{"id":3326,"date":"2024-09-14T08:59:37","date_gmt":"2024-09-14T11:59:37","guid":{"rendered":"https:\/\/anibalsilveira.org\/?page_id=3326"},"modified":"2024-09-14T08:59:37","modified_gmt":"2024-09-14T11:59:37","slug":"psicoses-associadas-e-enxertadas","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/anibalsilveira.org\/en\/psicoses-associadas-e-enxertadas\/","title":{"rendered":"Psicoses associadas e enxertadas"},"content":{"rendered":"<p class=\"has-text-align-center\"><strong>PSICOSES MISTAS, PSICOSES ASSOCIADAS E ENXERTADAS<\/strong><sup data-fn=\"f86b9176-9ad6-47aa-96f2-1cf65f8fe604\" class=\"fn\"><a href=\"#f86b9176-9ad6-47aa-96f2-1cf65f8fe604\" id=\"f86b9176-9ad6-47aa-96f2-1cf65f8fe604-link\">1<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p>As psicoses mistas n\u00e3o s\u00e3o aceitas por todos os autores, mas dentre aqueles que levam em conta esse aspecto h\u00e1 uma not\u00e1vel diferen\u00e7a no crit\u00e9rio diagn\u00f3stico e que apresentam, de certa maneira, um aspecto contradit\u00f3rio entre si, pelo fato, em nossa opini\u00e3o, de n\u00e3o se basearem na patog\u00eanese dos quadros cl\u00ednicos.<\/p>\n\n\n\n<p>Temos insistido muito nesse aspecto: quando o psiquiatra se orienta pela descri\u00e7\u00e3o dos quadros cl\u00ednicos, est\u00e1 sujeito a uma grande margem de erro. Um mesmo diagn\u00f3stico, portanto, pode ser aplicado a quadros um pouco distintos entre si, gerando assim uma certa confus\u00e3o na classifica\u00e7\u00e3o psiqui\u00e1trica.<\/p>\n\n\n\n<p>As psicoses mistas, entretanto, existem e se tomarmos um crit\u00e9rio rigoroso podemos verificar os v\u00e1rios graus em que esses processos se apresentam.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 mencionamos a concep\u00e7\u00e3o de fases mistas, como no caso da Psicose Man\u00edaco-Depressiva, e das formas mistas, isto \u00e9, aqueles quadros em que se apresenta uma depress\u00e3o e, em seguida, com intervalo ou n\u00e3o, uma excita\u00e7\u00e3o ps\u00edquica: portanto, Mania e Melancolia associando-se no decurso do mesmo paciente. S\u00e3o dois tipos reconhecidos desde o in\u00edcio da classifica\u00e7\u00e3o de Kraepelin, e que foram bem estudados por todos os autores.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1, portanto, na psicose man\u00edaco-depressiva, essa possibilidade de se reunirem as duas fases no mesmo paciente, isto \u00e9, n\u00e3o s\u00e3o fases que se apresentam sucessivamente num mesmo paciente, mas que podem combinar-se. Da\u00ed surgiu a no\u00e7\u00e3o de fase mista.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>A psicose mista foi reconhecida, primeiramente, como existente, no quadro da psicose man\u00edaco-depressiva, abreviada como P.M.D. E nesse quadro, como dissemos anteriormente, h\u00e1 que se distinguir esses tr\u00eas aspectos: se \u00e9 uma forma mista, se \u00e9 um quadro misto, ou se \u00e9 uma fase mista. Isso depende do per\u00edodo em que se apresenta essa mudan\u00e7a de um polo para outro, na manifesta\u00e7\u00e3o cl\u00ednica.<\/p>\n\n\n\n<p>Ora, a psicose mista n\u00e3o se confunde nem com a fase mista nem com o quadro misto da P.M.D., mas muitos dos autores, especialmente Lange, admitem que a P.M.D. \u00e9 que d\u00e1 origem a todos os quadros caracterizados como psicose mista e, inclusive procuraram interpretar os quadros psic\u00f3ticos benignos de Kleist, como sendo formas mistas, em que h\u00e1 uma participa\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica de tend\u00eancia para a P.M.D. e, uma tend\u00eancia gen\u00e9tica para outro quadro discordante, como por exemplo, a Esquizofrenia. Mas isto \u00e9 um racioc\u00ednio em bases insatisfat\u00f3rias, com dados incompletos: Lange cita Kleist, mas n\u00e3o conhece Kleist, entretanto, se opunha \u00e0 terminologia de Kleist. N\u00e3o aprofundou nenhum estudo de qualquer paciente, que pudesse mostrar que n\u00e3o estava em jogo a tend\u00eancia gen\u00e9tica demonstrada por Kleist, apenas se opunha a isso.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Os autores em geral come\u00e7aram a pensar em psicose mista a partir dos trabalhos de Gaupp que descreveu quadros cl\u00ednicos onde podia ser evidenciada uma psicose cl\u00e1ssica, constitucional, e uma outra de tipo diferente, quase sempre em plano secund\u00e1rio, mas bem reconhec\u00edvel no pr\u00f3prio quadro cl\u00ednico do paciente. Gaupp criou o termo psicose mista em 1926 e publicou v\u00e1rios trabalhos nesse sentido. Dessa forma, os autores, em geral, reconheceram, que para al\u00e9m das formas conhecidas desde Kraepelin &#8211; as formas cl\u00e1ssicas, e as formas mistas da P.M.D. -, era necess\u00e1rio levar em conta as psicoses mistas como outras entidades m\u00f3rbidas constitucionais.