{"id":2741,"date":"2024-07-01T17:54:56","date_gmt":"2024-07-01T20:54:56","guid":{"rendered":"https:\/\/anibalsilveira.org\/?page_id=2741"},"modified":"2024-07-01T17:54:56","modified_gmt":"2024-07-01T20:54:56","slug":"apontamentos-teoricos-e-tecnicos-para-a-investigacao-da-relacao-entre-agravos-a-saude-mental-e-o-trabalho-2024","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/anibalsilveira.org\/fr\/apontamentos-teoricos-e-tecnicos-para-a-investigacao-da-relacao-entre-agravos-a-saude-mental-e-o-trabalho-2024\/","title":{"rendered":"Apontamentos te\u00f3ricos e t\u00e9cnicos para a investiga\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o entre agravos \u00e0 sa\u00fade mental e o trabalho, 2024."},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong>APONTAMENTOS TE\u00d3RICOS E T\u00c9CNICOS PARA A INVESTIGA\u00c7\u00c3O DA RELA\u00c7\u00c3O ENTRE AGRAVOS \u00c0 SA\u00daDE MENTAL E O TRABALHO<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><strong><sup>Francisco Drumond Marcondes de Moura<\/sup><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O trabalho compromete os v\u00e1rios sistemas biol\u00f3gicos dos trabalhadores de diferentes formas, produzindo n\u00e3o apenas disfun\u00e7\u00f5es e les\u00f5es som\u00e1ticas, mas tamb\u00e9m rea\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas, podendo desencadear processos psicol\u00f3gicos e psicopatol\u00f3gicos especificamente relacionados \u00e0s condi\u00e7\u00f5es do trabalho.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Neste contexto atual, as profundas transforma\u00e7\u00f5es do mundo do trabalho, que vem ocorrendo desde meados dos anos setenta \u2013 e que ainda est\u00e3o em processo -, sobrep\u00f4s uma nova situa\u00e7\u00e3o de desgaste emocional para aqueles que \u201ctrabalham para viver\u201d: uma fra\u00e7\u00e3o cada vez menor de trabalhadores efetivamente integrados e o restante vivenciando uma condi\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade e de desfilia\u00e7\u00e3o progressiva do mundo do trabalho (Castel, 1998): aspectos estruturais jamais vistos em outros per\u00edodos do processo de desenvolvimento do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, compreendido no seu conjunto e globalmente (Antunes, 1995).\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Este processo de reestrutura\u00e7\u00e3o produtiva e organizacional cujas inflex\u00f5es apontam para o esgotamento do modelo taylorista-fordista, estabelece novos cen\u00e1rios produtivos: a acumula\u00e7\u00e3o flex\u00edvel, desemprega ou precariza praticamente um bilh\u00e3o de pessoas, o equivalente a um ter\u00e7o da for\u00e7a de trabalho mundial (Antunes\/1995, Brito\/1995). \u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Esta realidade, para alguns, coloca em quest\u00e3o a centralidade do trabalho na sociedade contempor\u00e2nea. De fato, este contexto de desemprego estrutural revela uma diminui\u00e7\u00e3o do proletariado industrial e o aumento constante da subproletariza\u00e7\u00e3o, verificada pela expans\u00e3o de outras formas de organiza\u00e7\u00e3o do trabalho: terceiriza\u00e7\u00f5es, trabalhos em tempo parcial, subcontrata\u00e7\u00f5es, tempor\u00e1rios, etc.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Estas novas tend\u00eancias ocorridas no mundo do trabalho, representadas por intensas mudan\u00e7as na forma de produ\u00e7\u00e3o (maximizando a explora\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho), na forma de organiza\u00e7\u00e3o do trabalho (tornando-o mais mec\u00e2nico, automatizado, repetitivo e prec\u00e1rio), na configura\u00e7\u00e3o da materialidade e subjetividade do trabalhador que busca constantemente se inserir \u00e1 l\u00f3gica do capital a fim de atender \u00e0 demanda do consumo, acentuam o impacto \u00e0 sa\u00fade dos trabalhadores, uma vez que todas as circunst\u00e2ncias que modificam as condi\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o e de re-produ\u00e7\u00e3o da vida e do trabalho, condicionam novas vari\u00e1veis no processo sa\u00fade\/doen\u00e7a (Laurell, 1989).<\/p>\n\n\n\n<p>Por isto, \u00e9 fundamental incorporar, no \u00e2mbito do processo de investiga\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o entre a sa\u00fade mental e o trabalho, este aspecto da precariedade e fragilidade da vincula\u00e7\u00e3o com o trabalho, reconhecendo a import\u00e2ncia desse contexto na determina\u00e7\u00e3o de uma sobrecarga adicional ao aparelho ps\u00edquico dos trabalhadores, j\u00e1 submetidos ao conjunto de cargas de trabalho (incluindo as ps\u00edquicas) inerentes aos seus diferentes processos de trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 importante ainda considerar que o trabalho n\u00e3o pode ser compreendido apenas do ponto de vista da produ\u00e7\u00e3o de valores de troca &#8211; e portanto de valores de uso -, de mercadorias a serem comercializadas no mercado local ou global. Pelo contr\u00e1rio, o trabalho pode e deve ser compreendido como uma potencialidade humana singular, uma \u201cmanifesta\u00e7\u00e3o de si\u201d das pessoas, da sua capacidade criativa de interven\u00e7\u00e3o e de sua rela\u00e7\u00e3o com a natureza, raiz do processo de produ\u00e7\u00e3o e de reprodu\u00e7\u00e3o da sua sociabilidade, a base real do conjunto de suas rela\u00e7\u00f5es sociais e, por isto, aspecto fundamental na estrutura\u00e7\u00e3o da sua personalidade (Marx, 1975, 1983).\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>O modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista est\u00e1 fundamentado e se viabiliza<sup data-fn=\"09e2e1e2-71bb-4f0b-bfdb-76c08884c4f0\" class=\"fn\"><a href=\"#09e2e1e2-71bb-4f0b-bfdb-76c08884c4f0\" id=\"09e2e1e2-71bb-4f0b-bfdb-76c08884c4f0-link\">1<\/a><\/sup> no estatuto do trabalho humano como gerador de valor. Neste sentido e, irremediavelmente, este modo de produ\u00e7\u00e3o est\u00e1 em oposi\u00e7\u00e3o com a natureza humana, est\u00e1 na raiz do car\u00e1ter desumanizado das rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o que produz e reproduz continuamente: o trabalho aqui aparece na sua forma negativa, como trabalho alienado, como subordina\u00e7\u00e3o coletiva ao dom\u00ednio dos empregadores, e isto n\u00e3o fica circunscrito aos locais de produ\u00e7\u00e3o, esta subordina\u00e7\u00e3o se irradia para toda a sociedade, quer dizer, isto tamb\u00e9m produz e reproduz uma sociabilidade humana subordinada a uma ordem dominante<sup data-fn=\"1c538648-23cf-46a2-a271-2c56cefe1c4d\" class=\"fn\"><a href=\"#1c538648-23cf-46a2-a271-2c56cefe1c4d\" id=\"1c538648-23cf-46a2-a271-2c56cefe1c4d-link\">2<\/a><\/sup> (Marx, 1983).\u00a0\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 um trabalho dominado, subordinado a uma l\u00f3gica produtiva que nega a ess\u00eancia do trabalho como determinante de uma sociabilidade humanizada: aqui n\u00e3o h\u00e1 apenas uma expropria\u00e7\u00e3o da vitalidade dos corpos, mas, sobretudo e primordialmente, uma expropria\u00e7\u00e3o da sociabilidade dos trabalhadores (Seligmann-Silva, 1994).\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Guattari e Deleuze (1976) o denominam de \u201canti-produ\u00e7\u00e3o\u201d: a produ\u00e7\u00e3o das coisas e n\u00e3o do homem<sup data-fn=\"48038bd2-cb70-4148-8919-ea57cf7e8cd9\" class=\"fn\"><a href=\"#48038bd2-cb70-4148-8919-ea57cf7e8cd9\" id=\"48038bd2-cb70-4148-8919-ea57cf7e8cd9-link\">3<\/a><\/sup>. \u00c9 ilus\u00f3rio pensar que esta expropria\u00e7\u00e3o coletiva fica restrita \u00e0s quatro paredes de uma empresa: ela se irradia por toda a vida social, em uma reprodu\u00e7\u00e3o ampliada destas rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o, engendrando no interior desta sociedade, aquilo que diferentes autores, denominam de barb\u00e1rie, aliena\u00e7\u00e3o, massifica\u00e7\u00e3o, desumaniza\u00e7\u00e3o institucionalizada (Antunes\/1995, Mangia\/2003, Marx\/1979 e 1983, Meszaros, 1981).