{"id":2429,"date":"2024-06-17T18:40:26","date_gmt":"2024-06-17T21:40:26","guid":{"rendered":"https:\/\/anibalsilveira.org\/?page_id=2429"},"modified":"2024-06-17T18:40:26","modified_gmt":"2024-06-17T21:40:26","slug":"instinto-materno-ou-de-posse","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/anibalsilveira.org\/en\/instinto-materno-ou-de-posse\/","title":{"rendered":"Instinto materno ou de posse"},"content":{"rendered":"<p class=\"has-text-align-center\"><strong><span style=\"text-decoration: underline;\">Instinto materno ou de posse<\/span><\/strong><sup data-fn=\"deb1ca09-ef05-41c0-89da-d4a7d5ce37f1\" class=\"fn\"><a href=\"#deb1ca09-ef05-41c0-89da-d4a7d5ce37f1\" id=\"deb1ca09-ef05-41c0-89da-d4a7d5ce37f1-link\">1<\/a><\/sup><strong><span style=\"text-decoration: underline;\"><br><\/span>(L\u00facia Maria Salvia Coelho)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Este instinto j\u00e1 corresponde a um n\u00edvel superior de diferencia\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o aos dois instintos anteriores. Por estar ligado de modo apenas indireto com o instinto nutritivo, esta fun\u00e7\u00e3o apresenta maior depend\u00eancia aos fatores do ambiente externo. Assim, a express\u00e3o do instinto de posse varia conforme o n\u00edvel de amadurecimento do indiv\u00edduo e de acordo com as liga\u00e7\u00f5es que ele estabelece com o meio f\u00edsico e social.<\/p>\n\n\n\n<p>Este instinto pode ser definido em seu aspecto mais amplo como uma liga\u00e7\u00e3o afetiva intensa mantida pelo indiv\u00edduo em rela\u00e7\u00e3o aos produtos que dele emanam, quer estes produtos sejam de natureza propriamente fisiol\u00f3gica, quer resultem de uma elabora\u00e7\u00e3o emocional.<\/p>\n\n\n\n<p>A express\u00e3o mais evidente e afetivamente mais importante deste instinto \u00e9 a que corresponde \u00e0 liga\u00e7\u00e3o entre a m\u00e3e e o produto da concep\u00e7\u00e3o, especialmente intensa nas primeiras fases de desenvolvimento do rec\u00e9m-nascido. Este instinto acha-se especialmente desenvolvido entre os vertebrados e se traduz de modo especialmente complexo no ser humano.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora o instinto materno ou de posse se torne mais atuante durante a fase da gravidez e logo ap\u00f3s o parto, n\u00e3o \u00e9 exclusivo do sexo feminino, nem a sua a\u00e7\u00e3o fica limitada a este per\u00edodo em que os genitores interveem de modo mais direto na preserva\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia de um ser humano ainda indefeso e dependente. Como as demais fun\u00e7\u00f5es, este instinto pode manifestar-se de modo diverso conforme a fase de amadurecimento do indiv\u00edduo e conforme o seu car\u00e1ter.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 express\u00e3o do instinto de posse como \u201cinstinto materno\u201d, verificamos que os et\u00f3logos estudam especificamente o comportamento a ele ligado, caracterizando-o como \u201ccuidado \u00e0 prole\u201d. Eles observam as caracter\u00edsticas espec\u00edficas que assume este comportamento em cada esp\u00e9cie animal.<\/p>\n\n\n\n<p>Max Scheler distingue no ser humano o comportamento resultante do instinto materno do sentimento a que ele chama \u201camor materno\u201d. No livro \u201cEss\u00eancia e Forma da Simpatia\u201d, este autor desenvolve algumas concep\u00e7\u00f5es sobre o sentimento que se aproximam daquela j\u00e1 estabelecida por Comte e Audiffrent. No caso da rela\u00e7\u00e3o m\u00e3e-filho, Scheler observa tratar-se de uma liga\u00e7\u00e3o sui-generis pois que mesmo do ponto de vista som\u00e1tico o ser amado faz parte do organismo daquele que o ama.<\/p>\n\n\n\n<p>Este j\u00e1 entra em a\u00e7\u00e3o desde a fase fetal ainda que em n\u00edvel menos en\u00e9rgico que o nutritivo e se manifestaria com maior intensidade no organismo materno ap\u00f3s o parto. Observa ainda Scheler que o instinto materno e o instinto de conserva\u00e7\u00e3o (nutritivo) j\u00e1 s\u00e3o nitidamente distintos mesmo antes do parto. Neste sentido o autor critica as teorias que defendem o ponto de vista de que o instinto materno seria apenas uma expans\u00e3o do ego\u00edsmo porque mesmo como rea\u00e7\u00e3o subjetiva a manifesta\u00e7\u00e3o daqueles dois instintos \u00e9 sentida de modo diverso pela m\u00e3e. Os \u201csacrif\u00edcios\u201d da pr\u00f3pria conserva\u00e7\u00e3o da vida materna devido aos cuidados que a m\u00e3e pode dar \u00e0 prole e para conservar a exist\u00eancia desta, j\u00e1 s\u00e3o descritos mesmo nos animais sub-humanos. Evidenciam-se assim, n\u00e3o apenas uma independ\u00eancia entre estes dois instintos, mas at\u00e9 mesmo a possibilidade de levarem a situa\u00e7\u00f5es antag\u00f4nicas \u2013 o que de resto \u00e9 caracter\u00edstico tamb\u00e9m aos demais instintos.