{"id":1463,"date":"2024-04-22T18:02:12","date_gmt":"2024-04-22T21:02:12","guid":{"rendered":"https:\/\/anibalsilveira.org\/?page_id=1463"},"modified":"2024-05-19T12:33:04","modified_gmt":"2024-05-19T15:33:04","slug":"o-sofrimento-psiquico-de-auguste-comte-uma-revisao-2","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/anibalsilveira.org\/fr\/o-sofrimento-psiquico-de-auguste-comte-uma-revisao-2\/","title":{"rendered":"O sofrimento ps\u00edquico de Auguste Comte: uma revis\u00e3o."},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong>Sobre o sofrimento ps\u00edquico de Auguste Comte: uma revis\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><strong><sup>Alexandre Valverde Marcondes de Moura\u00b9<br>Francisco Drumond Marcondes de Moura\u00b2<\/sup><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Para al\u00e9m de delimitar, de forma pioneira e inovadora, a no\u00e7\u00e3o do car\u00e1ter coletivo e, portanto, social e hist\u00f3rico do processo de constru\u00e7\u00e3o do conhecimento &#8211; \u201csem a qual n\u00e3o h\u00e1 verdade, nem ci\u00eancia\u201d<strong>\u00b3<\/strong> -, Comte tamb\u00e9m adverte quanto ao seu tributo pessoal, quando assinala que o homem, a seu pesar, \u00e9 fruto da sua \u00e9poca<sup><strong>4<\/strong><\/sup>. Como veremos mais adiante, essa reflex\u00e3o retrata com muita pertin\u00eancia as atribula\u00e7\u00f5es pelas quais Comte passou ao longo da sua vida, transcorrida no per\u00edodo de 1798 a 1857<strong><sup>5<\/sup><\/strong>.<br>Sob o ponto de vista social e hist\u00f3rico, esse per\u00edodo coincide, exatamente, com as intensas e profundas transforma\u00e7\u00f5es culturais, de car\u00e1ter revolucion\u00e1rio, da sociedade francesa, iniciada em 1789 e, sucessivamente, desdobrada nas mobiliza\u00e7\u00f5es sociais e oper\u00e1rias, de 1830 a 1850, culminando com o golpe de Estado de 2 de dezembro de 1851.<br>Importante ressaltar que esse processo hist\u00f3rico evolui, para al\u00e9m da vida de Comte, convergindo em 1871, para uma experi\u00eancia revolucion\u00e1ria de gest\u00e3o social: a Comuna de Paris. Como \u00e9 amplamente reconhecido, o significado hist\u00f3rico de tais acontecimentos, repercutiram muito para al\u00e9m das fronteiras da Fran\u00e7a, sendo analisado de forma inovadora por Marx e Engels.<strong><sup>6<\/sup><\/strong><br>Considerada a linha do tempo da sua vida, a produ\u00e7\u00e3o intelectual de Comte abrange um per\u00edodo inicial de 1819 a 1828, com a publica\u00e7\u00e3o de um conjunto de seis textos reunidos sob a denomina\u00e7\u00e3o de \u201cOp\u00fasculos de Filosofia Social\u201d<sup><strong>7<\/strong><\/sup>. No per\u00edodo de 1830 a 1856 publicou as suas principais obras: os seis volumes do Curso de Filosofia Positiva (1830 a 1842), o Tratado Filos\u00f3fico de Astronomia Popular, tendo como pre\u00e2mbulo, o Discurso Preliminar sobre o Esp\u00edrito Positivo (1844), os quatro volumes do Sistema de Pol\u00edtica Positiva (1852) e a publica\u00e7\u00e3o do primeiro volume da S\u00edntese Subjetiva &#8211; Sistema de L\u00f3gica Positiva (1856).<strong><sup>8<\/sup><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><sup><strong>1 <sub>M\u00e9dico psiquiatria, membro fundador do CEPAS<\/sub><br>2 <sub>M\u00e9dico Psiquiatra, Presidente do CEPAS &#8211; Centro de Estudo e Pesquisa An\u00edbal Silveira.