{"id":2693,"date":"2024-06-25T21:18:09","date_gmt":"2024-06-26T00:18:09","guid":{"rendered":"https:\/\/anibalsilveira.org\/?page_id=2693"},"modified":"2024-06-25T21:18:09","modified_gmt":"2024-06-26T00:18:09","slug":"dois-anos-e-meio-de-lar-abrigado-no-juqueri","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/anibalsilveira.org\/fr\/dois-anos-e-meio-de-lar-abrigado-no-juqueri\/","title":{"rendered":"DOIS ANOS E MEIO DE LAR ABRIGADO NO JUQUERI"},"content":{"rendered":"<p class=\"has-text-align-center\"><strong>DOIS ANOS E MEIO DE LAR ABRIGADO NO JUQUERI<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><strong>Paulo Cezar Naglio Palladini<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><strong>Arquivos de Sa\u00fade Mental do Estado de S\u00e3o Paulo<br>Vol XLVI &#8211; Janeiro a Dezembro\/1986-1987<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><strong>Trabalho apresentado no 11 Congresso Mundial de Psiquiatria Social\u00a0<br>Rio de Janeiro, 11 de novembro de 1986<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong>RESUMO<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em 1984 , no Hospital de Juqueri em Franco da Rocha SP, deu in\u00edcio o Autor \u00e0 experiencia denominada Lar Abrigado , com um grupo de pacientes cronicamente hospitalizados,tentativa, junto a outras medidas transformadoras, de modifica\u00e7ao das condi\u00e7oes de vida dos internados. Neste trabalho busca-se propiciar&nbsp; que o pr\u00f3prio grupo defina a dire\u00e7ao&nbsp; na medida em que possa superar posi\u00e7oes heter\u00f4nomas firmadas em anos de interna\u00e7ao, com crescente autonomia cooperativa. O n\u00facleo dessa orienta\u00e7ao tem sido a abordagem centrada na pessoa; a convic\u00e7\u00e3o de que pode-se atingir satisfat\u00f3ria sociabilidade com preserva\u00e7ao da autonomia individual, facilitando-se rela\u00e7\u00f5es interpessoais igualit\u00e1rias.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Conviv\u00eancia, autonomia, particip\u00e7\u00e3o, coopera\u00e7ao, decis\u00e3o, responsabilidade, solidariedade, confian\u00e7a, respeito, e singularidade s\u00e3o palavras que procuram caracterizar o processo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Dois anos e&nbsp; meio depis faz o Autor uma avalia\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia inicial, hoje ampliada com a cria\u00e7\u00e3o de tres novos lares abrigados , envolvendo 202 pessoas internadas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Tentativas de modificar a pr\u00e1tica institucional t\u00eam sido realizadas no Complexo Hospitalar do Juqueri, em Franco da Rocha, a partir de 1983, com as mudan\u00e7as introduzidas na politica de sa\u00fade mental do Estado de S\u00e3o Paulo (2).<\/p>\n\n\n\n<p>O Complexo Hospitalar do Juqueri fica a 50 quilometros da capial do Estado e ocupa uma \u00e1rea de 1200 alqueires, origin\u00e1rios de v\u00e1rias fazendas adquiridas pelo governo no final do s\u00e9culo passado. Comp\u00f5e-se de um conglomerate central de varies edifices, queue integral a administra\u00e7ao , as c\u00edinicas para pacientes agudos e um hospital geral, e, espalhadas por sua imensa \u00e1rea, v\u00e1rias colonias para pacientes cr\u00f4nicos. Localiza-se tamb\u00e9m no seu perimetro o Manicomio Judici\u00e1rio. Foi inaugurado em 1898 , embora tenha come\u00e7ado a funcionar em 1896, e algumas constru\u00e7\u00f5es sejam ainda mais antigas, pois foram adaptados pr\u00e9dios das antigas fazendas.<\/p>\n\n\n\n<p>A popula\u00e7ao que la vive, 3500 internados, \u00e9 uma popula\u00e7\u00e3o cronificada, m\u00e9dia de 8 anos de interna\u00e7ao, origem predominantemente rural e das camadas mais desfavorecidas socialmente. Grande parte n\u00e3o tem mais qualquer v\u00ednculo fora da institui\u00e7\u00e3o (4).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Pensamos, em 1983, que uma proposta modificadora da realidade do Complexo, que possibilitasse a melhoria das condi\u00e7\u00f5es de vida dos internados, deveria levar em conta sua origem socio-cultural, a perda dos v\u00ednculos externos, a cronicidade, suas necessidades atuais e expectativas.