\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Esta leitura n\u00e3o \u00e9 restrita aos autores do \u201ccampo marxista\u201d, como alguns poderiam objetar. O pensador franc\u00eas Auguste Comte<sup data-fn=\"7c975457-7d68-482f-a9bf-178c31b7b3f4\" class=\"fn\"><a href=\"#7c975457-7d68-482f-a9bf-178c31b7b3f4\" id=\"7c975457-7d68-482f-a9bf-178c31b7b3f4-link\">4<\/a><\/sup>, j\u00e1 em 1852, assinalava em seu \u201cSyst\u00e8me de Politique Positive\u201d (marco fundador da Sociologia), a situa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores parisienses \u201cacampados \u00e0 margem da sociedade\u201d, apontando para uma \u201cpatologia social em processo\u201d. Freud descreve em Psicopatologia do Cotidiano a configura\u00e7\u00e3o desta patologia social (embora n\u00e3o tenha ressaltado, com for\u00e7a, a sua determina\u00e7\u00e3o social).<\/p>\n\n\n\n<p>Outras duas ferramentas conceituais aplic\u00e1veis, no estudo desta rela\u00e7\u00e3o entre psiquismo e trabalho, constituem os conceitos de \u201cdesterritorializa\u00e7\u00e3o\u201d e de \u201cinconsciente produtivo\u201d, elaborados por Guattari e Deleuze em \u201cAnti-\u00c9dipo\u201d (1976).<\/p>\n\n\n\n<p>A \u201cdescoberta do inconsciente produtivo tem dois correlatos: de um lado, a confronta\u00e7\u00e3o direta entre a produ\u00e7\u00e3o desejante (individual ou grupal) e a produ\u00e7\u00e3o social, entre as forma\u00e7\u00f5es sintomatol\u00f3gicas e as forma\u00e7\u00f5es coletivas; por outro lado, a repress\u00e3o que a m\u00e1quina social exerce sobre as m\u00e1quinas desejantes (individuais ou grupais), e a rela\u00e7\u00e3o do recalcamento com essa repress\u00e3o\u201d (Guattari e Delleuze, 1976).\u00a0 A incorpora\u00e7\u00e3o deste conceito &#8211; na pr\u00e1tica anal\u00edtica &#8211; concede um significado libert\u00e1rio \u00e0s no\u00e7\u00f5es fundamentais de economia do desejo, trabalho e investimento (preciosas no campo da psican\u00e1lise, mas aqui aplicadas no bojo de uma compreens\u00e3o diversa de inconsciente).<\/p>\n\n\n\n<p>\u00a0\u201cA sociedade capitalista traduz uma fal\u00eancia dos c\u00f3digos. O Estado (da ordem capitalista) n\u00e3o pode mais contentar-se em sobrecodificar os elementos territoriais j\u00e1 codificados, ele deve inventar c\u00f3digos espec\u00edficos para fluxos cada vez mais desterritorializados. O primeiro grande movimento de desterritorializa\u00e7\u00e3o apareceu com a sobrecodifica\u00e7\u00e3o do Estado desp\u00f3tico (da ordem feudal). Mas ele ainda n\u00e3o \u00e9 nada ao lado do outro grande movimento, que vai fazer-se pela decodifica\u00e7\u00e3o dos fluxos. Mas este fluxos decodificados s\u00f3 formam um desejo, desejo que produz, em lugar de sonhar e de ter falta, m\u00e1quina desejante social e t\u00e9cnica ao mesmo tempo. Eis porque o capitalismo e seu corte n\u00e3o se definem simplesmente por fluxos decodificados, mas pela decodifica\u00e7\u00e3o generalizada dos fluxos, a nova desterritorializa\u00e7\u00e3o massiva, a conjun\u00e7\u00e3o dos fluxos desterritorializados. Foi a singularidade dessa conjun\u00e7\u00e3o que fez a universalidade do capitalismo\u201d. O trabalhador desterritorializado \u00e9 o trabalhador livre, por\u00e9m desconectado das condi\u00e7\u00f5es materiais para a sua sobreviv\u00eancia, o homem contingente (Marx, 1983). Por essa raz\u00e3o necessita vender a sua for\u00e7a de trabalho, se submetendo a uma situa\u00e7\u00e3o social que lhe \u00e9 imposta, e que apesar de ser absurdamente desumanizada \u00e9 admitida e assimilada socialmente e, ideologicamente, veiculada pelo seu contr\u00e1rio: a organiza\u00e7\u00e3o social de \u201chomens livres\u201d, a sociedade do \u201clivre mercado\u201d, a sociedade \u201cdemocr\u00e1tica\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Todos estes componentes \u201cexteriores\u201d aos processos de trabalho contribuem para o desgaste emocional dos trabalhadores. \u00c9 a partir do reconhecimento desta contextualiza\u00e7\u00e3o e, sobretudo da sua efetiva incorpora\u00e7\u00e3o, quer dizer, somente quando levamos este \u201cpassivo de desgaste mental\u201d pr\u00e9vio a s\u00e9rio, estaremos aptos para proceder ao processo de investiga\u00e7\u00e3o, n\u00e3o apenas do \u201cqu\u00ea\u201d, mas principalmente, do \u201ccomo\u201d os diversos tipos de cargas de trabalho comprometem o aparato ps\u00edquico dos trabalhadores: seja por interfer\u00eancia direta no n\u00edvel subjetivo (cargas ps\u00edquicas), quer dizer, sobre os dinamismos da vida ps\u00edquica (Borges, 1999, 2001; Rigotto, 1994); seja pela a\u00e7\u00e3o sobre o c\u00e9rebro ou sobre outros sistemas som\u00e1ticos (cargas f\u00edsicas, qu\u00edmicas, biol\u00f3gicas, fisiol\u00f3gicas e mec\u00e2nicas), quer dizer, no n\u00edvel objetivo, por meio do comprometimento direto ou indireto de fun\u00e7\u00f5es ou sistemas cerebrais corticais ou sub-corticais (Dejours\/1993, Hartman\/1988, Organizaci\u00f3n Mundial de la Salud\/1976, Rutenfranz\/1989, Seligmann-Silva\/1997, WHO\/1997).\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Rela\u00e7\u00e3o causal entre o trabalho e psiquismo\u00a0<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Foi a partir de 1983 que o problema da rela\u00e7\u00e3o entre o psiquismo e trabalho chamou a minha aten\u00e7\u00e3o. Naturalmente, nunca ouvi uma palavra sobre isto na faculdade de medicina (FMUSP-1969\/1974). Nesta \u00e9poca, o conhecimento que tinha sobre este tema decorria da leitura de textos vinculados \u00e0 minha milit\u00e2ncia no movimento em defesa dos direitos humanos dos doentes mentais<sup data-fn=\"e5d4866c-a376-43f8-885b-30902d9582a7\" class=\"fn\"><a href=\"#e5d4866c-a376-43f8-885b-30902d9582a7\" id=\"e5d4866c-a376-43f8-885b-30902d9582a7-link\">5<\/a><\/sup>. Ao longo do tempo, a necessidade de aprofundar o conhecimento espec\u00edfico da rela\u00e7\u00e3o psiquismo\/trabalho &#8211; que se revelava mais vasta e mais complexa, a cada passo -, imp\u00f4s a leitura sistem\u00e1tica da maior parte da bibliografia assinalada ao longo deste ensaio. No in\u00edcio, o meu foco estava concentrado no eventual papel que o mecanismo da aliena\u00e7\u00e3o (relacionada ao trabalho alienado) pudesse representar nesta rela\u00e7\u00e3o. Desta forma, conduzi o meu estudo no sentido de estabelecer o embasamento te\u00f3rico na delimita\u00e7\u00e3o de um problema que denominei de \u201cexpropria\u00e7\u00e3o da sociabilidade\u201d<sup data-fn=\"00888ae0-a4d1-4365-badb-fa338ff95cfe\" class=\"fn\"><a href=\"#00888ae0-a4d1-4365-badb-fa338ff95cfe\" id=\"00888ae0-a4d1-4365-badb-fa338ff95cfe-link\">6<\/a><\/sup> dos trabalhadores, que estaria na raiz &#8211; como mecanismo patog\u00eanico b\u00e1sico e difuso -, do seu sofrimento ps\u00edquico, que apresentei de forma sint\u00e9tica, na parte inicial deste ensaio.<\/p>\n\n\n\n<p>Nessa fase inicial, via com muita cautela a possibilidade de ser demonstrada a rela\u00e7\u00e3o causal de um aspecto espec\u00edfico do processo de trabalho com um agravo espec\u00edfico \u00e0 sa\u00fade mental dos trabalhadores. Isto era uma hip\u00f3tese de trabalho a ser testada: a ser comprovada ou refutada (como orienta Popper)<sup data-fn=\"e01796f7-6b63-4374-aad3-84bad4afe98c\" class=\"fn\"><a href=\"#e01796f7-6b63-4374-aad3-84bad4afe98c\" id=\"e01796f7-6b63-4374-aad3-84bad4afe98c-link\">7<\/a><\/sup>.