<\/p>\n\n\n\n<p>Realmente os autores se limitavam, quase todos, a evidenciar essa fus\u00e3o de psicoses (psicose mista), em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 P.M.D. e \u00e0 epilepsia. De fato, s\u00e3o as duas condi\u00e7\u00f5es m\u00f3rbidas mais frequentes na popula\u00e7\u00e3o m\u00e9dia e se h\u00e1 fus\u00e3o de tend\u00eancias gen\u00e9ticas, seria mais prov\u00e1vel que ambas tend\u00eancias se re\u00fanam no mesmo paciente. Depois se pensou n\u00e3o apenas a P.M.D. com a Epilepsia, mas com a Esquizofrenia. Assim, aquelas concep\u00e7\u00f5es origin\u00e1rias de Kraepelin, Bleuler e demais, onde a Esquizofrenia se apresenta como um tipo de altera\u00e7\u00e3o oposta \u00e0 P.M.D., deixou de subsistir: na verdade, sem haver oposi\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Mais recentemente, Meduna quando criou o m\u00e9todo de tratamento provocando convuls\u00f5es pelo cardiazol, partiu do pressuposto de que havia um antagonismo ou oposi\u00e7\u00e3o, ou exclus\u00e3o m\u00fatua, entre a esquizofrenia e a epilepsia. Da\u00ed a sua tentativa de determinar num paciente as convuls\u00f5es: no seu modo de entender, epilepsia seria uma tend\u00eancia contr\u00e1ria \u00e0 esquizofrenia e dessa forma podendo contribuir para a sua remiss\u00e3o.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Mas apareceram casos, com frequ\u00eancia, na literatura, em que h\u00e1 associa\u00e7\u00e3o entre esquizofrenia e epilepsia; n\u00e3o h\u00e1, portanto, antagonismo tamb\u00e9m entre elas e se compreendermos que o elemento gen\u00e9tico \u00e9 o que prevalece em todos os quadros constitucionais, vemos que \u00e9 muito poss\u00edvel, na mesma fam\u00edlia, na mesma cepa, haver fus\u00e3o de tend\u00eancia gen\u00e9tica para um quadro e para outro e da\u00ed podem manifestar-se num mesmo paciente. Na realidade, encontramos com muita frequ\u00eancia na literatura a descri\u00e7\u00e3o de \u201cquadros mistos\u201d, mas tamb\u00e9m a\u00ed temos que levar em conta o crit\u00e9rio usado para diagn\u00f3stico.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Em nosso modo de ver, a psicose mista \u00e9 um quadro cl\u00ednico que depende da tend\u00eancia gen\u00e9tica relacionada com os tr\u00eas quadros constitucionais cl\u00e1ssicos &#8211; a epilepsia, a P.M.D. e a esquizofrenia -, que se fundem, por tend\u00eancia gen\u00e9tica convergente na fam\u00edlia, num mesmo paciente.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Em outras condi\u00e7\u00f5es j\u00e1 n\u00e3o se pode chamar psicose mista. Seria a psicose associada, que \u00e9 um outro aspecto, uma outra maneira de se apresentar o quadro cl\u00ednico, fundindo dois tipos diferentes de psicoses. E h\u00e1, ainda, a chamada psicose enxertada.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, consideramos a psicose mista propriamente, as psicoses associadas (n\u00e3o necessariamente duas psicoses end\u00f3genas) e a psicose enxertada que \u00e9 um termo pouco t\u00e9cnico, que corresponde ao que se conhece como enxerto: h\u00e1 um quadro permanente ao qual se apresenta, esporadicamente, um outro quadro que n\u00e3o \u00e9 permanente, que \u00e9 vari\u00e1vel e remiss\u00edvel.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, s\u00f3 consideramos psicose mista, quando os dois tipos psic\u00f3ticos evidenciados correspondem a quadros cl\u00e1ssicos constitucionais, necessariamente end\u00f3genos, de base gen\u00e9tica.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>A psicose ser\u00e1 enxertada se ocorrer um surto psic\u00f3tico em um paciente com quadro permanente, como a epilepsia ou a oligofrenia, caracterizando, portanto, um quadro ocasional. \u00c9 poss\u00edvel tamb\u00e9m que sejam duas formas adquiridas, formas n\u00e3o end\u00f3genas, ent\u00e3o ser\u00e3o associadas simplesmente, e isto realmente ocorre, n\u00e3o \u00e9 raro.<\/p>\n\n\n\n<p>Devemos distinguir esses quadros das formas combinadas de Kleist. Por exemplo, temos na classifica\u00e7\u00e3o de Kleist, as formas benignas que manifestam uma associa\u00e7\u00e3o de polos entre si, em que o indiv\u00edduo apresenta um polo e, em seguida outro; uma acinesia acentuada num per\u00edodo, e depois um per\u00edodo de hipercinesia; ocorre uma sucess\u00e3o de fases, o que corresponde mais ou menos o que se passa na P.M.D. Pode acontecer que o indiv\u00edduo tenha uma forma progressiva, as formas de esquizofrenia de Kleist, em que o processo se propaga depois para outro sistema: da\u00ed temos a psicose assistem\u00e1tica de Kleist. Assistem\u00e1tica, porque ocorre uma s\u00e9rie de manifesta\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas, que corresponde \u00e0 participa\u00e7\u00e3o de outros sistemas cerebrais, que n\u00e3o s\u00e3o aqueles que definiram o quadro cl\u00ednico da doen\u00e7a. Esse \u00e9 progressivo e assistem\u00e1tico porque apanha mais de um sistema cerebral ao mesmo tempo.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>E h\u00e1, ainda, as formas de psicose progressiva que Kleist chamou de extensivas, que atingem mais de uma esfera da personalidade: a esfera da afetividade, por exemplo, com rea\u00e7\u00f5es afetivas intensas, depois passa para outra esfera, a esfera conativa, podendo dar um aspecto demencial se abrange tamb\u00e9m a esfera intelectual.<\/p>\n\n\n\n<p>Essas psicoses s\u00e3o todas progressivas, mas n\u00e3o s\u00e3o psicoses mistas; a\u00ed o processo decorre do tipo de carga gen\u00e9tica seguramente, mas \u00e9 uma progress\u00e3o do mesmo dist\u00farbio inicial e n\u00e3o uma fus\u00e3o de quadros cl\u00ednicos distintos.