&nbsp; V\u00e1rios programas, conjuntamente denominados Projeto Juqueri, permitiram, ent\u00e3o, abordar o problema da moradia, a quet\u00e3o do trabalho, da conviv\u00eania e da assist\u00eancia \u00e0 sa\u00fade. Nasceram, assim, os centros de conviv\u00eancia, o programa agropecu\u00e1rio, os programas assistenciais e os lares abrigados (1,3). Os primeiros consistiam em espa\u00e7os exteriores aos pavilh\u00f5es, onde, por meio de uma s\u00e9rie de atividades procurava-se estimular as rela\u00e7\u00f5es sociais dos internados, com destaque para bailes, festas, cerim\u00f4nias religiosas, esporte, m\u00fasica, teatro, artesanato, cinema. O programa agropecu\u00e1rio procurava a religa\u00e7ao do homem \u00e0 terra e a ocupa\u00e7\u00e3o efetiva da \u00e1rea. A proposta era a implanta\u00e7\u00e3o de hortas nas proximidades das col\u00f4nias e espa\u00e7os mais extensos de plantio e cria\u00e7ao, al\u00e9m do reflorestamento de outras partes. Os programas de assist\u00eancia \u00e0 saude abrangiam a reorganiza\u00e7\u00e3o do atendimento nas situa\u00e7oes de crise, a articula\u00e7\u00e3o com os ambulat\u00f3rios de saude mental e unidades b\u00e1sicas da regi\u00e3o, cria\u00e7ao de cl\u00edniica neurol\u00f3gica e&nbsp; geri\u00e1trica. E, finalmente, criamos os lares abrigados como tentativa de cuidar do problema da moradia e possibilitar maior participa\u00e7\u00e3o dos internados na vida da institui\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s da tranforma\u00e7\u00e3o de cl\u00ednicas em col\u00f4nias, tanto estrutural como funcionalmente.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em artigo de 1984(5) conceituamos lar abrigado como uma &#8220;unidade pequena, descaracterizada em seus aspectos hospitalares, onde se procura, atrav\u00e9s da conviv\u00eancia, formas dignas de exist\u00eancia,com recuper\u00e7ao da autonomia, das rela\u00e7oes sociais, participa\u00e7\u00e3o nas decis\u00f5es, da coopera\u00e7\u00e3o no trabalho, do est\u00edmulo para perceber e pensar a pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o&#8221;.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A transforma\u00e7ao dos espa\u00e7os f\u00edsico e social, promovendo a ruptura do espa\u00e7o hospitalar, seria trabalho participativo, onde os internados integrariam todos os momentos do processo. Desse modo a proposta foi levada a um determinado grupo, discutida e estabelecido um compromisso a priori, pois os rumos que o processo tomaria seriam apenas facilitados pela equipe, e nao conduzidos por ela (7). Assim a decis\u00e3o de que c\u00f4modos ocupar no predio, de que modo dispor os m\u00f3veis, se a porta de entrada ficaria aberta ou fechada e de que hora a que hora, quem faria o que, que tarefas seriam comuns, tudo passou a ser decis\u00e3o do grupo. Todos foram convidados&nbsp; a participar, embora nem todos aceitassem a nova condi\u00e7ao, e tendessem a repetir o modelo tradicional incorporado durante anos e anos de interna\u00e7\u00e3o (6). Entretanto, o processo de discuss\u00e3o de sua condi\u00e7ao de pacientes psiqui\u00e1tricos internados cronificados estava aberto.<\/p>\n\n\n\n<p>O primeiro lar abrigado foi inaugurado no dia 4 de fevereiro de 1984 com 48 internados da col\u00f4nia denominada &#8220;Ch\u00e1cara&#8221; e ocupando o pr\u00e9dio da antiga creche do Complexo (3,5). O trabalho preliminar de discuss\u00e3o da proposta foi feito na pr\u00f3pria col\u00f4nia de origem durante os seis meses que antecederam a mudan\u00e7a. Os reparos necess\u00e1rios, a recupera\u00e7ao e adequa\u00e7\u00e3o dos m\u00f3veis, sua disposi\u00e7\u00e3o, enfim todos os aspectos que cercam a ocupa\u00e7\u00e0o do local foram cuidados&nbsp; pelos internados juntamente com os tr\u00eas funcionarios. que vieram integrar o grupo. Quarenta e tr\u00eas deles ja mantinham algum v\u00ednculo de trabalho no Complexo, e, portanto, os funcion\u00e1rios e os cinco restantes dedicaram-se \u00e0 limpeza, arruma\u00e7\u00e3o, distribui\u00e7\u00e3o das refei\u00e7oes e suprimento das necessidades b\u00e1sicas. A equipe, na \u00e9poca, estava composta por um psiquiatra, um psic\u00f3logo e duas assistentes sociais. Ter\u00e7as-feiras pela manh\u00e3&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>equipe, moradores do lar e funcion\u00e1rios agrupavam-se na reuni\u00e3o geral, o principal modo de organiza\u00e7\u00e3o do lar. As primeiras questoes discutidas foram a libera\u00e7ao de entrada e saida, o livre tr\u00e2nsito no interior e fora da institui\u00e7\u00e3o, a aboli\u00e7ao do uso compuls\u00f3rio do uniforme e o estabelecimento de normas m\u00ednimas de conv\u00edvio. Para avalia\u00e7ao da experi\u00eancia a equipe reunia-se semanalmente.<\/p>\n\n\n\n<p>Como experi\u00eancia inicial o primeiro lar abrigado serviu de base para a amplia\u00e7\u00e3o da proposta de novos lares, abarcando parcelas maiores da popula\u00e7\u00e3o internada.