{"id":2377,"date":"2024-06-11T20:35:12","date_gmt":"2024-06-11T23:35:12","guid":{"rendered":"https:\/\/anibalsilveira.org\/?page_id=2377"},"modified":"2024-06-11T20:35:12","modified_gmt":"2024-06-11T23:35:12","slug":"praticas-grupais-em-saude-mental-e-saude-do-trabalhador-a-experiencia-com-grupos-de-referencia","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/anibalsilveira.org\/fr\/praticas-grupais-em-saude-mental-e-saude-do-trabalhador-a-experiencia-com-grupos-de-referencia\/","title":{"rendered":"Pr\u00e1ticas grupais em sa\u00fade mental e sa\u00fade do trabalhador:\u00a0a experi\u00eancia com Grupos de Refer\u00eancia."},"content":{"rendered":"<p class=\"has-text-align-center\">Pr\u00e1ticas grupais em sa\u00fade mental e sa\u00fade do trabalhador:<br>a experi\u00eancia com Grupos de Refer\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><sup><strong>Francisco Drumond Marcondes de Moura<\/strong><\/sup><sup data-fn=\"d0196957-a168-4a5b-88d2-35a1043e13ff\" class=\"fn\"><a href=\"#d0196957-a168-4a5b-88d2-35a1043e13ff\" id=\"d0196957-a168-4a5b-88d2-35a1043e13ff-link\">1<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><sup><strong>\u201cContra o pessimismo da raz\u00e3o, o otimismo da pr\u00e1tica\u201d<br>Gramsci<\/strong><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Por pr\u00e1ticas grupais em sa\u00fade mental e sa\u00fade do trabalhador<em> <\/em>denomino aquelas desenvolvidas no \u00e2mbito da rede de aten\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade do trabalhador e \u00e0 sa\u00fade mental, integrantes do SUS, que visam resgatar ou ressaltar a dimens\u00e3o coletiva e social do sofrimento mental, incluindo aqui aqueles condicionados pelo trabalho. No mesmo sentido e forma, parto do pressuposto que estas pr\u00e1ticas podem e devem se desenvolver tamb\u00e9m no \u00e2mbito das organiza\u00e7\u00f5es de trabalhadores, sindicatos ou associa\u00e7\u00f5es, assim como no \u00e2mbito de outras a\u00e7\u00f5es program\u00e1ticas do SUS.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste breve ensaio, apresento os principais referenciais te\u00f3ricos, metodol\u00f3gicos e t\u00e9cnicos do trabalho com Grupos, dirigido aos trabalhadores do SUS, particularmente, para aqueles inseridos nos Centros Estaduais ou Regionais de Refer\u00eancia em Sa\u00fade do Trabalhador (CRSTs), e com aqueles inseridos em interfaces estrat\u00e9gicas do campo da sa\u00fade mental e do campo da sa\u00fade do trabalhador:\u00a0 nos Centros de Aten\u00e7\u00e3o Psicossocial (CAPSs), nos Ambulat\u00f3rios de Sa\u00fade Mental, nos N\u00facleos de Apoio \u00e1 Sa\u00fade da Fam\u00edlia (NASF) e nas equipes de sa\u00fade mental da Aten\u00e7\u00e3o B\u00e1sica.<\/p>\n\n\n\n<p>Na verdade, tenho a expectativa que este texto possa encoraj\u00e1-los a incorporar a pr\u00e1tica grupal no seu cotidiano de trabalho, mesmo considerando as condi\u00e7\u00f5es adversas, de toda a ordem, com as quais se defrontam: eu conhe\u00e7o bem estas dificuldades. No entanto, os resultados proporcionados por esta pr\u00e1tica s\u00e3o muito gratificantes: as pessoas mudam de lugar, refazem as suas vidas, elas bem reconhecer\u00e3o o significado deste trabalho em suas vidas. E isto retroalimentar\u00e1 positivamente os trabalhadores a perseverarem neste caminho.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Esta \u00e9 uma atividade que dignifica e qualifica a atividade profissional e muito pertinente \u00e0 miss\u00e3o maior do SUS que \u00e9 a promo\u00e7\u00e3o da sa\u00fade da comunidade. Passo ao largo da discuss\u00e3o dos \u201cgrupos terap\u00eauticos\u201d. Estes correspondem a pr\u00e1ticas de t\u00e9cnicos que, individualizam as causas, at\u00e9 \u00e0 exaspera\u00e7\u00e3o, do sofrimento ps\u00edquico das pessoas; apoiados, invariavelmente, em abordagens discut\u00edveis. Sustento aqui, como Franco Basaglia, que a \u201cliberdade \u00e9 terap\u00eautica\u201d. Nesta dire\u00e7\u00e3o, re\u00fano uma bibliografia b\u00e1sica que cont\u00eam os m\u00faltiplos aspectos exigidos &#8211; abrangendo campos distintos do conhecimento -, para orientar a interven\u00e7\u00e3o sobre este objeto multifacetado e interdisciplinar por excel\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong>O processo grupal<\/strong><strong> <\/strong><strong> <\/strong><strong> <\/strong><strong> <\/strong><strong> <\/strong><strong> <\/strong><strong> <\/strong><strong> <\/strong><strong> <\/strong><strong> <\/strong><strong> <\/strong><strong> <\/strong><strong> <\/strong><strong> <\/strong><strong> <\/strong><strong> <\/strong><strong> <\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O Grupo \u00e9 um lugar onde um determinado n\u00famero de pessoas considera, juntos, a realidade: de si mesmas, de seus n\u00facleos familiares e da vida social como um todo. O Grupo \u00e9 um lugar de compartilhamento e de constru\u00e7\u00e3o da solidariedade. Um lugar de mobiliza\u00e7\u00e3o de rela\u00e7\u00f5es sociais e, por isto, de fortalecimento da sociabilidade<sup data-fn=\"fec9b0ea-8b8a-43b5-96d6-0ea6d49594f0\" class=\"fn\"><a href=\"#fec9b0ea-8b8a-43b5-96d6-0ea6d49594f0\" id=\"fec9b0ea-8b8a-43b5-96d6-0ea6d49594f0-link\">2<\/a><\/sup>. Um espa\u00e7o onde seus integrantes se permitem explicitar sua ang\u00fastia, sua loucura e seu sofrimento, e sa\u00edrem dali inteiros.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Este permite que se vejam de um outro lugar, um lugar coletivo, para al\u00e9m de si mesmos. Lugar que cont\u00e9m em si a possibilidade de uma resignifica\u00e7\u00e3o das suas vidas e de suas hist\u00f3rias, a partir da compreens\u00e3o da dimens\u00e3o coletiva e dos condicionantes sociais e hist\u00f3ricos que est\u00e3o na raiz do sofrimento ps\u00edquico que os afligem. E, por esta raz\u00e3o, coloc\u00e1-los em um movimento interno que tem o potencial de faz\u00ea-los desvencilhar dos seus trajes de v\u00edtimas e torn\u00e1-los agentes transformadores: n\u00e3o apenas de si mesmos, mas tamb\u00e9m, potencialmente, das pessoas da sua rede de rela\u00e7\u00f5es sociais. Esta \u00e9 a compreens\u00e3o e a aposta que fa\u00e7o do trabalho grupal, como de resto \u00e9 a expectativa de todos aqueles que implementam atividades grupais, em uma perspectiva libert\u00e1ria, emancipat\u00f3ria, desmistificadora, desalienante e transformadora.\u00a0\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Mas toda e qualquer atividade grupal encerra esta possibilidade? Quais referenciais te\u00f3ricos e quais abordagens t\u00e9cnicas seriam mais apropriadas para nortear as nossas pr\u00e1ticas grupais com este objetivo? \u00c9 cab\u00edvel esta proposta de trabalho grupal, aqui considerada, no \u00e2mbito de um projeto terap\u00eautico de um determinado paciente, ou conjunto de pacientes?\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Na verdade, poucos autores fazem essas perguntas ou compreendem o processo grupal nesta perspectiva. Da mesma forma, na atualidade, s\u00e3o poucos os t\u00e9cnicos inseridos nos dispositivos da sa\u00fade mental e da sa\u00fade do trabalhador do SUS, que trabalham nesta perspectiva, apesar de atuarem em redes de aten\u00e7\u00e3o que foram concebidas e viabilizadas pela mobiliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de movimentos, cujos fundamentos ideol\u00f3gicos s\u00e3o marcadamente contra hegem\u00f4nicos, desmedicalizantes e que estabelecem a prioridade de interven\u00e7\u00e3o sobre os determinantes sociais do processo sa\u00fade\/doen\u00e7a: o movimento da luta anti-manicomial e o movimento nacional de sa\u00fade do trabalhador, ambos, com fortes conex\u00f5es com os sindicatos de trabalhadores e com outras organiza\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n\n\n\n<p>Pelo contr\u00e1rio, podemos observar nas pr\u00e1ticas vigentes uma tend\u00eancia generalizada, de serem adotadas teorias e t\u00e9cnicas do trabalho grupal, de forma indiscriminada, como se todas correspondessem a um mesmo campo ideol\u00f3gico.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Um bom exemplo disto \u00e9 o referencial te\u00f3rico\/pr\u00e1tico de Kurt Lewin. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida sobre a import\u00e2ncia do trabalho de Lewin nos anos 40, no contexto da II Guerra Mundial. Foi o mais significativo representante da psicomicrossociologia. Osvaldo Saidon (1983), em \u00a8Praticas Grupais\u00a8, tem um capitulo dedicado ao trabalho de Kurt Lewin, onde se pode apreciar tamb\u00e9m uma analise critica bem sustentada desta abordagem: \u201cse o conhecimento das leis que regem o pequeno grupo, permite ao psicossociologo instalar um clima de colabora\u00e7\u00e3o na empresa, escola ou grupo experimental de trabalho, porque estes m\u00e9todos n\u00e3o poderiam ser utilizados para por fim \u00e0 luta de classes, \u00e0 guerra e ao racismo etc.? &#8230;..K.Lewin considerava seu trabalho coerente com este tipo de projeto, com base em um otimismo ing\u00eanuo que rapidamente se viu absolutamente injustificado. A extrapola\u00e7\u00e3o das observa\u00e7\u00f5es sobre os pequenos grupos para a sociedade global acabou fazendo com que os psicossociologos funcionassem como agentes de defesa de institui\u00e7\u00f5es obsoletas, organizando artif\u00edcios para contornar os conflitos e a subleva\u00e7\u00e3o daqueles grupos que chegavam a questionar a organiza\u00e7\u00e3o social ent\u00e3o vigente. Assim, um certo \u201c\u00f3pio psicol\u00f3gico\u201d veio, mais que a desvelar, a ocultar a verdadeira realidade social.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Como compatibilizar o exerc\u00edcio de pr\u00e1ticas contra hegem\u00f4nicas \u2013 como acreditamos devam ser as de sa\u00fade mental e as de sa\u00fade do trabalhador -, com um marco referencial desses? N\u00e3o h\u00e1 pr\u00e1tica contra hegem\u00f4nica sem teoria contra hegem\u00f4nica. Pela import\u00e2ncia que apresentam, as pr\u00e1ticas coletivas em sa\u00fade mental e sa\u00fade do trabalhador, devem ser norteadas por abordagens compat\u00edveis com a sua finalidade maior: romper com a psicologiza\u00e7\u00e3o e com a tend\u00eancia \u00e0 individualiza\u00e7\u00e3o dos problemas, de natureza social e coletiva, o que afligem as pessoas e os trabalhadores. O que est\u00e1 em causa \u00e9 a busca de conceitos que visem transformar o trabalho grupal em uma pr\u00e1tica capaz de enfrentar a realidade e n\u00e3o em promover uma adapta\u00e7\u00e3o resignada a ela.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste texto vamos delimitar a contribui\u00e7\u00e3o de dois autores, que se dedicaram a compreender e a aplicarem o trabalho grupal nesta perspectiva revolucion\u00e1ria, emancipat\u00f3ria e transformadora: Pichon-Rivi\u00e8re e Didier Anzieu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong>O Grupo Operativo de Pichon-Rivi\u00e8re<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Pichon denomina Grupo Operativo todo conjunto de pessoas ligadas entre si por constantes de tempo e espa\u00e7o, e articuladas por sua m\u00fatua representa\u00e7\u00e3o interna, que se prop\u00f5e expl\u00edcita ou implicitamente a uma tarefa que constitui sua finalidade. Sob esta tarefa manifesta h\u00e1 uma outra, subjacente, que visa a ruptura com forma\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas estereotipadas que bloqueiam a comunica\u00e7\u00e3o. Tem seu modelo natural no grupo familiar, configurando um processo onde s\u00e3o vivenciadas din\u00e2micas de coes\u00e3o, em uma determinada estrutura funcional.\u00a0\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>\u00a0Segundo Baremblitt (1982), \u201ceste instrumento criado por Pichon, surge como encruzilhada entre a psican\u00e1lise e as teorias de comunica\u00e7\u00e3o em psicologia familiar e social e os estudos da sociologia americana sobre os pequenos grupos como os de Kurt Lewin e George Mead. Em seu desenvolvimento vai efetuando diversas articula\u00e7\u00f5es com o materialismo hist\u00f3rico, numa tentativa de transformar o grupo operativo num instrumento capaz de revelar os conte\u00fados ideol\u00f3gicos subjacentes \u00e0s tarefas de todos os grupos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Bauleo (1977), importante disc\u00edpulo de Pichon, assinala que o grupo operativo pode ser compreendido em dois planos: o da tem\u00e1tica (estrutura\u00e7\u00e3o da tarefa) e da din\u00e2mica, relacionada \u00e0 mobiliza\u00e7\u00e3o (grupal) afetiva que aquela instiga.<\/p>\n\n\n\n<p>Um componente importante, na compreens\u00e3o dos grupos, elaborado por Pichon, foi a sua Teoria do V\u00ednculo, na qual prop\u00f5e que a rela\u00e7\u00e3o sujeito\/objeto deve ser compreendida como uma espiral dial\u00e9tica, onde tanto sujeito como objeto se retroalimentam continuamente, como uma espiral dial\u00e9tica. Iisto constitui um aprendizado, que leva em considera\u00e7\u00e3o os pares dial\u00e9ticos: \u00e0 medida que se ensina, se aprende e \u00e0 medida que conhece, se conhece.<\/p>\n\n\n\n<p>Dessa forma, a fun\u00e7\u00e3o b\u00e1sica do grupo operativo \u00e9 a de aprender a pensar, isto \u00e9, desenvolver a capacidade de resolver contradi\u00e7\u00f5es dial\u00e9ticas, significantes para o coletivo e n\u00e3o para o indiv\u00edduo. Essas contradi\u00e7\u00f5es t\u00eam implica\u00e7\u00f5es com a tarefa proposta e sua supera\u00e7\u00e3o visa uma mudan\u00e7a, uma transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Do ponto de vista da estrutura, Pichon dialetiza as antinomias corpo\/mente, individuo\/sociedade e organismo\/meio, compreendendo-as como um sistema dial\u00e9tico, em permanente intera\u00e7\u00e3o. Isto implica no reconhecimento da no\u00e7\u00e3o de modifica\u00e7\u00e3o m\u00fatua, a inter-rela\u00e7\u00e3o intrasistemica (o mundo interno do sujeito) e intersistemica (rela\u00e7\u00e3o do mundo interno do sujeito com o mundo externo).<\/p>\n\n\n\n<p>E, finalmente, adota como postulado b\u00e1sico que todo transtorno mental \u00e9 o resultado de uma leitura distorcida e empobrecida da realidade; uma perturba\u00e7\u00e3o do processo de aprendizado da realidade e uma defici\u00eancia na comunica\u00e7\u00e3o, processos que se realimentam continuamente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong>Din\u00e2mica do grupo operativo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O funcionamento do grupo operativo envolve fases, pap\u00e9is, a constru\u00e7\u00e3o do esquema conceitual, referencial e operativo (ECRO) e o desenvolvimento do pr\u00f3prio processo grupal, tomando como par\u00e2metro o desenvolvimento da tarefa. Estes aspectos s\u00e3o inerentes a todos os grupos.<\/p>\n\n\n\n<p>A fase de pr\u00e9-tarefa caracteriza o ponto de partida de todo o processo grupal. Nesta fase, o grupo faz de conta que trabalha, executa uma serie de tarefas para passar o tempo, ocorrem movimentos que aparentam uma a\u00e7\u00e3o, mas que na realidade s\u00e3o realizados a fim de impedir qualquer situa\u00e7\u00e3o de transforma\u00e7\u00e3o. Esta fase gera uma insatisfa\u00e7\u00e3o grupal constante e caracteriza uma fase de resist\u00eancia \u00e0 mudan\u00e7a. Na verdade, s\u00e3o os medos e as ansiedades b\u00e1sicas que paralisam o grupo.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>A abordagem direta e a elabora\u00e7\u00e3o das ansiedades abrem a possibilidade dos integrantes do grupo passar \u00e0 tarefa. Aqui o processo grupal avan\u00e7a na percep\u00e7\u00e3o mais amplificada da realidade, onde cada integrante atua como sujeito ativo, construindo estrat\u00e9gias e t\u00e1ticas, intervindo de uma forma transformadora.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesta fase, cada um cada um dos integrantes constr\u00f3i seu papel em rela\u00e7\u00e3o aos outros. Este papel se \u201cconstr\u00f3i baseado no grupo interno (representa\u00e7\u00e3o que cada um tem dos membros) que vai constituindo \u201co outro \u201c generalizado do grupo (Saidon, 1982).\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Os quatro pap\u00e9is principais que ocorrem no processo grupal s\u00e3o: portavoz, sabotador, bode expiat\u00f3rio e l\u00edder.<\/p>\n\n\n\n<p>O portavoz \u00e9 o deposit\u00e1rio da ansiedade grupal, denunciando o acontecer grupal, as fantasias que o move, as ansiedades e necessidades da totalidade do grupo, n\u00e3o fala por si, mas por todos, expressando-se de diversas maneiras (palavras, atos , sil\u00eancios). Enuncia sempre uma situa\u00e7\u00e3o que \u00e9 um produto da din\u00e2mica grupal. Este \u00e9 um emergente qualificado para denunciar o que est\u00e1 impedindo a tarefa.