{"id":2545,"date":"2024-06-18T19:59:56","date_gmt":"2024-06-18T22:59:56","guid":{"rendered":"https:\/\/anibalsilveira.org\/?page_id=2545"},"modified":"2024-06-18T19:59:56","modified_gmt":"2024-06-18T22:59:56","slug":"o-sentido-actual-da-obra-de-k-kleist-e-as-repercusoes-nos-paises-ibero-americanos","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/anibalsilveira.org\/en\/o-sentido-actual-da-obra-de-k-kleist-e-as-repercusoes-nos-paises-ibero-americanos\/","title":{"rendered":"O SENTIDO ACTUAL DA OBRA DE K. KLEIST E AS REPERCUS\u00d5ES NOS PA\u00cdSES IBERO-AMERICANOS"},"content":{"rendered":"<p class=\"has-text-align-center\"><strong>O SENTIDO ACTUAL DA OBRA DE K. KLEIST E AS REPERCUS\u00d5ES NOS PA\u00cdSES IBERO-AMERICANOS<\/strong><sup data-fn=\"b518bf77-3f24-49c7-8136-b1f0d8d5f48b\" class=\"fn\"><a href=\"#b518bf77-3f24-49c7-8136-b1f0d8d5f48b\" id=\"b518bf77-3f24-49c7-8136-b1f0d8d5f48b-link\">1<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong>(Professor H. Barahona Fernandes)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em 31 de Janeiro de 1979, celebrou-se na sala de aula de Cl\u00ednica Psiqui\u00e1trica, integrada no <em>Nerven Centrum<\/em> de Francfort sobre-o-Meno, o centen\u00e1rio do nascimento do Professor KARL KLEIST, falecido em 1959.<\/p>\n\n\n\n<p>Falaram o Professor H. J. M\u00dcLLER, decano da atual organiza\u00e7\u00e3o m\u00e9dica (dita \u201c\u00e1rea profissional da Medicina Humana\u201d) da Universidade de Johann Wolfgang Goethe e o Dr. H. HERGER, presidente da Academia de Estudos M\u00e9dicos p\u00f3s-graduados e fizeram comunica\u00e7\u00f5es, os professores R. JUNG, de Fraiburgo, sobre a import\u00e2ncia de Kleist para a investiga\u00e7\u00e3o neurol\u00f3gica; R. HASSLER, de Francfort, sobre a sua descoberta da biopsicologia dos n\u00facleos centrais do c\u00e9rebro; P. DUUS, que em nome dos antigos assistentes, teve a iniciativa da homenagem, sobre o modo de trabalho na Cl\u00ednica de Kleist, dando num exemplo de um caso de afasia motora; K. LEONHARD, sobre o valor persistente da psiquiatria de Kleist e o A. destas linhas, sobre as doutrinas de Kleist, e a sua difus\u00e3o em Portugal, Espanha e pa\u00edses \u00edbero-americanos.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Escrevendo nesta Revista, evoco os colegas espanh\u00f3is, tamb\u00e9m \u201cirm\u00e3os em Kleist\u201d, com quem tenho privado, em especial aqueles com quem em 1934-35, trabalhei na Cl\u00ednica de Fracfort, ROJAS BALLESTEROS, j\u00e1 falecido e que foi brilhante catedr\u00e1tico em Granada e JUSTO GONZALO, investigador do Instituto Ram\u00f3n y Cajal.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1934-35 trabalhei, como bolsista do Instituto de Alta Cultura, na Cl\u00ednica de Kleist, assisti ao seu ensino, participei da sua atividade cl\u00ednica e de investiga\u00e7\u00e3o e fiz estudos de histopatologia cerebral e de psicopatologia e patofisiologia dos sintomas psicomotores, ponto de partida de outras investiga\u00e7\u00f5es. O conv\u00edvio pessoal e cient\u00edfico com um investigador t\u00e3o produtivo e original constituiu sem d\u00favida uma aprendizagem inesquec\u00edvel e decisiva para a minha forma\u00e7\u00e3o. A gratid\u00e3o e devo\u00e7\u00e3o pessoal estabelecida n\u00e3o implicam contudo qualquer epigonismo nem impedem \u2013 como cabe ao homenagear um alto esp\u00edrito \u2013 a vis\u00e3o cr\u00edtica-problem\u00e1tica da sua obra.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Num artigo publicado num volume de <em>Autobiografias psiqui\u00e1tricas<\/em> (1) tinha j\u00e1 dado conta da minha experi\u00eancia nessa e noutras cl\u00ednicas alem\u00e3s, na sequ\u00eancia da evolu\u00e7\u00e3o das posi\u00e7\u00f5es cient\u00edficas tomadas. Tive agora ocasi\u00e3o, perante os colegas daquele tempo que ali compareceram em grande n\u00famero, de evocar as minhas viv\u00eancias epocais e de comentar a obra mundialmente famosa de Kleist, considerando em especial a sua repercuss\u00e3o em Portugal, Espanha e nos pa\u00edses \u00edbero-americanos.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Kleist foi convidado em 1950 para s\u00f3cio correspondente da Academia das Ci\u00eancias de Lisboa, com o patroc\u00ednio de Egas Moniz, Ant\u00f3nio Flores e Almeida Lima. Fez ent\u00e3o (26-X-1950) uma confer\u00eancia sobre a \u201cPosi\u00e7\u00e3o da psiquiatria no sistema das ci\u00eancias\u201d que ent\u00e3o tivemos ocasi\u00e3o de apreciar e que voltaremos a referir no final deste artigo.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Pela influ\u00eancia que teve na evolu\u00e7\u00e3o da escola psiqui\u00e1trica de Lisboa, em forma\u00e7\u00e3o na \u00e9poca, Kleist merece ser relembrado nesta oportunidade.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Fiel ao princ\u00edpio que tenho defendido de focar na Academia das Ci\u00eancias de prefer\u00eancia, os <em>aspectos gerais e multi-e interdisciplinares <\/em>de cada uma das especialidades, aproveito a oportunidade da comemora\u00e7\u00e3o do centen\u00e1rio deste investigador para tentar apreender aquilo que ele melhor possa significar \u2013 como contribui\u00e7\u00e3o cient\u00edfica b\u00e1sica para o progresso das ci\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p>Digamos desde j\u00e1: Kleist foi um neurologista e psiquiatra <em>original <\/em>e <em>criativo. <\/em>Tomou no seu tempo posi\u00e7\u00f5es de oposi\u00e7\u00e3o \u00e0s correntes doutrinais dominantes, teve a coragem do n\u00e3o conformismo ante o estabelecido \u2013 tanto na ci\u00eancia como nas suas aplica\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas de ordem social e sanit\u00e1rio-pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p>A sua li\u00e7\u00e3o merece, pois, ser evocada e apreciada em todos estes aspectos.<\/p>\n\n\n\n<p>Pintemos primeiro o Homem. Os que o conhecem somente como autor da famosa \u201ccarta das localiza\u00e7\u00f5es cerebrais\u201d, rigorosamente arrumadas nos campos cito e mieloarquitet\u00f4nicos (de Brodmann e von Economo) ficar\u00e3o por ventura com uma ideias de secura e rigidez. O mesmo poder\u00e1 acontecer frente \u00e0 sua classifica\u00e7\u00e3o conjunta das doen\u00e7as neurol\u00f3gicas e psiqui\u00e1tricas em especial das psicoses end\u00f3genas, tamb\u00e9m rigorosamente subdivididas segundo o modelo das doen\u00e7as heredodegenerativas. Na realidade n\u00e3o era um homem frio de afetos. Antes um aut\u00eantico humanista, amigo de Albert Schweitzer, cultor da historia e das artes, leitor precoce de Schiller. O seu assinal\u00e1vel rigor metodol\u00f3gico eram o produto de um imperativo categ\u00f3rico de certo modo de uma \u201c\u00e9tica racional\u201d congruente com a sua posi\u00e7\u00e3o cient\u00edfica <em>racionalista <\/em>e <em>naturalista.<\/em> Nada exprimiu melhor essa atitude do que a sua maneira de observar os doentes, de modo exaustivo, aplicando ele mesmo certas provas psicol\u00f3gicas experimentais (na \u00e9poca ainda pouco usadas na cl\u00ednica) e exigindo a mesma metodologia exaustiva dos seus colaboradores no \u00e2mbito de uma organiza\u00e7\u00e3o severamente disciplinada. Eu o conheci por\u00e9m na intimidade e soube apreciar a finura da sua sensibilidade, extensiva tamb\u00e9m, contra as apar\u00eancia, \u00e0 compreens\u00e3o psicol\u00f3gica dos seus enfermos \u2013 dos homens em geral.