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Audiffrent desenvolveu a teoria positivista da personalidade e fez a distin\u00e7\u00e3o entre os instintos b\u00e1sicos e individuais \u2013 que s\u00e3o mais en\u00e9rgicos \u2013 e o instinto materno, de natureza mais dependente e complexa. O instinto materno ao lado das \u201cnecessidades de aperfei\u00e7oamento\u201d, j\u00e1 implica em um certo grau de participa\u00e7\u00e3o da sociabilidade e da intelig\u00eancia para poder ser expresso em um comportamento espec\u00edfico. Assim, o instinto materno ainda que originalmente individual e mais diretamente ligado \u00e0s fun\u00e7\u00f5es org\u00e2nicas do que o s\u00e3o os sentimentos, j\u00e1 em sua express\u00e3o inclui o car\u00e1ter social e altru\u00edsta.<\/p>\n\n\n\n<p>O instinto materno n\u00e3o se confunde com o amor materno. O instinto atua de modo mais intenso no comportamento feminino, ap\u00f3s o parto e na \u00e9poca da amamenta\u00e7\u00e3o, ou em geral na fase em que a crian\u00e7a \u00e9 mais dependente dos cuidados maternos. Assim, a express\u00e3o instintiva do cuidado materno corresponde no plano biol\u00f3gico, a uma s\u00e9rie de processos peculiares \u00e0 prote\u00e7\u00e3o da prole segundo um ritmo org\u00e2nico vari\u00e1vel em cada per\u00edodo da evolu\u00e7\u00e3o do rec\u00e9m-nascido. Existe uma certa correspond\u00eancia entre as modifica\u00e7\u00f5es hormonais do organismo materno \u2013 como por exemplo, o intumescimento dos seios com leite e o ritmo de necessidade de alimenta\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a que se manifesta como fome. Tal processo biol\u00f3gico se acompanha de um nexo subjetivo emocional que se traduz como prazer da m\u00e3e em amamentar seu filho e do filho em ser amamentado.<\/p>\n\n\n\n<p>A m\u00e3e, como a f\u00eamea dos animais sub-humanos mais evolu\u00eddos, revela-se sens\u00edvel a uma s\u00e9rie de \u201csinais\u201d expressos no comportamento do filho. Ela reage a estes sinais de modo quase inconsciente e seguramente pouco refletido. Um aspecto frequentemente observado no comportamento materno corresponde \u00e0 sua sensibilidade em escutar os rumores, os mais t\u00eanues, produzidos pelo filho, mesmo quando adormecida profundamente; n\u00e3o dando aten\u00e7\u00e3o aos outros ru\u00eddos do ambiente mesmo que sejam bem mais intensos. Existe assim uma seletividade perceptual relativa aos sinais significativos desencadeadores do comportamento instintivo materno. A este n\u00edvel do relacionamento interpessoal m\u00e3e-filho os processos nutritivos de ambos, o instinto de posse da m\u00e3e e o sentimento de apego especialmente manifesto na crian\u00e7a \u2013 provocam uma rea\u00e7\u00e3o emocional profunda e essencial para a evolu\u00e7\u00e3o do ajustamento individual \u00e0 realidade social.<\/p>\n\n\n\n<p>O prolongamento excessivo desta express\u00e3o instintiva a este n\u00edvel de intensidade da fase post parto expressa-se no comportamento materno como uma atitude superprotetora que impede o filho de se tornar um ser progressivamente mais aut\u00f4nomo e seguro de si. O amor materno, ao contr\u00e1rio, corresponde a um sentimento social e se sobrep\u00f5e \u00e0 express\u00e3o mais simples do instinto de posse. Ocorre assim uma modifica\u00e7\u00e3o gradativa da atitude de prote\u00e7\u00e3o a um ser organicamente indefeso para a de sentimento mais complexo da m\u00e3e que orienta o filho na busca de sua pr\u00f3pria identidade e liberdade.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Entretanto o instinto de posse n\u00e3o encontra sua express\u00e3o apenas na situa\u00e7\u00e3o de maternidade.