{"id":3013,"date":"2024-07-18T18:21:20","date_gmt":"2024-07-18T21:21:20","guid":{"rendered":"https:\/\/anibalsilveira.org\/?page_id=3013"},"modified":"2024-07-18T18:21:20","modified_gmt":"2024-07-18T21:21:20","slug":"exame-da-orientacao-psiquica","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/anibalsilveira.org\/en\/exame-da-orientacao-psiquica\/","title":{"rendered":"Exame da orienta\u00e7\u00e3o ps\u00edquica"},"content":{"rendered":"<p class=\"has-text-align-center\"><strong>EXAME DA ORIENTA\u00c7\u00c3O PS\u00cdQUICA<\/strong><sup data-fn=\"a6a21d62-31c1-456d-a744-63e8cf56ef14\" class=\"fn\"><a href=\"#a6a21d62-31c1-456d-a744-63e8cf56ef14\" id=\"a6a21d62-31c1-456d-a744-63e8cf56ef14-link\">1<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p>A orienta\u00e7\u00e3o ps\u00edquica implica dinamismos mais profundos e complexos do que aqueles relacionados \u00e0 din\u00e2mica sensorial, uma vez que engloba n\u00e3o apenas a apreens\u00e3o dos est\u00edmulos do meio exterior, mas a no\u00e7\u00e3o de continuidade, no plano subjetivo e som\u00e1tico. \u00c9 a orienta\u00e7\u00e3o que o indiv\u00edduo tem em rela\u00e7\u00e3o a si pr\u00f3prio e ao meio em que se encontra.<\/p>\n\n\n\n<p>Normalmente se apresenta como unidade decorrente da perfeita integra\u00e7\u00e3o dos diferentes n\u00edveis que, em conjunto, determinam a no\u00e7\u00e3o individual e da realidade exterior. Abrange necessariamente n\u00edveis que podem aparecer dissociados em condi\u00e7\u00f5es patol\u00f3gicas, o que p\u00f5e a relevo dinamismos distintos implicando no plano semiol\u00f3gico e cl\u00ednico, condi\u00e7\u00f5es igualmente distintas, algumas s\u00e9rias e graves, outras, ao contr\u00e1rio, compat\u00edveis com a normalidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Para o exato dom\u00ednio da orienta\u00e7\u00e3o ps\u00edquica, devemos nos reportar \u00e0 din\u00e2mica do trabalho mental e \u00e0s caracter\u00edsticas da psicologia humana evolutiva.<\/p>\n\n\n\n<p>Tem-se que os est\u00edmulos do meio exterior e aqueles relacionados ao pr\u00f3prio organismo, no plano som\u00e1tico, s\u00e3o captados pelos diferentes \u00f3rg\u00e3os dos sentidos; s\u00e3o transformados em impress\u00f5es nervosas e atrav\u00e9s dos nervos sensoriais dirigem-se \u00e0s estruturas subcorticais, mais precisamente ao n\u00facleo sensorial correspondente, onde se d\u00e1 a sensa\u00e7\u00e3o. A sensa\u00e7\u00e3o se processa mediante a sele\u00e7\u00e3o de est\u00edmulo ditado pelo interesse afetivo. Do n\u00facleo sensorial partem est\u00edmulos simult\u00e2neos que v\u00e3o at\u00e9 o c\u00f3rtex afetivo e \u00e0 regi\u00e3o frontal da observa\u00e7\u00e3o concreta. Nesta \u00e1rea se processa a integra\u00e7\u00e3o dos impulsos nervosos que chegam da regi\u00e3o afetiva e da regi\u00e3o subcortical, dando como resultado a <strong><em>no\u00e7\u00e3o<\/em><\/strong>. O processo da percep\u00e7\u00e3o \u00e9 assim complexo como hav\u00edamos referidos no tema anterior, implicando na sele\u00e7\u00e3o dos est\u00edmulos, na resson\u00e2ncia afetiva n\u00e3o consciente (ao n\u00edvel das estruturas occipitais) e nas rea\u00e7\u00f5es emocionais que toda no\u00e7\u00e3o determina atrav\u00e9s da atua\u00e7\u00e3o direta da intelig\u00eancia sobre a afetividade.