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Nas aulas era brilhante e vivo, por vezes com um certo ar empertigado de oficial germ\u00e2nico dos velhos tempos, acentuado pelo modo como punha o mon\u00f3culo, ao sublinhar as suas asser\u00e7\u00f5es. A tradi\u00e7\u00e3o que vinha de Kraepelin, da apresenta\u00e7\u00e3o de casos cl\u00ednicos demonstrativos, era nele exemplar, bem como a exemplifica\u00e7\u00e3o, nas aulas, nas pe\u00e7as anat\u00f4micas. Embora integrado no sistema universit\u00e1rio alem\u00e3o de seu tempo e guardando uma prudente fachada de aceita\u00e7\u00e3o, soube distanciar-se dos excessos, tanta vezes delirantes, da pol\u00edtica (dita \u201csanit\u00e1ria\u201d) nazi, em especial no que diz respeito \u00e0s doen\u00e7as heredit\u00e1rias. Podemos testemunhar como \u201cresistiu\u201d, do modo poss\u00edvel, \u00e0 aplica\u00e7\u00e3o da lei da esteriliza\u00e7\u00e3o eug\u00eanica obrigat\u00f3ria dos portadores das doen\u00e7as heredit\u00e1rias., diagnosticando generosamente como \u201cpsicoses marginais\u201d (fasofrenias, psicoses cicloides, etc.) muitos casos (assim exclu\u00eddos da opera\u00e7\u00e3o) assim como outros com talentos excepcionais (musicais, liter\u00e1rios) com a alega\u00e7\u00e3o do interesse da conserva\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica de tais cepas heredit\u00e1rias valiosas, a despeito da doen\u00e7a, e \u00e0 sua transmiss\u00e3o nas gera\u00e7\u00f5es vindouras.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 n\u00e3o estava na Alemanha quando da nefanda eutan\u00e1sia sistem\u00e1tica e coacta dos doentes mentais asilados. Sei por\u00e9m de fontes fidedignas que Kleist, como outros psiquiatra, ali\u00e1s raros (ente eles EWALD, VILLINGER, H. H. MAYER) fez o poss\u00edvel por subtrair o m\u00e1ximo de enfermos a essa medida n\u00e3o s\u00f3 degradantemente anti-humana, como criminosa \u2013 a extermina\u00e7\u00e3o seletiva da vida pretensamente tida como \u201csem valor\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Este real inconformismo tem parelhas como se disse, com a posi\u00e7\u00e3o de EGAS MONIZ. Ambos tomaram atitudes iconoclastas de contradita, \u00e0s \u201cautoridades\u201d do seu tempo, tanto cient\u00edficas, como governativas. N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio relembrar a persistente oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 psicologia da \u00e9poca e a autocracia salazarista \u2013 como s\u00edmbolo do seu esp\u00edrito de independ\u00eancia, capaz de cr\u00edtica livre e novas vis\u00f5es sociais e cient\u00edficas.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1945 tivemos ocasi\u00e3o, com EGAS MONIZ, de propor o nome de KLEIST, juntamente com OSKAR VOGT (outro grande investigador do c\u00e9rebro, bem conhecido desta Academia atrav\u00e9s de ANTONIO FLORES) para a atribui\u00e7\u00e3o do pr\u00eamio Nobel de Medicina e Fisiologia. Pusemos ent\u00e3o em relvo a sua fama mundial e a import\u00e2ncia gen\u00e9rica das suas pesquisas, feitas no homem doente, sobre a <em>vida ps\u00edquica normal e patol\u00f3gica, <\/em>as <em>fun\u00e7\u00f5es nervosas <\/em>e as suas <em>correspond\u00eancias\u201d<\/em> com a arquitetonia cerebral. Na base do estudo das les\u00f5es focais do sistema nervoso (em especial feridos de guerra, mas tamb\u00e9m de afec\u00e7\u00f5es em foco do enc\u00e9falo) logrou assim novos conhecimentos n\u00e3o s\u00f3 an\u00e1tomo-fisiol\u00f3gicos como bio-psicol\u00f3gicos, atingindo o n\u00edvel das fun\u00e7\u00f5es nervosas superiores. KLEIST \u00e9 conhecido como \u201clocalizacionista\u201d extremo, tendo estabelecido <em>com rela\u00e7\u00f5es <\/em>entre as <em>estruturas corticais<\/em>, <em>sub-corticais, e do eixo cerebral, <\/em>n\u00e3o s\u00f3 com fun\u00e7\u00f5es motoras, sensitivas e vegetativas, mas ainda com <em>fun\u00e7\u00f5es psicol\u00f3gicas<\/em>, a todos os n\u00edveis, chegando \u00e0 ousadia de correlacionar certas <em>fun\u00e7\u00f5es do Eu <\/em>(a corporalidade, o pr\u00f3prio, o \u201cEu coletivo com o tronco cerebral, o c\u00f3rtex da regi\u00e3o do cingulum e lobo fronto-orbit\u00e1rio. Referimo-nos para mais pormenores e coment\u00e1rios ao nosso estudo sobre a \u201cNova Carta das Localiza\u00e7\u00f5es Cerebrais\u201d comunicado \u00e0 Sociedade Anat\u00f4mica Portuguesa, em Coimbra, em 1937 (2).\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Notabil\u00edssima \u00e9 a antevis\u00e3o bem concretizada dadas as correla\u00e7\u00f5es do que hoje se chama sistema l\u00edmbico McLEAN 1952 pelo relevo dado ao cingulum, hipocampo, t\u00e1lamo e hipot\u00e1lamo nas suas fun\u00e7\u00f5es \u00f3rgano-vegetativas em rela\u00e7\u00e3o com os processos afetivos. E ainda com o conjunto da <em>sensibilidade interior<\/em> e seu papel nas rea\u00e7\u00f5es ansiosas (4).<\/p>\n\n\n\n<p>Se sabe a import\u00e2ncia que mais trade adquiriram estes estudos para o progresso da neurofisiologia e bio-psicologia norma e patol\u00f3gica. Relevemos apenas a sua aplica\u00e7\u00e3o \u00e0 <em>leucotomia<\/em>, nas suas formas seletivas atuais, feitas por m\u00e9todos estereot\u00e1xicos, e toda a moderna e irrecus\u00e1vel topisticas cerebral da investiga\u00e7\u00e3o bioqu\u00edmica das psicoses e da psicofarmacologia.<\/p>\n\n\n\n<p>Referiremos a seguir \u2013 a prop\u00f3sito da repercuss\u00e3o da obra de KLEIST\u00a0 noutros pa\u00edses, as suas mais importantes descobertas, tanto em neurologia como em psiquiatria.<\/p>\n\n\n\n<p>Na sequ\u00eancia dos psiquiatras investigadores cerebrais Griessinger, Meynert e Wernicke, a reuni\u00e3o dessas duas especialidades m\u00e9dicas, era para KLEIST uma exig\u00eancia cient\u00edfica irrecus\u00e1vel contra as tend\u00eancias mais generalizadas de autonomia. Chegou mesmo a propor uma classifica\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica comum das doen\u00e7as neurol\u00f3gicas e psiqui\u00e1tricas.<\/p>\n\n\n\n<p>O mais importante no \u00e2ngulo hist\u00f3rico cient\u00edfico e epistemol\u00f3gico e a forma n\u00edtida, en\u00e9rgica e criativa, como marcou na Psiquiatria, a sua <em>orienta\u00e7\u00e3o an\u00e1tomo-cl\u00ednica e biopsicol\u00f3gica,<\/em> baseada na an\u00e1lise sintomatol\u00f3gica concreta, tanto das psicoses como das doen\u00e7as cerebrais, grosseiramente org\u00e2nicas. Independentemente da etiologia, alcan\u00e7am-se assim os <em>modos fundamentais especificamente humanos, <\/em>de desintegra\u00e7\u00e3o a todos os n\u00edveis das estruturas e do funcionamento das personalidades, segundo as suas \u201cleis pr\u00f3prias\u201d (Eigengezetzlichkeit) \u2013 um conceito decisivo do seu pensar que alguns depreciativamente chamavam \u201ckleistisch\u201d (kleistiano) mas que efetivamente se mostrou, embora de forma relativa, v\u00e1lido em muitos aspectos.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Pelas suas opini\u00f5es, Kleist situou-se muitas vezes em oposi\u00e7\u00e3o aos outros \u201cgrandes\u201d da Psiquiatria da \u00e9poca (KRAEPELIN, BLEULER, JASPERS, K. SCHNEIDER etc.). Teve disputas acesas (por exemplo com BUMKE, SCHOLZ, etc.) e foi bastante criticado e at\u00e9 ignorado na Alemanha, assim como em outros pa\u00edses.