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>O sabotador \u00e9 o deposit\u00e1rio das for\u00e7as que se op\u00f5em \u00e0 tarefa no interior do grupo, sendo o l\u00edder da resist\u00eancia \u00e0 mudan\u00e7a. O bode expiat\u00f3rio \u00e9 o deposit\u00e1rio de todas as dificuldades do grupo e culpado por cada um de seus fracassos. O l\u00edder \u00e9 o deposit\u00e1rio de aspectos positivos do grupo.<\/p>\n\n\n\n<p>A estrutura e a fun\u00e7\u00e3o do grupo se configuram de acordo com o tipo de lideran\u00e7a assumido pelo coordenador. A lideran\u00e7a pode ser assumida tanto pelo coordenador como pelos diferentes membros do grupo, sendo a an\u00e1lise e elucida\u00e7\u00e3o, em ambos os casos, necess\u00e1rias para quebrar as estereotipias do funcionamento grupal.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 quatro tipos de lideran\u00e7as grupais. A lideran\u00e7a autocr\u00e1tica utiliza uma t\u00e9cnica diretiva e r\u00edgida e, com isto, favorece um estere\u00f3tipo de depend\u00eancia e de resist\u00eancia \u00e0 mudan\u00e7a. Uma caracter\u00edstica marcante \u00e9 a sua incapacidade de discrimina\u00e7\u00e3o entre papel e pessoa, confundindo-se a si mesmo com grupo. Seu n\u00edvel de urg\u00eancia atua como fator de paralisa\u00e7\u00e3o da tarefa.\u00a0\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>A lideran\u00e7a democr\u00e1tica estabelece um interc\u00e2mbio fluido entre coordenador-lider-grupo. Os integrantes do grupo compartilham de forma construtiva as id\u00e9ias, reservando ao coordenador o papel de assinalar as dificuldades de seu funcionamento.<\/p>\n\n\n\n<p>A coordena\u00e7\u00e3o <em>laissez-faire <\/em>delega ao grupo sua autoestrutura\u00e7\u00e3o e assume s\u00f3 parcialmente a fun\u00e7\u00e3o de an\u00e1lise da situa\u00e7\u00e3o e orienta\u00e7\u00e3o da a\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>A lideran\u00e7a demag\u00f3gica tem como caracter\u00edstica marcante a impostura: \u00e9 impostor na medida que possui uma estrutura autocr\u00e1tica, mas assume uma apar\u00eancia democr\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 importante assinalar as liga\u00e7\u00f5es entre os pap\u00e9is de bode expiat\u00f3rio e de l\u00edder:\u00a0 um surge como preserva\u00e7\u00e3o do outro, por meio de um processo de dissocia\u00e7\u00e3o necess\u00e1rio ao grupo em sua tarefa de discrimina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>No processo grupal, as for\u00e7as que se op\u00f5em \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o da tarefa, determinam o aparecimento de mecanismos de segrega\u00e7\u00e3o. Para Saidon (1982) a segrega\u00e7\u00e3o \u00e9 o fantasma que amea\u00e7a constantemente o grupo, sendo uma tentativa fracassada de redistribui\u00e7\u00e3o da ansiedade, o que implica em dificuldades para enfrentar situa\u00e7\u00f5es de mudan\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p>A tarefa priorit\u00e1ria de um grupo \u00e9 a elabora\u00e7\u00e3o de um esquema conceitual e referencial comum (ECRO), condi\u00e7\u00e3o b\u00e1sica para o estabelecimento da comunica\u00e7\u00e3o, a qual se dar\u00e1 na medida em que as mensagens possam ser decodificadas por uma afinidade ou coincid\u00eancia dos esquemas referenciais do emissor e do receptor. Aqui se aposta na id\u00e9ia de interdisciplinaridade e na possibilidade de constru\u00e7\u00e3o de um marco referencial te\u00f3rico comum a partir da s\u00edntese da heterogeneidade de vis\u00e3o de mundo dos membros do grupo, o que corresponder\u00e1 a uma maior homogeneidade na tarefa. Cada integrante leva ao grupo o seu esquema de refer\u00eancia. Este esquema de refer\u00eancia pr\u00f3prio de cada integrante do grupo confrontado com os esquemas conceituais referenciais dos outros membros do grupo, atrav\u00e9s de um movimento de espiral dial\u00e9tica, configurar\u00e1 um ECRO comum.<\/p>\n\n\n\n<p>Um aspecto importante na avalia\u00e7\u00e3o de como um grupo realiza a tarefa \u00e9 a an\u00e1lise inter-relacionada dos seus vetores. Pichon os representou na forma de um cone invertido. Estes vetores s\u00e3o: filia\u00e7\u00e3o, perten\u00eancia, pertin\u00eancia, comunica\u00e7\u00e3o, aprendizagem, tele e coopera\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Na parte superior do cone invertido temos os conte\u00fados manifestos (o que \u00e9 expl\u00edcito) e na parte inferior encontramos as fantasias latentes grupais (n\u00e3o manifestas, impl\u00edcitas, inconscientes). Pichon prop\u00f5e que o movimento de espiral \u2013 que vai fazer expl\u00edcito o que \u00e9 impl\u00edcito -, atua ante os medos b\u00e1sicos subjacentes, permitindo enfrentar o temor \u00e0 mudan\u00e7a (Saidon, 1982).\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>A filia\u00e7\u00e3o corresponde ao momento de conhecimento dos membros do grupo, ainda n\u00e3o h\u00e1 uma aproxima\u00e7\u00e3o fixa com a tarefa; seriam aqueles que est\u00e3o interessados pelo trabalho grupal, \u201cseriam os torcedores e n\u00e3o os jogadores\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A perten\u00eancia \u00e9 o momento onde o grupo adquire maior integra\u00e7\u00e3o o que permite elaborar uma estrat\u00e9gia, uma t\u00e1tica, uma t\u00e9cnica, e uma log\u00edstica; os participantes j\u00e1 apresentam uma forte rela\u00e7\u00e3o com a tarefa; medida por indicadores de presen\u00e7a, pontualidade e n\u00famero de interven\u00e7\u00f5es.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>A pertin\u00eancia consiste na centraliza\u00e7\u00e3o do grupo em torno da tarefa prescrita, na realiza\u00e7\u00e3o da tarefa estrat\u00e9gia; \u201cse mede pela quantidade de suor na camisa\u201d, um grupo pertinente \u00e9 aquele onde a sexualidade e a tarefa aparecem em um mesmo movimento.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>A coopera\u00e7\u00e3o manifesta-se no grupo pela capacidade de se colocar no lugar do outro, sendo atrav\u00e9s dela que se manifesta o car\u00e1ter interdisciplinar do grupo e a inter-rela\u00e7\u00e3o do que se define por horizontalidade (o aqui e agora na totalidade dos membros do grupo) e verticalidade (ligado \u00e0 hist\u00f3ria pessoal de cada sujeito).<\/p>\n\n\n\n<p>A comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 o canal pelo qual se expressam os transtornos e dificuldades do grupo para enfrentar a tarefa; tem uma analogia com o modelo de um transmissor e um receptor, um c\u00f3digo e um canal; pode ser verbal ou pr\u00e9-verbal e deve ser considerado o conte\u00fado, o \u201ccomo\u201d e o \u201cquem\u201d explicita a mensagem (quando esses elementos entram em contradi\u00e7\u00e3o se produz o mal-entendido dentro do grupo).<\/p>\n\n\n\n<p>A aprendizagem se produz por uma somat\u00f3ria de informa\u00e7\u00f5es dos integrantes do grupo obtendo-se em um dado momento a transforma\u00e7\u00e3o de quantidade em qualidade, representando uma mudan\u00e7a qualitativa no grupo, com ruptura de certos estere\u00f3tipos de comunica\u00e7\u00e3o e obten\u00e7\u00e3o de novos estilos, o que implica reestrutura\u00e7\u00f5es e redistribui\u00e7\u00e3o dos pap\u00e9is desempenhados pelos integrantes do grupo: toda altera\u00e7\u00e3o da comunica\u00e7\u00e3o se deve a uma dificuldade na aprendizagem e vice-versa.<\/p>\n\n\n\n<p>A tele representa o clima grupal traduzido como transfer\u00eancia positiva ou negativa; traduz o clima afetivo no grupo em diferentes momentos, revelando o grau de empatia positiva ou negativa que se d\u00e1 entre os membros do grupo. Assim, os afastamentos e as aproxima\u00e7\u00f5es entre as pessoas de um grupo n\u00e3o t\u00eam a ver com as pessoas reais presentes, mas com a recorda\u00e7\u00e3o de outras pessoas e outras situa\u00e7\u00f5es que ela evoca.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>A avalia\u00e7\u00e3o dos vetores \u00e9 sempre grupal, j\u00e1 que a avalia\u00e7\u00e3o individual s\u00f3 poderia ser explicada em fun\u00e7\u00e3o de toda a din\u00e2mica grupal que os determinam. Uma hip\u00f3tese pr\u00e9via: o sentido do que ocorre \u201caqui e agora\u201d no grupo tem rela\u00e7\u00e3o direta com o conjunto de institui\u00e7\u00f5es de nossa sociedade, que s\u00e3o o seu suporte (Saidon, 1982).