<\/p>\n\n\n\n<p>Cada sentido corresponde uma no\u00e7\u00e3o e cada um contribui para a \u201cforma\u00e7\u00e3o\u201d da realidade. A integra\u00e7\u00e3o total da realidade estabelece-se assim do conjunto de no\u00e7\u00f5es particularizadas. H\u00e1 uma hierarquia dos sentidos na depend\u00eancia da fase em que se encontra o indiv\u00edduo quanto ao aspecto evolutivo. Predominam no rec\u00e9m-nascido o tacto, a gusta\u00e7\u00e3o e o olfato, limitando a realidade para a crian\u00e7a nesta fase apenas \u00e0queles aspectos relacionados \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o. Os demais sentidos atuam secundariamente, mais como resson\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, a no\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a acha-se limitada aos sentidos intimamente ligados \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o, o que n\u00e3o permite a distin\u00e7\u00e3o dos diferentes elementos do meio exterior nem dela pr\u00f3pria como um ser independente. Assim ela mesma se integra nesse mundo ca\u00f3tico distinguindo apenas parte do corpo, principalmente a regi\u00e3o Peri bucal. A no\u00e7\u00e3o nessa fase, ainda que com a participa\u00e7\u00e3o dos outros sentidos, \u00e9 predominantemente ligada \u00e0 gusta\u00e7\u00e3o, \u00e0 muscula\u00e7\u00e3o e ao tacto, raz\u00e3o pela qual a crian\u00e7a tende a levar tudo \u00e0 boca ou apanhar partes do seu corpo como que examinando.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Posteriormente, ela desenvolve a no\u00e7\u00e3o de espa\u00e7o, a princ\u00edpio no sentido bidimensional, depois tridimensional. De in\u00edcio, apanha ou tenta apanhar objetos \u00e0 sua frente, depois engatinha, indicando j\u00e1 nessa fase a no\u00e7\u00e3o de terceira dimens\u00e3o. O desenvolvimento sensorial est\u00e1 assim harmonizado com o desenvolvimento motor e esta no\u00e7\u00e3o da dimens\u00e3o vai determinar a no\u00e7\u00e3o de sua pr\u00f3pria limita\u00e7\u00e3o no contato com o meio exterior. D\u00e1-se, por exemplo, que a \u00e1rea de a\u00e7\u00e3o do campo visual \u00e9 distinta e mais ampla do que a \u00e1rea de apreens\u00e3o.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>A muscula\u00e7\u00e3o \u00e9 o sentido fundamental para a no\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria posi\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o e do equil\u00edbrio e somente o seu perfeito dom\u00ednio dessa no\u00e7\u00e3o \u00e9 que possibilita \u00e0 crian\u00e7a a se voltar mais aos est\u00edmulos do meio exterior, com a participa\u00e7\u00e3o preponderante dos sentidos de vis\u00e3o e de audi\u00e7\u00e3o. Altera\u00e7\u00f5es a esse n\u00edvel ou um dom\u00ednio incompleto vai determinar problemas na elabora\u00e7\u00e3o e na linguagem exigindo tratamento que vise harmonizar o dom\u00ednio motor, atrav\u00e9s de exerc\u00edcios especiais.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao lado do desenvolvimento desses elementos ligados aos sentidos externos vamos encontrar o desenvolvimento paralelo da unidade subjetiva at\u00e9 o plano diferenciado. Os estudos de psicologia evolutiva demonstram que nesse aspecto a crian\u00e7a desenvolve primeiro a no\u00e7\u00e3o da unidade materna para depois desenvolver a dela pr\u00f3pria, pela preval\u00eancia da imagem materna e de sua liga\u00e7\u00e3o para com os est\u00edmulos afetivos ligados \u00e0 nutri\u00e7\u00e3o. Apenas na fase seguinte ela desenvolve a no\u00e7\u00e3o de si pr\u00f3pria como elemento destacado e integrado ao meio exterior.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>As no\u00e7\u00f5es de lugar e de ambiente, que se apresentam distintamente aparecem depois, implicando aqui num elemento mais diferenciado e n\u00e3o apenas ligado \u00e0 observa\u00e7\u00e3o concreta. Exige-se o trabalho da abstra\u00e7\u00e3o no sentido de que, dos elementos concretos da realidade abstra\u00edmos aqueles que possibilitar\u00e3o a no\u00e7\u00e3o de local e de ambiente. Este re\u00fane necessariamente a finalidade, j\u00e1 envolvendo o ju\u00edzo mais diferenciado da realidade.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>No in\u00edcio, a crian\u00e7a tem no\u00e7\u00e3o limitada de lugar, n\u00e3o conseguindo associar dois ou mais lugares distintos porque esse trabalho de abstra\u00e7\u00e3o se faz presente ligado apenas aos est\u00edmulos imediatos e atuais, j\u00e1 que n\u00e3o domina completamente a no\u00e7\u00e3o de tempo decorrido.