<\/p>\n\n\n\n<p>O meu primeiro contato \u201cpr\u00e1tico\u201d com este problema da rela\u00e7\u00e3o sa\u00fade mental\/trabalho ocorreu em 1984, quando participei de uma pesquisa, solicitada pelo Sindicato Nacional dos Aeronautas ao DIESAT<sup data-fn=\"c210b505-95cf-4e74-8b38-3723a6768758\" class=\"fn\"><a href=\"#c210b505-95cf-4e74-8b38-3723a6768758\" id=\"c210b505-95cf-4e74-8b38-3723a6768758-link\">8<\/a><\/sup>, focalizada na situa\u00e7\u00e3o dos alojamentos conjuntos que as empresas a\u00e9reas impunham aos Comiss\u00e1rios de Bordo. Uma s\u00e9rie de evid\u00eancias apontava para viv\u00eancias embara\u00e7osas relacionadas com esta situa\u00e7\u00e3o (ass\u00e9dio sexual, constrangimentos de toda a ordem). O sindicato mobilizava os trabalhadores para a luta por alojamentos separados e precisava de um subs\u00eddio t\u00e9cnico\/cient\u00edfico para fortalecer esta reivindica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Na pesquisa foi utilizada uma metodologia adaptada do modelo oper\u00e1rio italiano (grupo focal homog\u00eaneo). A partir de tr\u00eas encontros com um grupo de 9 comiss\u00e1rios de bordo, vinculados \u00e0s principais empresas a\u00e9reas, foram levantados uma rela\u00e7\u00e3o de problemas que foram sistematizados em um question\u00e1rio, que foi pr\u00e9-testado em 30 comiss\u00e1rios e, posteriormente, aplicados para todos os comiss\u00e1rios de bordo do pa\u00eds (em torno de 900, na \u00e9poca)<sup data-fn=\"f10d5546-43ba-494d-a835-461bf0e352ad\" class=\"fn\"><a href=\"#f10d5546-43ba-494d-a835-461bf0e352ad\" id=\"f10d5546-43ba-494d-a835-461bf0e352ad-link\">9<\/a><\/sup>.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>No bojo da pesquisa, um evento particular\u00edssimo chamou a minha aten\u00e7\u00e3o: o processo de organiza\u00e7\u00e3o do trabalho dos comiss\u00e1rios de bordo, de uma das empresas a\u00e9reas, condicionava uma atitude de vigil\u00e2ncia, de uns para com os outros, com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua apresenta\u00e7\u00e3o e o seu posto de trabalho: cabelos, maquiagem, roupas, etc.: \u201ctudo tinha que estar impec\u00e1vel\u201d. Assim, o cabelo desalinhado, uma pequena mancha na blusa ou uma \u201cbagun\u00e7a\u201d do posto de trabalho, eram prontamente observados e, discretamente corrigidos. Este mecanismo, condicionado pela organiza\u00e7\u00e3o do seu trabalho, produziu em algumas comiss\u00e1rias de bordo, um comportamento similar em seu ambiente familiar. Estas passaram a corrigir os \u201cdesalinhos\u201d na apresenta\u00e7\u00e3o dos seus maridos, filhos e do seu ambiente familiar concreto. O que temos aqui? Isto n\u00e3o se parece com um mecanismo obsessivo- compulsivo? N\u00e3o est\u00e1 manifesto aqui um dos aspectos fundamentais na patog\u00eanese do dinamismo obsessivo-compulsivo, que \u00e9 a subordina\u00e7\u00e3o excessiva do mundo interno \u00e0s injun\u00e7\u00f5es do mundo externo? Como se sabe, uma das conseq\u00fc\u00eancias desse comportamento \u00e9 o intenso desgaste emocional (energ\u00e9tico) que produz. E isto foi uma queixa marcante destas trabalhadoras, quando perguntadas se essa situa\u00e7\u00e3o estava interferindo com as suas vidas pessoais.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns anos mais tarde, em 1990, no \u00e2mbito do CRST Mooca<sup data-fn=\"9a03925e-ecca-41d2-93d8-160ae319c9fd\" class=\"fn\"><a href=\"#9a03925e-ecca-41d2-93d8-160ae319c9fd\" id=\"9a03925e-ecca-41d2-93d8-160ae319c9fd-link\">10<\/a><\/sup>, examinei um grupo de 15 trabalhadoras de uma ind\u00fastria qu\u00edmica, vinculadas a um mesmo setor da empresa<sup data-fn=\"cb61f090-5285-48d2-b964-f29123dc54c9\" class=\"fn\"><a href=\"#cb61f090-5285-48d2-b964-f29123dc54c9\" id=\"cb61f090-5285-48d2-b964-f29123dc54c9-link\">11<\/a><\/sup>. Neste setor havia um intenso trabalho repetitivo: em cada minuto, era necess\u00e1rio realizar 32 movimentos diferentes. Sob tais circunst\u00e2ncias, a m\u00e1quina impunha o ritmo ao trabalhador. Os tempos da m\u00e1quina determinavam os tempos da atividade motora dos trabalhadores. Em outros termos: o dinamismo ps\u00edquico dos trabalhadores era determinado pelo dinamismo da m\u00e1quina. Ou ainda: o mundo interno dos trabalhadores era subordinado \u00e0s injun\u00e7\u00f5es do mundo externo. Ocorreria aqui o desencadeamento do mesmo comportamento obsessivo-compulsivo?\u00a0 Um grupo de 15 trabalhadoras foi organizado para responder a esta pergunta (metodologia do grupo focal), compreendida como a formula\u00e7\u00e3o de uma hip\u00f3tese de trabalho \u201cad hoc\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00a0Os resultados foram surpreendentes: algumas trabalhadoras relataram que os seus maridos eram acordados de madrugada, devido aos movimentos dos seus corpos, que reproduziam, pela descri\u00e7\u00e3o, os mesmos movimentos que realizavam no seu trabalho. Houve relatos freq\u00fcentes de sonharem que estavam trabalhando. Uma queixa generalizada destas trabalhadoras foi o de \u201cacordarem cansadas\u201d, como se tivessem \u201ctrabalhado a noite inteira\u201d. E, finalmente, algumas referiram que se tornaram muito exigentes com a organiza\u00e7\u00e3o das coisas nas suas casas, com o ordenamento das coisas.<\/p>\n\n\n\n<p>Estas observa\u00e7\u00f5es me convenceram sobre a possibilidade de ser demonstrada a rela\u00e7\u00e3o causal de um aspecto espec\u00edfico do trabalho com um agravo espec\u00edfico \u00e0 sa\u00fade mental dos trabalhadores, mesmo quando considerados, no limite da confronta\u00e7\u00e3o cient\u00edfica com o ac\u00famulo de conhecimento existente sobre a quest\u00e3o investigada.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Preval\u00eancia e epidemiologia dos transtornos mentais entre os trabalhadores<\/strong>\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>As cargas ps\u00edquicas est\u00e3o presentes em todos os processos de trabalho e arranjos produtivos, independentemente de pertencerem ao setor formal ou informal, p\u00fablico ou privado, industrial ou de servi\u00e7os, abrangendo todos os ramos de atividade. Por essa raz\u00e3o, os transtornos mentais apresentam uma grande preval\u00eancia entre grupos homog\u00eaneos de trabalhadores, implicando desde o sofrimento ps\u00edquico leve at\u00e9 aos quadros com maior comprometimento da vida de rela\u00e7\u00e3o com o meio (Minist\u00e9rio da Sa\u00fade\/2001).\u00a0\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo estimativa da OMS, os transtornos mentais menores acometem cerca de 30% dos trabalhadores ocupados, e os transtornos mentais graves, cerca de 5 a 10%. No Brasil, dados do INSS sobre a concess\u00e3o de benef\u00edcios previdenci\u00e1rios de aux\u00edlio-doen\u00e7a, por incapacidade para o trabalho superior a 15 dias e de aposentadoria por invalidez, por incapacidade definitiva para o trabalho, mostram que os transtornos mentais, com destaque para o alcoolismo cr\u00f4nico, ocupam o terceiro lugar entre as causas dessas ocorr\u00eancias (Minist\u00e9rio da Sa\u00fade\/2001).\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Na Tabela 1 se apresenta uma s\u00edntese dos transtornos de natureza org\u00e2nica relacion\u00e1veis ao trabalho, em sua grande maioria correspondem ao Grupo I da Classifica\u00e7\u00e3o de Schilling.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Tabela 1 \u2013 Epidemiologia dos Quadros Cerebrais Org\u00e2nicos Relacion\u00e1veis ao Trabalho<\/strong><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"381\" src=\"https:\/\/anibalsilveira.org\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/01-1024x381.