<\/sub><br>3 <br>4 <br>5 <sub>Isidore Auguste Marie Fran\u00e7ois Xavier Comte, nasceu em Montpellier em 19 de janeiro de 1798 e morreu em Paris em 5 de setembro de 1857<\/sub><br>6 <sub>\u201cAs Lutas de Classes em Fran\u00e7a &#8211; de 1848 a 1850 (1850)\u201d, \u201cO 18 Brum\u00e1rio de Lu\u00eds Bonaparte (1852)\u201d e \u201cA Guerra Civil na Fran\u00e7a (1871)\u201d.<\/sub><br>7<\/strong><\/sup><br><strong><sup>8<\/sup><\/strong> <sub><sup><strong>Quantificar toda a produ\u00e7\u00e3o intelectual, comparar a sua produ\u00e7\u00e3o com a de outros autores visando demonstrar a pot\u00eancia intelectual de Comte, ao mesmo tempo que demonstra a integridade do seu trabalho mental ap\u00f3s o surto de 1826. Avaliar se na sua \u00faltima obra, de 1856, \u201cS\u00edntese Subjetiva &#8211; Sistema de L\u00f3gica Positiva\u201c demonstra a preserva\u00e7\u00e3o da qualidade da sua produ\u00e7\u00e3o intelectual at\u00e9 o final da sua vida.<\/strong><\/sup><\/sub><br>Nessa mesma linha do tempo da sua vida, o ano de 1826 demarca a sua primeira e mais grave \u201ccrise cerebral\u201d<strong><sup>9<\/sup><\/strong>, que lhe acarretou a interna\u00e7\u00e3o na Cl\u00ednica de Esquirol<strong><sup>10<\/sup><\/strong>. Sucessivamente, o pr\u00f3prio Comte reconheceu outras tr\u00eas crises, de menor gravidade e sem a intercorr\u00eancia de interna\u00e7\u00e3o: em 1838, 1842 e 1845.<strong><sup>11<\/sup><\/strong><br>O objetivo central dessa revis\u00e3o \u00e9 elucidar a patog\u00eanese desses agravos \u00e0 sa\u00fade mental de Comte, partindo do entendimento do car\u00e1ter multifatorial envolvido no desencadeamento e na configura\u00e7\u00e3o de qualquer quadro cl\u00ednico que traduza um sofrimento ps\u00edquico grave: sua vincula\u00e7\u00e3o social (a pessoa imersa em um determinado contexto hist\u00f3rico e social), a hist\u00f3ria da sua vida, a hist\u00f3ria e din\u00e2mica do seu n\u00facleo familiar, as suas disposi\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas e a sua inser\u00e7\u00e3o na vida institucional ou no mundo do trabalho<strong><sup>12<\/sup><\/strong>.<br>O processo de an\u00e1lise dos seus sucessivos agravos vai levar em considera\u00e7\u00e3o, rigorosamente, a pr\u00f3pria avalia\u00e7\u00e3o de Comte, tomando como ponto de partida o seu entendimento sobre a crise de 1826, explicitado muitos anos ap\u00f3s, que ele sintetizou, de forma precisa, em poucas palavras: \u201cuma combina\u00e7\u00e3o fatal de grandes dores morais com violento excesso de trabalho\u201d<strong><sup>13<\/sup><\/strong><br>E ainda: \u201ceu constatei, irrefutavelmente, no ano seguinte, que esse terr\u00edvel epis\u00f3dio n\u00e3o havia em nada alterado a perfeita continuidade do meu desenvolvimento mental, ao cumprir at\u00e9 o fim a elabora\u00e7\u00e3o oral assim interrompida tr\u00eas anos antes<strong><sup>14<\/sup><\/strong>, e que em seguida fez nascer o tratado<strong><sup>15<\/sup><\/strong> que eu termino hoje.\u201d<strong><sup>16<\/sup><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong><sup>9 <sub>Assim, muitos anos depois, plenamente recuperado, Comte denominou a sua crise psic\u00f3tica aguda de 1826.<\/sub><br>10 <sub>Alienista, disc\u00edpulo de Pinel e um dos patronos da Psiquiatria Francesa<\/sub>.<br>11 <sub>Comte, A.,\u201dCorrespondance g\u00e9n\u00e9rale et confessions\u201d,t.III, 1845-1846.