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00a0Isto porque a no\u00e7\u00e3o de tempo \u00e9 a \u00faltima a ser desenvolvida e os estudos evolutivos d\u00e3o provas que a crian\u00e7a, mesmo com o dom\u00ednio da realidade abstrata, n\u00e3o consegue se situar plenamente no tempo. Fala no amanh\u00e3 como elemento j\u00e1 decorrido. \u00c9 interessante notar que a no\u00e7\u00e3o de tempo requer, apesar de se desenvolver posteriormente, uma fase de predom\u00ednio visual e auditivo, sendo que o concurso da muscula\u00e7\u00e3o relacionada \u00e0 musculatura intr\u00ednseca e extr\u00ednseca do globo ocular e dos m\u00fasculos do ouvido interno possibilitam a no\u00e7\u00e3o sucessiva das imagens visuais e auditivas.<\/p>\n\n\n\n<p>Essas caracter\u00edsticas ligadas \u00e0 evolu\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a no plano de no\u00e7\u00e3o da realidade e da unidade subjetiva s\u00e3o importantes para a avalia\u00e7\u00e3o dos diferentes graus de altera\u00e7\u00f5es. As no\u00e7\u00f5es mais precocemente desenvolvidas e mais intimamente ligadas ao mundo afetivo s\u00e3o as mais dificilmente alteradas; as no\u00e7\u00f5es desenvolvidas mais tardiamente como a de lugar e ambiente e de tempo s\u00e3o facilmente alteradas no contato interpessoal e muitas vezes n\u00e3o representam sequer um estado patol\u00f3gico.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 importante ressaltar que o contato com a realidade e com os est\u00edmulos individuais s\u00e3o predominantemente afetivos, n\u00e3o apenas porque dependem do interesse, sem o qual o indiv\u00edduo n\u00e3o voltaria a sua aten\u00e7\u00e3o para o est\u00edmulo do meio exterior, como tamb\u00e9m de todo o processo subsequente que trabalha as imagens percebidas at\u00e9 a simboliza\u00e7\u00e3o da realidade, \u00e9 ditado por impulsos afetivos.<\/p>\n\n\n\n<p>Este trabalho foi estudado por Ribot e sistematizado desde a fase inicial at\u00e9 a simboliza\u00e7\u00e3o da realidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Quadro I \u2013 <strong><em>Din\u00e2mica das opera\u00e7\u00f5es mentais<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"984\" height=\"362\" src=\"https:\/\/anibalsilveira.org\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/2024-07-18-1.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-3015\" srcset=\"https:\/\/anibalsilveira.org\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/2024-07-18-1.png 984w, https:\/\/anibalsilveira.org\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/2024-07-18-1-300x110.png 300w, https:\/\/anibalsilveira.org\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/2024-07-18-1-768x283.png 768w, https:\/\/anibalsilveira.org\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/2024-07-18-1-18x7.png 18w\" sizes=\"auto, (max-width: 984px) 100vw, 984px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>A percep\u00e7\u00e3o subentende a sele\u00e7\u00e3o dos est\u00edmulos atrav\u00e9s de processos anteriores ao n\u00edvel dos n\u00facleos sensoriais. O processo de capta\u00e7\u00e3o exige, al\u00e9m do interesse, a polariza\u00e7\u00e3o do mesmo atrav\u00e9s das fun\u00e7\u00f5es conativas e esse processo em conjunto denominamos <strong><em>aten\u00e7\u00e3o<\/em><\/strong>. O processo de fixa\u00e7\u00e3o depende dos dinamismos afetivos. O est\u00edmulo fixado \u00e9 posteriormente identificado e nessa fase se estabelece a necess\u00e1ria compara\u00e7\u00e3o para com outros est\u00edmulos que chegam a plano da consci\u00eancia atrav\u00e9s da resson\u00e2ncia afetiva. Uma vez fixado e identificado ele pode ser evocado, no que se liga ainda o interesse afetivo, individual ou social e desse processo resulta necessariamente uma no\u00e7\u00e3o simbolizada. Apenas pela abstra\u00e7\u00e3o ou pela dissolu\u00e7\u00e3o patol\u00f3gica \u00e9 que podemos apreender os diferentes n\u00edveis.