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, pode ocorrer psicoses benignas de dois tipos diversos, que se associam no paciente. Nesse caso, a psicose associada constitui uma forma mista, que corresponde \u00e0 forma mista da P.M.D., ou, por exemplo, o indiv\u00edduo apresenta elementos da catatonia, digamos assim, e um quadro moment\u00e2neo de forma benigna. Quer dizer, a tend\u00eancia latente se manifesta na vig\u00eancia de um quadro progressivo que tamb\u00e9m obedece a uma tend\u00eancia constitucional e concordante.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Outra quest\u00e3o que temos de considerar \u00e9 a chamada psicose enxertada. Essa terminologia apareceu desde Kraepelin. No entanto, em 1921, ele apresenta casos em que o paciente tinha oligofrenia, defici\u00eancia mental end\u00f3gena, e apresentou per\u00edodos que ele chamou de hebefrenia, era uma forma hebefr\u00eanica que ele chamou enxertada.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois que apareceu a terminologia de Bleuler que substituiu os termos hebefrenia, catatonia, ou dem\u00eancia precoce, por esquizofrenia, ficou mais f\u00e1cil ainda os autores descreverem formas enxertadas. Ent\u00e3o, um paciente que tem uma defici\u00eancia mental, ou por les\u00e3o cerebral, ou por oligofrenia (que s\u00e3o coisas distintas) podem, periodicamente, apresentar uma excita\u00e7\u00e3o ps\u00edquica intensa, uma rea\u00e7\u00e3o de agressividade ou um quadro confusional, que decorre da pr\u00f3pria doen\u00e7a, em si pr\u00f3pria e n\u00e3o como um enxerto. De maneira que n\u00e3o podemos nesse caso considerar uma esquizofrenia enxertada, e a maioria dos autores descrevem a esquizofrenia enxertada. Quando lemos a observa\u00e7\u00e3o cl\u00ednica em que se baseia essa classifica\u00e7\u00e3o, vemos que s\u00e3o epis\u00f3dios da pr\u00f3pria doen\u00e7a, da pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o m\u00f3rbida do paciente e n\u00e3o um enxerto, n\u00e3o \u00e9 uma psicose que aparece momentaneamente. Assim, descrevem os deficientes mentais er\u00e9ticos, ou os deprimidos, os ab\u00falicos, mas s\u00e3o manifesta\u00e7\u00f5es que predominam em certa fase do quadro cl\u00ednico, como constituinte do pr\u00f3prio quadro, e n\u00e3o como uma forma que se apresente momentaneamente enxertada no quadro permanente.<\/p>\n\n\n\n<p>De qualquer forma, cumpre refor\u00e7ar que h\u00e1 possibilidade de fus\u00e3o de quadros cl\u00ednicos e isto \u00e9 mais frequente entre aquelas formas cl\u00ednicas mais difundidas na popula\u00e7\u00e3o m\u00e9dia. Assim, entre a epilepsia, a P.M.D. e a esquizofrenia, h\u00e1 uma certa correla\u00e7\u00e3o quanto \u00e0 distribui\u00e7\u00e3o na popula\u00e7\u00e3o m\u00e9dia. E sabemos que \u00e9 muito mais frequente a epilepsia do que a P.M.D. e que as formas f\u00e1sicas s\u00e3o ainda mais frequentes do que a esquizofrenia. De modo que, teoricamente, podemos inclusive supor que possa haver fus\u00e3o das tr\u00eas tend\u00eancias gen\u00e9ticas, dos tr\u00eas quadros constitucionais.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Na figura abaixo representamos em circulos as tr\u00eas tend\u00eancias gen\u00e9ticas relacionadas com os tr\u00eas grupos constitucionais.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"232\" height=\"303\" src=\"https:\/\/lh7-rt.googleusercontent.com\/docsz\/AD_4nXdJliPKTuWdBKmJt99ANvJzVBzfYyBqp3j2LLzDOKeA7ueZK-OXkxIEgJLl6kUkw-xz9akerl-X3wsNd_k32a3KcUV6J4XhMWnlLx08t0IKod_G8J-pZRZJpJgpSiWFwa8IFLrROSC69y8DOkYdPcVhVHTuSDoHBHCRVigY8yaaHpnXOOqw9Ww?key=mJL3kHBhA1-OvoTpV1mqjA\" alt=\"Diagrama, Diagrama de VennDescri\u00e7\u00e3o gerada automaticamente\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">A e B \u2013 relativamente frequentes<br>C \u2013 relativamente rara<br>D \u2013 n\u00e3o satisfatoriamente demonstrada<\/p>\n\n\n\n<p>Temos aqui a epilepsia com um c\u00edrculo maior, porque \u00e9 a que \u00e9 mais difundida na popula\u00e7\u00e3o; o c\u00edrculo da P.M.D. ou das doen\u00e7as f\u00e1sicas um pouco menor e o c\u00edrculo da esquizofrenia, o menor de todos por ser a menos difundida na popula\u00e7\u00e3o geral.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, h\u00e1 uma maior possibilidade de encontramos a associa\u00e7\u00e3o da epilepsia e a psicose man\u00edaco-depressiva (todos os autores reconhecem esse aspecto), mas h\u00e1 tamb\u00e9m a possibilidade de encontrarmos epilepsia e esquizofrenia, o que n\u00e3o \u00e9 raro e \u00e0s vezes se manifesta como tend\u00eancia gen\u00e9tica no paciente, quando no decorrer da insulinoterapia ou outro tratamento biol\u00f3gico ele apresenta convuls\u00f5es.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Entre a psicose man\u00edaco-depressiva e a esquizofrenia, h\u00e1 uma possibilidade de fus\u00e3o maior do que entre a epilepsia e a esquizofrenia. Finalmente, existe uma possibilidade te\u00f3rica de que as tr\u00eas formas estejam presentes em um mesmo paciente.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Em sintese, para considerar-se uma psicose mista \u00e9 necess\u00e1rio, portanto, que se reconhe\u00e7a os sintomas caracter\u00edsticos dos v\u00e1rios quadros que a constituem.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra quest\u00e3o, que n\u00e3o se lembra, \u00e9 a de que pode haver fus\u00e3o entre uma forma cl\u00e1ssica progressiva de Kleist e uma forma benigna.