<\/p>\n\n\n\n<p>Finalmente, cumpre assinalar a distin\u00e7\u00e3o de fun\u00e7\u00f5es entre o coordenador e o observador de grupo. O coordenador deve restringir a sua interven\u00e7\u00e3o \u00e0 sinaliza\u00e7\u00e3o das dificuldades que impedem ao grupo enfrentar a tarefa. N\u00e3o est\u00e1 ali para responder \u00e0s quest\u00f5es, mas para ajudar o grupo a formular aquelas que permitir\u00e3o o enfrentamento dos medos e ansiedades b\u00e1sicas. O seu papel prescrito, portanto, \u00e9 o de ajudar os membros do grupo a pensarem (dialeticamente). O seu instrumento de trabalho corresponde \u00e0s sinaliza\u00e7\u00f5es de situa\u00e7\u00f5es manifestas e a interpreta\u00e7\u00e3o da causalidade subjacente.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>O observador \u00e9 um sujeito n\u00e3o participante. Opera como uma tela de proje\u00e7\u00e3o por sua caracter\u00edstica de permanecer silencioso. No entanto, deve estar atento ao processo grupal, recolhendo material expresso, n\u00e3o verbal e verbalmente. Este material deve ser relatado em um Formul\u00e1rio de observa\u00e7\u00e3o de atividade grupal, que se mostra em Anexo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong>O processo grupal segundo Didier Anzieu<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Para Anzieu (1977) em qualquer situa\u00e7\u00e3o grupal \u2013 grupos de forma\u00e7\u00e3o, grupos terap\u00eauticos ou grupos sociais -, os processos inconscientes espec\u00edficos s\u00e3o os mesmos, sendo que o aparato ps\u00edquico grupal est\u00e1 dotado das mesmas inst\u00e2ncias que o individual, mas n\u00e3o dos mesmos princ\u00edpios de funcionamento.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>A partir do referencial da psican\u00e1lise \u201cenuncia o grupo como uma realiza\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria do desejo, e caracteriza o grupo, do ponto de vista da dinamica ps\u00edquica, um sonho. Esta situa\u00e7\u00e3o grupal \u00e0s vezes \u00e9 vivida como fonte de ang\u00fastia, pois o grupo, como o sonho, como o sintoma \u00e9, em cada um de seus epis\u00f3dios, a associa\u00e7\u00e3o de um desejo e de uma defesa\u201d (Salzman, 1982).<\/p>\n\n\n\n<p>Anzieu chama a aten\u00e7\u00e3o que na sociedade, o grupo \u00e9 o lugar do perigo; o lugar da transgress\u00e3o \u201cautorizada\u201d; a dimens\u00e3o privilegiada para o exerc\u00edcio das pervers\u00f5es. Todo grupo tem seus s\u00edmbolos e seus mitos. \u00c9 um lugar de interc\u00e2mbio entre inconscientes que conduzem a constru\u00e7\u00f5es fantasm\u00e1ticas (fugazes ou est\u00e1veis, paralisantes ou estimulantes). E neste sentido, o grupo lida com as mesmas puls\u00f5es que o sonho: libidinais e agressivas. Assim, na situa\u00e7\u00e3o grupal, a pluralidade de indiv\u00edduos evoca em cada membro a diversidade de puls\u00f5es libidinais e agressivas. Dessa forma, a puls\u00e3o de um grupo ser\u00e1 muito mais presente e relevante, pois n\u00e3o \u00e9 mais a puls\u00e3o de um s\u00f3.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Como Pichon, Anzieu considera que uma das maiores dificuldades de todos os grupos \u00e9 pensar sua a\u00e7\u00e3o tendo em conta os segmentos da realidade nos quais est\u00e3o inseridos e sobre os quais tratam de atuar. Em sua forma de pensar, atuar e perceber a realidade, est\u00e3o infiltrados pelo fantasmas individuais prevalecentes que emanam de alguns de seus membros e desenvolvem nos outros efeitos de cont\u00e1gio e resist\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Na minha opini\u00e3o, uma contribui\u00e7\u00e3o genial de Anzieu, para a teoria sobre grupos, foi o seu entendimento do grupo como objeto transicional. Este conceito \u00e9 tomado de Winnicott (1951) que o vincula com fen\u00f4menos autoeroticos da crian\u00e7a. Com o passar dos anos o objeto transicional se estende para todo o territ\u00f3rio intermedi\u00e1rio entre a realidade ps\u00edquica interna e o mundo externo.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>O objeto transicional deixa lugar para o processo de aquisi\u00e7\u00e3o de capacidade para aceitar diferen\u00e7as e semelhan\u00e7as: \u201ccreio que pode-se usar uma express\u00e3o que designa a raiz do simbolismo do tempo. Ela descreve a viagem da crian\u00e7a desde o subjetivo puro at\u00e9 a objetividade, o objeto transicional \u00e9 essa viagem para a experi\u00eancia\u201d (Winnicott).\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Os fen\u00f4menos transicionais representam as primeiras etapas do uso da ilus\u00e3o, sem as quais n\u00e3o tem sentido a id\u00e9ia de uma rela\u00e7\u00e3o com um objeto que os outros percebem como externo a esse ser. Esse aspecto de ilus\u00e3o \u00e9 intr\u00ednseco aos seres humanos e sujeito algum o resolve em definitivo por si mesmo. A tarefa de aceita\u00e7\u00e3o da realidade nunca fica terminada; ser humano algum est\u00e1 livre da tens\u00e3o de vincular a realidade interna \u00e0 externa e ao al\u00edvio desta tens\u00e3o provocado por uma zona intermedi\u00e1ria de experi\u00eancia\u201d (Winnicott, 1951).\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Anzieu fundamenta o seu conceito de ilus\u00e3o grupal na formula\u00e7\u00e3o do objeto transicional de Winnicott: \u201cna ilus\u00e3o grupal os participantes se d\u00e3o um objeto transicional comum: o grupo. Este d\u00e1 ao individuo algo que continua sendo importante no resto do seu desenvolvimento: a presen\u00e7a de uma campo neutro entre a realidade externa e a interna, que \u00e9 o campo da ilus\u00e3o\u201d (Salzman, 1982).<\/p>\n\n\n\n<p>A ilus\u00e3o grupal \u00e9 um \u201csentir-se bem juntos\u201d. \u00c9 uma fase inevit\u00e1vel de todo o grupo. A ilus\u00e3o grupal responde a um desejo de seguran\u00e7a, representa uma defesa contra a ang\u00fastia paran\u00f3ide comum, substituindo o ego ideal de cada um pelo ego ideal comum, instaurando um narcisismo grupal. Por isto, esta ilus\u00e3o grupal social \u201cpermite ao seres humanos, submergindo-se na vida em grupo, encontrar nela seu poder criador, \u00e0s vezes compartilhar uma ilus\u00e3o encantadora ou destruidora\u201d (Anzieu, 1977).<\/p>\n\n\n\n<p>Anzieu chama a aten\u00e7\u00e3o para a exist\u00eancia de organizadores propriamente ps\u00edquicos no indiv\u00edduo, nos grupos e na sociedade. A vida coletiva resulta de uma multiplicidade de fatores, de organizadores, cada um em seu dom\u00ednio e com suas leis pr\u00f3prias: organizadores demogr\u00e1ficos, geogr\u00e1ficos, pol\u00edticos, hist\u00f3ricos, econ\u00f4micos, psicol\u00f3gicos (Salzman, 1982).<\/p>\n\n\n\n<p>Uma das metas principais do trabalho grupal \u00e9 a reconhecimento dos organizadores ps\u00edquicos, \u201cadmitindo o pluralismo de determina\u00e7\u00f5es em jogo na vida social. Este trabalho deve estar a servi\u00e7o da identidade, integridade e liberdade dos indiv\u00edduos\u201d (Anzieu).<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, o social (todo) se mediatiza no individuo (parte), isto \u00e9, toda a conduta individual deve ser compreendida a partir da an\u00e1lise das determina\u00e7\u00f5es da totalidade social que a constituiu: sociedade global\/modo de produ\u00e7\u00e3o. O trabalho grupal pode estar a servi\u00e7o desta compreens\u00e3o e, assim, \u201cpoder despertar possibilidades adormecidas, fazer viver experi\u00eancias, ativar o interc\u00e2mbio profundo entre os homens. Homens asfixiados, inseridos na luta de classes, cercados pela fome. Sentindo-se mal em seus corpos. Em meio a contradi\u00e7\u00f5es, desacordos na fam\u00edlia, nos grupos e nas institui\u00e7\u00f5es\u201d (Salzman, 1982).\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong>A experi\u00eancia com o Grupo de Refer\u00eancia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ser\u00e1 necess\u00e1rio definir o que compreendo por Grupo de Refer\u00eancia porque esta denomina\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 presente nos textos sobre grupos: na verdade, se trata de uma inven\u00e7\u00e3o, constru\u00edda a partir de experi\u00eancias com grupos, que desenvolvi, no \u00e2mbito do SUS, desde 1986<sup data-fn=\"3890633b-927e-4868-97f5-498f8059c666\" class=\"fn\"><a href=\"#3890633b-927e-4868-97f5-498f8059c666\" id=\"3890633b-927e-4868-97f5-498f8059c666-link\">3<\/a><\/sup>.