<\/sub><br>12\u00a0<sub>Consoante a formula\u00e7\u00e3o de Robert Castel, \u201cAs metamorfoses da quest\u00e3o social\u201d.<\/sub><br>13 <sub>Comte, A., \u201cPr\u00e9face Personelle\u201d, Cours, Tome Sixi\u00e8me et Dernier, 1842<\/sub><br>14 <sub>Para esclarecer essa coloca\u00e7\u00e3o: \u201cA longa dura\u00e7\u00e3o da elabora\u00e7\u00e3o que eu completo hoje poderia primeiro ser imputada \u00e0 suspens\u00e3o for\u00e7ada que ela enfrentou, logo ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o do primeiro volume, como resultado da crise industrial causada pela memor\u00e1vel agita\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de 1830.\u00a0 Assim, for\u00e7ado a procurar um novo editor, tive que interromper, por cerca de quatro anos, uma composi\u00e7\u00e3o que, de acordo com a minha natureza e h\u00e1bitos, s\u00f3 poderia ser escrita visando uma impress\u00e3o imediata\u201d. Pr\u00e9face.<\/sub><br>15 <sub>Refer\u00eancia ao \u201cCours de Philosophie Positive\u201d, iniciada em 1830 e conclu\u00edda em 1842.<\/sub><br>16 <sub>Comte, A., \u201cPr\u00e9face Personelle\u201d, Cours, Tome Sixi\u00e8me et Dernier, 1842<\/sub><\/sup><\/strong><br>Essa caracteriza\u00e7\u00e3o de Comte, associada ao car\u00e1ter revers\u00edvel do seu transtorno mental &#8211; que p\u00f4de ser observado na evolu\u00e7\u00e3o favor\u00e1vel do seu agravo \u00e0 sa\u00fade mental -, traduzido pela recupera\u00e7\u00e3o integral da sua capacidade ps\u00edquica, aponta para uma hip\u00f3tese diagn\u00f3stica de um quadro psic\u00f3tico transit\u00f3rio, de car\u00e1ter auto t\u00f3xico, cuja an\u00e1lise mais aprofundada ser\u00e1 conduzida mais \u00e0 frente.<br>Naturalmente, dentre outros aspectos, ser\u00e1 necess\u00e1rio verificar os dados e as anota\u00e7\u00f5es do prontu\u00e1rio de Comte, do per\u00edodo em que esteve internado na cl\u00ednica particular de Esquirol.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong>Cr\u00edtica ao empirismo e \u00e0 desumaniza\u00e7\u00e3o da pr\u00e1tica psiqui\u00e1trica e manicomial<sup>17<\/sup><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s recuperar plenamente a sua capacidade cr\u00edtica, Comte faz uma an\u00e1lise demolidora sobre as pr\u00e1ticas do \u201ccuidado psiqui\u00e1trico\u201d a que foi submetido e \u00e0s pr\u00e1ticas da institui\u00e7\u00e3o manicomial que, como veremos, tais cr\u00edticas permanecem atual\u00edssimas.<\/p>\n\n\n\n<p>No in\u00edcio de abril de 1826, logo no in\u00edcio das aulas que ministrava para um grupo de oper\u00e1rios<strong><sup>18<\/sup><\/strong>, Comte apresentou uma crise que comprometeu o seu ju\u00edzo de realidade, por ele atribu\u00edda &#8211; como j\u00e1 referido -, ao \u201cconcurso de grandes penas morais com violentos excessos de trabalho. Prudentemente entregue a seu curso espont\u00e2neo, essa crise teria, sem d\u00favida, logo estabelecido o seu curso normal, como a evolu\u00e7\u00e3o o mostrou claramente\u2026 [mas houve uma desastrosa interven\u00e7\u00e3o de uma medica\u00e7\u00e3o emp\u00edrica no estabelecimento particular do respeitado Esquirol, onde o mais absurdo tratamento me conduziu rapidamente a uma aliena\u00e7\u00e3o muito caracterizada\u201d.