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-2742\" srcset=\"https:\/\/anibalsilveira.org\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/01-1024x381.png 1024w, https:\/\/anibalsilveira.org\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/01-300x112.png 300w, https:\/\/anibalsilveira.org\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/01-768x286.png 768w, https:\/\/anibalsilveira.org\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/01-18x7.png 18w, https:\/\/anibalsilveira.org\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/01.png 1118w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p><strong>Adapta\u00e7\u00e3o de Francisco Drumond Marcondes de Moura, agosto\/2005<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Os quadros cl\u00ednicos que comp\u00f5em a Tabela 2 foram considerados din\u00e2micos. Podem estar associados ou apresentarem fortes conex\u00f5es com quadros cerebrais org\u00e2nicos. Isto pode ser observado no alcoolismo cr\u00f4nico, nos epis\u00f3dios depressivos (intoxica\u00e7\u00e3o por organofosforados, chumbo, entre outros), na neurastenia (intoxica\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica por metais pesados, solventes org\u00e2nicos, entre outros) e nos casos de transtorno do ciclo vig\u00edlia; sono, a rigor, localizado no n\u00edvel intermedi\u00e1rio entre o dinamismo cerebral e o psicodin\u00e2mico (Coelho\/1975, Silveira\/1978). Mas o complexo sintom\u00e1tico que apresentam traduzem a participa\u00e7\u00e3o de dinamismos pr\u00f3prios da vida subjetiva, da\u00ed terem sido caracterizados como din\u00e2micos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Tabela 2 \u2013 Epidemiologia dos Quadros Din\u00e2micos Relacion\u00e1veis ao Trabalho<\/strong><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"817\" height=\"666\" src=\"https:\/\/anibalsilveira.org\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/02.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-2743\" srcset=\"https:\/\/anibalsilveira.org\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/02.png 817w, https:\/\/anibalsilveira.org\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/02-300x245.png 300w, https:\/\/anibalsilveira.org\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/02-768x626.png 768w, https:\/\/anibalsilveira.org\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/02-15x12.png 15w\" sizes=\"auto, (max-width: 817px) 100vw, 817px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p><strong>Adapta\u00e7\u00e3o de Francisco Drumond Marcondes de Moura, agosto\/2005<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Implica\u00e7\u00f5es da rela\u00e7\u00e3o causal com o trabalho<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O estabelecimento da rela\u00e7\u00e3o causal entre agravos \u00e0 sa\u00fade mental com o trabalho tem sido objeto de questionamentos e de conflitos entre t\u00e9cnicos vinculados ao SUS e aos Departamentos de Sa\u00fade dos Sindicatos de Trabalhadores com peritos do INSS e t\u00e9cnicos dos Servi\u00e7os de Seguran\u00e7a e Medicina do Trabalho das empresas. Aqueles que sustentam a impossibilidade do estabelecimento desse nexo utilizam argumentos que desqualificam a \u201cobjetividade\u201d dos complexos sintom\u00e1ticos ps\u00edquicos, apontando para aquilo que aparenta ser o aspecto mais contradit\u00f3rio e mais herm\u00e9tico da rela\u00e7\u00e3o entre sa\u00fade mental e trabalho: a \u201cinvisibilidade\u201d das cargas de trabalho ps\u00edquicas, que acredito ser\u00e3o bem destacadas e trazidas \u00e0 luz neste artigo.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, ressaltam a dificuldade de se diferenciar rea\u00e7\u00f5es psicol\u00f3gicas inerentes \u00e0s adversidades relacionadas com as condi\u00e7\u00f5es materiais de exist\u00eancia, ou mesmo daquelas relacionadas com aspectos din\u00e2micos da vida de rela\u00e7\u00e3o com o meio ou no ambiente familiar, com aquelas produzidas por din\u00e2micas ou situa\u00e7\u00f5es relacionadas aos ambientes de trabalho. Por isto ser\u00e1 necess\u00e1rio sempre: caracterizar as condi\u00e7\u00f5es psicol\u00f3gicas anteriores &#8211; ao epis\u00f3dio que est\u00e1 sendo investigado -, verificar o seu dinamismo b\u00e1sico e estabelecer: em alguns casos, uma aus\u00eancia de continuidade entre ambos os processos, ou em outros casos, essa condi\u00e7\u00e3o pr\u00e9via individual como fator predisponente ou facilitador para o desencadeamento do quadro ps\u00edquico considerado. Em ambas as situa\u00e7\u00f5es, ser\u00e1 poss\u00edvel estabelecer uma rela\u00e7\u00e3o direta ou indireta com o trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p>De qualquer forma esse percurso do processo de investiga\u00e7\u00e3o, esse passo a passo do processo de estabelecimento do nexo causal deve estar bem claro e explicitado. Como adverte Silvia Jardim (1997), o caminho percorrido pelos t\u00e9cnicos, do SUS para estabelecer a rela\u00e7\u00e3o causal, entre um conjunto de sintomas, com determinadas caracter\u00edsticas do trabalho aparece, \u201cpara os t\u00e9cnicos do INSS e das empresas, t\u00e3o invis\u00edvel quanto \u00e0 natureza dos complexos sintom\u00e1ticos ps\u00edquicos, por ele produzido\u201d.\u00a0\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio dar visibilidade e transpar\u00eancia a este caminho a ser percorrido, pelos t\u00e9cnicos do SUS, Sindicatos, INSS, empresas e peritos: \u00e9 necess\u00e1rio identificar o \u201ccaminho das pedras\u201d para o estabelecimento da rela\u00e7\u00e3o causal entre agravos \u00e0 sa\u00fade mental com determinadas cargas de trabalho, lan\u00e7ando m\u00e3o de uma ferramenta consensual e transparente de investiga\u00e7\u00e3o diagn\u00f3stica. Este \u00e9 o maior desafio do processo de investiga\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o causal entre os agravos \u00e0 sa\u00fade mental e o trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>N\u00edveis de investiga\u00e7\u00e3o diagn\u00f3stica na rede de sa\u00fade mental e sa\u00fade do trabalhador do SUS<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>No \u00e2mbito do SUS, o campo da sa\u00fade do trabalhador e o campo da sa\u00fade mental tem a mesma origem: ambas est\u00e3o profundamente imbricadas com o debate sobre a reforma sanit\u00e1ria brasileira. E ambas sofreram forte influ\u00eancia &#8211; assim como o pr\u00f3prio processo da reforma sanit\u00e1ria brasileira -, das experi\u00eancias correlatas desenvolvidas no \u00e2mbito da reforma sanit\u00e1ria italiana (Basaglia, 1984; Berlinguer, !976, 1984).\u00a0\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>No campo da sa\u00fade mental, a experi\u00eancia da \u201cpsiquiatria democr\u00e1tica\u201d italiana (Basaglia, 1985), exerceu uma profunda influ\u00eancia sobre os t\u00e9cnicos em sa\u00fade mental, que, em nosso pa\u00eds, combatiam o modelo hospitaloc\u00eantrico e medicalizado que ent\u00e3o caracterizava a aten\u00e7\u00e3o \u00e0s pessoas com sofrimento ps\u00edquico, dando os primeiros passos em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 reforma psiqui\u00e1trica brasileira.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o por coincid\u00eancia, ambos os processos convergem, em 2002, para o mesmo l\u00f3cus no Minist\u00e9rio da Sa\u00fade: a Assessoria T\u00e9cnica da Secretaria de Assist\u00eancia \u00e0 Sa\u00fade \u2013 ASTEC\/SAS. Neste ano, foram criadas &#8211; com uma diferen\u00e7a de poucos meses -, as redes nacionais de sa\u00fade mental (RAPS) e de sa\u00fade do trabalhador (RENAST), ambas com a mesma concep\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica de organiza\u00e7\u00e3o de uma rede de \u201cservi\u00e7os territoriais fortes\u201d (conceito elaborado no contexto da reforma sanit\u00e1ria italiana): os CAPS, na sa\u00fade mental e os CRST, na sa\u00fade do trabalhador. E ambas com atribui\u00e7\u00f5es semelhantes: romper com as pr\u00e1ticas discriminat\u00f3rias e excludentes, e constituir p\u00f3los irradiadores da cultura da determina\u00e7\u00e3o social das doen\u00e7as, configurando, coerentemente com a sua origem, dois campos contra-hegem\u00f4nicos do SUS.