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0 direita do quadro Silveira coloca aspectos mais complexos da aten\u00e7\u00e3o, que subentende a sele\u00e7\u00e3o e a capta\u00e7\u00e3o do est\u00edmulo; a <strong><em>mem\u00f3ria<\/em><\/strong>, que subentende a fixa\u00e7\u00e3o, a identifica\u00e7\u00e3o e a evoca\u00e7\u00e3o do est\u00edmulo, e a <strong><em>consci\u00eancia<\/em><\/strong> que subentende a proje\u00e7\u00e3o cronol\u00f3gica e a simboliza\u00e7\u00e3o. Notem que s\u00e3o opera\u00e7\u00f5es complexas que englobam todo o trabalho mental e por isso mesmo, imposs\u00edveis de serem limitadas \u00e0s \u00e1reas corticais ou subcorticais correspondentes como querem alguns autores. Pelo que podemos apreender dos sistemas ps\u00edquicos e seus correlatos cerebrais, tais opera\u00e7\u00f5es podem sofrer solu\u00e7\u00e3o de continuidade em diferentes n\u00edveis resultando altera\u00e7\u00e3o de todo o conjunto; quanto mais complexo, e consequentemente mais dependentes, no caso a consci\u00eancia, mais facilmente se verifica a altera\u00e7\u00e3o, dada a complexidade dos sistemas envolvidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Um est\u00edmulo atual \u00e9 necessariamente integrado \u00e0 nossa experi\u00eancia e disso resulta a no\u00e7\u00e3o de continuidade quer em rela\u00e7\u00e3o aos est\u00edmulos proprioceptivos quer aos exteroceptivos. As altera\u00e7\u00f5es ao n\u00edvel da orienta\u00e7\u00e3o implicam em diferentes planos de trabalho mental, evidenciando os aspectos parciais do processo acima descrito.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Do ponto de vista pr\u00e1tico, seguindo a sistem\u00e1tica de Wernicke, podemos considerar os aspectos relacionados \u00e0 orienta\u00e7\u00e3o do ponto de vista auto e alo ps\u00edquico. Estas eram para o autor; as duas maneiras de interpretar a realidade como um todo: o indiv\u00edduo v\u00ea os elementos do mundo externo de maneira integrada, ou seja, concomitantemente tem a no\u00e7\u00e3o de si pr\u00f3prio como unidade distinta. Wernicke considera que essa no\u00e7\u00e3o de si decorria de dinamismos recorrentes intelectuais, ocorrendo uma proje\u00e7\u00e3o cortical em determinadas \u00e1reas cerebrais. Kleist mostra a impropriedade de tais conceitos porquanto o contato se processaria fundamentalmente ligado aos dinamismos afetivos, que por si s\u00f3 s\u00e3o extremamente complexos e n\u00e3o ligados ao trabalho de uma \u00e1rea cerebral espec\u00edfica.<\/p>\n\n\n\n<p>Postula que a esfera autops\u00edquica se comp\u00f5e de tr\u00eas esferas interdependentes, a autops\u00edquica propriamente dita, a somatops\u00edquica e a timops\u00edquica; respectivamente a no\u00e7\u00e3o de identidade subjetiva, a no\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio corpo no plano som\u00e1tico e a no\u00e7\u00e3o do plano vegetativo. A esfera alops\u00edquica tamb\u00e9m foi desdobrada: alops\u00edquica propriamente dita, cenops\u00edquica e holops\u00edquica. Da primeira decorreria o contato com os est\u00edmulos do meio exterior, da segunda um plano mais diferenciado de contato social; a terceira, mais diferenciada ainda, interessava para Kleist o plano religioso.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Os autores em geral consideram a autopsique e a alopsique n\u00e3o como esferas de personalidade, mas como tipos de orienta\u00e7\u00e3o. Muitos ficam alheios a esses aspectos desenvolvidos por Wernicke e Kleist.