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Tivemos um paciente que tinha uma psicose mista, no caso era uma Alucinose Aguda que se apresentou num paciente esquizofr\u00eanico: aqui temos a fus\u00e3o de uma forma cl\u00e1ssica e de uma forma benigna.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Tivemos um paciente tamb\u00e9m que teve duas formas associadas, em que apresentou uma tend\u00eancia para a P.M.D, apresentou um quadro de alcoolismo do tipo dipsomania e depois teve um quadro confusional intenso e foi internado nesse quadro confusional. Depois, verificamos que havia uma s\u00e9rie de tend\u00eancias que estavam presentes no quadro dele: uma forma man\u00edaco-depressiva com per\u00edodos de exalta\u00e7\u00e3o do humor e depress\u00e3o, e um quadro delirante, ligado com um aspecto confusional. Aqui vemos a possibilidade de fundir-se um quadro desses cl\u00e1ssicos, com outros associados.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Um outro paciente, um esquizofr\u00eanico catat\u00f4nico em tratamento pelo cardiazol e teve uma remiss\u00e3o que consideramos parcial, depois de algum tempo ele voltou para o hospital, mas com um quadro agudo de confus\u00e3o mental, portanto, com dois tipos de sintomas presentes no quadro cl\u00ednico.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Em outro caso, o paciente tinha uma esquizofrenia confusional e apresentou um quadro confusional decorrente de um dist\u00farbio autot\u00f3xico tireoidiano; esse paciente tinha vozes imperativas, mas s\u00f3 na vig\u00eancia do quadro agudo e depois que passou a fase aguda ele continuou como esquizofr\u00eanico, com um quadro de car\u00eancia de iniciativa, principalmente, e n\u00e3o remitiu com o cardiazol, naquela ocasi\u00e3o. Tinha um quadro cl\u00ednico agudo que foi verificado pela bioqu\u00edmica inclusive.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Uma outra paciente apresentou um quadro neurol\u00f3gico, com confus\u00e3o mental acentuada, com ideias inteiramente incoordenadas, com uma dificuldade grande de express\u00e3o e um quadro cerebelar. Pensamos num processo de hipertens\u00e3o intracraniana; ap\u00f3s a remiss\u00e3o do quadro confusional agudo, continuou com sintomas cerebelares e com altera\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m da express\u00e3o, com disartria e com altera\u00e7\u00f5es neurol\u00f3gicas da vis\u00e3o. Foi feito o liquor que revelou um tipo de paralisia geral. O quadro cl\u00ednico era bem caracter\u00edstico de um processo expansivo do \u00e2ngulo ponto cerebelar. Pensamos que houvesse uma goma, apesar do l\u00edquor ser positivo, porque a goma n\u00e3o d\u00e1 essa altera\u00e7\u00e3o liqu\u00f3rica desse tipo. A paciente veio a falecer depois. Tinha o quadro cl\u00e1ssico da paralisia geral e apresentava tamb\u00e9m um aneurisma de \u00e2ngulo ponto cerebelar, que n\u00e3o era goma e sim um processo neurol\u00f3gico, n\u00e3o adquirido. Como vemos, h\u00e1 realmente a possibilidade de v\u00e1rios quadros se confundirem.<\/p>\n\n\n\n<p>O paciente a seguir apresentava uma forma de esquizofrenia, embotamento incoerente, mas apresentava per\u00edodos de alucinose aguda: tinha automatismo mental, que descrevia muito bem. Ele escrevia dezenas de cartas e no envelope ele punha sempre isto: \u201cseja entre pessoas conhecidas, sendo m\u00e9dicos ou advogados, quem tem n\u00e3o sabe o que tem, quem rouba entrega para algu\u00e9m (de pr\u00f3prias m\u00e3os)\u201d. Quanto a esse segundo trecho, habitualmente, ele dizia: \u201cquem perde n\u00e3o sabe o que tem e quem acha entrega para algu\u00e9m\u201d. Nisso ele insistia muito e, isso, \u00e9 consequ\u00eancia de automatismo mental, que ele tinha na fase aguda, mas isso ele escrevia v\u00e1rias vezes, h\u00e1 uma certa persevera\u00e7\u00e3o, uma tend\u00eancia muito acentuada para repetir o mesmo elemento, uma estereotipia. Ainda estava internado no Juquery, quando escreveu uma carta datada de 15\/11\/1944.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEspero que seja tomado provid\u00eancias pelas autoridades. Eu desde abril acho-me no hospital, no qual nesse tempo roubaram as minhas economias e minha propriedade, ao qual faltam com respeito de minha mulher e fam\u00edlia. Nesse dia cheguei a ver eles dentro do terreno do Hospital, com o transmissor radiogr\u00e1fico. Zombaram de minha pessoa e disseram que seria v\u00edtima, assim como tenho sido. Tamb\u00e9m falaram Tiago dos Santos e Sra. do Sr. Ad\u00e3o Sabino (que \u00e9 outro paciente internado) e muitas outras v\u00edtimas. E falavam tamb\u00e9m no Dr. Zeferino do Amaral, que ele n\u00e3o sabia quem era, ent\u00e3o era um nome que ele dizia que tinha ouvido mas que n\u00e3o sabia quem era, mas falavam no c\u00e9rebro dele\u201d. \u201cCom o transmissor radiogr\u00e1fico, tirado ou roubado da Light e com isso eles tamb\u00e9m em horas vagas no escrit\u00f3rio da Light, \u00e0s ocultas atacam os detidos, na delegacia. Com o transmissor gr\u00e1fico, no escrit\u00f3rio, eles costumam gravar cheques, cadernetas das caixas econ\u00f4micas, fichas, escrituras das propriedades e at\u00e9 documentos de autoridades. S\u00e3o clientes das reparti\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e particulares, do pr\u00f3prio governo. Nesse dia eu cheguei a adotar o transmissor