<sup><strong>19<\/strong><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s oito meses de interna\u00e7\u00e3o<strong><sup>20<\/sup><\/strong> foi retirado da Cl\u00ednica de Esquirol: \u201cse sua esposa n\u00e3o o tivesse retirado, ele certamente teria morrido ali, n\u00e3o da doen\u00e7a das meninges, para a qual ele havia sido internado, mas do tratamento, [j\u00e1 que ele certamente havia sa\u00eddo mais doente do que havia entrado\u201d<strong><sup>21<\/sup><\/strong>. Ap\u00f3s isto, \u201crecupera em poucas semanas a sua organiza\u00e7\u00e3o mental, triunfando, sobretudo, sobre os rem\u00e9dios\u201d.<strong><sup>22<\/sup><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A cr\u00edtica de Comte n\u00e3o se limita ao desempenho das interven\u00e7\u00f5es \u201cterap\u00eauticas\u201d. Com a mesma for\u00e7a, dispara uma cr\u00edtica demolidora da institui\u00e7\u00e3o manicomial, demarcando, inclusive, a aus\u00eancia de cr\u00edtica de Broussais<strong><sup>23<\/sup><\/strong> sobre essa quest\u00e3o. Comte observa que \u00eale n\u00e3o conhece a real situa\u00e7\u00e3o dos manic\u00f4mios: \u201cse os tivesse estudado por si mesmo, teria se convencido de que, apesar das promessas de seus dirigentes, toda a parte intelectual e emocional do tratamento l\u00e1 se encontram abandonados por eles \u00e0 a\u00e7\u00e3o arbitr\u00e1ria de agentes subordinados e rudes, cuja conduta quase sempre agrava a doen\u00e7a que deveriam ajudar a curar\u201d<strong><sup>24<\/sup><\/strong>. Essa cr\u00edtica de Comte \u00e0 institui\u00e7\u00e3o psiqui\u00e1trica \u00e9 muito similar \u00e0quela proposta, na atualidade, pela abordagem desinstitucionalizante<strong><sup>25<\/sup><\/strong>, express\u00e3o vigorosa de uma psiquiatria comprometida com uma atitude humanista radical na aten\u00e7\u00e3o psicossocial das pessoas em sofrimento ps\u00edquico.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><sup>17<sub> No per\u00edodo da vida de Comte, os psiquiatras eram denominados de alienistas.<\/sub><br>18<br>19 <sub>Comte, A., \u201cPr\u00e9face Personelle\u201d, Cours<\/sub><br>20<br>21 <sub>Citado por Braunstein, referente a uma carta de Charles Robin a Littr\u00e9.<\/sub><br>22 <sub>Citado por Braunstein: Foi o que ele repetiu ao longo de toda sua vida, como testemunha Charles Robin numa carta a Littr\u00e9: \u201cM. Comte, que gostava de me falar de medicina, em particular de medicina mental, nunca deixou de perseguir com o seu sarcasmo o tratamento da loucura por duchas e outros meios an\u00e1logos: ao expor sua maneira de ver de uma forma verdadeiramente humor\u00edstica, e ao nos ver rir, passou a se citar como exemplo, e a nos contar de maneira formal e clara da maneira mais s\u00e9ria e serena\u2026\u201d,Comte, A., refer\u00eancia<\/sub><br>23<br>24 <sub>Poder\u00edamos observar aqui que se trata apenas de um retorno \u00e0 origem do tratamento moral, se aceitarmos a ideia de Fran\u00e7ois Bing e Jacques Postel que este foi aprimorado conjuntamente por Pinel e o \u201csurveillant\u201d Pussin; BING, Fran\u00e7ois, POSTEL, Jacques, \u00abPhilippe Pinel et les \u201cconcierges\u201d \u00bb, in ROUDINESCO, \u00c9lisabeth et al., Penser la folie. Essais sur Michel Foucault, Paris, Galil\u00e9e, 1992.