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa interrela\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, ideol\u00f3gica e institucional entre as duas redes &#8211; aspectos facilitadores para uma forte atua\u00e7\u00e3o sin\u00e9rgica -, tem sido pouco valorizada. Levando em considera\u00e7\u00e3o que 30% dos trabalhadores apresentam agravos \u00e0 sa\u00fade mental (o mais prevalente, segundo a OIT), este sinergismo encerra uma import\u00e2ncia estrat\u00e9gica: no \u00e2mbito do SUS, esta integra\u00e7\u00e3o articularia uma rede de CRST e de CAPS, com milhares de dispositivos distribu\u00eddos por todo o territ\u00f3rio nacional, potencializando a fun\u00e7\u00e3o matricial e supervisora destes dispositivos, sobre os N\u00facleos de Apoio \u00e0 Sa\u00fade da Fam\u00edlia \u2013 NASF e, destes para a rede da aten\u00e7\u00e3o b\u00e1sica.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Essa rede seria integrada \u00e0 uma \u201crede sentinela\u201d em sa\u00fade do trabalhador, com expl\u00edcita inten\u00e7\u00e3o epidemiol\u00f3gica, assumindo a sua especificidade de rede sentinela dos agravos \u00e0 sa\u00fade mental relacionados ao trabalho.\u00a0\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>O desenvolvimento de a\u00e7\u00f5es intrasetoriais, na interface sa\u00fade mental\/sa\u00fade do trabalhador, tendo como foco a investiga\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o causal entre os agravos \u00e0 sa\u00fade mental e o trabalho, al\u00e9m de facilitar a integra\u00e7\u00e3o e o sinergismo das duas redes, pode criar um ambiente institucional favor\u00e1vel, recolocar na ordem do dia, a retomada do debate sobre os condicionantes sociais dos transtornos mentais &#8211; na sua acep\u00e7\u00e3o ampliada -, al\u00e9m de abrir um espa\u00e7o para a rediscuss\u00e3o das estrat\u00e9gias e das pr\u00e1ticas que podem e devem ser adotadas, pelos seus dispositivos, para que sejam implementadas a\u00e7\u00f5es que visem a promo\u00e7\u00e3o e a reabilita\u00e7\u00e3o psicossocial, de um enorme contingente de trabalhadores.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse est\u00e1gio de desenvolvimento do SUS, ainda n\u00e3o \u00e9 fact\u00edvel a implanta\u00e7\u00e3o imediata de refer\u00eancias para o diagn\u00f3stico de agravos \u00e0 sa\u00fade mental relacionados ao trabalho, em todos os seus n\u00edveis de aten\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>De fato, mesmo a popula\u00e7\u00e3o com transtornos mentais n\u00e3o relacionados ao trabalho, n\u00e3o tem pleno acesso ao diagn\u00f3stico e ao acompanhamento dos seus problemas de sa\u00fade mental. H\u00e1 uma car\u00eancia not\u00e1vel de recursos humanos, e s\u00e3o pouqu\u00edssimas as equipes b\u00e1sicas que t\u00eam uma equipe de sa\u00fade mental de retaguarda, como s\u00e3o poucos os munic\u00edpios que tem uma retaguarda de sa\u00fade mental de maior complexidade (CAPS 1 ou 2) e, infelizmente, ainda \u00e9 reduzid\u00edssimo o n\u00famero de CAPS 3 implantados em nosso pa\u00eds (que apresentam maior resolutividade e maior capacidade de interven\u00e7\u00e3o territorial).\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>O processo de capacita\u00e7\u00e3o das equipes dos CRST e dos CAPS para que possam proceder ao diagnostico dos agravos \u00e0 sa\u00fade mental relacionados ao trabalho, deve assumir o car\u00e1ter de um programa de educa\u00e7\u00e3o permanente em sa\u00fade, lan\u00e7ando m\u00e3o da tecnologia do ensino \u00e0 dist\u00e2ncia (EAD), articulada com pr\u00e1ticas sistem\u00e1ticas de acompanhamento e de supervis\u00e3o<sup data-fn=\"d06a5e1d-c114-46b6-b528-f1b38b388891\" class=\"fn\"><a href=\"#d06a5e1d-c114-46b6-b528-f1b38b388891\" id=\"d06a5e1d-c114-46b6-b528-f1b38b388891-link\">12<\/a><\/sup>. Isto viabilizaria, por um lado, a escala necess\u00e1ria exigida pela dimens\u00e3o dessa rede e, por outro, garantiria a confiabilidade e a qualidade exigidas por essa investiga\u00e7\u00e3o diagn\u00f3stica, reconhecidamente complexa.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Crit\u00e9rios para o diagn\u00f3stico dos agravos \u00e0 sa\u00fade mental relacionados ao trabalho<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u00a0 Apesar de ser poss\u00edvel estabelecer uma base comum quanto \u00e0 patog\u00eanese dos transtornos mentais relacionados ao trabalho, h\u00e1 aspectos muito diferenciados que exigir\u00e3o uma investiga\u00e7\u00e3o espec\u00edfica, caracterizando a necessidade de uma s\u00e9rie de desdobramentos, a partir de uma primeira avalia\u00e7\u00e3o.\u00a0 A partir do encaminhamento de casos suspeitos para confirma\u00e7\u00e3o diagn\u00f3stica, procedentes da rede de servi\u00e7os do SUS, ou a partir de demanda que afluir diretamente ao CAPS ou CEREST (procedentes de sindicatos, demanda espont\u00e2nea, entre outras), ser\u00e1 necess\u00e1rio desdobrar a linha de montagem diagn\u00f3stica, levando em conta a natureza da situa\u00e7\u00e3o provocadora do agravo. Por exemplo, \u00e9 distinto o processo de investiga\u00e7\u00e3o de um quadro depressivo, relacionado \u00e0 exposi\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica a organofosforados, ao merc\u00fario met\u00e1lico, a uma situa\u00e7\u00e3o de desemprego prolongado, \u00e0 viv\u00eancia de situa\u00e7\u00f5es que impliquem em um desgaste emocional prolongado no trabalho, ao trabalho noturno ou ao trabalho em situa\u00e7\u00e3o de isolamento.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Uma primeira aproxima\u00e7\u00e3o com os crit\u00e9rios de diagn\u00f3stico, pode ser extra\u00edda da sistematiza\u00e7\u00e3o publicada no Manual de Procedimentos para os Servi\u00e7os de Sa\u00fade (Minist\u00e9rio da Sa\u00fade\/2001).\u00a0 As Tabelas 3 e 4 mostram os complexos sintom\u00e1ticos e crit\u00e9rios para o diagn\u00f3stico dos transtornos mentais que comp\u00f5em a Lista de Doen\u00e7as Relacionadas ao Trabalho, aqui divididos em dois grandes grupos de transtornos, <em>segundo a sua patog\u00eanese<\/em>, respectivamente, os quadros cerebrais org\u00e2nicos e os quadros funcionais\/din\u00e2micos.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>O Manual do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade utiliza os crit\u00e9rios descritivo e evolutivo como orienta\u00e7\u00e3o para o diagn\u00f3stico dos agravos \u00e0 sa\u00fade mental relacionados ao trabalho. Essa abordagem que j\u00e1 \u00e9 insuficiente mesmo para o diagn\u00f3stico psiqui\u00e1trico rotineiro, \u00e9 absolutamente insuficiente e inadequada para o diagn\u00f3stico dos transtornos mentais relacionados ao trabalho. Aqui cumpre caracterizar um determinado aspecto do trabalho como fator patog\u00eanico, quer dizer, buscar as ra\u00edzes do agravo, nos seus determinantes objetivos do processo ou da organiza\u00e7\u00e3o do trabalho, isto \u00e9, a sua patog\u00eanese. Um mesmo cortejo sintom\u00e1tico, do ponto de vista descritivo, fenomenol\u00f3gico, pode corresponder a processos muito distintos. Um quadro depressivo, do ponto de vista descritivo, pode corresponder a um quadro constitucional de natureza psic\u00f3tica (unipolar ou bipolar), a um quadro neur\u00f3tico, a uma rea\u00e7\u00e3o neur\u00f3tica, a uma intoxica\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica por organofosforados, ao micromercurialismo, a uma les\u00e3o cerebral produzida por solventes org\u00e2nicos, a uma rea\u00e7\u00e3o depressiva relacionado ao desemprego, condi\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade, perda da capacidade laborativa, esgotamento ps\u00edquico, ass\u00e9dio moral, ass\u00e9dio sexual, entre outras. O estabelecimento do nexo causal vai consistir, exatamente, na diferencia\u00e7\u00e3o do fator patog\u00eanico envolvido, isto \u00e9, da patog\u00eanese do quadro atual.