<\/p>\n\n\n\n<p>A minha experi\u00eancia com grupos, de forma mais sistem\u00e1tica, se iniciou no Ambulat\u00f3rio de Sa\u00fade Mental da Vila Brasil\u00e2ncia (1986\/87), do qual fui o primeiro coordenador. Este Ambulat\u00f3rio acabou por se transformar em um laborat\u00f3rio, por ter uma equipe composta por t\u00e9cnicos que traziam em sua bagagem o referencial da experi\u00eancia da psiquiatria democr\u00e1tica italiana<sup data-fn=\"67212109-c371-4213-8b3e-159b0a76ad2a\" class=\"fn\"><a href=\"#67212109-c371-4213-8b3e-159b0a76ad2a\" id=\"67212109-c371-4213-8b3e-159b0a76ad2a-link\">4<\/a><\/sup> e por t\u00e9cnicos rec\u00e9m-contratados, para a implementa\u00e7\u00e3o da rede extra-hospitalar em sa\u00fade mental, em uma perspectiva de reorienta\u00e7\u00e3o do modelo hospitaloc\u00eantrico, medicalizante, excludente e discriminat\u00f3rio ent\u00e3o vigente, no Estado de S\u00e3o Paulo.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Nesta \u00e9poca eu j\u00e1 operava na interface sa\u00fade mental\/sa\u00fade do trabalhador, de forma que a experi\u00eancia com grupos na Vila Brasilandia, foi focalizada na organiza\u00e7\u00e3o do que denominei de Grupos de Trabalhadores. A linha de trabalho adotada, era a da n\u00e3o utiliza\u00e7\u00e3o de categorias cl\u00ednicas (por serem estigmatizadoras), para denominar as atividades grupais realizadas: foi uma op\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica que ressaltava, acima de tudo, o fato de que est\u00e1vamos lidando com indiv\u00edduos, e n\u00e3o com psic\u00f3ticos, neur\u00f3ticos, alcoolistas, epil\u00e9pticos<sup data-fn=\"855c77e3-606b-4808-be3f-c5daee5b394a\" class=\"fn\"><a href=\"#855c77e3-606b-4808-be3f-c5daee5b394a\" id=\"855c77e3-606b-4808-be3f-c5daee5b394a-link\">5<\/a><\/sup>. Por isto que ao inv\u00e9s de Grupos de Psic\u00f3ticos, Grupos de Neur\u00f3ticos, Grupos de Alcoolistas, utilizei a categoria Grupos de Trabalhadores. Porque trabalhadores? Pela compreens\u00e3o do trabalho como elemento estruturante na vida das pessoas, pelo seu significado na constru\u00e7\u00e3o da sociabilidade e de uma certa forma de estar no mundo. Se era relativamente comum encontrar ali pessoas que nunca tiveram acesso ao mundo do trabalho (por terem sido consideradas improdutivas), mesmo no Grupo de Trabalhadores, teriam a possibilidade de elaborarem, por um lado, a determina\u00e7\u00e3o social por detr\u00e1s da sua exclus\u00e3o do trabalho e, por outro, visualizar o lado oculto e doentio do mundo do trabalho real (e n\u00e3o o idealizado): todos ali estavam desfiliados dele e os egressos do mundo do trabalho, via de regra, haviam tido as suas crises ps\u00edquicas, contraditoriamente, como decorrentes ou agravadas pelo trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00a0A partir de 1988<sup data-fn=\"419bcfa9-2aec-4ef9-8ed9-13dd9e067dba\" class=\"fn\"><a href=\"#419bcfa9-2aec-4ef9-8ed9-13dd9e067dba\" id=\"419bcfa9-2aec-4ef9-8ed9-13dd9e067dba-link\">6<\/a><\/sup>, esta minha experi\u00eancia com grupos teve continuidade em uma outra Unidade de Sa\u00fade, onde organizei um Programa de Sa\u00fade Mental do Trabalhador. Os grupos de trabalhadores da Vila Brasil\u00e2ndia foram transferidos para esta nova Unidade. Neste processo de transfer\u00eancia, estes grupos assumiram uma nova denomina\u00e7\u00e3o: Grupos de Refer\u00eancia.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong>O que \u00e9 o Grupo de Refer\u00eancia?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Na fase inicial do trabalho, a composi\u00e7\u00e3o dos grupos de trabalhadores era mista, com uma equival\u00eancia de homens e mulheres. Este aspecto vai ser mantido, ao longo de toda a experi\u00eancia, com todos os grupos. Com o transcorrer do processo grupal, ficou claro que as pessoas que nunca haviam trabalhado (via de regra, pessoas com maiores dificuldades ps\u00edquicas) acabavam por prejudicar o \u201csub-grupo\u201d dos egressos do mundo do trabalho. Assim, os Grupos de Trabalhadores passaram a corresponder a grupos homog\u00eaneos, de trabalhadores egressos do mundo do trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m verifiquei que eram muito distintas as viv\u00eancias dos trabalhadores do setor industrial com os trabalhadores de servi\u00e7os ou do setor informal. Desta forma, um dos Grupos de Trabalhadores foi formado unicamente por trabalhadores do setor industrial. Este Grupo em particular, foi o que mais avan\u00e7ou no seu processo interno de transforma\u00e7\u00e3o. O Grupo de Trabalhadores do setor informal, aut\u00f4nomos em sua maioria, vendedores ambulantes, pequenos comerciantes, feirantes \u2013 apresentaram uma din\u00e2mica muito diversa, com uma forte tend\u00eancia \u00e0 individualiza\u00e7\u00e3o, este grupo enfrentou muita dificuldade em se constituir como coletivo. Isto me fez lembrar da concep\u00e7\u00e3o de consci\u00eancia de Marx<sup data-fn=\"aef69e2f-a891-48cc-89b6-28163eb3c057\" class=\"fn\"><a href=\"#aef69e2f-a891-48cc-89b6-28163eb3c057\" id=\"aef69e2f-a891-48cc-89b6-28163eb3c057-link\">7<\/a><\/sup>: \u201cos homens s\u00e3o o que produzem e o como produzem\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Na proposta inicial do trabalho com Grupos de Trabalhadores havia uma tarefa expl\u00edcita b\u00e1sica: a elabora\u00e7\u00e3o coletiva de como continuar a vida dali para frente, diante da exclus\u00e3o consumada e irrevers\u00edvel do mundo do trabalho, que pressupunha a elabora\u00e7\u00e3o das viv\u00eancias no mundo do trabalho, o resgate das expectativas iniciais (ilus\u00f3rias), o processo de desilus\u00e3o e o desfecho da sa\u00edda dele, por demiss\u00e3o ou afastamento para tratamento da sua doen\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Os encontros eram quinzenais e foi estabelecido um n\u00famero m\u00e1ximo de 17 participantes em cada grupo (Pichon preconiza o m\u00e1ximo de 22 integrantes por grupo).<\/p>\n\n\n\n<p>\u00a0Com o passar do tempo, verifiquei que aquele espa\u00e7o grupal passou a ser utilizado para a elabora\u00e7\u00e3o das dificuldades encontradas na experi\u00eancia cotidiana do \u201cviver a vida\u201d, estendendo o processo de elabora\u00e7\u00e3o para aspectos de toda a ordem, relacionados aos organizadores pol\u00edticos, ideol\u00f3gicos, institucionais, conjunturais, econ\u00f4micos e psicol\u00f3gicos. Dessa forma, esse momento grupal, esse espa\u00e7o coletivo de reflex\u00e3o passou a ser uma refer\u00eancia na vida destes trabalhadores, permitindo-lhes vivenciar uma experi\u00eancia instigadora e questionadora dos seus referenciais atuais, desencadeando por meio de um \u201cprocesso de confronta\u00e7\u00e3o interna\u201d a constru\u00e7\u00e3o de uma atitude re-significadora diante da realidade que o cerca, criando a possibilidade do afloramento de novos referenciais, ideol\u00f3gicos, pol\u00edticos, sociais e humanit\u00e1rios, que lhes abrir\u00e1 a perspectiva de re-significar as suas pr\u00f3prias vidas (Marcondes\/1992).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong>Experi\u00eancia de integra\u00e7\u00e3o da terapia comunit\u00e1ria com a pr\u00e1tica do Grupo de Refer\u00eancia: o \u201cGrupo Qualidade de Vida\u201d<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A experi\u00eancia do Grupo Qualidade de Vida (maio\/2007 a mar\u00e7o\/2008) surgiu como uma resposta \u00e0 demanda de sa\u00fade mental da popula\u00e7\u00e3o referenciada na UBSF Conquista I (aproximadamente, 100.000 pessoas), que utilizavam neuro f\u00e1rmacos ou apresentavam um quadro de sofrimento ps\u00edquico significativo, incluindo crises psic\u00f3ticas. Naquele contexto, n\u00e3o existia nenhem CAPS implantado na regi\u00e3o de S\u00e1o Mateus, na Zona Leste do munic\u00edpio de S\u00e3o Paulo: dessa forma, havia uma total aus\u00eancia de dispositivos de cuidado psicossocial, mesmo para os indiv\u00edduos em surto psic\u00f3tico ou com risco importante de suic\u00eddio.\u00a0 Esta experi\u00eancia denominada de Grupo Qualidade de Vida (Grupo QV) articulou a teoria e a pr\u00e1tica do trabalho grupal proposto pela Terapia Comunit\u00e1ria, com a abordagem grupal concebida por Pich\u00f3n Rivi\u00e8re e Didier Anzieu (Baremblitt, 1982), al\u00e9m do subs\u00eddio trazido por Moffat (1984), na utiliza\u00e7\u00e3o da pr\u00e1tica grupal no acompanhamento de pessoas em crise psic\u00f3tica.