<\/sub><br>25<\/sup><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pr\u00e1tica psiqui\u00e1trica, no Cours, Comte observa que, ainda mais do que outros m\u00e9dicos, os psiquiatras \u201cest\u00e3o quase sempre, ainda menos que a maioria dos outros, intelectualmente, ou mesmo moralmente, \u00e0 altura de sua importante miss\u00e3o\u201d<sup><strong>26<\/strong><\/sup>. Eles est\u00e3o &#8220;geralmente mais ocupados em controlar rudemente seus pacientes do que em analisar criteriosamente os fen\u00f4menos&#8221;<strong><sup>27<\/sup><\/strong>. Na mesma dire\u00e7\u00e3o, no Syst\u00e8me de Politique, ele deplora o &#8220;empirismo desastroso, que demasiadas vezes entrega o mais dif\u00edcil dos servi\u00e7os m\u00e9dicos \u00e0s mentes e cora\u00e7\u00f5es menos dignos<sup><strong>28<\/strong><\/sup>&#8220;.<\/p>\n\n\n\n<p>Lamenta que &#8220;o estudo das doen\u00e7as cerebrais, sejam mentais, sejam sobretudo morais, esta parte transcendente da arte m\u00e9dica [\u2026] se encontre habitualmente abandonada \u00e0s mentes med\u00edocres unidas aos cora\u00e7\u00f5es mais vulgares<sup><strong>29<\/strong><\/sup>&#8220;.<\/p>\n\n\n\n<p>As insufici\u00eancias te\u00f3ricas dos psiquiatras devem-se principalmente ao fato de n\u00e3o disporem do princ\u00edpio de Broussais: na aus\u00eancia desse princ\u00edpio, suas monografias s\u00e3o &#8220;acumula\u00e7\u00f5es inintelig\u00edveis de pretensas maravilhas, que afastam qualquer ideia de uma conex\u00e3o positiva com o estado normal\u201d. Al\u00e9m disso, eles n\u00e3o souberam como determinar de antem\u00e3o o que \u00e9 esse &#8220;verdadeiro estado normal<strong><sup>30<\/sup><\/strong>&#8220;.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><sup>26  <sub>COMTE, A., <em>Cours de philosophie positive,<\/em> t. I, p. 877.<\/sub><br>27 <sub>Ibid.<br><\/sub>28 <sub>COMTE, A.,\u00a0 <em>Syst\u00e8me de politique positive<\/em>, t. I, op. cit., p. 733.<\/sub><br>29 <sub>Ibid., t. I, p. 567-568.<\/sub><br>30 <sub>COMTE, A., <em>Cours de philosophie positive,<\/em> t. I, p. 877.<\/sub><\/sup><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>As suas insufici\u00eancias &#8220;morais&#8221; devem-se ao fato de que n\u00e3o sabem compreender a import\u00e2ncia do &#8220;moral&#8221; na vida humana: cometem o erro de acreditar que o homem pode ser reduzido ao &#8220;f\u00edsico&#8221;. Essa cr\u00edtica vale, ali\u00e1s, para toda a classe m\u00e9dica, que ignora, para usar a express\u00e3o de Cabanis, &#8220;as rela\u00e7\u00f5es entre o f\u00edsico e o moral do homem&#8221;. Isso \u00e9 o que Comte observa em uma passagem famosa: &#8220;M\u00e9dicos que estudam apenas o animal em n\u00f3s, e n\u00e3o o humano, degeneram em veterin\u00e1rios ou ainda pior: nossos chamados m\u00e9dicos s\u00e3o realmente apenas veterin\u00e1rios, mas mais mal educados do que estes est\u00e3o agora, pelo menos na Fran\u00e7a e, portanto, em geral t\u00e3o pouco capazes de curar tanto animais quanto homens<strong><sup>31<\/sup><\/strong>&#8220;.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><sup>31<\/sup><\/strong>\u00a0<strong><sup><sub>COMTE, A.,\u00a0 <em>Syst\u00e8me de politique positive<\/em>, t. II, p. 436.