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Portugal, logo em 1924, SOBRAL CID \u2013 outro nosso grande Mestre e antecessor na C\u00e1tedra \u2013 considerou ent\u00e3o largamente as psicoses da motilidade, o papel do Striatum e outros, estudos de KLEIST na sua obra sobre os <em>Syndromes psychomores, Encephalite e Schizophrenie.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>SOBRAL CID, aceitou, de come\u00e7o, nessa linha, as rela\u00e7\u00f5es desta psicose com os estados tardios da doen\u00e7a de von Economo (encefalite epid\u00eamica). Mais tarde evolucionou por\u00e9m no sentido dos estudos cl\u00ednicos, em especial de BLEULER\u00a0 e KRETSCHMER que assim se difundiram em Portugal. Apesar da sua \u201cant\u00edtese psicopatol\u00f3gica\u201d 9tal definimos a sua posi\u00e7\u00e3o) ficou ligado \u00e0s bases biol\u00f3gicas da Psiquiatria, apoiando, desde logo, os tratamentos som\u00e1ticos de psicoses ent\u00e3o introduz\u00edveis. Mais uma vez surgia assim a antinomia cl\u00e1ssica entre \u201csom\u00e1ticos\u201d e \u201cps\u00edquicos\u201d, que ainda hoje, lamentavelmente subsiste (de modo quase \u201cpsiquiatricida\u201d) no digladiar das correntes psicogen\u00e9ticas e somatogen\u00e9ticas e at\u00e9 na pr\u00e1xis, por exemplo na oposi\u00e7\u00e3o exclusiva das bio- e psicoterapias. KLEIST libertou-se, em parte, desta contradi\u00e7\u00e3o, <em>diferenciando<\/em> categoricamente os diferentes n\u00edveis de perturba\u00e7\u00e3o, desde os organo-neurol\u00f3gicos at\u00e9 aos funcionais e os psicol\u00f3gico-reativos, etc. (no caso referido, sintomas amiost\u00e1ticos, psicocin\u00e9ticos e catat\u00f4nicos em sentido estricto e buscando, a sua diferente localiza\u00e7\u00e3o nos g\u00e2nglios centrais e no eixo cerebral).\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Do esfor\u00e7o de superar essas e outras contradi\u00e7\u00f5es dial\u00e9ticas nasceu o meu \u201cponto de vista convergente\u201d, comunicado em Francfort, em 1936, no I Jahres versammlung der Geselschaft Deutscher Neurologen und Psychiatern, sess\u00e3o memor\u00e1vel na qual Kleist, a par de muitas aprecia\u00e7\u00f5es positivas foi, violentamente atacado pelo relat\u00f3rio complementar \u00e0 sua monumental obra <em>Gehirnpathologie, <\/em>publicada em 1934.<\/p>\n\n\n\n<p>No citado estudo sobre sintomas acin\u00e9ticos acentuamos a inter-liga\u00e7\u00e3o dos aspectos patofisiol\u00f3gicos e psicopatol\u00f3gicos e analisamos muitos sintomas originais de KLEIST, numa sutil diferencia\u00e7\u00e3o hoje muito injustamente desprezada, tais como a separa\u00e7\u00e3o dos sintomas catat\u00f4nicos em sentido estrito da oposi\u00e7\u00e3o motora (Gegenhalten) diferenciada do negativismo, o acompanhamento motor (Mitmachen), a fixa\u00e7\u00e3o pre\u00eansil (Festhalten) e o enganchar, autom\u00e1tica dos dedos (Hackeln), como variedade do reflexo de preens\u00e3o (Greifreflex) e discinesia psicomotora, etc.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1938, investiguei, j\u00e1 em Lisboa, os <em>S\u00edndromes hipercin\u00e9ticos <\/em>na mesma orienta\u00e7\u00e3o, fazendo larga refer\u00eancia e publicando casu\u00edstica sobre as sutis an\u00e1lises de Kleist (paracinesias, etc.) nas psicoses da motilidade (Motilitatspsychosen) pertencentes ao grupo das psicoses cicloides (Cycloidepsychosen) de que tamb\u00e9m com F\u00fcnfgeld tive longa experi\u00eancia em Francfort. J\u00e1 ent\u00e3o ampli\u00e1vamos os dados de KLEIST com o estudo das viv\u00eancias e outros dados psicopatol\u00f3gicos.<\/p>\n\n\n\n<p>Aconteceu, ent\u00e3o, o encontro coincidente com o \u201cneo-jacksionismo\u201d de H. EY, desenvolvido at\u00e9 ao seu \u201corgano-dinamismo\u201d. Desse modo se alargavam, como novas perspectivas evolutivas e estruturais, \u00e0 ideias b\u00e1sicas de Wernicke-Kleist, acentuando a organiza\u00e7\u00e3o e diferencia\u00e7\u00e3o hier\u00e1rquica das fun\u00e7\u00f5es normais e, na patologia, sua desintegra\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m escalonada e hierarquizada no quadro de organiza\u00e7\u00e3o da personalidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Direi aqui apenas que nessa linha tenho vindo a propor diferentes \u201cmodelos\u201d psicopatol\u00f3gicos, da personalidade e das s\u00edndromes psicopatol\u00f3gicas at\u00e9 \u00e0 formula\u00e7\u00e3o atual das \u201cestruturas psicopatol\u00f3gicas\u201d b\u00e1sicas e das formas gerais de perturba\u00e7\u00e3o da Personalidade.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Para al\u00e9m dos aspectos an\u00e1tomo-fisiol\u00f3gicos (de import\u00e2ncia fundamental) e dos esfor\u00e7os de <em>diferencia\u00e7\u00e3o \u201cneurologizante\u201d <\/em>da nosologia de KLEIST (com tantas contribui\u00e7\u00f5es positivas, v.g. fasofrenias, a individualiza\u00e7\u00e3o das formas monopolares e bipolares das psicoses cicloides etc.), a contribui\u00e7\u00e3o maior de KLEIST foi a <em>aprecia\u00e7\u00e3o cl\u00ednica anal\u00edtica<\/em> (sem ser \u201catom\u00edstica\u201d, note-se bem) das diferentes s\u00edndromes psicopatol\u00f3gicas. A sua distin\u00e7\u00e3o entre complexos sindrom\u00e1ticos <em>hom\u00f4nimos e heter\u00f4nomos <\/em>(e depois tamb\u00e9m, as formas \u201cintermedi\u00e1rias\u201d) e a liga\u00e7\u00e3o dos primeiros com a vida ps\u00edquica normal, em contraste com a desintegra\u00e7\u00e3o m\u00f3rbida dos segundos \u2013 adquire hoje, sem d\u00favida, um novo sentido, dado que o problema subsiste desde E. BLEULER at\u00e9 o presente, debatendo-se repetidamente a distin\u00e7\u00e3o entre sintomas prim\u00e1rios (ligados ao processo org\u00e2nico, a \u201csomatose\u201d) e secund\u00e1rios (psicogen\u00e9ticos). Dei ao problema outra vers\u00e3o num \u00e2ngulo \u201cfenomenol\u00f3gico-estrutural-din\u00e2mico\u201d. Por exemplo, reuni as s\u00edndromes incoerentes, estuporosos, hipercin\u00e9ticos, acin\u00e9ticos, primeiro como um \u201ctipo cl\u00ednico\u201d peculiar sem compromissos nosol\u00f3gicos (holodisfrenias) mais tarde sintetizado numa das \u201cestruturas psicopatol\u00f3gicas b\u00e1sicas\u201d consideradas etiologicamente neutras e que surgem sob o modo de invariantes transfenom\u00eanicas na evolu\u00e7\u00e3o (aguda) de diversas doen\u00e7as. Na paralisia geral descrevi estes estados, aparecidos como \u201cictus\u201d, sem sintomas neurol\u00f3gicos, mas sob a forma de estados agudos e cur\u00e1veis, acin\u00e9ticos ou hipercin\u00e9ticos. Algo de compar\u00e1vel acontece com as formas <em>cr\u00f4nicas<\/em> de outras estruturas b\u00e1sicas (de desintegra\u00e7\u00e3o do Proprium (Eu), etc.). A distin\u00e7\u00e3o feita por Kleist nas esquizofrenias, das formas \u201ccombinadas\u201d e \u201cextensivas\u201d mostra as suas m\u00faltiplas possibilidades evolutivas. Se realmente (nesse ou noutras formas) s\u00e3o efetivamente entidades nosol\u00f3gicas aut\u00f4nomas ou tipos biologicamente diversificados do suposto <em>morbus<\/em> esquizofr\u00eanicas \u00e9 a esperan\u00e7a da atual investiga\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica e bioqu\u00edmica.