<\/p>\n\n\n\n<p>Por essa raz\u00e3o, nesta primeira aproxima\u00e7\u00e3o \u2013 e com o intuito de manter uma interlocu\u00e7\u00e3o com o material do Manual do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade -, reuni os quadros segundo a sua patog\u00eanese geral, distinguindo aqueles de patog\u00eanese org\u00e2nica e os de patog\u00eanese din\u00e2mica. Mas isto \u00e9 apenas um t\u00edmido passo.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Na verdade, a investiga\u00e7\u00e3o, segundo o crit\u00e9rio patogen\u00e9tico, deve ir al\u00e9m e identificar as fun\u00e7\u00f5es do aparelho ps\u00edquico primariamente afetadas. Isto pressup\u00f5e a utiliza\u00e7\u00e3o de uma teoria sobre o funcionamento do psiquismo humano, uma teoria da personalidade<sup data-fn=\"e392997d-286c-45e3-8cce-e769d8985d2d\" class=\"fn\"><a href=\"#e392997d-286c-45e3-8cce-e769d8985d2d\" id=\"e392997d-286c-45e3-8cce-e769d8985d2d-link\">13<\/a><\/sup>, que possa ser uma ferramenta, um fio condutor a orientar este caminhar por dentro do mundo ps\u00edquico dos trabalhadores. Quais teorias de personalidade que est\u00e3o sendo utilizadas neste caminhar?\u00a0 Esta \u00e9 uma quest\u00e3o em aberto, que n\u00e3o ser\u00e1 abordada aqui, por exigir um aprofundamento que n\u00e3o cabe neste breve ensaio. Fica colocado o problema, que na minha opini\u00e3o \u00e9 um problema central do campo da sa\u00fade mental e trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Tabela 3 \u2013 O<\/strong><strong>rienta\u00e7\u00e3o diagn\u00f3stica do grupo dos Quadros Cerebrais Org\u00e2nicos<\/strong><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1013\" height=\"464\" src=\"https:\/\/anibalsilveira.org\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/03.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-2744\" srcset=\"https:\/\/anibalsilveira.org\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/03.png 1013w, https:\/\/anibalsilveira.org\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/03-300x137.png 300w, https:\/\/anibalsilveira.org\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/03-768x352.png 768w, https:\/\/anibalsilveira.org\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/03-18x8.png 18w\" sizes=\"auto, (max-width: 1013px) 100vw, 1013px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p><strong>Adapta\u00e7\u00e3o de Francisco Drumond Marcondes de Moura, agosto\/2005<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O grupo dos quadros funcionais\/din\u00e2micos, com predom\u00ednio do comprometimento das fun\u00e7\u00f5es subjetivas (dentre os transtornos listados na Portaria 1339\/99), \u00e9 apresentado na Tabela 4. A possibilidade maior ou menor de estabelecimento do nexo causal vai depender da obten\u00e7\u00e3o de uma hist\u00f3ria ocupacional e de uma hist\u00f3ria sobre as condi\u00e7\u00f5es do trabalho atual bem minuciosa.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Esses quadros manifestam na sua configura\u00e7\u00e3o cl\u00ednica, complexos sintom\u00e1ticos preponderantemente ps\u00edquicos, caracterizados por rea\u00e7\u00f5es afetivas e emocionais intensas, mesmo quando express\u00e3o de comprometimento de sistemas cerebrais, causadas por agentes neurot\u00f3xicos: tais como os quadros depressivos das intoxica\u00e7\u00f5es cr\u00f4nicas por organofosforados (comprometimento de sistemas cerebrais colin\u00e9rgicos) ou os quadros afetivos (de ansiedade e depressivos) e conativos (neurasteniformes) provocados pela intoxica\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica pelo merc\u00fario (comprometimento de sistemas corticais occipitais e frontais granulares e sistemas cerebelares &#8211; celulas de Purkinje), ou mesmo pelo envolvimento de processos psicofisiologicos intermedi\u00e1rios, como no caso do transtorno do ciclo vig\u00edlia-sono (Fischer\/1995, Hartman\/1988, OMS\/1976, Rutenfranz\/1989).\u00a0\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Tabela 4\u00a0 &#8211; Orienta\u00e7\u00e3o diagn\u00f3stica do grupo dos quadros funcionais\/din\u00e2micos<\/strong><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"813\" height=\"719\" src=\"https:\/\/anibalsilveira.org\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/04.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-2745\" srcset=\"https:\/\/anibalsilveira.org\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/04.png 813w, https:\/\/anibalsilveira.org\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/04-300x265.png 300w, https:\/\/anibalsilveira.org\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/04-768x679.png 768w, https:\/\/anibalsilveira.org\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/04-14x12.png 14w\" sizes=\"auto, (max-width: 813px) 100vw, 813px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p><strong>Adapta\u00e7\u00e3o de Francisco Drumond Marcondes de Moura, agosto\/2005<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A minha pr\u00e1tica cl\u00ednica tem revelado que uma mesma carga ps\u00edquica de trabalho pode produzir coloridos cl\u00ednicos diferentes, condicionados pelo feitio da personalidade, pelo tipo de temperamento, pelos recursos internos e pela hist\u00f3ria de vida do trabalhador envolvido: existe uma singularidade, que deve ser levada em conta, pela confus\u00e3o diagn\u00f3stica que pode representar.<\/p>\n\n\n\n<p>Dessa forma, considero que mesmo havendo a caracteriza\u00e7\u00e3o de uma forte tend\u00eancia gen\u00e9tica familiar para o desenvolvimento de um determinado transtorno mental, isto n\u00e3o invalida o estabelecimento do nexo causal com o trabalho. Aqui os aspectos relacionados ao trabalho aparecem como fatores desencadeantes ou agravantes de um quadro de base manifesto, ou de uma tend\u00eancia at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o manifesta.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Inclusive, est\u00e3o inclu\u00eddos neste registro, os quadros agudos de natureza psic\u00f3tica. Segundo a orienta\u00e7\u00e3o psiqui\u00e1trica que adoto &#8211; a escola de An\u00edbal Silveira -, os quadros psiqui\u00e1tricos agudos de evolu\u00e7\u00e3o benigna (com remiss\u00e3o completa dos sintomas), relacionados, geneticamente, com os quadros constitucionais progressivos (esquizofrenia) ou peri\u00f3dicos (psicose man\u00edaco-depressiva), foram denominados por ele de Psicoses Diat\u00e9ticas<sup data-fn=\"383c6218-9178-427c-992c-d98ad2b9fba2\" class=\"fn\"><a href=\"#383c6218-9178-427c-992c-d98ad2b9fba2\" id=\"383c6218-9178-427c-992c-d98ad2b9fba2-link\">14<\/a><\/sup> (de di\u00e1tese-tens\u00e3o), exatamente por poderem ser desencadeados por injun\u00e7\u00f5es do mundo externo, incluindo aqui, portanto, aquelas relacionadas ao trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0O conceito de carga de trabalho \u00e9 da Laurell (1989). \u00c9 importante lembrar que, na produ\u00e7\u00e3o te\u00f3rica italiana sobre os fatores de risco relacionados ao trabalho, n\u00e3o houve consenso sobre o estabelecimento de \u201cfatores de risco ps\u00edquicos\u201d (Berlinguer, 1983). O trabalho da escola mexicana (Laurel e Noriega), utilizando a mesma metodologia do MOI (modelo oper\u00e1rio italiano) reafirmou a no\u00e7\u00e3o de desgaste (elaborado na produ\u00e7\u00e3o te\u00f3rica italiana) e o atribuiu \u00e0s cargas de trabalho (f\u00edsicas, qu\u00edmicas,..incluindo as ps\u00edquicas); por esta raz\u00e3o \u00e9 que utilizo o conceito de carga de trabalho e n\u00e3o fator de risco para os agravos \u00e0 sa\u00fade mental.