radiogr\u00e1fico no terreiro. Encontrou v\u00e1rias escrituras nas quais a escritura de Joaquim Domingos (era irm\u00e3o dele), Ad\u00e3o Sabino e ao qual n\u00e3o conhe\u00e7o, Dr. Zeferino do Amaral. Do monsenhor Nicolau Constantino, de muitas pessoas por ele registrado. Isto por abuso deles, eu cheguei a ver, a qual me convidaram e me falaram que eu fosse falar para quem eu quisesse. Com o transmissor eles atacam a dist\u00e2ncia de quil\u00f4metros, dinheiro ir bastante em seus poderes, o qual falaram que era f\u00e1cil de obter, de retirar. Fazer at\u00e9 papel para desquite. Tudo feito com transmissor gr\u00e1fico e assinatura de Juiz de Direito. Eu cheguei a conhecer Nelson Pontes (\u00e9 outro paciente internado), Greg\u00f3rio Pontes, a qual falaram que os companheiros eram Joaquim Rodrigues Pontes e filho, (ent\u00e3o dizia dos pacientes internados l\u00e1, em que tinham participados dessa a\u00e7\u00e3o, que sofriam a a\u00e7\u00e3o).\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cForam queixa e s\u00e3o testemunhas daquelas pessoas. Transmissor radiogr\u00e1fico, estudei esse proverbio raro facilitar, trair, falar e gravar. Travessar zuar, caligrafar. Transmitir, roubar, copiar. Transpassar zombar e bravejar. Transportar zombar e roubar e mostrar\u201d (e assinou depois). J\u00e1 escrevi muitos, tenho certeza de que tem o contato com autoridades e controlam o telefone centrais como eles conv\u00e9m. Tudo peguei por eles\u201d (quer dizer, tudo foi transmiss\u00e3o pelo automatismo mental). Isso foi feito em novembro de 1944, em dezembro ele escreveu uma outra carta numa folha de anota\u00e7\u00e3o da enfermagem, em que ele anotou l\u00e1 &#8220;Hospital de Juqueri, dezembro de 1944\u201d mas as queixas s\u00e3o quase as mesmas, h\u00e1 os mesmos elementos, havendo uma const\u00e2ncia do quadro. Ele tem aquela preocupa\u00e7\u00e3o de entregar em m\u00e3os pr\u00f3prias, para evitar que sumisse no correio.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse paciente teve uma remiss\u00e3o completa desse quadro, ele reconhecia que aquilo era um dist\u00farbio, mas continuava com o dist\u00farbio incoerente e progressivo. De modo que notem que h\u00e1 dois aspectos bem claros no paciente: uma forma que \u00e9 constante, que \u00e9 progressiva, e outra com surtos alucinat\u00f3rios: uma forma progressiva e uma forma benigna de Kleist.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Um outro paciente tinha as tr\u00eas formas reunidas:<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"792\" height=\"244\" src=\"https:\/\/anibalsilveira.org\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/2024-09-14-1.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-3327\" srcset=\"https:\/\/anibalsilveira.org\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/2024-09-14-1.png 792w, https:\/\/anibalsilveira.org\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/2024-09-14-1-300x92.png 300w, https:\/\/anibalsilveira.org\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/2024-09-14-1-768x237.png 768w, https:\/\/anibalsilveira.org\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/2024-09-14-1-18x6.png 18w\" sizes=\"auto, (max-width: 792px) 100vw, 792px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>O leitor, lendo com aten\u00e7\u00e3o essas notas e a \u201cRel\u00edquia\u201d, de E\u00e7a de Queiroz, ficar\u00e1 sendo um circo. Isso era um volante, que ele andou distribuindo no trem em Franco da Rocha.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Esse paciente tinha isso, apresentando uma certa desagrega\u00e7\u00e3o, notem uma excita\u00e7\u00e3o ps\u00edquica, essas associa\u00e7\u00f5es de palavras e s\u00edlabas, um ar meio misterioso. Alguns meses depois foi internado. Tinha per\u00edodos com essa verbigera\u00e7\u00e3o intensa, fazia trocadilhos, com uma excita\u00e7\u00e3o ps\u00edquica muito grande, com fugas de palavras como na mania. Depois tinha uma fase em que entrava em depress\u00e3o, mas n\u00e3o cedia completamente. Nesse per\u00edodo, mostrava uma certa desagrega\u00e7\u00e3o, quase uma salada de palavras sem nexo, uma com as outras, e com sentido simb\u00f3lico misterioso. N\u00e3o apresentava nenhum dist\u00farbio do tipo automatismo mental, mas tinha uma persevera\u00e7\u00e3o muito intensa e havia refer\u00eancia na sua anamnese de um quadro cl\u00ednico com crises de aus\u00eancia, convuls\u00f5es na primeira inf\u00e2ncia, e tinha uma viscosidade muito acentuada. Era minucioso, fez aut\u00f3grafos que dava quase que um livro, cada passo descrevia aut\u00f3grafos consecutivos, mas nesses aut\u00f3grafos havia uma certa persevera\u00e7\u00e3o, uma manuten\u00e7\u00e3o quase do mesmo tema variando apenas a maneira como ele apresentava os dados, associava as palavras e as s\u00edlabas, e havia per\u00edodos acentuados de agressividade intensa. Esse paciente seria tomado por alguns autores como tendo psicose epil\u00e9ptica porque realmente ele tinha um quadro psic\u00f3tico com desagrega\u00e7\u00e3o intensa, com agressividade intensa.