<\/p>\n\n\n\n<p>O nosso colaborador e sucessor atual na C\u00e1tedra da Faculdade, P. Pol\u00f4nio, fez estudos catamn\u00e9sticos e de an\u00e1lise cl\u00ednica estrutural das psicoses cicloides e tamb\u00e9m das esquizofrenias e Fragoso Mendes, estudou no mesmo sentido as psicoses sintom\u00e1ticas. Confirmou entre outros, o conceito gen\u00e9tico da \u201clabilidade sintom\u00e1tica\u201d de Kleist. NUNO GON\u00c7ALVES, atualmente vivendo na Alemanha, estudou as holodisfrenias. Sem entrar em detalhes, citemos ainda outros portugueses. A. BROCHADO, do Porto, que investigou fen\u00f4menos psicomotores (oposi\u00e7\u00e3o, etc.) no choque hipoglic\u00eamico provocado. Noutros estudos desses estados transit\u00f3rios da sa\u00edda do coma insul\u00ednico) encontrei perturba\u00e7\u00f5es da linguagem com algumas formas peculiares e menos conhecidas, descritas por KLEIST (disartria cortical), falta de empuxo (Antriebsmangel), da linguagem, mutismo verbal, etc.).\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Um nome portugu\u00eas merece ser citado, MAGALH\u00c3ES LEMOS (falecido em 1931) com renomada obra neurol\u00f3gica e psiqui\u00e1trica; embora de escrita francesa, tem afinidades com KLEIST, nos seus estudos sobre a afasia, apraxia, agnosia e sobre s\u00edndromes estritos. Recentemente, A. DAM\u00c1SIO trabalhou em perturba\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas, revelando a apraxia construtiva como sintoma parietal e tamb\u00e9m frontal, tanto esquerdo, como direito.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora Kleist (al\u00e9m das localiza\u00e7\u00f5es para fins neurocir\u00fargicos) n\u00e3o tivesse tirado consequ\u00eancias terap\u00eauticas das suas investiga\u00e7\u00f5es, historicamente n\u00e3o podia deixar de estar ligado \u00e0 descoberta portuguesa da <em>psicocirurgia<\/em>. Esteve pessoalmente em Paris em 1950, no I Congresso Mundial de Psiquiatria para discutir os relat\u00f3rios de FREEMAN, MAYER e do A. sobre\u00a0 an\u00e1tomo-fisiologia cerebral \u00e0 luz da experi\u00eancia da leucotomia. Valorizamos, ent\u00e3o, da obra de Kleist, em especial o fato de as les\u00f5es operat\u00f3rias pouparem as \u00e1reas ligadas \u00e0 exteroceptividade e alterarem (efeitos sobre o t\u00e1lamo, eixo cerebral, cingulum etc.) a interoceptividade (ligada por Kleist \u00e0s fun\u00e7\u00f5es do Eu); da\u00ed a extravers\u00e3o, e a \u201csintoniza\u00e7\u00e3o regressiva\u201d (BARAHONA FERNANDES) dos leucotomizados a aproveitar para a sua psicoterapia (na base da nova \u201ctransfer\u00eancia vital\u201d e para a recupera\u00e7\u00e3o social.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 curioso lembrar as \u201cresist\u00eancias\u201d de Kleist a tais \u201cinterven\u00e7\u00f5es\u201d cruentas em especial a sua rea\u00e7\u00e3o de protesto contra a \u201ct\u00e9cnica orbit\u00e1ria\u201d, t\u00e3o imprecisa e chocante, praticada por FREEMANN. Perante os <em>fatos<\/em> consumados \u2013 os doentes assim transformados \u2013 sobrepujava, por\u00e9m o sereno investigador com aquela altura de que nos deu mostra no final de sua <em>Gehirnpathologie<\/em> elaborada sobre as tr\u00e1gicas consequ\u00eancias dos feridos de guerra: \u201cIn Ehrfucht und Dankbarkeit derer em derem Wunder wie lernten\u201d (em respeito e gratid\u00e3o por aqueles em cujos ferimentos aprendemos).\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>KLEIST foi tamb\u00e9m muito conhecido em Espanha.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m de GONZALO e ROJAS que trabalharam na mesma \u00e9poca com Kleist referimos VALLEJO N\u00c1GERA, MIRA Y L\u00d3PEZ e outros tratadistas da \u00e9poca que se referiram largamente aos seus trabalhos e posi\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas<\/p>\n\n\n\n<p>LOPEZ IBOR, em 1949, na sua obra <em>Los problemas de las enfermidades mentales<\/em>, exp\u00f5e largamente as obras de KLEIST, frente \u00e0 fenomenologia cl\u00ednica, de modo cr\u00edtico mas fazendo juz aos seus ricos achados originais e inten\u00e7\u00f5es de renova\u00e7\u00e3o cient\u00edfica.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m da nossa divulga\u00e7\u00e3o em portugu\u00eas em 1937, das suas famosas cartas de organiza\u00e7\u00e3o e fun\u00e7\u00f5es do enc\u00e9falo, LOPEZ IBOR publicou uma <em>vers\u00e3o espanhola<\/em>. A tradu\u00e7\u00e3o dos conceitos kleistianos oferece certas dificuldades que importava resolver, como atualmente se procura com os gloss\u00e1rios internacionais.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Foi por\u00e9m em Barcelona que a obra cl\u00ednica de KLEIST teve maior repercuss\u00e3o o Entusiasmo de SARR\u00d3 BURBANO pela nosologia das esquizofrenias motivou v\u00e1rios trabalhos sobre o tema (o SCHANNAN BRAVO, etc.). SOL\u00c9 SAGARRA, al\u00e9m de estudos pr\u00f3prios publicou com LEONHARD, um <em>Manual de Psiquiatria <\/em>(1953) com larga audi\u00eancia em Espanha e Portugal. CABALEIRO GO\u00c1S, al\u00e9m de larga informa\u00e7\u00e3o publicou (1970) uma estat\u00edstica de 400 casos de esquizofrenia, classificados segundo a nosologia de KLEIST. ALONSO FERN\u00c1NDEZ, no seus <em>Fundamentos da Psiquiatria <\/em>(3.\u00aa ed., 1976) faz numerosas refer\u00eancias a KLEIST como \u201cautor das grandes constru\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas, a par de FREUD, JASPERS, PAVLOV, H. EY, ADOLPH MAYER, etc.\u201d.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Na Am\u00e9rica do Sul e Central as influ\u00eancias francesas, alem\u00e3s e norte-americanas foram-se sucedendo e temos conhecimento do interesse que merecem as aquisi\u00e7\u00f5es de KLEIST da parte de not\u00f3rios psiquiatras, como HON\u00d3RIO DELGADO, de Lima (Peru), DION\u00cdSIO NIETO e outros no M\u00e9xico; E. KRAPF, na Argentina, Chile, Cuba etc.<\/p>\n\n\n\n<p>No Brasil houve tamb\u00e9m uma certa difus\u00e3o da cl\u00ednica kleistiana em parte atrav\u00e9s de disc\u00edpulos nossos e pelo ensino diversificado dos professores PACHECO E SILVA, LEME LOPES, PAIM, NELSON PIRES e outros. O seu maior representante foi, sem d\u00favida, AN\u00cdBAL SILVEIRA<sup data-fn=\"a2c7c9a8-c333-41fb-9235-1e35ca24a453\" class=\"fn\"><a href=\"#a2c7c9a8-c333-41fb-9235-1e35ca24a453\" id=\"a2c7c9a8-c333-41fb-9235-1e35ca24a453-link\">2<\/a><\/sup>, de S\u00e3o Paulo, porventura mais \u201ckleistiano\u201d que o pr\u00f3prio KLEIST, ao localizar estados psicopatol\u00f3gicos na base de pneumoencefalografias. Os erros e dificuldades destas e outras t\u00e9cnicas foram desde sempre motivo de cr\u00edticas a dificultar ainda mais o princ\u00edpio das localiza\u00e7\u00f5es circunscritas no enc\u00e9falo. \u00c9 curioso notar que AN\u00cdBAL SILVEIRA \u00e9 ainda hoje um convicto positivista, cultor de A. COMTE. Parece ter encontrado em KLEIT, muito para al\u00e9m das inten\u00e7\u00f5es deste, a base org\u00e2nica para o especular dessa corrente filos\u00f3fica muito espaldada nos pa\u00edses latinos, desde o s\u00e9culo XIX at\u00e9 ao 2. \u00b0 quarto do s\u00e9culo XX.