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>A organiza\u00e7\u00e3o do trabalho, assim como o processo de trabalho, n\u00e3o subentende uma nocividade por si s\u00f3. Os aspectos psicossociais do trabalho e as caracter\u00edsticas da organiza\u00e7\u00e3o do trabalho podem ou n\u00e3o configurar cargas ps\u00edquicas de trabalho, no sentido da produ\u00e7\u00e3o de desgaste emocional dos trabalhadores. Existem alguns aspectos psicossociais do trabalho que s\u00e3o gratificantes e liberadores da criatividade humana, assim como determinadas caracter\u00edsticas da organiza\u00e7\u00e3o do trabalho podem igualmente potencializar o poder criativo dos trabalhadores (um exemplo reconhecido disto \u00e9 a experi\u00eancia desenvolvida, no \u00e2mbito da empresa Google).<\/p>\n\n\n\n<p>Como demonstrou Laurell (1984) \u00e9 o processo de valoriza\u00e7\u00e3o que est\u00e1 na raiz da nocividade do trabalho (no modo capitalista de produ\u00e7\u00e3o): \u00e9 isto que condiciona uma determinada forma de organizar o trabalho; a configura\u00e7\u00e3o de determinados aspectos do processo de trabalho, a sobrecarga de trabalho, o ritmo intenso da produ\u00e7\u00e3o, o controle excessivo, o trabalho repetitivo, entre outros aspectos, que os tornar\u00e3o fator de desgaste para os trabalhadores.<\/p>\n\n\n\n<p>Todos estes aspectos podem configurar, no seu conjunto, uma situa\u00e7\u00e3o de agravo \u00e0 sa\u00fade mental, caracterizando por somat\u00f3ria (este \u00e9 um aspecto central da contribui\u00e7\u00e3o te\u00f3rica da Laurell), uma carga de trabalho ps\u00edquica complexa, da\u00ed, ter incorporado aspectos da organiza\u00e7\u00e3o do trabalho em algumas modalidades de cargas de trabalho complexas (sobrecarga de trabalho, trabalho estressante, entre outros).\u00a0 Em pouqu\u00edssimos casos, observei aspectos diversos destes: caracterizado por embotamento da vida subjetiva, dinamismo obsessivocompulsivo, dinamismo dissociativo, dinamismo conversivo, dinamismo agoraf\u00f3bico e eclos\u00e3o de estados segundos e crepusculares.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Os quadros cerebrais org\u00e2nicos s\u00e3o os que apresentam maior homogeneidade cl\u00ednica: os seus complexos sintom\u00e1ticos s\u00e3o mais regulares, embora sempre acompanhados de aspectos reativos de natureza din\u00e2mica e, portanto, conferem um aspecto singular, no seu conjunto, para cada trabalhador (decorrentes do feitio de personalidade de cada um).<\/p>\n\n\n\n<p>No per\u00edodo de 1984 a 2024, observei 2.775 trabalhadores, em diferentes projetos ou dispositivos de sa\u00fade, cujos dados consolidados se apresenta na tabela 5.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Tabela 5 \u2013 Distribui\u00e7\u00e3o dos trabalhadores observados por projeto\/servi\u00e7o de sa\u00fade (1984\/2024<\/strong><strong>)<\/strong><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1017\" height=\"355\" src=\"https:\/\/anibalsilveira.org\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/05.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-2746\" srcset=\"https:\/\/anibalsilveira.org\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/05.png 1017w, https:\/\/anibalsilveira.org\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/05-300x105.png 300w, https:\/\/anibalsilveira.org\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/05-768x268.png 768w, https:\/\/anibalsilveira.org\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/05-18x6.png 18w\" sizes=\"auto, (max-width: 1017px) 100vw, 1017px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p><strong>\u00a0 <\/strong><strong>Francisco Drumond Marcondes de Moura, agosto\/2005, atualizado em junho\/2024<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Foi poss\u00edvel estabelecer 22 situa\u00e7\u00f5es ou cargas ps\u00edquicas complexas de trabalho, relacionadas com a patog\u00eanese dos agravos \u00e0 sa\u00fade mental dos trabalhadores, apresentados na Tabela 6.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Tabela 6 \u2013 Situa\u00e7\u00f5es ou cargas complexas de trabalho, relacionadas com a patog\u00eanese de agravos \u00e0 sa\u00fade mental<\/strong><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1019\" height=\"422\" src=\"https:\/\/anibalsilveira.org\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/06.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-2747\" srcset=\"https:\/\/anibalsilveira.org\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/06.png 1019w, https:\/\/anibalsilveira.org\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/06-300x124.png 300w, https:\/\/anibalsilveira.org\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/06-768x318.png 768w, https:\/\/anibalsilveira.org\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/06-18x7.png 18w\" sizes=\"auto, (max-width: 1019px) 100vw, 1019px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p><strong>Francisco Drumond Marcondes de Moura, agosto\/2005, atualizado em junho\/2024<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Os complexos sintom\u00e1ticos mais freq\u00fcentes apresentados pelos trabalhadores se apresentam na Tabela 7. Para denominar estes complexos sintom\u00e1ticos optei por consider\u00e1-los como formas reativas ou ocasionais (esses, na forma de quadros ou estados).\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Os complexos sintom\u00e1ticos, de natureza din\u00e2mica que apresentam o seu correlato cl\u00ednico neur\u00f3tico \u2013 ansiedade, depress\u00e3o, fobias, obsess\u00e3o, compuls\u00e3o, neurastenia \u2013 foram denominados de Rea\u00e7\u00f5es. \u00c9 inadequado denomin\u00e1-los de transtornos neur\u00f3ticos, como o faz o Manual do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade (2001). O conceito de neurose constitui uma express\u00e3o que caracteriza uma condi\u00e7\u00e3o cl\u00ednica espec\u00edfica, no campo da nosologia psiqui\u00e1trica. As entidades nosol\u00f3gicas, no campo da psiquiatria, s\u00e3o uma abstra\u00e7\u00e3o por excel\u00eancia. Elas n\u00e3o podem ser aplicadas aos agravos relacionados ao trabalho: aqui h\u00e1 um elemento concreto identific\u00e1vel, na sua patog\u00eanese (sem o qual n\u00e3o seria poss\u00edvel estabelecer o nexo causal). Dessa forma, \u00e9 incorreto utilizar as categorias diagn\u00f3sticas b\u00e1sicas da cl\u00ednica psiqui\u00e1trica: esquizofrenia, psicose maniacodepressiva, neurose, s\u00edndrome de p\u00e2nico para caracterizar um agravo relacionado ao trabalho. Este cuidado \u00e9 fundamental. J\u00e1 estudei casos de trabalhadores, que tiveram o nexo causal de seu agravo \u00e0 sa\u00fade mental negado pelos peritos do INSS, porque na Comunica\u00e7\u00e3o de Acidente do Trabalho \u2013 CAT, foram firmados os diagn\u00f3sticos de Esquizofrenia Paran\u00f3ide, Neurose Depressiva e S\u00edndrome do P\u00e2nico. Na verdade, apresentavam agravos \u00e0 sa\u00fade mental relacionados ao trabalho, mas a sua caracteriza\u00e7\u00e3o correta teria sido, respectivamente: rea\u00e7\u00e3o paran\u00f3ide aguda, rea\u00e7\u00e3o depressiva e rea\u00e7\u00e3o de p\u00e2nico.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>\u00a0Os complexos sintom\u00e1ticos de natureza org\u00e2nica foram definidos como quadros neuropsicol\u00f3gicos. Aqui n\u00e3o \u00e9 cab\u00edvel a caracteriza\u00e7\u00e3o de rea\u00e7\u00f5es, uma vez que h\u00e1 disfun\u00e7\u00e3o ou les\u00e3o cerebral. Tamb\u00e9m n\u00e3o se poderia (ainda) caracterizar como s\u00edndromes. Talvez com o passar dos anos, poderemos estabelecer quadros sindr\u00f4micos relacion\u00e1veis \u00e0 exposi\u00e7\u00e3o aos diferentes fatores patog\u00eanicos (agrot\u00f3xicos, metais pesados, solventes org\u00e2nicos, entre outros), uma vez que o colorido cl\u00ednico desses quadros est\u00e1 relacionado ao comprometimento de sistemas cerebrais espec\u00edficos.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Tabela 7 &#8211; Complexos sintom\u00e1ticos mais frequentes<\/strong><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1022\" height=\"228\" src=\"https:\/\/anibalsilveira.org\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/07-1.