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00a0A orienta\u00e7\u00e3o autops\u00edquica diz respeito ao pr\u00f3prio indiv\u00edduo abrangendo na realidade dois n\u00edveis distintos: a no\u00e7\u00e3o de identidade subjetiva e a no\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio corpo atrav\u00e9s dos est\u00edmulos proprioceptivos.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>A no\u00e7\u00e3o de identidade subjetiva acha-se plenamente desenvolvida em fases precoces da vida evolutiva da crian\u00e7a, do que resulta a no\u00e7\u00e3o de continuidade subjetiva. Esta se apresenta em dois n\u00edveis: um ligado mais \u00e0 identidade propriamente e outro mais profundo e diferenciado que se refere \u00e0 no\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria personalidade. Num caso ter\u00edamos em condi\u00e7\u00f5es patol\u00f3gicas a perda da no\u00e7\u00e3o de identidade e no outro a despersonaliza\u00e7\u00e3o que engloba necessariamente a perda da identidade. Aqui o dinamismo \u00e9 mais profundo no sentido de n\u00e3o serem os est\u00edmulos atuais incorporados \u00e0 nossa experi\u00eancia, perdendo-se a no\u00e7\u00e3o de continuidade. O indiv\u00edduo despersonalizado age de modo adequado no plano social e f\u00edsico, apenas n\u00e3o ligando os est\u00edmulos atuais \u00e0 sua experi\u00eancia. H\u00e1 tamb\u00e9m um aparente desligamento afetivo com a realidade, o que pode ser notado pelo ar perplexo. Isso pode passar despercebido principalmente para aqueles que desconhecem o indiv\u00edduo. \u00c9 uma condi\u00e7\u00e3o extremamente rara, pela profundidade din\u00e2mica, por estar ligado a dinamismos emocionais profundos como na histeria ou na epilepsia ou a quadros psic\u00f3ticos progressivos em fase final.<\/p>\n\n\n\n<p>O mais comum \u00e9 a perda da identidade subjetiva, estando preservada a liga\u00e7\u00e3o dos est\u00edmulos atuais \u00e0 pr\u00f3pria experi\u00eancia. O caso \u00e9 limitado \u00e0 identidade apenas, e quando apresenta a desorienta\u00e7\u00e3o a este n\u00edvel o indiv\u00edduo n\u00e3o sabe quem \u00e9; esta condi\u00e7\u00e3o pode ser acompanhada de ang\u00fastia e tamb\u00e9m de um certo desligamento afetivo. Esta condi\u00e7\u00e3o pode aparecer em certas formas esquizofr\u00eanicas, mas particularmente na <strong><em>Autopsicose progressiva<\/em><\/strong>, mas nesses casos \u00e9 mais comum o falseamento da identidade e n\u00e3o a perda da orienta\u00e7\u00e3o. O paciente identifica-se como outra pessoa, comporta-se como tal, exige indeniza\u00e7\u00f5es de pessoas importantes, seus descendentes, mas um exame mais cuidadoso vai nos mostrar que apenas falseia a identidade, tendo plena no\u00e7\u00e3o da mesma.<\/p>\n\n\n\n<p>A orienta\u00e7\u00e3o autops\u00edquica compreende tamb\u00e9m a orienta\u00e7\u00e3o no plano som\u00e1tico atrav\u00e9s dos est\u00edmulos proprioceptivos quando alterada, o indiv\u00edduo perde a no\u00e7\u00e3o de determinadas partes do corpo, resultando na chamada somatoagnose, que sempre se liga a aspectos parciais do soma. \u00c9 tamb\u00e9m uma desorienta\u00e7\u00e3o profunda porque implica na integra\u00e7\u00e3o em n\u00edvel precocemente definida da evolu\u00e7\u00e3o ontogen\u00e9tica.<\/p>\n\n\n\n<p>Um aspecto interessante envolvendo a orienta\u00e7\u00e3o som\u00e1tica \u00e9 o aparecimento do chamado membro fantasma que mesmo em aus\u00eancia, o indiv\u00edduo continua a senti-lo. \u00c9 o caso, por exemplo, de dores pertinentes ao n\u00edvel da perna amputada e na realidade o dinamismo \u00e9 o contr\u00e1rio do que ocorre na somatoagnose, ou seja, desorienta\u00e7\u00e3o som\u00e1tica. A integridade das fibras proprioceptivas faz com que persista o est\u00edmulo ligado com a experi\u00eancia. Neste plano h\u00e1 casos de dores incoerc\u00edveis que para cessar \u00e9 necess\u00e1rio recorrer-se \u00e0 topectomia na \u00e1rea cortical correspondente.