de dois pavimentos ao lado do Hospital Central, mantendo por for\u00e7a da proximidade estreitas rela\u00e7\u00f5es entre si. O pr\u00e9dio possui um p\u00e1tio lateral murado e uma cobertura sob a qual est\u00e3o instaladas as mesas do refeit\u00f3rio. Ha dois dormit\u00f3rios, um em cada pavimento, com capacidade total de 48 leitos. Cada internado tem ao lado da cama um arm\u00e1rio, para a guarda de seus objetos pessoais.<\/p>\n\n\n\n<p>A entrada d\u00e1 acesso, por meio de um sagu\u00e3o, \u00e0 sala da adminstra\u00e7ao e \u00e0 sala de estar, onde se desenvolvem reuni\u00f5es, atividades recreativas e culturais. H\u00e1 bancos, mesas, dois aparelhos televisores, revistas, alguns livros e jogos de sal\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O grupo \u00e9 composto de 48 pessoas hospitalizadas em m\u00e9dia por 8 anos e oriundas de uma das col\u00f4nias denominada Ch\u00e1cara. Todas tem em comum a manuten\u00e7ao de alguma rela\u00e7ao de trabalho na institui\u00e7\u00e3o. Para a sua inclus\u00e3o no programa n\u00e3o foi levado em conta o diagn\u00f3stico psiqui\u00e1trico. Um n\u00famero de 43 internados trabalham em v\u00e1rias depend\u00eancias do Complexo Hospitalar, constando entre eles jardineiros, cozinheiros, pintores, padeiros, carregadores, auxiliares gr\u00e1ficos, escritur\u00e1rios, etc. Um grupo de 5, junto aos funcion\u00e1rios, trabalham na manuten\u00e7\u00e3o geral do lar, executa tarefas rotineiras de faxina, arruma\u00e7\u00e3o, reparos, prepara\u00e7ao e distribui\u00e7\u00e3o das refei\u00e7oes, registro das ocorr\u00eancias, solicita\u00e7\u00e3o de material, suprimento das necessidades e outras. As fun\u00e7oes desempenhadas por cada um n\u00e3o s\u00e3o rigidamente determinadas, o que permite grande flexibilidade de a\u00e7\u00e3o. Um dos funcion\u00e1rios pode, por exemplo, auxiliar na faxina, outro na distribui\u00e7\u00e3o do almo\u00e7o, enquanto um internado atende ao telefone ou datilografa um pedido de material. Em outra oportunidade cada uma das pessoas poder\u00e1 estar em atividades diferentes.<\/p>\n\n\n\n<p>A Equipe T\u00e9cnica est\u00e1 formada por um psiquiatra, um psic\u00f3logo e duas assistentes sociais, das quais apenas uma dedica tempo integral ao Lar. O Psiquiatra, al\u00e9m da coordena\u00e7ao e supervis\u00e3o do programa d\u00e1 assistencia medica ao grupo e prescreve os medicamentos, quando necess\u00e1rio. O psic\u00f3logo participa de v\u00e1rias atividades, trabalha com pequenos grupos e atua individualmente em situa\u00e7\u00f5es especiais. As assistentes sociais cooperam no trabalho rotineiro, levantam as necessidaes junto com os participantes, facilitam a obten\u00e7ao de documentos, os contatos com familiares e conhecidos, a coloca\u00e7ao em empregos externos, e, por passarem mais tempo no Lar, procuram manter um clima de harmonia e apoio m\u00fatuo. Toda a Equipe reune-se semanalmente durante uma hora e meia para discuss\u00e3o e avalia\u00e7ao da experi\u00eancia, e promove \u00e0s ter\u00e7as feiras pela manh\u00e3 a Reuni\u00e3o Geral. Das discuss\u00f5es nestas reuni\u00f5es, em cinco meses de atividade do lar, foi abolida a obrigatoriedade do uso do uniforme, foram liberados os hor\u00e1rios de entrada e sa\u00edda, e estabelecidas normas m\u00ednimas ( n\u00e3o escritas) de conv\u00edvio. Nelas \u00e9 decidida a inclus\u00e3o ou exclus\u00e3o de determinado funcion\u00e1rio ou internado, a programa\u00e7\u00e3o das atividades e estimulada a express\u00e3o dos conflitos eventualmente existentes num clima facilitador e da maneira menos diretiva poss\u00edvel. Foi proposta a forma\u00e7\u00e3o de uma comiss\u00e3o para cuidar do preenchimento das vagas que porventura houver.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns internados est\u00e3o procurando emprego fora da institui\u00e7\u00e3o, e numa das reuni&#8217;\u00f5es surgiu a id\u00e9ia da cria\u00e7\u00e3o de um Lar Abrigado fora do Juqueri. que abrigasse pequenos grupos de ex-internados, e se tornasse a possibilidade real de viver na comunidade externa (1, 6).