&#8221; Seu significado mais amplo \u00e9 o apego a objetos e os fatos, e ainda aos produtos que emanam do pr\u00f3prio organismo. Mesmo a no\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria identidade subjetiva resulta em grande parte da a\u00e7\u00e3o conjugada deste est\u00edmulo instintivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas primeiras fases de desenvolvimento ontogen\u00e9tico o instinto de posse estimula o interesse da crian\u00e7a pelos pr\u00f3prios excretas. Considera-os como parte de seu organismo. Tal interesse coincide com a necessidade individual de dominar o ambiente e de afirmar-se diante dos demais. Os nexos emocionais e as fantasias prim\u00e1rias que poder\u00e3o se originar deste processo de busca de conhecimento de si pr\u00f3prio e do ambiente imediato e que resulta da express\u00e3o predominante, mas n\u00e3o exclusiva do instinto de posse \u2013 foram estudados pela psican\u00e1lise. Freud denominou este per\u00edodo de desenvolvimento de \u201cfase anal\u201d, entretanto, ao contr\u00e1rio do que postula a teoria de Comte, considerou as rea\u00e7\u00f5es da crian\u00e7a nesta fase, como express\u00e3o do instinto sexual. Freud n\u00e3o leva em conta o processo subjetivo associado ao instinto de posse, nem a participa\u00e7\u00e3o indispens\u00e1vel das fun\u00e7\u00f5es intelectuais no estabelecimento destes nexos prim\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesta fase da primeira inf\u00e2ncia, o instinto de posse se traduz ainda por uma grande carga de individualidade e acha-se, portanto, ligado a necessidades afetivas prim\u00e1rias e a processos intelectuais ainda imaturos. Mas desde ent\u00e3o esta express\u00e3o instintiva j\u00e1 se associa ao apego e \u00e0 necessidade de dom\u00ednio resultando em uma express\u00e3o din\u00e2mica da explora\u00e7\u00e3o do ambiente \u2013 por exemplo, traduzida no comportamento da crian\u00e7a em apanhar tudo o que encontra ou em colecionar objetos \u2013 e mesmo da curiosidade intelectual e da tend\u00eancia em construir seus pr\u00f3prios objetos e concep\u00e7\u00f5es. Tais curiosidades e iniciativa n\u00e3o s\u00e3o de ordem basicamente sexual como pretendia Freud, mas antes refletem a participa\u00e7\u00e3o harm\u00f4nica das fun\u00e7\u00f5es afetivas b\u00e1sicas e das primeiras express\u00f5es adequadas do processo intelectual.<\/p>\n\n\n\n<p>Finalmente, o instinto de posse se traduz como o impulso afetivo b\u00e1sico respons\u00e1vel pela liga\u00e7\u00e3o do artista ou do cientista \u00e0 sua pr\u00f3pria obra \u2013 considerada como um produto de seu esfor\u00e7o de cria\u00e7\u00e3o. Assim, a posse liter\u00e1ria, a posse dos objetos materiais, o sentimento infantil de possuir os adultos ou de possuir os produtos de seu organismo \u2013 s\u00e3o express\u00f5es diversas do mesmo impulso afetivo b\u00e1sico que se torna mais n\u00edtido e diferenciado quando se manifesta como instinto materno. Esta diversidade de manifesta\u00e7\u00f5es da mesma fun\u00e7\u00e3o subjetiva resulta da necess\u00e1ria participa\u00e7\u00e3o, ou da interfer\u00eancia das demais fun\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas, de fatores culturais e da pr\u00f3pria express\u00e3o das disposi\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas.<\/p>\n\n\n<ol class=\"wp-block-footnotes\"><li id=\"deb1ca09-ef05-41c0-89da-d4a7d5ce37f1\">Apostila produzida na Faculdade de Medicina de Jundia\u00ed, como complemento ao curso de Psicologia M\u00e9dica, para o curso de Psicologia M\u00e9dica para os m\u00e9dicos residentes em Psiquiatria da Faculdade de Medicina de Jundia\u00ed e para o Curso de Teoria da Personalidade para a Sociedade Rorschach de S\u00e3o Paulo. Composta em agosto de 1978. J\u00e1 considerada em parte superada por sua autora que j\u00e1 reescreveu o tema sob novas perspectivas. No entanto, eu, Roberto Fazzani, digitalizei e formatei este grupo de apostilas pois considero-as \u00fateis numa exposi\u00e7\u00e3o inicial da Teoria Sociol\u00f3gica da Personalidade, por n\u00f3s adotada. <a href=\"#deb1ca09-ef05-41c0-89da-d4a7d5ce37f1-link\" aria-label=\"Jump to footnote reference 1\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><\/ol>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Instinto materno ou de posse(L\u00facia Maria Salvia Coelho) Este instinto j\u00e1 corresponde a um n\u00edvel superior de diferencia\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o aos dois instintos anteriores. Por estar ligado de modo apenas indireto com o instinto nutritivo, esta fun\u00e7\u00e3o apresenta maior depend\u00eancia aos fatores do ambiente externo. 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