<\/p>\n\n\n\n<p>No meu ensaio <em>Filosofia e Psiquiatria<\/em> (1966) dedico todo um cap\u00edtulo \u00e0 posi\u00e7\u00e3o de KEIST situando-a como <em>realista e naturalista<\/em>, em evolu\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica com outras correstes (fenomenol\u00f3gicas, psicol\u00f3gicas, filos\u00f3ficas etc.) ali\u00e1s admiravelmente criticadas por KLEIST, logo em 1925. Devemos ver na sua original obra uma das mais importantes contribui\u00e7\u00f5es para os alicerces da investiga\u00e7\u00e3o an\u00e1tomo-fisiol\u00f3gica cerebral no sentido biopsicol\u00f3gica de uma <em>biopsicol\u00f3gia<\/em> a partir de uma base cl\u00ednica concreta e realista.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel agora uma discuss\u00e3o aprofundada dos problemas epistemol\u00f3gicos envolvidos.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>KLEIST, na sua atitude de combate contra as correntes conceptuais opostas em especial na <em>patologia cerebral<\/em>, mostrou-se sempre avesso \u00e0s tend\u00eancias holistas e globalistas, o que se compreende pela fei\u00e7\u00e3o vaga e imprecisa de muitas delas (\u201co c\u00e9rebro funcionando como um todo\u201d) face aos dados diferenciados que a rigorosa observa\u00e7\u00e3o cl\u00ednica e an\u00e1tomo-cerbral parece impor e se tornou para KLEIST uma funda convic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A posi\u00e7\u00e3o atual (R. JUNG, HECAEN, entre outros) \u00e9 a de descriminar fun\u00e7\u00f5es localiz\u00e1veis com certa seguran\u00e7a (e n\u00e3o apenas fun\u00e7\u00f5es senso-motoras focais) de outras fun\u00e7\u00f5es mais amplas e gerais, relacionadas com sistema an\u00e1tomo-fisiol\u00f3gicos que se estendem por v\u00e1rios n\u00edveis encef\u00e1licos, e n\u00e3o apenas com os chamados \u201ccentros\u201d (definidos pela sua topografia e arquitet\u00f4nica).\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Um bom exemplo \u00e9 dado pela \u201clocaliza\u00e7\u00e3o\u201d das fun\u00e7\u00f5es da consci\u00eancia (melhor dito da vigilidade). Se h\u00e1 atividade sint\u00e9tica e globalizante \u00e9 sem d\u00favida a da consci\u00eancia. No entanto, KLEIST na base de seus achados alinhou logo em 1924 com a opini\u00e3o de VON ECONOMO (1917), REICHARD (1919) de que havia uma regula\u00e7\u00e3o global das fun\u00e7\u00f5es da consci\u00eancia (hoje correspondentes ao conceito de vigilidade), que havia um chamado \u201ccentro nervoso\u201d no dienc\u00e9falo, tamb\u00e9m respons\u00e1vel pelas suas varia\u00e7\u00f5es fisiol\u00f3gicas (sono etc.) e, quando alterado, determinante das suas perturba\u00e7\u00f5es (sonol\u00eancia patol\u00f3gica, perdas de consci\u00eancia, s\u00edncopes, estados confusionais etc.). A insist\u00eancia no relevo dado \u00e0s regi\u00f5es subcorticais como suportes da vida mental j\u00e1 naquela \u00e9poca contra a preponder\u00e2ncia atribu\u00edda ao c\u00f3rtex, tido como a zona nobre das atividades psicol\u00f3gicas. Mais uma atitude de contradita de Kleist que chegou (sem esc\u00e2ndalo de certos psic\u00f3logos) a considerar o hipot\u00e1lamo como a \u201ccentral da excitabilidade afetiva e instintiva\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A neurofisiologia e a psicologia usam hoje outros conceitos, mas encerrava-se aqui um n\u00facleo de conhecimento importante e fecundo de consequ\u00eancias com interesse at\u00e9 para a cl\u00ednica vista do \u00e2ngulo da psicossom\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p>Pela acentua\u00e7\u00e3o dada ao sistema nervoso central Kleist chegou a ser considerado como \u201cmaterialista\u201d. Certo \u00e9 que <em>evitava todo o reducionismo simplista do tipo do monismo materializante e mecanicista.<\/em> De forma alguma tendeu para o chamado epifenomenismo, dando pelo contr\u00e1rio especial valor como j\u00e1 se disse \u00e0s \u201cleis pr\u00f3prias\u201d de cada grupo de fen\u00f4menos desde os materiais e fisiol\u00f3gicos at\u00e9 aos psicol\u00f3gicos e espirituais. Embora evitasse especula\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas, aproximou-se assim implicitamente de uma <em>doutrina categorial hierarquizada<\/em>, como mais tarde formulamos, a partir de NICOLAI HARTMANN, sublinhando sempre, no entanto, a maior \u201cfor\u00e7a\u201d da base \u00f3rgano-fisiol\u00f3gica com apoio das superestruturas.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>A sua obra e a\u00e7\u00e3o na sua pr\u00e1tica quotidiana evidenciavam a clara rejei\u00e7\u00e3o de todos os psicologismos, tanto de inspira\u00e7\u00e3o psicoanal\u00edtica como de outras correntes. N\u00e3o deixou, no entanto, de dar relevo \u00e0s aquisi\u00e7\u00f5es mais s\u00f3lidas da \u201cpsicologia da forma (Gestaltpsychologie) e outras correntes embora de forma limitada, porquanto no que respeita \u00e0s localiza\u00e7\u00f5es perceptivas, estava convencido, como R. JUNG, e outros ainda atualmente depende da correspond\u00eancia \u201cponto a ponto\u201d (quase \u201catom\u00edstica\u201d neste particular), por exemplo entre localiza\u00e7\u00f5es da retina e localiza\u00e7\u00f5es do c\u00f3rtex do polo occipital (campo 17 de Brodmann). KLEIST dava assim prefer\u00eancia ao <em>m\u00e9todo anal\u00edtico<\/em> frente ao globalista, sem excluir a posi\u00e7\u00e3o sintetizante, como faz, por exemplo (fig. 1,2,3 e 4) na reparti\u00e7\u00e3o geral da carta cerebral em grandes \u201cesferas\u201d e \u201czonas\u201d no lobo occipital, a esfera da vis\u00e3o; no temporal, da audi\u00e7\u00e3o no centro parietal, do tacto, na \u00e1rea sub-central, do gosto, no lobo frontal, a esfera labirinto-mioest\u00e9sica, no que respeita \u00e0 face externa do c\u00f3rtex, e mais na parte profunda da face interna, no lobo orbit\u00e1rio, no c\u00edngulum e retrosplenium, a esfera da interoceptividade (do Eu), e no lobo priforme e am\u00f4nico a esfera olfativa.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Feita esta concess\u00e3o sintetizante, n\u00e3o se desliga da exig\u00eancia mais anal\u00edtica de pormenor (que a sua experi\u00eancia pessoal \u2013 nas condi\u00e7\u00f5es em que era feita lhe impunha) \u2013 ao subdividir cada uma destas esferas em 3 zonas, respectivamente, sensorial, motora e ps\u00edquica e 2 zonas mistas (senso-motora e senso-ps\u00edquica).<\/p>\n\n\n\n<p>Denota-se assim uma tend\u00eancia basicamente \u201cneurologizante\u201d que se estende \u00e0 pr\u00f3pria psiquiatria (ao sistematizar de modo excessivo as formas de doen\u00e7a segundo um \u201c<em>modelo neurol\u00f3gico<\/em>\u201d e ao descriminar fun\u00e7\u00f5es parcelares, por exemplo nas afasias, apraxias e agnosias e outras perturba\u00e7\u00f5es das fun\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas etc.).<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda na senda de Wernicke e em contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0s ideias prevalecentes, esfor\u00e7ou-se at\u00e9 por encontrar, por exemplo nas <em>perturba\u00e7\u00f5es da linguagem e do pensamento<\/em> dos esquizofr\u00eanicos, rela\u00e7\u00f5es anal\u00f3gicas com as altera\u00e7\u00f5es focais do tipo das <em>afasias<\/em>. \u00c9 conhecida a sua distin\u00e7\u00e3o entre perturba\u00e7\u00f5es \u201cal\u00f3gicas\u201d e perturba\u00e7\u00f5es \u201cparal\u00f3gicas\u201d do pensar, respectivamente referidas \u00e0s afasias motoras e \u00e0s afasias sensoriais e, correlativamente, ao lobo frontal e ao lobo temporal.