<\/p>\n\n\n\n<p>A somatoagnose aparece ligada a quadros neurol\u00f3gicos org\u00e2nicos e no caso da psiquiatria vamos encontrar uma outra forma de esquizofrenia, a <strong><em>Somatopsicose progressiva<\/em><\/strong> cujo sintoma nuclear s\u00e3o concep\u00e7\u00f5es delirantes interessando o aspecto som\u00e1tico. O indiv\u00edduo acha que parte de seu corpo foi trocada, que apresenta uma perna como se fosse de um pombo ou tem o corpo consumido como uma folha de papel. Aqui \u00e9 mais o elemento de elabora\u00e7\u00e3o e est\u00edmulos que est\u00e3o alterados e n\u00e3o propriamente de percep\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 uma condi\u00e7\u00e3o relativamente comum ligada com a epilepsia, muitas vezes associada a crises de grande mal, como aura, outras vezes aparecem isolados, como a sensa\u00e7\u00e3o de estranheza corporal. Nestas condi\u00e7\u00f5es o indiv\u00edduo tem a sensa\u00e7\u00e3o de que parte do esquema corporal se apresenta modificado, transformado, indo certificar-se o mesmo que constatado objetivamente a inexist\u00eancia de qualquer altera\u00e7\u00e3o cont\u00ednua tendo a no\u00e7\u00e3o clara de modifica\u00e7\u00e3o. O est\u00edmulo \u00e9 mais funcional, n\u00e3o havendo les\u00e3o cerebral.<\/p>\n\n\n\n<p>A orienta\u00e7\u00e3o dos est\u00edmulos do meio exterior \u00e9 tamb\u00e9m complexa e envolve n\u00edveis distintos, profundos e superficiais. Um n\u00edvel mais profundo corresponde \u00e0 desorienta\u00e7\u00e3o no espa\u00e7o objetivo. No caso, acha-se atingido o \u00f3rg\u00e3o da observa\u00e7\u00e3o concreta e consequentemente o plano de integra\u00e7\u00e3o ao n\u00edvel da terceira dimens\u00e3o, que aparece quando a crian\u00e7a engatinha. \u00c9 um processo profundo e raro e quando presente indica o comprometimento org\u00e2nico ao n\u00edvel do lobo frontal e das estruturas mais profundas. O indiv\u00edduo n\u00e3o consegue elaborar no plano perceptivo os est\u00edmulos visuais que chegam do meio exterior, denotando claramente no comportamento esta dificuldade. Assim, em tumores do lobo frontal, no quadro de arteriosclerose, nos quadros pr\u00e9-senis e nos senis vamos encontrar essa desorienta\u00e7\u00e3o na fase adiantada do processo.<\/p>\n\n\n\n<p>Em condi\u00e7\u00f5es especiais pode ocorrer dificuldade da orienta\u00e7\u00e3o no espa\u00e7o quando se acha suprimido o contato com a realidade. \u00c9 o caso de indiv\u00edduo que passa do sono para a vig\u00edlia, e nesse estado, nas fases iniciais apresenta dificuldade de se orientar quanto ao local em que se encontra, fazendo esfor\u00e7o no sentido de recobrar a no\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s da integra\u00e7\u00e3o dos est\u00edmulos que paulatinamente v\u00e3o determinando tal orienta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A desorienta\u00e7\u00e3o quanto ao meio ambiente em que o indiv\u00edduo se encontra implica j\u00e1 em elementos abstratos e n\u00e3o s\u00f3 concretos, como o espa\u00e7o objetivo. S\u00e3o elementos que integram o aprendizado. Assim, um indiv\u00edduo que \u00e9 internado em estado de coma, se recobrar a consci\u00eancia pode, por si s\u00f3, ter a no\u00e7\u00e3o do ambiente em que se encontra, analisando o tipo de pessoas com quem se relaciona e podendo saber perfeitamente que se encontra numa enfermaria. A no\u00e7\u00e3o de lugar \u00e9 um aspecto correlato, implicando um n\u00edvel mais abstrato ainda e, consequentemente, mais pass\u00edvel de erro do que a orienta\u00e7\u00e3o quanto ao ambiente. Assim, o indiv\u00edduo pode n\u00e3o ter no\u00e7\u00e3o de lugares em que se encontra, mas ter os pontos de refer\u00eancia para distinguir o meio. Pode estar numa enfermaria e n\u00e3o saber de que tipo de Hospital ou se realmente se encontra num Hospital.