<\/p>\n\n\n\n<p>Em todas essas abordagens h\u00e1 o mesmo pressuposto b\u00e1sico de que existem for\u00e7as transformadoras no processo grupal, que s\u00e3o capazes de mudar a vis\u00e3o de mundo dos seus indiv\u00edduos. Parte-se da compreens\u00e3o de que na atualidade existe uma tend\u00eancia de individualizar as causas do sofrimento ps\u00edquico que, na verdade, traduzem a intera\u00e7\u00e3o com as atribula\u00e7\u00f5es da din\u00e2mica da vida social, aqui inclu\u00eddo o mundo do trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, o grupo \u00e9 uma proposta do exerc\u00edcio de um espa\u00e7o de liberdade, onde pode se dar a desconstru\u00e7\u00e3o desta tend\u00eancia social de individualiza\u00e7\u00e3o, para uma de coletiviza\u00e7\u00e3o (Castel, 1998). Os fios invis\u00edveis das rela\u00e7\u00f5es grupais s\u00e3o respons\u00e1veis por todas as din\u00e2micas que v\u00e3o acontecer dentro dele, mas ele deve ocorrer como um espa\u00e7o onde as pessoas possam sentir que \u201cvale tudo\u201d: no entanto s\u00e3o estabelecidas regras pr\u00f3prias que funcionam \u00e0 medida que se cria o grupo, do contr\u00e1rio seria imposs\u00edvel que ele existisse.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o se trata de um encontro que se faz ao l\u00e9u, tampouco um espa\u00e7o de reclama\u00e7\u00f5es e de lam\u00farias, mas de um encontro cujo principal objetivo \u00e9 a elabora\u00e7\u00e3o do processo do viver a vida. Essa \u00e9 a tarefa expl\u00edcita e central do grupo.<\/p>\n\n\n\n<p>O papel assumido pelos integrantes do grupo \u00e9 o de construir alternativas partindo daquilo que s\u00e3o capazes de fazer, sem a vestimenta de m\u00e1scaras sociais que os impede de serem como realmente s\u00e3o. Trata-se de uma constru\u00e7\u00e3o coletiva que traduz os potenciais individuais existentes, que muitas vezes podem estar adormecidos ou reprimidos por uma \u201csociabilidade\u201d que banaliza e desumaniza o humano: da\u00ed poder representar um papel de desconstru\u00e7\u00e3o coletiva dos estigmas (Goffman, 1980) que est\u00e3o impregnados em suas vidas.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim conduzido e compreendido, o processo grupal contribui para a elabora\u00e7\u00e3o e um movimento interno no sentido da transforma\u00e7\u00e3o da realidade, capaz de ter uma vis\u00e3o cr\u00edtica sobre ela, entender como se organiza a sociedade, assumindo um pressuposto da recupera\u00e7\u00e3o da autoconfian\u00e7a e da autoestima.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Inicialmente o trabalho grupal pode significar o mesmo que entrar numa floresta escura, onde a medida que se vai construindo o grupo como refer\u00eancia, esta vai sendo iluminada por uma lanterna que irradia uma vis\u00e3o mais clara do mundo e de si mesmo nesse mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>O Grupo QV se fez por si s\u00f3, se sustentou por si mesmo, se fez objeto de si mesmo: constituiu uma refer\u00eancia na vida de seus integrantes. Foi terap\u00eautico na acep\u00e7\u00e3o basagliana, onde a \u201cliberdade \u00e9 terap\u00eautica\u201d (Basaglia, 1985).\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Como sabemos ada teoria do processo grupal, um grupo sempre deve possuir uma tarefa, que representa a necessidade emergente do coletivo grupal. Por\u00e9m n\u00e3o \u00e9 o coordenador que estabelece as regras de um grupo e sim o pr\u00f3prio grupo. Ser coordenador representa explorar a floresta escura com seu embasamento te\u00f3rico e suas percep\u00e7\u00f5es. Seu papel \u00e9 o de induzir o grupo \u00e0 tarefa, embora a tarefa necessariamente emerja do grupo. Aqui reside a principal distin\u00e7\u00e3o entre as abordagens grupais de Pich\u00f3n e Anzieu, que denomino de Grupo de Refer\u00eancia, com a da Terapia Comunit\u00e1ria.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Na Terapia Comunit\u00e1ria, o tema de cada encontro \u00e9 escolhido dentre um conjunto de temas levantados pelos seus integrantes: o grupo define o \u201cmote\u201d, o foco de cada encontro, que traduz a ang\u00fastia predominante do grupo naquele momento.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>No Grupo QV o foco \u00e9 orientado pela interpreta\u00e7\u00e3o das interven\u00e7\u00f5es do grupo, compreendendo-as como manifesta\u00e7\u00e3o das ang\u00fastias conscientes ou inconscientes dos seus participantes. O papel do coordenador ser\u00e1 identificar dentre os participantes aqueles que, naquele encontro, operam como porta voz do grupo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong>Potencial do Grupo Qualidade de Vida<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/strong>A experi\u00eancia do Grupo QV, inicialmente, era dirigida para pessoas em sofrimento ps\u00edquico que procuravam o PSF visando trocar as suas receitas de psicof\u00e1rmacos. Algumas dessas pessoas consumiam a mesma medica\u00e7\u00e3o h\u00e1 muitos anos, a maioria, por meses. Al\u00e9m de n\u00e3o haver uma avalia\u00e7\u00e3o ou acompanhamento desses pacientes, o \u00fanico tratamento proposto consistia no uso continuado desses medicamentos. Naturalmente, o conjunto dessas pessoas j\u00e1 apresentavam um certo grau de depend\u00eancia do medicamento que era, particularmente, acentuada no caso dos benzodiazep\u00ednicos (diazepan, clonazepan, lorazepan e bromazepam).\u00a0\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0A proposta do Grupo QV consistiu em organizar um processo de acompanhamento com uma dupla finalidade: verificar a adequa\u00e7\u00e3o da conduta medicamentosa atual e oferecer uma alternativa de tratamento n\u00e3o medicamentoso.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 Por outro lado, a demanda de \u201ccasos novos\u201d, isto \u00e9, de pessoas vinculadas ao territ\u00f3rio de abrang\u00eancia da UBSF Conquista I, com quadros de transtorno mental agudo &#8211; quadros paran\u00f3ides, reagudiza\u00e7\u00e3o de quadros cr\u00f4nicos, pessoas com risco de suic\u00eddio, quadros confusionais, dentre outros -, que n\u00e3o conseguiam acesso imediato ao tratamento psiqui\u00e1trico, em decorr\u00eancia da exig\u00fcidade dos servi\u00e7os de refer\u00eancia especializada no cuidado psicossocial da regi\u00e3o -, foram incorporadas neste trabalho: por representar, de fato, a \u00fanica possibilidade imediata de aten\u00e7\u00e3o psicossocial dispon\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0Apesar das situa\u00e7\u00f5es \u201cdif\u00edceis\u201d que os participantes do Grupo QV vivenciaram \u2013 manifesta\u00e7\u00f5es de sintomas dissociativos e disruptivos de pessoas em surto psic\u00f3tico agudo -, o fato \u00e9 que essas pessoas com graves quadros dissociativos, encontraram no Grupo QV\u00a0 um espa\u00e7o de contin\u00eancia e de acolhimento, que desempenhou um papel terap\u00eautico decisivo na recupera\u00e7\u00e3o do ju\u00edzo de realidade e da autoestima. Tais resultados, verificados nessa experi\u00eancia do Grupo QV, o habilitram como uma alternativa a ser considerada na formata\u00e7\u00e3o de um programa de aten\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade mental na regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong>A coordena\u00e7\u00e3o e as lideran\u00e7as do processo grupal<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 colocamos anteriormente que o papel do coordenador \u00e9 o de induzir o grupo \u00e0 tarefa, embora a tarefa necessariamente emerja do grupo. Assume a tarefa com uma atitude n\u00e3o passiva, e sim como protagonista ativo que tira o grupo de seu bloqueio, sendo capaz de perceber o que pode estar travando o grupo. O coordenador deve estar respaldado por uma vis\u00e3o cr\u00edtica da realidade, conhecendo os meios pelos quais operam a sociedade, bem como com as m\u00e1scaras sociais por ela exigida. Deve ter a capacidade de compreender a organiza\u00e7\u00e3o desta sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p>O papel das lideran\u00e7as emergentes dentro do processo grupal \u00e9 de grande import\u00e2ncia, j\u00e1 que as lideran\u00e7as s\u00e3o uma forma de coopera\u00e7\u00e3o grupal. O l\u00edder chama o grupo para a a\u00e7\u00e3o, para a realidade. Pode-se facilmente perceb\u00ea-lo pela quantidade de vezes que realiza interven\u00e7\u00f5es pertinentes ao seu grupo. Pode tamb\u00e9m funcionar como auxiliar da coordena\u00e7\u00e3o. Um grupo pode ter v\u00e1rias lideran\u00e7as ressaltando, inclusive, a exist\u00eancia de lideran\u00e7as negativas, atuando contra o pr\u00f3prio grupo.