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma consequ\u00eancia extrema desta linha \u00e9 a aproxima\u00e7\u00e3o da conduta psic\u00f3tica das perturba\u00e7\u00f5es da <em>apraxia<\/em> (altera\u00e7\u00f5es dos movimentos e atos simb\u00f3licos) ali\u00e1s, apenas esbo\u00e7ada por KLEIST e que n\u00e3o vale mais do que uma atitude de combate a certa imprecis\u00e3o e subjectividade especulativa de muitas interpreta\u00e7\u00f5es psicol\u00f3gicas, tanto fenomenol\u00f3gicas como psicodin\u00e2micas.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o pertence aqui o significado especializado do tema. O que importa \u00e9 marcar o desenvolvimento de toda esta problem\u00e1tica.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Quem consultar as p\u00e1ginas 1146-1159 da sua monumental <em>Gehirnpathologie<\/em> (infelizmente uma obra mais citada do que lida!) acerca de \u201cPsicomot\u00f3rica e a vontade\u201d convencer-se-\u00e1 do esfor\u00e7o de KLEIST de se aproximar de outras aquisi\u00e7\u00f5es, tidas por mais s\u00f3lidas da psicologia da sua \u00e9poca neste aspecto, das investiga\u00e7\u00f5es de N. Ach sobre o processo de <em>decis\u00e3o<\/em> (o querer) feitas j\u00e1 com o m\u00e9todo de auto-observa\u00e7\u00e3o fenomenol\u00f3gica.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Nos nossos trabalhos sobre s\u00edndromes psicomotoras (1935-38) aprofundamos a quest\u00e3o, tentando definir e organizar a <em>converg\u00eancia integrativa da patologia cerebral e da psicopatologia<\/em> nas linhas da teoria das camadas, como tamb\u00e9m mais tarde (1967) R. JUNG aplicou \u00e0 neurofisiologia.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa obra magna de KLEIST impressa em 1934, vem ali\u00e1s do tempo da 1.\u00aa Grande Guerra mundial, e n\u00e3o se pode libertar ainda das doutrinas do \u201carco reflexo\u201d medular transposto para o enc\u00e9falo. Estava ent\u00e3o na forja a obra de Wiz\u00e4cker \u2013 <em>Gestaltkreis <\/em>(o c\u00edrculo configuracional (193) ligando o recursivamente sensa\u00e7\u00f5es e movimentos num todo unit\u00e1rio, Kleist opunha-se teoricamente a Goldstein, o campe\u00e3o do holismo da \u00e9poca. Na apresenta\u00e7\u00e3o dos dados, n\u00e3o deixa, por\u00e9m, de os ordenar e Inter correlacionar est\u00edmulo e tend\u00eancias <em>sensoriais <\/em>e est\u00edmulos e tend\u00eancias <em>motoras<\/em>, tanto nas suas formas elementares como nas mais complexificadas. No \u00e2mbito do normal transitava assim da \u201cmotilidade\u201d (mec\u00e2nica) para a <em>psicomot\u00f3rica <\/em>mais din\u00e2micas das sensa\u00e7\u00f5es elementares para as <em>percep\u00e7\u00f5es <\/em>cognitivas e para os efeitos b\u00e1sicos correspondentes. No \u00e2mbito da patologia, transitava tamb\u00e9m correlativamente das perturba\u00e7\u00f5es <em>amiost\u00e1ticas<\/em> (extrapiramidais, de fei\u00e7\u00e3o neurol\u00f3gica) para as <em>perturba\u00e7\u00f5es psicomotoras<\/em> (de fei\u00e7\u00e3o psicopatol\u00f3gica (V. pgs. 1063-1149 da <em>Gehirnpathologie<\/em>)<\/p>\n\n\n\n<p>Kleist fica na hist\u00f3ria como o mais ousado e criativo defensor das <em>correntes naturalistas da Psiquiatria.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Temos hoje, no entanto dificuldade em aceitar, sem uma severa cr\u00edtica restritiva, os seus esquemas localizat\u00f3rios (al\u00e9m do c\u00f3rtex, nas regi\u00f5es subcorticais, ao longo do eixo cortical, do que demos um exemplo acerca dos sintomas psicomotores).\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Vendo agora o problema num \u00e2ngulo mais <em>din\u00e2mico<\/em>, como cabe \u00e0 neurofisiologia e \u00e0 biopsicologia, podemos aceitar as ideias de Kleist como um esbo\u00e7o b\u00e1sico das correla\u00e7\u00f5es <em>psicof\u00edsicas<\/em>. A investiga\u00e7\u00e3o ulterior veio confirmar, nas suas linhas gerais, muitas dessas <em>correspond\u00eancias<\/em> psico-org\u00e2nicas em especial, no que concerne aos sintomas neurol\u00f3gicos (amiost\u00e1ticos, ditos extrapiramidais como e emperramento motor, rigidez pl\u00e1stica, falta de movimentos associados ou de movimentos anormais do tipo core\u00e1tico do tipo atet\u00f3sico, bal\u00edstico, tremores dos antagonistas etc.) e ainda, com menos seguran\u00e7a no que respeita a certos sintomas psicomotores (acinesia, hipercinesia, paracinesia, etc.). Outros, pelo contr\u00e1rio, como as condutas catat\u00f4nicas n\u00e3o h\u00e1 ainda suficientes dados comprovativos.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o se pode negar que o esquema do \u201carco reflexo\u201d dos <em>processos psicomotores, <\/em>propostos por KLEIST (pg. 1149 da <em>Gehirnpathologie<\/em>)<sup data-fn=\"99b532fe-7add-4575-9dd8-3f4cc34cd074\" class=\"fn\"><a href=\"#99b532fe-7add-4575-9dd8-3f4cc34cd074\" id=\"99b532fe-7add-4575-9dd8-3f4cc34cd074-link\">3<\/a><\/sup> levanta muitas objec\u00e7\u00f5es. E ainda um arco aberto cl\u00e1ssico; se o fechamos, por\u00e9m, o \u201ccircuito\u201d retroativo (como a neurofisiologia cibern\u00e9tica veio a fazer) e se o inserirmos no conjunto muito mais completo de um modelo das estruturas da personalidades \u2013 ressalta, ent\u00e3o, claramente a importante aquisi\u00e7\u00e3o que constitui \u2013 na sua \u00e9poca (da psicologia atom\u00edstica e intelectualista o estabelecimento de <em>correla\u00e7\u00f5es dos processos b\u00e1sicos da atividade <\/em>com certas <em>estruturas cerebrais profundas <\/em>(striatum, etc.) e a sua <em>sobre modela\u00e7\u00e3o estrutural pelos processos ps\u00edquicos mais diferenciados <\/em>(nos quais neste aspecto, como se sabe, o c\u00f3rtex frontal desempenha papel de relevo.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Algo semelhante poderemos desenvolver acerca das <em>fun\u00e7\u00f5es do Eu<\/em> e a sua correspond\u00eancia (o que \u00e9 diferente de \u201clocaliza\u00e7\u00e3o\u201d) j\u00e1 referida com o dienc\u00e9falo, o c\u00edngulum e o lobo orbital. Claro que para alguns pode ser chocante a diferencia\u00e7\u00e3o feita por Kleist em atividades (Leistungen, atos, condutas) do Eu repartida em diferentes n\u00edveis \u2013 desde o vegetativo, o afetivo, o instintivo, at\u00e9 ao pr\u00f3prio corpo, do pr\u00f3prio ser pessoal e do chamado \u201cEu coletivo\u201d (compreendendo as convic\u00e7\u00f5es normativas e \u00e9ticas). Toda esta esp\u00e9cie de \u201catomiza\u00e7\u00e3o\u201d funcional de algo que, como o <em>Proprium<\/em> \u00e9 essencialmente unit\u00e1rio e globalizado carece, sem d\u00favida, de severo exame cr\u00edtico.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Visto, por\u00e9m, em especial, na sua aplica\u00e7\u00e3o \u00e0 <em>patologia<\/em> \u2013 as possibilidades reais de <em>desintegra\u00e7\u00f5es parciais<\/em> diferenciadas \u2013 oferece-nos uma primeira base para a sua abordagem psicofisiol\u00f3gica: h\u00e1 na verdade seguros ind\u00edcios da relev\u00e2ncia das atividades neurofisiol\u00f3gicas daquelas regi\u00f5es para a sustenta\u00e7\u00e3o (\u201cde fundo\u201d) e a conserva\u00e7\u00e3o do equil\u00edbrio funcional do conjunto. Note-se, em especial, que les\u00f5es dessas \u00e1reas v\u00eam romper esse equil\u00edbrio totalizador, exprimindo-se em <em>sintomas<\/em> psicopatol\u00f3gicos <em>diferenciados<\/em>, tais (a) como perturba\u00e7\u00f5es neuro-vaso-vegetativas (de express\u00e3o psicossom\u00e1tica) (b) altera\u00e7\u00f5es do esquema corporal, (c) perturba\u00e7\u00f5es emocionais variadas, at\u00e9 (d) deteriora\u00e7\u00e3o dos afetos valorativos pessoais e altru\u00edsticos e condutas inst\u00e1veis e atos ditos anormais etc. O que poderia parecer \u201catomiza\u00e7\u00e3o\u201d torna-se j\u00e1 aceit\u00e1vel mesmo fecundamente heur\u00edstico se for visto na <em>perspectiva estrutural din\u00e2mica <\/em>(multidimensional) que propusemos.