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>A sensa\u00e7\u00e3o de estranheza quanto ao meio externo, ou o chamado \u201cjamais vu\u201d \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o em que o indiv\u00edduo n\u00e3o consegue integrar os est\u00edmulos atuais, no plano abstrato da finalidade, a sua experi\u00eancia. Assim, muito embora se encontre num ambiente que lhe \u00e9 familiar ele tem a sensa\u00e7\u00e3o de estranheza, n\u00e3o conseguindo assimilar o ambiente e o lugar \u00e0 sua experi\u00eancia. Aparece como condi\u00e7\u00e3o ligada \u00e0 epilepsia, como equivalente epileptoide.<\/p>\n\n\n\n<p>A desorienta\u00e7\u00e3o mais superficial, e n\u00e3o necessariamente ligada \u00e0 sua condi\u00e7\u00e3o patol\u00f3gica, \u00e9 a do tempo. Pelo aspecto ontogen\u00e9tico vimos que \u00e9 a \u00faltima no\u00e7\u00e3o a ser precisada e somente tem um certo valor a desorienta\u00e7\u00e3o no tempo decorrido, porque envolve aspectos mais concretos de refer\u00eancia. Quando o indiv\u00edduo perde os pontos de refer\u00eancia que norteiam a atividade no meio exterior e no relacionamento social, \u00e9 normal o indiv\u00edduo perder a no\u00e7\u00e3o, n\u00e3o sabendo mais o dia da semana ou o m\u00eas correspondente. \u00c9 o que acontece frequentemente no per\u00edodo das f\u00e9rias, quando mudamos completamente os h\u00e1bitos, principalmente aqueles que tomamos como ponto de refer\u00eancia. Qualquer ruptura com o meio exterior desencadeia a desorienta\u00e7\u00e3o no tempo. Pelos mesmos dinamismos os quadros psic\u00f3ticos caracterizados pelo desinteresse no contato interpessoal e para com os est\u00edmulos do meio exterior tamb\u00e9m levam a uma desorienta\u00e7\u00e3o no tempo. A orienta\u00e7\u00e3o pode estar falseada por dinamismos delirantes em pacientes psic\u00f3ticos sem que na realidade ocorra uma desorienta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Quanto aos aspectos semiol\u00f3gicos ligados ao exame ps\u00edquico de consulentes n\u00e3o psic\u00f3ticos, os dados referentes \u00e0 orienta\u00e7\u00e3o s\u00e3o extra\u00eddos da pr\u00f3pria anamnese. Deve-se evitar as perguntas diretas porque poder\u00e3o parecer ao paciente descabidas e sem prop\u00f3sito. No caso de doentes psic\u00f3ticos devemos precisar melhor essa orienta\u00e7\u00e3o no exame ps\u00edquico porque a condi\u00e7\u00e3o assim o exige.<\/p>\n\n\n<ol class=\"wp-block-footnotes\"><li id=\"a6a21d62-31c1-456d-a744-63e8cf56ef14\">Texto organizado por Roberto Fasano, em 2003, a partir de aula proferida por An\u00edbal Silveira, no Curso de Psicopatologia da Faculdade de Medicina de Jundia\u00ed, no ano de 1977, em Jundia\u00ed, sem refer\u00eancia de quem a compilou. Revisto em 15\/02\/22 por integrantes da Comiss\u00e3o de Revis\u00e3o do CEPAS: Flavio Vivacqua, Francisco Drumond de Moura, Paulo Palladini e Roberto Fasano. <a href=\"#a6a21d62-31c1-456d-a744-63e8cf56ef14-link\" aria-label=\"Jump to footnote reference 1\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><\/ol>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>EXAME DA ORIENTA\u00c7\u00c3O PS\u00cdQUICA A orienta\u00e7\u00e3o ps\u00edquica implica dinamismos mais profundos e complexos do que aqueles relacionados \u00e0 din\u00e2mica sensorial, uma vez que engloba n\u00e3o apenas a apreens\u00e3o dos est\u00edmulos do meio exterior, mas a no\u00e7\u00e3o de continuidade, no plano subjetivo e som\u00e1tico. \u00c9 a orienta\u00e7\u00e3o que o indiv\u00edduo tem em rela\u00e7\u00e3o a si pr\u00f3prio [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"footnotes":"[{\"content\":\"Texto organizado por Roberto Fasano, em 2003, a partir de aula proferida por An\u00edbal Silveira, no Curso de Psicopatologia da Faculdade de Medicina de Jundia\u00ed, no ano de 1977, em Jundia\u00ed, sem refer\u00eancia de quem a compilou. 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