<\/p>\n\n\n\n<p>Geralmente um l\u00edder do grupo, assume seu papel em todos os encontros grupais, no entanto \u00e9 importante ressaltar que um l\u00edder possa ser l\u00edder apenas uma \u00fanica vez. Em s\u00edntese, a principal contribui\u00e7\u00e3o da lideran\u00e7a consiste em mostrar para os demais integrantes do grupo como a tarefa pode ser executada.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Um l\u00edder \u201cpermanente\u201d pode ocasionalmente, em um dos encontros n\u00e3o se manifestar. O coordenador deve perceber, bem como todo grupo, que aquela figura, nada silenciosa, est\u00e1 nesse momento silenciosa, assumindo um papel diferente do habitual. Aqui cumpre ressaltar que um \u201cl\u00edder silencioso\u201d pode estar pedindo ajuda, \u00e9 importante que o grupo atente para esse fato: a hip\u00f3tese de depress\u00e3o deve ser afastada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong>O transcorrer do processo grupal<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O n\u00famero de interven\u00e7\u00f5es ocorridas dentro de um encontro grupal deve ser muito bem descrito pelo observador, pois qualquer interven\u00e7\u00e3o retrata como o grupo funciona, e como est\u00e1 a din\u00e2mica da intera\u00e7\u00e3o entre os integrantes do grupo. Atrav\u00e9s das interven\u00e7\u00f5es \u00e9 que se pode reconhecer o papel que cada integrante assume no grupo. A quantidade de falas deve ser anotada, assim como atender ao celular, sono, leituras paralelas, cochichos, sa\u00eddas para beber \u00e1gua. Deve-se observar, por exemplo, que muitas interven\u00e7\u00f5es atrapalham o grupo, \u00e0 medida que tiram a aten\u00e7\u00e3o, ou at\u00e9 mesmo o foco da tarefa.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>O coordenador deve estar atento tamb\u00e9m para tais quest\u00f5es, pois muitas vezes dever\u00e1 colocar o fato para o grupo, para evitar tal din\u00e2mica. Pode tamb\u00e9m acontecer do pr\u00f3prio coordenador realizar interven\u00e7\u00f5es que desestruturam o grupo, tal como, pedir para que desliguem seus celulares, enquanto ele mesmo interrompe o grupo e assim o faz. Chegar atrasado aos encontros e n\u00e3o se manifestar dando uma explica\u00e7\u00e3o que mostre ao grupo a sua perten\u00eancia pode gerar certa desestrutura\u00e7\u00e3o grupal. Pois o grupo tem o coordenador como algu\u00e9m que cuida do grupo. Ele pode ent\u00e3o sentir que o seu grupo n\u00e3o \u00e9 prioridade para o coordenador.<\/p>\n\n\n\n<p>O sil\u00eancio \u00e9 um fato que sempre ocorre dentro de um grupo. Acontece geralmente depois de alguma coloca\u00e7\u00e3o realizada por um integrante. Deve-se atentar para a fala que precede o sil\u00eancio. Pois este pode retratar uma dificuldade grave apontada pelo grupo, onde ningu\u00e9m tem a resposta. O sil\u00eancio n\u00e3o deve ser encarado como negativo, j\u00e1 que ele pode ser o tempo que o grupo necessita naquele momento para elaborar e dar uma resposta concreta sobre a sua realidade.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>O coordenador, consciente da ansiedade do grupo, evita o sil\u00eancio, faz um corte temendo que ele seja negativo. O coordenador perspicaz escuta o sil\u00eancio grupal, de onde muitas vezes, emergem as lideran\u00e7as, que irrompem o medo e a perman\u00eancia do sil\u00eancio. Esse pode ser um momento de tamanha ansiedade para os integrantes, capaz de fazer com que uma figura silenciosa, que nunca interv\u00e9m, realize uma interven\u00e7\u00e3o pertinente \u00e0 colabora\u00e7\u00e3o grupal.\u00a0\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong>O Peso dos Ausentes<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A aus\u00eancia dentro de um grupo pode gerar a ansiedade de se estar diante de uma amea\u00e7a \u00e0 desintegra\u00e7\u00e3o do grupo. Observa-se, ao contr\u00e1rio do que se pensa, uma grande coopera\u00e7\u00e3o grupal, quando a aus\u00eancia \u00e9 em n\u00famero maior de participantes, onde o clima ser\u00e1 de acolhimento aos presentes. A resposta do grupo poder\u00e1 ser a dupla jornada, ter\u00e3o que trabalhar por dois, ficando mais unidos, coesos.<\/p>\n\n\n\n<p>O papel de sabotador transforma-se numa quest\u00e3o de sobreviv\u00eancia grupal, tendo em vista que um sabotador, no meio de um grande n\u00famero de ausentes, poderia significar a morte do grupo.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Diante dos espa\u00e7os vazios, ou das cadeiras vazias, o grupo pode viver o temor da pr\u00f3pria morte, gerando um sentimento de culpa. Podendo, no entanto, haver maior comprometimento com as responsabilidades, com as tarefas, onde a sensa\u00e7\u00e3o permanente \u00e9 a de acolher-se para se fortalecer. O coordenador do grupo deve atentar para uma atitude que para compensar o vazio grupal faz interven\u00e7\u00f5es ansiosas, impedindo com isto o grupo de elaborar a aus\u00eancia.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 fato que a aus\u00eancia pode ser fator de reestrutura\u00e7\u00e3o para o grupo, pois com maior coopera\u00e7\u00e3o o grupo produzir\u00e1 mais, poder\u00e1 partir\u00e1 para a tarefa mais rapidamente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong>Temas Grupais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O tema a ser trabalhado pelo grupo em seus encontros surgir\u00e1 espontaneamente. O coordenador n\u00e3o deve implantar um tema para ser discutido, mas deve indicar o caminho, ou dar uma dire\u00e7\u00e3o para que ele surja. Se este for um pressuposto estabelecido rigidamente se transformar\u00e1 numa esp\u00e9cie de enquadre, na qual nada poder\u00e1 acontecer fora dele. Dessa forma, n\u00e3o se deve estabelecer isto como pressuposto.\u00a0 O tema poder\u00e1 surgir como sendo a tarefa a ser cumprida pelo grupo: ou pode representar na forma de pr\u00e9-tarefa assumida pelo grupo.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong>O trabalho grupal no \u00e2mbito da sa\u00fade do trabalhador<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O trabalho grupal, no \u00e2mbito de um Centro de Refer\u00eancia em Sa\u00fade do Trabalhador (CRST), pode representar m\u00faltiplas fun\u00e7\u00f5es: constituir um grupo focal para a elucida\u00e7\u00e3o de aspectos da organiza\u00e7\u00e3o e do processo de trabalho aos quais grupos homog\u00eaneos de trabalhadores estejam submetidos; para a elabora\u00e7\u00e3o de viv\u00eancias ou situa\u00e7\u00f5es que promoveram uma \u201cdano afetivo\u201d significativo; para restabelecer a dimens\u00e3o coletiva da patog\u00eanese que est\u00e1 na raiz dos seus agravos \u00e0 sa\u00fade f\u00edsica e mental, superando a tend\u00eancia \u00e0 individualiza\u00e7\u00e3o e o problema da vitimiza\u00e7\u00e3o;\u00a0 como possibilidade de reprodu\u00e7\u00e3o dessa cultura grupal, no \u00e2mbito de sua regi\u00e3o de abrang\u00eancia, para os operadores dos demais dispositivos do SUS, particularmente para o PACS\/PSF e para os dispositivos do sistema CAPS.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Os agentes de sa\u00fade do PACS\/PSF desempenham uma atividade estrat\u00e9gica e decisiva para a amplia\u00e7\u00e3o da cobertura, efic\u00e1cia e humaniza\u00e7\u00e3o da aten\u00e7\u00e3o e promo\u00e7\u00e3o da sa\u00fade da popula\u00e7\u00e3o do nosso pa\u00eds. Estes trabalhadores da sa\u00fade interagem com o cotidiano da vida das pessoas que habitam o territ\u00f3rio de abrang\u00eancia da unidade a que est\u00e3o vinculados. Entram em rela\u00e7\u00e3o, em decorr\u00eancia desta sua forma peculiar de trabalho, com a dimens\u00e3o real e humana da vida destas pessoas: com a forma como estas produzem e reproduzem as suas condi\u00e7\u00f5es materiais de exist\u00eancia. Interagem com as suas dificuldades, com as suas demandas, com as suas esperan\u00e7as e com o seu sofrimento. Dessa forma, conseguem, em primeira inst\u00e2ncia, apreender situa\u00e7\u00f5es de desgaste f\u00edsico e mental dos trabalhadores em geral, podendo identificar situa\u00e7\u00f5es de risco iminente ouj\u00e1 consumado \u00e0 sa\u00fade e encaminhar esses trabalhadores para os CRSTs.