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel alongarmo-nos sobre o tema nem dar outros exemplos de interesse, como o da constru\u00e7\u00e3o da <em>atividade<\/em> psicomotora na sua fase de iniciativa e espontaneidade para o movimento, para a a\u00e7\u00e3o e para a linguagem, processos estes relacionados com o lobo frontal \u00e1reas de cujas les\u00f5es determinam perturba\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m diferenciadas (perda de \u201cempuxo\u201d motor, Antrieb de iniciativa verbal e de condutas ativas, nas les\u00f5es nos campos 10, 11 e 46 de Brodmann, em especial do hemisf\u00e9rio esquerdo).<\/p>\n\n\n\n<p>Nestas aut\u00eanticas \u201cdescobertas\u201d de Kleist devemos ainda ver uma abertura para novas vias da futura <em>investiga\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica na psiquiatria.<\/em> Recordemos os novos impulsos que esta corrente ganhou, primeiro em 1936, com a leucotomia e as terap\u00eauticas \u201cde choque\u201d (insul\u00ednico e convulsivante, das psicoses e, desde 1952, com a introdu\u00e7\u00e3o dos modernos psicof\u00e1rmacos e atualmente se desenvolve de modo fecundo com toda a sorte de investiga\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas, de biol\u00f3gica molecular, neurofisiol\u00f3gica, etologia, psicologia experimental etc.<\/p>\n\n\n\n<p>Na sua \u00faltima li\u00e7\u00e3o, em 27-VII-1950 conta Kleist como no come\u00e7o da sua carreira se chocou com o c\u00e9lebre discurso do fisiologista DU-BOIS REYMOND (1872) sobre os \u201climites do conhecimento da natureza\u201d, concluindo por um <em>ignorabimus <\/em>decepcionante quanto \u00e0s possibilidades da mat\u00e9ria e da energia \u201cpoderem pensar\u201d &#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Em vez de desanimar viu Kleist nessa decep\u00e7\u00e3o um grato est\u00edmulo para mais estudo e para de novo investigar. E assim que motiva a sua atividade nesse campo at\u00e9 o fim da vida \u2013 j\u00e1 depois de em\u00e9rito, ao continuar a trabalhar numa <em>Sec\u00e7\u00e3o de estudo de patologia cerebral <\/em>(Forschungsstele f\u00fcr Gehirnpathologie) que conservou anexa \u00e0 Cl\u00ednica depois dirigida pelo psiquiatra antropologista J. ZUTT, displicente ante a investiga\u00e7\u00e3o cerebral&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>KLEIST tinha consci\u00eancia das dificuldades filos\u00f3ficas (epistemol\u00f3gicas) da sua orienta\u00e7\u00e3o como investigador. Mais tarde refere que, nos seus primeiros passos, se esclareceu muito com a obra do fil\u00f3sofo ERNST MACH e por \u00faltimo com as novas ideias da f\u00edsica nuclear.<\/p>\n\n\n\n<p>No VI cap\u00edtulo do nosso trabalho j\u00e1 citado, \u201cPsiquiatria e Filosofia\u201d (1966) criticamos esta <em>posi\u00e7\u00e3o basicamente naturalista,<\/em> e em parte neo-positivista modificada. N\u00e3o o repetimos aqui nem desenvolveremos o problema at\u00e9 \u00e0 cr\u00edtica que se infere do nosso ponto de vista convergente alargado depois num \u00e2ngulo \u201cfenomenol\u00f3gico-estrutural- din\u00e2mico\u201d (1974), estendendo-se aos n\u00edveis inorg\u00e2nico, biol\u00f3gico, psicol\u00f3gico e s\u00f3cio-hist\u00f3rico-cultural (espiritual).\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Se o <em>\u201cdinamismo\u201d<\/em> (tanto vital como psico e social) se tornou hoje para al\u00e9m de uma \u201cmoda\u201d, uma diretriz irrecus\u00e1vel que devemos inserir mais solidamente na <em>perspectiva estrutural<\/em> (tamb\u00e9m depurado dos seus excessos) n\u00e3o pondo de banda as estruturas de base em que os dinamismos assentam e assim s\u00e3o movimentados e acionados.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>A obra de KLEIST apela perenemente para a <em>organiza\u00e7\u00e3o arquitet\u00f4nica fundamental do enc\u00e9falo<\/em> sem a qual n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel erguer o edif\u00edcio funcional da Personalidade nem encarar a sua situa\u00e7\u00e3o no ambiente sem o risco de uma dilui\u00e7\u00e3o insignificativa das intera\u00e7\u00f5es entre dados n\u00e3o individualizados nem caracterizados em si mesmo (como em muitos casos acontece com certas teorias modernas da comunica\u00e7\u00e3o e interacionismo).<\/p>\n\n\n\n<p>O c\u00e9rebro parece, por vezes ter sido esquecido pelos psic\u00f3logos e psiquiatras. Alguns falam de vida mental e suas bases \u2013 dito numa vontade que fez carreira como se o cr\u00e2nio estivesse apenas cheio de algod\u00e3o em rama&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>A Psiquiatria de Kleist refor\u00e7a-nos contra tais correntes \u2013 a necessidade de n\u00e3o perder de vista o <em>fundo somato-biol\u00f3gico de todo o acontecer ps\u00edquico e psicossocial.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Doutro modo, perder-se-ia uma s\u00f3lida orienta\u00e7\u00e3o no caminho para uma <em>ci\u00eancia objetiva, <\/em>para uma <em>psiquiatria m\u00e9dica<\/em>, definida em termos reais e humanos \u2013 que n\u00e3o esque\u00e7a a sua funda natureza bio-antropol\u00f3gica.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Face \u00e0s recentes correntes da chamada \u201cantipsiquiatria\u201d que esquecem por completo a vida biol\u00f3gica do sistema nervoso e tudo reduzem ao social, quando n\u00e3o cultural-pol\u00edtico \u2013 face \u00e0 sua nega\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia de realidade de doen\u00e7a mental, a contribui\u00e7\u00e3o de Kleist \u2013 que em seu tempo tamb\u00e9m fora uma ruptura epistemol\u00f3gica \u2013 vale com fundamentos basal para o real concreto do viver e existir do Homem e das suas bem humanas perturba\u00e7\u00f5es e sofrimentos.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Quando KLEIST falou neste lugar h\u00e1 29 anos, a sua maturidade aconselhava-lhe j\u00e1 um ponto de vista mais dialectizante. Dizia ent\u00e3o: (tradu\u00e7\u00e3o das vers\u00f5es alem\u00e3 e francesa) \u201c&#8230;Como todas as outras ci\u00eancias m\u00e9dicas, a Psiquiatria pertence \u00e0s ci\u00eancias da Natureza, porque as fun\u00e7\u00f5es e perturba\u00e7\u00f5es mentais referem-se a estruturas anat\u00f4micas e a processos fisiol\u00f3gicos de car\u00e1ter org\u00e2nico. Neste sentido s\u00e3o elas mesmo manifesta\u00e7\u00f5es biol\u00f3gicas. Mas a Psiquiatria tem como Janus uma cabe\u00e7a com duas faces. Vira a sua outra face para as ci\u00eancias do esp\u00edrito e a\u00ed reside a sua posi\u00e7\u00e3o t\u00e3o especial entre as ci\u00eancias m\u00e9dicas e naturais. Esta posi\u00e7\u00e3o exige tamb\u00e9m daqueles que a cultivam uma educa\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica e permite-lhes perspectivas na filosofia, na religi\u00e3o e nos problemas sociais. Desta maneira a Psiquiatria torna-se tamb\u00e9m uma parte das ci\u00eancias do esp\u00edrito.