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong>PERSPECTIVAS<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A problem\u00e1tica da cronifica\u00e7\u00e3o em Saude Mental exige que se utilize uma abordagem ao mesmo tempo biol\u00f3gica, psicologica e social, voltada \u00e0s intera\u00e7oes nos tr\u00eas n\u00edveis de organiza\u00e7\u00e3o (4), sem descuidar dos aspectos hist\u00f3ricos e culturais. Das inter-rela\u00e7\u00f5es constantes de caracter\u00edsticas da pessoa com o ambiente hospitalar tradicional desfavor\u00e1vel resulta uma s\u00e9rie de manifesta\u00e7\u00f5es secund\u00e1rias apontadas por Gruenberg (8), e sintetisadas na express\u00e3o &#8220;Social Breakdown Syndrome&#8221;, que acarretam a &#8220;deteriora\u00e7\u00e3o no funcionamento social, acompanhada de transtornos mentais suscet\u00edveis de serem prevenidos tanto mediante respostas menos prejudiciais aos pr\u00f3prios transtornos, como pela modifica\u00e7\u00e3o das atitudes da comunidade para com os doentes mentais e seu tratamento&#8221;. A considera\u00e7\u00e3o de que a terapia \u00e9 a media\u00e7\u00e3o facilitadora da liberta\u00e7\u00e3o pessoal e a confian\u00e7a b\u00e1sica na capacidade de crescimento do organismo humano, mesmo que as condi\u00e7oes tenham sido t\u00e3o desfavor\u00e1veis ( 10,11), s\u00e3o fundamentais na revers\u00e3o desse processo. A minimiza\u00e7\u00e3o da caracteriza\u00e7\u00e3o da pessoa como paciente, a democratiza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es, a comunica\u00e7\u00e3o clara, o est\u00edmulo \u00e0 independ\u00eancia, \u00e0 responsabilidad e o encorajamento para a a\u00e7\u00e3o (7) podem auxiliar neste sentido e \u00e9 para onde aponta a experi\u00eancia com Lar Abrigado no Juqueri.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong>SUMMARY<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>The Author discusses the situation of the chronically hospitalized mental patients. He presents the Sheltered Home as one of the therapeutic alternatives available to such patients, similar to the Halfway Houses. The objective is to have, through coexistence, a worthy life, by the incentive of self-government, social relationships and work cooperation. The first Sheltered Home in Juqueri Hospital has been functioning since february 1984, and has forty-eight patients. It is a pilot experience wich may be amplified by establishing others independent units.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong>REFER\u00caNCIAS BIBLIOGR\u00c1FICAS<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>1- Begel A et alli: Practical Issues in Developing and Operating a Halfway House Program. Hosp &amp; Community Psychiat 28 (8): 601-607, 1977.<br>2- Contel JOB, Loureiro SR: Paciente Psiqui\u00e1trico Cronicamente Hospotalizado Caracterizado Segundo sua Adapta\u00e7ao Intra-hospitalar. Neurobiol Recife 42 (2): 95-116, 1979.<br>3- Contel JOB: Pens\u00e3o Protegida: Alternativa Comunit\u00e1ria para Pacientes Psiqui\u00e1tricos Cronicamente Hospitalizados. Rev Ass Bras Psiquiatria 3(8): 186-190, 1981.<br>4- Engel GL: The Clinical Appllication of the Biophychosocial Model. Am J Psychiatry 137 (5): 535-544, 1980.<br>5- Franco da Rocha F: Hosp\u00edcio e Col\u00f4nias de Juquery &#8211; Vinte Anos de Assist\u00eancia aos Alienados em S\u00e3o Paulo. S\u00e3o Paulo, Ed Franco da Rocha, 1912.<br>6- Gomez EA: El Problema del Enfermo Mental Cr\u00f4nico Indigente: un analisis historico. Acta Psiquiat Psicol Amer Lat 29 (3): 213-222, 1983.<br>7- Gordon LP: Chronic Mental Patient: current status, future directions. Psychol Bull 71 (2): 81-94, 1969.<br>8- Gruenberg EM: From Practice to Theories: Community Mental Health Services and the Nature of Psychoses, in T Millon, Theories of Psychopathology and Personality, Philadelphia, WB Saunders Company, 1973.<br>9- Oliveira EM: Orientador de Pens\u00e3o Protegida. Rev Ass Bras Psiquiatria 4(12): 20-22, 1982.<br>10- Rogers CR: A Theory of Therapy, Personality and Interpersonal Relationships, as Developed in the Cliente-centered Framework, in S Koch, Psychology: a Study of a Science III, New York, Mc Graw-Hill Book Company, 1959.<br>11- Rogers CR: Sobre o Poder Pessoal. S\u00e3o Paulo, Livraria Martins Fontes Editora Ltda, 1978.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Agradecimento:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Esta experi\u00eancia tem sido poss\u00edvel gra\u00e7as \u00e0 participa\u00e7\u00e3o decisiva das Assistentes Sociais Vilma Shisuca Maekawa e \u00c1urea Aparecida Domingues e do Pic\u00f3logo S\u00edlvio Yasui.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>LAR ABRIGADO Paulo Cezar Naglio PalladiniArquivos da Coordenadoria de Saude Mental do Estado de S\u00e3o PauloVol XLIV &#8211; janeiro\/84 a Dezembro\/84- N\u00famero \u00daNICO INTRODU\u00c7\u00c3O A popula\u00e7\u00e3o internada no Juqueri, atualmente, est\u00e1 constitu\u00edda por pessoas problematizadas ps\u00ecquicamante e cronificadas. 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