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Ele tinha quase constantemente: persevera\u00e7\u00e3o, minuciosidade, prolixidade, tend\u00eancia agressiva, em certa maneira, um car\u00e1ter ir\u00f4nico, al\u00e9m de uma peri\u00f3dica fase de associa\u00e7\u00e3o de ideias r\u00e1pidas. Periodicamente, tinha mesmo uma excita\u00e7\u00e3o t\u00e3o grande que chegava \u00e0 fuga de ideias e uma prolixidade intensa, prolixidade que mantinha constantemente. Havia depress\u00e3o que se alternava com a excita\u00e7\u00e3o, e \u00e0s vezes, independentemente desse aspecto, tinha per\u00edodos de agressividade. Era um indiv\u00edduo muito inteligente, tinha conclu\u00eddo o curso ginasial e escrevia at\u00e9 bem, os aut\u00f3grafos dele s\u00e3o interessantes por esse aspecto.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Notem, ent\u00e3o, que nesse caso podia ser verificado cada grupo de sintomas como filiado a um tipo especial, gen\u00e9tico: a epilepsia, essa forma de esquizofrenia e a P. M. D. Em dois pacientes tivemos bem claramente essa concomit\u00e2ncia de ciclos heredol\u00f3gicos diversos.<\/p>\n\n\n\n<p>Um outro paciente foi internado com uma psicose aguda, estava numa fase confusional em regress\u00e3o, era de h\u00e1bito p\u00edcnico e vimos depois pela anamnese aquela tend\u00eancia para a P.M.D., a forma timop\u00e1tica de Bumke. Entrou em estado confusional, com certa depress\u00e3o, desorientado quanto ao lugar e ao tempo, dizia que estava trabalhando no campo de avia\u00e7\u00e3o em S\u00e3o Paulo, quando foi levado para l\u00e1 e que havia adoecido fazia tr\u00eas meses. Ele referiu ao psiquiatra que o examinou no exame de entrada, alucina\u00e7\u00f5es auditivas e visuais \u2013 o psiquiatra anotou alucina\u00e7\u00f5es auditivas e, segundo refere, visuais tamb\u00e9m, quer dizer, houve um fen\u00f4meno t\u00f3xico ao que parece. Sentia-se \u201cperturbado da cabe\u00e7a\u201d e com grande \u201cconfus\u00e3o do pensamento\u201d atualmente admitindo ter melhorado. Isso foi em setembro de 1943. N\u00e3o havia nenhuma altera\u00e7\u00e3o nos reflexos pupilares, mas tomado assim de rotina. O exame som\u00e1tico foi o interno quem fez a observa\u00e7\u00e3o; tinha tremores, de complei\u00e7\u00e3o robusta, \u00e2ngulo de Xarpi maior do que 90\u00b0, portanto, h\u00e1bito picnico, com ligeiro tremor nas m\u00e3os. Com ferimentos nos superc\u00edlios que ele atribuiu a quedas. Posteriormente, o oftalmologista verificou uma altera\u00e7\u00e3o no reflexo consensual e converg\u00eancia, o que sugere uma sequela de encefalite.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse paciente n\u00e3o entrou em estado agudo e depois ele referia bem o quadro cl\u00ednico; estava deprimido no hospital e justificava isto, por ter consci\u00eancia da pr\u00f3pria situa\u00e7\u00e3o de internado, mas podemos verificar que o surto depressivo, se instalara antes do epis\u00f3dio que determinou a interna\u00e7\u00e3o. O estudo cl\u00ednico do caso esclarecia bem tratar-se de um quadro cl\u00ednico com heredologia mista, que reage com surtos de dipsomania ante as tend\u00eancias constitucionais, associando ainda epis\u00f3dios heterot\u00f3xicos, dos quais os dois \u00faltimos se mostraram acentuados a ponto de exigirem interna\u00e7\u00e3o. Ele foi internado num hospital, depois esteve l\u00e1 no Juqueri. Achava-se ainda obnubilado ao entrar, por\u00e9m, reconheceu o ambiente e dava informes relativos a si pr\u00f3prio, informes esses que foram confirmados ultimamente. Revelava a incid\u00eancia de alucina\u00e7\u00f5es auditivas tem\u00e1ticas, j\u00e1 ent\u00e3o em decl\u00ednio quando foi internado. No surto antecedente havia tamb\u00e9m ocorrido alucina\u00e7\u00f5es auditivas terrificantes e alucina\u00e7\u00f5es visuais on\u00edricas. Como fator patopl\u00e1stico dos dois surtos recentes foi comprovada uma altera\u00e7\u00e3o de fun\u00e7\u00f5es hepaticas. Para explicar o desvio do comportamento a hip\u00f3tese mais prov\u00e1vel \u00e9 a de encefalite na inf\u00e2ncia, evidenciada pelo exame neurooftalmol\u00f3gico que fora solicitado na ocasi\u00e3o. Atuando em indiv\u00edduo constitucionalmente do tipo p\u00edcnico ou timop\u00e1tico de Bumke, tal ocorr\u00eancia infecciosa remota seria respons\u00e1vel pelo transtorno instintivo geral, essa tend\u00eancia peri\u00f3dica para beber a qual tudo seria orientado pelo feitio end\u00f3geno da personalidade. H\u00e1 refer\u00eancia de irm\u00e3os que tem o mesmo tipo som\u00e1tico e tend\u00eancia para depress\u00e3o e exalta\u00e7\u00e3o afetiva, tipo P.M.D., portanto. Havia hip\u00f3tese de distireoidismo porque havia uma altera\u00e7\u00e3o discreta no metabolismo basal, havia tremores falangeanos e a taquicardia tamb\u00e9m, mas isso seria um aspecto coadjuvante de origem autot\u00f3xica. O paciente apresentou remiss\u00e3o completa do quadro e pudemos ent\u00e3o reconstituir. Ele disse que desta vez foi internado porque trabalhava no aeroporto na faxina e foi para a pista e come\u00e7ou a dar sinal aos avi\u00f5es. Isso criou uma confus\u00e3o tremenda e imediatamente ele foi apanhado, mas ele achava que podia fazer isso, que competia a ele, que ele n\u00e3o devia trabalhar como faxineiro, mas sim na parte mais importante que \u00e9 a pista, governando os avi\u00f5es. Foi internado em um outro hospital, antes de ir para o Juquery. Naquela ocasi\u00e3o obtivemos a ficha do outro hospital, e como ele era alcoolista foi feito o tratamento por \u00e1lcool