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, como j\u00e1 foi explicitado, o trabalho dos ACS\/PSF os coloca n\u00e3o apenas em rela\u00e7\u00e3o profissional com a realidade do seu territ\u00f3rio, mas sobretudo em rela\u00e7\u00e3o pessoal com os seus habitantes. Por essa raz\u00e3o necessitam de um espa\u00e7o grupal espec\u00edfico para a elabora\u00e7\u00e3o destas viv\u00eancias cotidianas, que os exp\u00f5em a uma acentuada carga ps\u00edquica de trabalho. O processo grupal assim desenvolvido, por meio de reuni\u00f5es quinzenais e, sob supervis\u00e3o permanente, lhes permitir\u00e1 aprofundarem a capacidade de \u201cpensar dialeticamente\u201d o seu ambiente e contexto do trabalho, nos seus m\u00faltiplos pares dial\u00e9ticos: o individual\/coletivo; o institucional\/comunit\u00e1rio; o profissional\/social.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse espa\u00e7o de reflex\u00e3o grupal, os agentes de sa\u00fade podem assumir uma dupla fun\u00e7\u00e3o de mudan\u00e7a: da sua pr\u00f3pria realidade interna enquanto grupo de trabalhadores e como agente de mudan\u00e7a da realidade encontrada no seu territ\u00f3rio, participando, em conjunto com as for\u00e7as vivas no interior daquela comunidade, do processo de transforma\u00e7\u00e3o e humaniza\u00e7\u00e3o da realidade encontrada. Nesse sentido, essa estrat\u00e9gia pode desempenhar um papel muito significativo na reprodu\u00e7\u00e3o da cultura da sa\u00fade do trabalhador no \u00e2mbito do seu territ\u00f3rio de atua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ol class=\"wp-block-list\">\n<li>ANTUNES, R.. Adeus ao Trabalho. S\u00e3o Paulo, Cortez, 1995.<\/li>\n\n\n\n<li>ARENDT, H. A condi\u00e7\u00e3o humana. S\u00e3o Paulo: EDUSP, 1981.<\/li>\n\n\n\n<li>BAREMBLITT, G. Grupos: Teoria e T\u00e9cnica. Ed.Graal e IBRAPSI, Rio de Janeiro, 1982.\u00a0<\/li>\n\n\n\n<li>BASAGLIA, F. A institui\u00e7\u00e3o negada. S\u00e3o Paulo, Graal, 1985.<\/li>\n\n\n\n<li>CASTEL, R.. As metamorfoses da quest\u00e3o social. Petr\u00f3polis, Vozes, 1998.<\/li>\n\n\n\n<li>GOFFMAN, E. Estigma. Notas sobre a Manipula\u00e7\u00e3o da Identidade Deteriorada.\u00a0 Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1980.<\/li>\n\n\n\n<li>LAPASSADE, G. Grupos, organiza\u00e7\u00f5es e institui\u00e7\u00f5es. Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1983.<\/li>\n\n\n\n<li>LEWIN, K. Problemas de din\u00e2mica de grupo. S\u00e3o Paulo, Cultrix, 1970.<\/li>\n\n\n\n<li>MARCUSE, H. Eros e Civiliza\u00e7\u00e3o. Rio de Janeiro, Zahar, 1978.<\/li>\n\n\n\n<li>MARX, K. A ideologia alem\u00e3. Lisboa, Presen\u00e7a\/Martins Fontes, 1979.\u00a0<\/li>\n\n\n\n<li>MARX, K. Manuscritos econ\u00f4micos y filos\u00f3ficos. Madrid, Alianza Editorial, 1985.<\/li>\n\n\n\n<li>MOFFAT, A. Psicoterapia do Oprimido, S\u00e3o Paulo, Cortez, 1984.<\/li>\n\n\n\n<li>PICHON-RIVI\u00c8RE, E. O processo grupal. 1983.<\/li>\n\n\n\n<li>SAIDON, O. (org.) Pr\u00e1ticas Grupais. Rio de Janeiro, Campus, 1983.<\/li>\n<\/ol>\n\n\n<ol class=\"wp-block-footnotes\"><li id=\"d0196957-a168-4a5b-88d2-35a1043e13ff\">M\u00e9dico psiquiatra, com atua\u00e7\u00e3o em v\u00e1rios dispositivos do sistema CAPS, no per\u00edodo de 1992 (Santos) at\u00e9 2023 (Limeira). Atuou tamb\u00e9m em dispositivos da aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria em sa\u00fade nas regi\u00f5es do Butant\u00e3\/Zona Oeste e de S\u00e3o Mateus\/Zona Leste, do munic\u00edpio de S\u00e3o Paulo. Tamb\u00e9m atuou no \u00e2mbito dos Centros de Refer\u00eancia em Sa\u00fade do Trabalhador (CRTS\/RENAST\/SUS) <a href=\"#d0196957-a168-4a5b-88d2-35a1043e13ff-link\" aria-label=\"Aller \u00e0 la note de bas de page 1\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"fec9b0ea-8b8a-43b5-96d6-0ea6d49594f0\">Para Marx, sociabilidade \u00e9 o conjunto das rela\u00e7\u00f5es sociais (Teses contra Feurbach). Para Comte, sociabilidade \u00e9 o conjunto das fun\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas afetivas mais nobres, os sentimentos (apego, venera\u00e7\u00e3o e bondade), que condicionam o comportamento altru\u00edstico do homem, a sua forma superior de sentir, pensar e agir sobre o mundo (Syst\u00e8me de Politique Positive, 1852). Esta teoria foi sistematizada por An\u00edbal Silveira que a redenominou de Teoria Sociol\u00f3gica da Personalidade\u00a0 (1977), que adoto desde o in\u00edcio da minha pr\u00e1tica cl\u00ednica. <a href=\"#fec9b0ea-8b8a-43b5-96d6-0ea6d49594f0-link\" aria-label=\"Aller \u00e0 la note de bas de page 2\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"3890633b-927e-4868-97f5-498f8059c666\">Participei em 1986 de um grupo formado por t\u00e9cnicos, em sua maior parte vinculada ao SUS, que se propuseram a estudar as bases te\u00f3ricas e t\u00e9cnicas das pr\u00e1ticas grupais.\u00a0 Este grupo contou com a coordena\u00e7\u00e3o e orienta\u00e7\u00e3o de Di Loreto. Devo a esta orienta\u00e7\u00e3o a op\u00e7\u00e3o por um caminho que foi se revelando, ao longo dos anos, como muito construtivo e gratificante. <a href=\"#3890633b-927e-4868-97f5-498f8059c666-link\" aria-label=\"Aller \u00e0 la note de bas de page 3\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"67212109-c371-4213-8b3e-159b0a76ad2a\">Um conjunto de t\u00e9cnicos em sa\u00fade mental brasileiros conheceram a experi\u00eancia desenvolvida em Trieste\/It\u00e1lia, alguns destes, Roberto Tykanori, Issa Mercadante e Jonas Melman fizerem parte desta equipe. <a href=\"#67212109-c371-4213-8b3e-159b0a76ad2a-link\" aria-label=\"Aller \u00e0 la note de bas de page 4\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"855c77e3-606b-4808-be3f-c5daee5b394a\">\u00a0O fato de adotarmos categorias n\u00e3o cl\u00ednicas nas pr\u00e1ticas coletivas, na pr\u00e1tica da interven\u00e7\u00e3o individual, sobre os sintomas e os agravos \u00e0 sa\u00fade mental das pessoas, \u00e9ramos, por outro lado, particularmente rigorosos, na utiliza\u00e7\u00e3o damelhor abordagem te\u00f3rica e t\u00e9cnica para o desvendamento dos fatores patog\u00eanicos, no sentido mais ampliado, isto \u00e9, incorporando nesta an\u00e1lise desde a\u00a0 base fisiogen\u00e9tica at\u00e9 aos fatores sociais e da hist\u00f3ria de vida dos indiv\u00edduos. <a href=\"#855c77e3-606b-4808-be3f-c5daee5b394a-link\" aria-label=\"Aller \u00e0 la note de bas de page 5\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"419bcfa9-2aec-4ef9-8ed9-13dd9e067dba\">CSI Edgard Mantoanelli, na Freguesia do \u00d3, o Programa de Sa\u00fade Mental do Trabalhador funcionava, diariamente, das 12 \u00e0s 20 horas (para permitir o acesso de trabalhadores em atividade). Este trabalho contou com a participa\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios sindicatos de trabalhadores, que encaminhavam trabalhadores, com transtornos mentais de suas bases, para esta refer\u00eancia. Este trabalho foi encerrado em 1989, quando assumi a Coordena\u00e7\u00e3o Municipal do Programa de Sa\u00fade do Trabalhador, da cidade de S\u00e3o Paulo, no contexto da gest\u00e3o democr\u00e1tico-popular (1989\/1992). <a href=\"#419bcfa9-2aec-4ef9-8ed9-13dd9e067dba-link\" aria-label=\"Aller \u00e0 la note de bas de page 6\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"aef69e2f-a891-48cc-89b6-28163eb3c057\">A consci\u00eancia \u00e9 a \u201clinguagem da vida real\u201d. <a href=\"#aef69e2f-a891-48cc-89b6-28163eb3c057-link\" aria-label=\"Aller \u00e0 la note de bas de page 7\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><\/ol>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pr\u00e1ticas grupais em sa\u00fade mental e sa\u00fade do trabalhador:a experi\u00eancia com Grupos de Refer\u00eancia. Francisco Drumond Marcondes de Moura \u201cContra o pessimismo da raz\u00e3o, o otimismo da pr\u00e1tica\u201dGramsci Introdu\u00e7\u00e3o Por pr\u00e1ticas grupais em sa\u00fade mental e sa\u00fade do trabalhador denomino aquelas desenvolvidas no \u00e2mbito da rede de aten\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade do trabalhador e \u00e0 sa\u00fade [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"footnotes":"[{\"content\":\"M\u00e9dico psiquiatra, com atua\u00e7\u00e3o em v\u00e1rios dispositivos do sistema CAPS, no per\u00edodo de 1992 (Santos) at\u00e9 2023 (Limeira). Atuou tamb\u00e9m em dispositivos da aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria em sa\u00fade nas regi\u00f5es do Butant\u00e3\/Zona Oeste e de S\u00e3o Mateus\/Zona Leste, do munic\u00edpio de S\u00e3o Paulo. 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