<\/sub><\/sup><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong>A quest\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o do c\u00e9rebro com o psiquismo em Comte<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 muito prov\u00e1vel que, em larga medida, a viv\u00eancia da crise psic\u00f3tica por Comte, acentuada pelo contato, por ela imposta, com uma insuspeitada e not\u00e1vel insufici\u00eancia da capacidade de diagn\u00f3stico e de interven\u00e7\u00e3o terap\u00eautica de um dos mais prestigiados servi\u00e7os de cuidado \u00e0s pessoas portadoras de transtornos mentais da Fran\u00e7a<strong><sup>32<\/sup><\/strong>, esteja na raiz, n\u00e3o apenas da sua aguda cr\u00edtica \u00e0 institui\u00e7\u00e3o psiqui\u00e1trica, mas sobretudo, na formula\u00e7\u00e3o do que ent\u00e3o consistiria uma psiquiatria mais pertinente e, naturalmente, mais humanizada.<br>Comte estabeleceu, de uma forma muito assertiva e clara, em que dire\u00e7\u00e3o deveria seguir uma psiquiatria \u201cregenerada\u201d<strong><sup>33<\/sup><\/strong>, que pudesse empreender, com suficiente dignidade e discernimento, o exerc\u00edcio do seu pretendido trabalho terap\u00eautico.<br>Assim, delimitou o lugar da psiquiatria no campo do &#8220;estudo positivo das fun\u00e7\u00f5es intelectuais e morais ou cerebrais&#8221;<strong><sup>34<\/sup><\/strong>, situando-a na jun\u00e7\u00e3o entre a biologia e a sociologia. A sua vincula\u00e7\u00e3o com a biologia decorrente do imperativo de implicar estudo do c\u00e9rebro, mas s\u00f3 pode ser verdadeiramente constitu\u00edda depois da institui\u00e7\u00e3o da sociologia, j\u00e1 que as doen\u00e7as mentais s\u00e3o sempre doen\u00e7as sociais<strong><sup>35<\/sup><\/strong>.<br>Para Comte, a psiquiatria \u00e9 a &#8220;parte transcendente da arte m\u00e9dica&#8221; que conhece o mais diretamente a subordina\u00e7\u00e3o da biologia \u00e0 sociologia, do homem \u00e0 Humanidade<strong><sup>36<\/sup><\/strong>.<br>\u00c9 preciso, segundo Comte, acabar com a &#8220;separa\u00e7\u00e3o&#8221; entre a alma, confiada \u00e0 religi\u00e3o, e o corpo, objeto da medicina, bem como com a ideia absurda de um homem isolado: a maioria das doen\u00e7as t\u00eam uma origem social e est\u00e3o localizadas previamente no c\u00e9rebro. Os verdadeiros m\u00e9dicos, e em primeiro lugar os psiquiatras, ser\u00e3o m\u00e9dicos &#8220;sint\u00e9ticos&#8221;, sob tr\u00eas pontos de vista. Devem compreender que o homem \u00e9 um todo, que ele \u00e9 imposs\u00edvel de desagregar [..]tamb\u00e9m precisam entender a &#8220;conex\u00e3o \u00edntima&#8221; entre a alma (ou seja, para Comte, o c\u00e9rebro<strong><sup>37<\/sup><\/strong>) e o corpo.<br>Os psiquiatras tamb\u00e9m tendem a subestimar o papel das faculdades afetivas, do &#8220;cora\u00e7\u00e3o&#8221;, e a ver nas doen\u00e7as mentais apenas dist\u00farbios das faculdades racionais. Sobre esses diversos pontos, a cr\u00edtica dos psiquiatras se junta \u00e0 desses m\u00e9dicos materialistas, desses &#8220;bi\u00f3logos puros&#8221;, que reduzem o superior ao inferior, o moral ao f\u00edsico, e que n\u00e3o compreendem a unidade da alma e do corpo, isto \u00e9, do c\u00e9rebro e do corpo<strong><sup>38<\/sup><\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p><sup><strong>32 \u00a0<sub>Maison de Esquirol, em Charenton<\/sub><br>33 <sub>Como salienta Pickering, regenerada era um sin\u00f4nimo da revelucionaria, no contexto da revolu\u00e7\u00e3o franc\u00easa.<\/sub><br>34 <br>35<br>36<sub> COMTE, A., Syst\u00e8me de politique positive, t. I, op. cit., p. 567.