endovenoso, tend\u00eancia para modificar o comportamento para ter a euforia a sensa\u00e7\u00e3o do \u00e1lcool sem ingerir \u00e1lcool. A administra\u00e7\u00e3o do \u00e1lcool endovenoso era em dose decrescente, solu\u00e7\u00e3o a 33% em soro glicosado; foram feitas seis inje\u00e7\u00f5es espa\u00e7adas, no final dizia que um m\u00eas depois \u201co tratamento decorreu sem novidades, exceto a esclerose das veias no local das inje\u00e7\u00f5es, do mesmo modo que para outros pacientes. Diz que as inje\u00e7\u00f5es lhe foram muito proveitosas dando um bem-estar geral e que no momento em que eram aplicadas tinha a mesma sensa\u00e7\u00e3o de que quando bebia, por\u00e9m, sem ter a menor sensa\u00e7\u00e3o de embriaguez. Viu diversos casos de alcoolismo no pavilh\u00e3o, e inteirou-se bem deles, e isso servira como exemplo do futuro que lhe esperava se continuasse a beber. Era, entretanto, uma dipsomania, tinha outros sintomas t\u00f3xicos, tinha uma encefalite de inf\u00e2ncia, que foi verificado depois pelo exame neurooftalmol\u00f3gico e de maneira que havia uma s\u00e9rie de circunst\u00e2ncias que foram deixadas de parte porque o fator essencial no momento era o alcoolismo. Ent\u00e3o nesse caso, vemos primeiramente, uma tend\u00eancia gen\u00e9tica para o grupo da psicose man\u00edaco-depressiva, forma f\u00e1sica; e uma constitui\u00e7\u00e3o que determinou dist\u00farbios peri\u00f3dicos, que seria a dipsomania. A dipsomania seria, segundo Kleist, uma forma benigna associada com a encefalite epid\u00eamica; depois uma forma confusional autot\u00f3xica ou heterot\u00f3xica ocasional, com um quadro de confus\u00e3o mental, associado com este quadro cl\u00ednico. Portanto, havia uma tend\u00eancia gen\u00e9tica vinculada \u00e0 psicose man\u00edaco-depressiva, tinha a dipsomania, e tinha um quadro decorrente da encefalite, al\u00e9m de um quadro confusional agudo. Portanto, apresentava uma sucess\u00e3o de psicoses (psicose associada): eram dois tipos de psicose que n\u00e3o dependiam, necessariamente, da carga gen\u00e9tica. Esse caso, portanto, n\u00e3o era uma psicose mista. A psicose Mista subentende que as duas s\u00e3o de ordem gen\u00e9tica.<\/p>\n\n\n\n<p>Um outro paciente, internado no Juqueri, parecia ser do tipo atl\u00e9tico, mas era leptoss\u00f4mico pela verifica\u00e7\u00e3o, segundo Viola. Apresentou uma forma simples cuja descri\u00e7\u00e3o seria essa: \u201cEsquizofrenia, variedade catat\u00f4nica \u2013 hipocin\u00e9tica; tipo som\u00e1tico longil\u00edneo e in\u00edcio dos dist\u00farbios um ano antes do tratamento. Remiss\u00e3o completa com o m\u00e9todo de von Meduna. Reinterna\u00e7\u00e3o dois meses depois da intercorr\u00eancia. Esse paciente foi anotado aqui com os pacientes que estavam com remiss\u00e3o parcial. Na parte cl\u00ednica, apresentava prec\u00e1ria orienta\u00e7\u00e3o quanto ao mundo objetivo, ao tempo, falseada a no\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio mundo subjetivo, alucina\u00e7\u00f5es auditivas com cochichamento,\u00a0 elabora\u00e7\u00e3o intelectual sem espontaneidade, aparentemente morosa e fracion\u00e1ria quando provocada, contradi\u00e7\u00f5es grosseiras de tipo al\u00f3gico, embotamento em geral quanto aos meios de express\u00e3o; tend\u00eancia a persevera\u00e7\u00e3o de atitude e de posi\u00e7\u00e3o; total defici\u00eancia de iniciativa; aparente embotamento afetivo, l\u00edquor sem altera\u00e7\u00f5es. Diagn\u00f3stico: esquizofrenia forma catat\u00f4nica, variante hipocin\u00e9tica. Os tratamentos de rotina em nada modificaram o quadro do paciente. O tratamento naquela ocasi\u00e3o era inje\u00e7\u00e3o de prote\u00ednas intramuscular, prote\u00edna de mel, prote\u00edna do leite, ou na veia, consistia no m\u00e9todo piretog\u00eanico, enfim. O tratamento de rotina de nada modificou o quadro do paciente, o qual, come\u00e7ou a ser submetido a tratamento convulsivante. Logo ap\u00f3s o inicio do tratamento denotou interesse pelas pr\u00f3prias condi\u00e7\u00f5es, evoluindo rapidamente para a remiss\u00e3o integral, em novembro de 1937. Conservou-se em plena remiss\u00e3o integral at\u00e9 a data da alta, em dezembro de 1937. Em 21 de janeiro do ano seguinte contraiu infec\u00e7\u00e3o febril de apar\u00eancia gripal; no dia seguinte irromperam alucina\u00e7\u00f5es auditivas intensas e polimorfas e agita\u00e7\u00e3o psicomotora brutal. Com esse quadro reentrou para o Hospital em 5 de fevereiro de 1938. Denotava ao exame direto, ideias delirantes absurdas, externadas com uma logorreia incoerc\u00edvel e incessante; o conjunto de sintomas concordava com os dados da anamnese objetiva e fazia pensar em encefalite psic\u00f3tica de Marchand, aguda. Procedido o exame de l\u00edquor revelou estas altera\u00e7\u00f5es discretas, por\u00e9m caracter\u00edsticas da psicose, uma pleiocitose, aumento de Beinjoim coloidal. Cinco dias depois da interna\u00e7\u00e3o o paciente come\u00e7ou a retornar ao estado normal de forma que no findar da quinzena estava em plena remiss\u00e3o.