<\/p>\n\n\n\n<p>O m\u00e9dico e o psiquiatra que pensam em termos de causalidade est\u00e3o colocados em face de fen\u00f4menos ps\u00edquicos com a sua ordem e intencionalidade dos valores, como se tratasse de um mundo estranho que, entretanto, com boas raz\u00f5es defende a sua autonomia. Afirmou-se muitas vezes a impossibilidade de reunir os dois reinos do esp\u00edrito e da natureza e considerou-se a quest\u00e3o das suas rela\u00e7\u00f5es como um problema insol\u00favel. Creio, no entanto, que o mundo n\u00e3o existe para ficar eternamente dividido em duas partes. Estou convencido que o psiquiatra tem necessidade para o seu of\u00edcio, de fazer justi\u00e7a a estas duas partes e que poderia contribuir mais do que outros investigadores da Medicina e da Natureza para a solu\u00e7\u00e3o destes problemas. Entretanto o mundo no seu conjunto, n\u00e3o \u00e9 apenas mat\u00e9ria nem apenas esp\u00edrito e as suas rela\u00e7\u00f5es n\u00e3o podem ser compreendidas nem exclusivamente em termos de causalidade nem em termos de finalidades. A unifica\u00e7\u00e3o desta contradi\u00e7\u00e3o n\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel sen\u00e3o num outro n\u00edvel de ordem superior.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Com este fim a ci\u00eancia da natureza j\u00e1 mostrou um caminho desde que a f\u00edsica, no seu pr\u00f3prio dom\u00ednio tinha esbarrado com problemas que pareciam insol\u00faveis. Se a f\u00edsica at\u00f4mica descreve o mesmo processo quer como um movimento de corp\u00fasculos quer como um movimento ondulat\u00f3rio e n\u00e3o v\u00ea a\u00ed nenhuma contradi\u00e7\u00e3o, mas duas maneiras de ver que se completam, poder\u00edamos encar\u00e1-lo como um modelo para os problemas psicof\u00edsicos. Poderemos assim esperar que as fun\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas e corporais, as rela\u00e7\u00f5es causais e finais n\u00e3o devem mais ser consideradas como inconcili\u00e1veis, mas como pontos de vista diferentes e leg\u00edtimos da mesma unidade superior (derslben hohern Einheit).\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Ficar\u00e1 para outra oportunidade a discuss\u00e3o cr\u00edtica destes e outros problemas epistemol\u00f3gicos \u2013 se esta unidade que KLEIST prop\u00f5e pode corresponder ao <em>Uno<\/em> platoniano de ANTONIO S\u00c9RGIO ou \u00e9 apenas uma refer\u00eancia \u00e0 forma moderna (3. \u00b0 Mundo do conhecimento objetivo) que K. POPPER deu ao esp\u00edrito objetivo de HEGEL e que ECCLES tentou relacionar com a experi\u00eancia neurofisiol\u00f3gica. E toda uma vast\u00edssima problem\u00e1tica envolvendo a filosofia das ci\u00eancias que agora n\u00e3o podemos tratar.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Kleist hoje? \u2013 <\/em>Caberia ent\u00e3o por fim perguntar. \u2013 O seu interesse est\u00e1 efetivamente na relev\u00e2ncia dada \u00e0s investiga\u00e7\u00f5es rigorosas n\u00e3o s\u00f3 na neurologia como na psicologia e na psiquiatria, abrangendo tamb\u00e9m o mundo f\u00edsico e biol\u00f3gico em evolu\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica com os estudos psicossociais e socioculturais. Est\u00e1 na confirma\u00e7\u00e3o do princ\u00edpio, que se pretende estar ultrapassado, da <em>diferencia\u00e7\u00e3o neurofisiol\u00f3gica e biopsicol\u00f3gica das diferentes estruturas cerebrais \u2013 <\/em>atualizada na top\u00edstica da moderna-bioqu\u00edmica e psicofarmacologia e com grande interesse para as suas aplica\u00e7\u00f5es humanas, inclusive terap\u00eauticas.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Num \u00e2ngulo gen\u00e9rico quer\u00edamos ainda sublinhar o facto das rupturas epistemol\u00f3gicas envolvendo nestes processos cient\u00edficos terem tido como condi\u00e7\u00e3o o <em>inconformismo<\/em> dos investigadores face \u00e0 ci\u00eancia feita e face ao seu contexto social, permitindo assim a emerg\u00eancia \u2013 livre de coa\u00e7\u00f5es e de preconceitos \u2013 da criatividade e da descoberta de novos dados, de novas teorias, de um novo conhecer do mundo e da melhor explica\u00e7\u00e3o e compreens\u00e3o dos Homens.\u00a0<\/p>\n\n\n<ol class=\"wp-block-footnotes\"><li id=\"b518bf77-3f24-49c7-8136-b1f0d8d5f48b\">Publicado em ACTAS LUSO-ESPA\u00d1OLAS DE NEUROLOGIA, PSIQUIATRIA Y CIENCIAS AFINES. Volumen VII. Noviembre-diciembre 1979. N\u00famero 4. <a href=\"#b518bf77-3f24-49c7-8136-b1f0d8d5f48b-link\" aria-label=\"Jump to footnote reference 1\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"a2c7c9a8-c333-41fb-9235-1e35ca24a453\">\u00a0Segundo not\u00edcias recebidas diretamente de A. SILVEIRA, celebrou-se tamb\u00e9m em S\u00e3o Paulo (Faculdade de Jundia\u00ed) no mesmo dia do Centen\u00e1rio uma comemora\u00e7\u00e3o sobre a obra de KLEIST (Comunica\u00e7\u00e3o de A. SILVEIRA, MATOS PIMENTA, L\u00daCIA COELHO, DORA MORALES, JOACYR BARROS, LUIS FIORI). Desde h\u00e1 muito que este grupo de S\u00e3o Paulo publica trabalhos sobre os problemas kleistianos (n\u00famero especial dos <em>Archivos de Neuro-psiquiatria, <\/em>n\u00fam. 2, junho de 1959. <a href=\"#a2c7c9a8-c333-41fb-9235-1e35ca24a453-link\" aria-label=\"Jump to footnote reference 2\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"99b532fe-7add-4575-9dd8-3f4cc34cd074\">O esquema parte dos processos corticais: (a) os motivos e convic\u00e7\u00f5es normativas, as viv\u00eancias prim\u00e1rias da vontade e impress\u00e3o de for\u00e7a e de cansa\u00e7o; (b) ligando-se num plano mais elevado (pela interfer\u00eancia dos motivos e outras impress\u00f5es) e num plano menos elevado (de interfer\u00eancia dos est\u00edmulos e tend\u00eancias); (c) aos processos do eixo cerebral (a iniciativa ou empuxo e a persist\u00eancia, at\u00e9 ao ato em execu\u00e7\u00e3o mediante os sistemas neurol\u00f3gicos piramidais, extrapiramidais, at\u00e9 \u00e0 medula e inerva\u00e7\u00e3o (versus sensibilidade) muscular. <a href=\"#99b532fe-7add-4575-9dd8-3f4cc34cd074-link\" aria-label=\"Jump to footnote reference 3\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><\/ol>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O SENTIDO ACTUAL DA OBRA DE K. KLEIST E AS REPERCUS\u00d5ES NOS PA\u00cdSES IBERO-AMERICANOS (Professor H. Barahona Fernandes) Em 31 de Janeiro de 1979, celebrou-se na sala de aula de Cl\u00ednica Psiqui\u00e1trica, integrada no Nerven Centrum de Francfort sobre-o-Meno, o centen\u00e1rio do nascimento do Professor KARL KLEIST, falecido em 1959. Falaram o Professor H. J. [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"footnotes":"[{\"content\":\"Publicado em ACTAS LUSO-ESPA\u00d1OLAS DE NEUROLOGIA, PSIQUIATRIA Y CIENCIAS AFINES. Volumen VII. Noviembre-diciembre 1979. N\u00famero 4.\",\"id\":\"b518bf77-3f24-49c7-8136-b1f0d8d5f48b\"},{\"content\":\"\u00a0Segundo not\u00edcias recebidas diretamente de A. SILVEIRA, celebrou-se tamb\u00e9m em S\u00e3o Paulo (Faculdade de Jundia\u00ed) no mesmo dia do Centen\u00e1rio uma comemora\u00e7\u00e3o sobre a obra de KLEIST (Comunica\u00e7\u00e3o de A. 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