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma faceta importante desse trabalho \u00e9 a manuten\u00e7\u00e3o da autonomia de cada unidade, j\u00e1 que seu perfil \u00e9 configurado pelos pr\u00f3prios moradores, suas necessidades, desejos e limita\u00e7\u00f5es. Assim as solu\u00e7oes para os problemas do dia a dia s\u00e3o criadas a partir da realidade concreta de cada grupo, com a a juda das equipes, e n\u00e3o se originam de posi\u00e7oes hier\u00e1rquicas ainda dominantes na institui\u00e7\u00e3o. Se h\u00e1 conflitos, que as partes trabalhem na sua supera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Pouco depois da implanta\u00e7\u00e3o do primeiro lar, duas outras unidades entraram nesse processo; s\u00e3o duas col\u00f4nias agricolas conhecidas por Ch\u00e1cara e Moinho (3) respectivamente com 45 e 55 internados homens. Como col\u00f4nias agr\u00edcolas a atividade predominante est\u00e1 ligada \u00e0 terra. Ambas contam com equipes com pelo menos m\u00e9dico e terapeuta ocupacional, sendo que a Ch\u00e1cara ainda tem psic\u00f3logo e assistente social.<\/p>\n\n\n\n<p>Paralelamente come\u00e7ou-se a implanta\u00e7ao do primeiro lar de mulheres com 54 internadas da terceira cl\u00ednica psiqui\u00e1trica feminina. Tanto neste como nos primeiros o processo de discuss\u00e3o e decis\u00f5es grupais ocorrem em uma reuni\u00e3o semanal da qual participam moradores e equipes. As equipes reunem-se ainda semanalmente, separadas e em conjunto. Embora haja especificidades na atua\u00e7\u00e3o de cada membro, decorrentes de sua forma\u00e7\u00e3o profissional, na equipe suas fun\u00e7oes s\u00e3o indiferenciadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Com a implanta\u00e7\u00e3o do programa, agora com quatro lares abrigados, foi criada uma coordena\u00e7\u00e3o centralizada e subordinada \u00e0 diretoria clinica e \u00e0 administra\u00e7\u00e3o geral do Complexo, com o risco, ao meu ver, de reprodu\u00e7\u00e1o do modelo institucional com todas as suas distor\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong>BIBLIOGRAFIA<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>1. Coletivo de T\u00e9cnicos de Sa\u00fade Mental: Proposta Alternativa de Cust\u00f3dia: o Lar Abrigado. VIII Congresso Brasileiro de Psiquiatria, Recife, outubro de 1984.<\/p>\n\n\n\n<p>2. Ferraz MPT: Politica de Sa\u00fade Mental: Revis\u00e3o dos dois \u00faltimos anos. Arquivos da Coordenadoria de Sa\u00fade Mental do Estado de S\u00e3o Paulo XLV: 11-22, 1985.<\/p>\n\n\n\n<p>3. Palladini PCN: O Lar Abrigado no contexto do Projeto Juqueri. I Encontro de Experi\u00eancias Institucionais, Franco da Rocha, 2 de julho de 1984.<\/p>\n\n\n\n<p>4. Palladini PCN: O trabalho com pacientes ps\u00edquiatricos cronificados. VIII Congresso Brasileiro de Psiquiatria, Recife, outubro de 1984.<\/p>\n\n\n\n<p>5. Palladini PCN: Lar Abrigado no Juqueri: um in\u00edcio. Arquivos da Coordenadoria de Sa\u00fade Mental do Estado de Sao Paulo XLIV: 21-29, 1984.<\/p>\n\n\n\n<p>6. Palladini PCN: Tend\u00eancias nas rela\u00e7\u00f5es de poder em um Lar Abrigado. IX Congresso Brasileiro de Psiquiatria, Curitiba, outubro de 1986, (trabalho inscrito).<\/p>\n\n\n\n<p>7. Rogers CR: Terapia, Personalidad y Relaciones Interpersonales. Ediciones Nueva Vison. Buenos Aires, 1978.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>DOIS ANOS E MEIO DE LAR ABRIGADO NO JUQUERI Paulo Cezar Naglio Palladini Arquivos de Sa\u00fade Mental do Estado de S\u00e3o PauloVol XLVI &#8211; Janeiro a Dezembro\/1986-1987 Trabalho apresentado no 11 Congresso Mundial de Psiquiatria Social\u00a0Rio de Janeiro, 11 de novembro de 1986 RESUMO Em 1984 , no Hospital de Juqueri em Franco da Rocha [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-2693","page","type-page","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/anibalsilveira.org\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/2693","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/anibalsilveira.org\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/anibalsilveira.org\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/anibalsilveira.org\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/anibalsilveira.org\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2693"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/anibalsilveira.org\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/2693\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2696,"href":"https:\/\/anibalsilveira.org\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/2693\/revisions\/2696"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/anibalsilveira.org\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2693"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/anibalsilveira.org\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2693"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/anibalsilveira.org\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2693"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}