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Na segunda observa\u00e7\u00e3o psiqui\u00e1trica anotamos: orienta\u00e7\u00e3o alops\u00edquica integral, tem precis\u00e3o nos informes referentes \u00e0 pr\u00f3pria personalidade, o que retifica os dados anotados como primeira interna\u00e7\u00e3o; nega dist\u00farbios perceptivos atuais, refere-os como pregressos, tendo irrompido subitamente cerca de dezesseis dias antes da interna\u00e7\u00e3o. Assumiam car\u00e1ter de vozes tem\u00e1ticas, algumas injurias, outras apenas ir\u00f4nicas. Alega reconhecer o atual surto m\u00f3rbido e que se achava febril quando irrompeu o surto. Elabora\u00e7\u00e3o intelectual aparentemente sem dist\u00farbios intr\u00ednsecos, express\u00e3o sem anormalidades, dif\u00edcil de avaliar no momento atual a capacidade de empreendimento, porque est\u00e1 recentemente no hospital, todavia o paciente pedia para sair, alegando que se achava de novo inteiramente normalizado, no estado habitual. Aparentemente conservada a afetividade. Altera\u00e7\u00f5es do l\u00edquor discretas. O diagn\u00f3stico, ent\u00e3o, foi esse: epis\u00f3dio psic\u00f3tico agudo em paciente esquizofr\u00eanico. Ficou uma d\u00favida se apresentou uma remiss\u00e3o completa ou n\u00e3o. De qualquer forma, houve nesse per\u00edodo uma psicose enxertada, um quadro ocasional que irrompeu na vig\u00eancia da psicose esquizofr\u00eanica.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Observem que h\u00e1 v\u00e1rias possibilidades nesse terreno da chamada psicose mista. Pode haver realmente uma psicose mista onde h\u00e1 fus\u00e3o de dois quadros gen\u00e9ticos e pode haver uma psicose enxertada, em que o enxerto seria no paciente esquizofr\u00eanico. Pode haver psicoses que se associam apenas entre si e que n\u00e3o s\u00e3o mistas, s\u00e3o quadros progressivos e sistem\u00e1ticos, e que envolvem outras \u00e1reas cerebrais no processo patol\u00f3gico; ent\u00e3o seria uma evolu\u00e7\u00e3o do quadro, uma progress\u00e3o e n\u00e3o um enxerto ou uma fus\u00e3o de quadros cl\u00ednicos.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m podemos ver que \u00e9 poss\u00edvel que apare\u00e7am, com mais frequ\u00eancia, casos de fus\u00e3o de psicoses benignas com outros tipos diversos. A quest\u00e3o \u00e9 tomarmos o crit\u00e9rio patog\u00eanico, porque pela descri\u00e7\u00e3o, vamos considerar como sendo alucinose um quadro que n\u00e3o \u00e9 alucinose, pode ser uma rea\u00e7\u00e3o intempestiva indicada por vozes imperativas: n\u00e3o \u00e9 uma agressividade do indiv\u00edduo, mas uma rea\u00e7\u00e3o diante de um est\u00edmulo patol\u00f3gico.\u00a0<\/p>\n\n\n<ol class=\"wp-block-footnotes\"><li id=\"f86b9176-9ad6-47aa-96f2-1cf65f8fe604\">Texto organizado por Roberto Fasano Neto, em 2003, a partir de aula de An\u00edbal Silveira proferida em 12\/08\/71, em Campinas, sem refer\u00eancia de quem a compilou, sendo revista, em 13\/12\/22, por integrantes da Comiss\u00e3o de Revis\u00e3o do CEPAS: Fl\u00e1vio Vivacqua, Francisco Drumond de Marcondes de Moura, Paulo Palladini e Roberto Fasano Neto. <a href=\"#f86b9176-9ad6-47aa-96f2-1cf65f8fe604-link\" aria-label=\"Jump to footnote reference 1\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><\/ol>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>PSICOSES MISTAS, PSICOSES ASSOCIADAS E ENXERTADAS As psicoses mistas n\u00e3o s\u00e3o aceitas por todos os autores, mas dentre aqueles que levam em conta esse aspecto h\u00e1 uma not\u00e1vel diferen\u00e7a no crit\u00e9rio diagn\u00f3stico e que apresentam, de certa maneira, um aspecto contradit\u00f3rio entre si, pelo fato, em nossa opini\u00e3o, de n\u00e3o se basearem na patog\u00eanese dos [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"footnotes":"[{\"content\":\"Texto organizado por Roberto Fasano Neto, em 2003, a partir de aula de An\u00edbal Silveira proferida em 12\/08\/71, em Campinas, sem refer\u00eancia de quem a compilou, sendo revista, em 13\/12\/22, por integrantes da Comiss\u00e3o de Revis\u00e3o do CEPAS: Fl\u00e1vio Vivacqua, Francisco Drumond de Marcondes de Moura, Paulo Palladini e Roberto Fasano Neto.\",\"id\":\"f86b9176-9ad6-47aa-96f2-1cf65f8fe604\"}]"},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3326","page","type-page","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/anibalsilveira.org\/en\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/3326","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/anibalsilveira.org\/en\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/anibalsilveira.org\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/anibalsilveira.org\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/anibalsilveira.org\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3326"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/anibalsilveira.org\/en\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/3326\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3330,"href":"https:\/\/anibalsilveira.org\/en\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/3326\/revisions\/3330"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/anibalsilveira.org\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3326"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/anibalsilveira.org\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3326"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/anibalsilveira.org\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3326"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}