<\/sub><br>37\u00a0<sub>Auguste Comte passa os \u00faltimos anos da sua vida estabelecendo um \u00ab tableau c\u00e9r\u00e9bral \u00bb, que ele nomeia tamb\u00e9m \u00abclassification positive des dix-huit fonctions int\u00e9rieures du cerveau ou tableau syst\u00e9matique de l\u2019\u00e2me \u00bb (<em>Syst\u00e8me de politique positive<\/em>, t. I, op. cit., p. 726). Deste ponto de vista, a alma n\u00e3o \u00e9 apenas \u00ab\u00a0reduzida\u00a0\u00bb ao c\u00e9rebro, o c\u00e9rebro beneficia de um bom n\u00famero dos atributos da alma tradicional, inclusive a Imortalidade.<br><\/sub>38 <sub>Ibid, p 386<\/sub><\/strong><\/sup><br>A intera\u00e7\u00e3o existe n\u00e3o apenas no sentido que vai do f\u00edsico para o moral, mas tamb\u00e9m no sentido inverso, do moral para o f\u00edsico. Finalmente, os m\u00e9dicos ser\u00e3o sint\u00e9ticos se tomarem consci\u00eancia da &#8220;necess\u00e1ria irracionalidade das concep\u00e7\u00f5es relativas ao homem individual&#8221;<strong><sup>39<\/sup><\/strong>. O homem nunca est\u00e1 sozinho, e a maioria das doen\u00e7as tem uma origem social: &#8220;Devemos agora descartar a concep\u00e7\u00e3o do homem isolado como uma abstra\u00e7\u00e3o t\u00e3o viciosa na medicina quanto na pol\u00edtica.<strong><sup>40<\/sup><\/strong>&#8220;<\/p>\n\n\n\n<p><strong><sup>39<\/sup><\/strong> <sub><sup><strong>COMTE, A.,\u00a0 <em>Syst\u00e8me de politique positive<\/em>, t. I, op. cit., p. 567.<\/strong><\/sup><\/sub><br><strong><sup>40<\/sup><\/strong> <sub><sup><strong>Lettre \u00e0 Audiffrent du 21 d\u00e9cembre 1854, <em>Correspondance g\u00e9n\u00e9rale et confessions<\/em>, t. VII, 1853- 1854, Paris, EHESS-Vrin, 1987, p. 284.<\/strong><\/sup><\/sub><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sobre o sofrimento ps\u00edquico de Auguste Comte: uma revis\u00e3o Alexandre Valverde Marcondes de Moura\u00b9Francisco Drumond Marcondes de Moura\u00b2 Para al\u00e9m de delimitar, de forma pioneira e inovadora, a no\u00e7\u00e3o do car\u00e1ter coletivo e, portanto, social e hist\u00f3rico do processo de constru\u00e7\u00e3o do conhecimento &#8211; \u201csem a qual n\u00e3o h\u00e1 verdade, nem ci\u00eancia\u201d\u00b3 -, Comte tamb\u00e9m [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-1463","page","type-page","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/anibalsilveira.org\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1463","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/anibalsilveira.org\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/anibalsilveira.org\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/anibalsilveira.org\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/anibalsilveira.org\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1463"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/anibalsilveira.org\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1463\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2245,"href":"https:\/\/anibalsilveira.org\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1463\/revisions\/2245"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/anibalsilveira.org\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1463"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/anibalsilveira.org\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1463"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/anibalsilveira.org\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1463"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}