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-2749\" srcset=\"https:\/\/anibalsilveira.org\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/07-1.png 1022w, https:\/\/anibalsilveira.org\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/07-1-300x67.png 300w, https:\/\/anibalsilveira.org\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/07-1-768x171.png 768w, https:\/\/anibalsilveira.org\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/07-1-18x4.png 18w\" sizes=\"auto, (max-width: 1022px) 100vw, 1022px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p><strong>Francisco Drumond Marcondes de Moura, agosto\/2005, atualizado em junho\/2024<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Na tabela 8 se apresenta a rela\u00e7\u00e3o verificada entre o conjunto de cargas ps\u00edquicas complexas de trabalho e os complexos sintom\u00e1ticos mais encontrados. Como se pode verificar, do ponto de vista descritivo, complexos sintom\u00e1ticos fenomenologicamente semelhantes aparecem como relacionados a diferentes situa\u00e7\u00f5es do trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Tabela 8 \u2013 Cargas ps\u00edquicas complexas e complexos sintom\u00e1ticos mais freq\u00fcentes\u00a0<\/strong><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1020\" height=\"474\" src=\"https:\/\/anibalsilveira.org\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/08.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-2750\" srcset=\"https:\/\/anibalsilveira.org\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/08.png 1020w, https:\/\/anibalsilveira.org\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/08-300x139.png 300w, https:\/\/anibalsilveira.org\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/08-768x357.png 768w, https:\/\/anibalsilveira.org\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/08-18x8.png 18w\" sizes=\"auto, (max-width: 1020px) 100vw, 1020px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p><strong>\u00a0 <\/strong><strong>Francisco Drumond Marcondes de Moura, agosto\/2005, atualizado em junho\/2024<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A distribui\u00e7\u00e3o dos diagn\u00f3sticos realizados, segundo o CID 10, se apresenta na Tabela 9. Aqui cumpre chamar a aten\u00e7\u00e3o para os casos relacionados ao CID 10 F.41.0, um dos diagn\u00f3sticos mais freq\u00fcentes. Esse diagn\u00f3stico tamb\u00e9m aparece como uma das causas mais freq\u00fcentes de afastamento por transtorno mental, nas estat\u00edsticas do INSS. Este diagn\u00f3stico n\u00e3o comp\u00f5e a lista de doen\u00e7as relacionadas ao trabalho (portaria GM 1.339\/99).\u00a0 Neste ensaio n\u00e3o ser\u00e1 aprofundada a discuss\u00e3o sobre a rela\u00e7\u00e3o dos quadros cl\u00ednicos encontrados, com as suas correspondentes cargas de trabalho.\u00a0\u00a0\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Tabela 9 \u2013 Distribui\u00e7\u00e3o dos quadros cl\u00ednicos mais freq\u00fcentes, segundo o CID 10<\/strong><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1012\" height=\"434\" src=\"https:\/\/anibalsilveira.org\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/09.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-2751\" srcset=\"https:\/\/anibalsilveira.org\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/09.png 1012w, https:\/\/anibalsilveira.org\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/09-300x129.png 300w, https:\/\/anibalsilveira.org\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/09-768x329.png 768w, https:\/\/anibalsilveira.org\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/09-18x8.png 18w\" sizes=\"auto, (max-width: 1012px) 100vw, 1012px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p><strong>\u00a0 \u00a0 Francisco Drumond Marcondes de Moura, abril\/2007<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>O passo a passo da investiga\u00e7\u00e3o diagnostica para o estabelecimento da rela\u00e7\u00e3o causal<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O passo a passo para a investiga\u00e7\u00e3o diagn\u00f3stica, dos agravos \u00e0 sa\u00fade mental e trabalho, n\u00e3o deve ter um percurso diverso daquele utilizado, pelos profissionais de sa\u00fade mental da rede p\u00fablica de sa\u00fade mental, na sua pr\u00e1tica cl\u00ednica habitual.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Passo 1 &#8211; Reconhecimento e encaminhamento dos casos suspeitos<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Os trabalhadores que, no \u00e2mbito da rede de aten\u00e7\u00e3o do SUS, aqui incluindo, particularmente, a rede de Unidades Sentinela e a rede da aten\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, se apresentarem com agravos \u00e0 sa\u00fade mental suspeitos de rela\u00e7\u00e3o com o trabalho, devem ser encaminhados para as refer\u00eancias de diagn\u00f3stico em sa\u00fade mental e trabalho. Estou convencido que estas refer\u00eancias devem estar localizadas, primordialmente, nos CRST e nos CAPS. Aqui existem equipes mais amplas e fortalecidas, de forma a garantir a abordagem interdisciplinar que o estudo desses agravos requer.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse primeiro passo ser\u00e1 fundamental garantir dois aspectos: o reconhecimento do caso suspeito e o monitoramento do seu encaminhamento. O reconhecimento dos casos suspeitos, nas portas de entrada do sistema passa, necessariamente, por uma atitude pr\u00f3-ativa das equipes destes dispositivos.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Com exce\u00e7\u00e3o dos casos em que o pr\u00f3prio trabalhador tem uma certa no\u00e7\u00e3o de que seu agravo est\u00e1 relacionado ao trabalho e explicita isto, o reconhecimento dos demais vai exigir que a pesquisa sobre a inser\u00e7\u00e3o no mundo do trabalho, de cada usu\u00e1rio, seja feita por meio de uma pergunta b\u00e1sica: voc\u00ea trabalha?\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>De particular import\u00e2ncia, nesse ponto, ser\u00e1 envolver \u2013 no caso das regi\u00f5es onde estiver implantada a estrat\u00e9gia da sa\u00fade da fam\u00edlia -, as agentes comunit\u00e1rias de sa\u00fade: o seu processo de trabalho atual, as coloca em rela\u00e7\u00e3o pessoal com todos os moradores do seu territ\u00f3rio. Mais do que ningu\u00e9m elas compartilham da vida destas pessoas e, portanto, das suas vincula\u00e7\u00f5es com o mundo do trabalho. Nesse sentido, elas podem e devem ser compreendidas como vetores importantes da cultura da sa\u00fade do trabalho em suas respectivas \u00e1reas de atua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O fluxo do encaminhamento dos casos suspeitos deve ser monitorado: uma rela\u00e7\u00e3o semanal dos casos encaminhados para confirma\u00e7\u00e3o diagn\u00f3stica, deveria ser encaminhada para o CRST Regional (para fazer a busca ativa dos faltosos), que acompanhar\u00e1 a solu\u00e7\u00e3o de cada caso at\u00e9 a sua conclus\u00e3o.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Passo 2 \u2013 Acolhimento e investiga\u00e7\u00e3o dos casos suspeitos pela refer\u00eancia de diagn\u00f3stico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Tendo em vista a dimens\u00e3o social e coletiva dos agravos \u00e0 sa\u00fade mental relacionados ao trabalho, seria interessante criar um espa\u00e7o coletivo para o acolhimento dessa demanda nos CRST ou CAPS (Mangia, 2002). Aqui n\u00e3o se trata de consulta coletiva, mas um momento em que essa determina\u00e7\u00e3o social possa ser elaborada coletivamente, ao mesmo tempo, que pode ser explicitado o passo a passo do processo de investiga\u00e7\u00e3o aos quais os trabalhadores ser\u00e3o submetidos. In\u00fameras outras quest\u00f5es relacionadas ao fluxo com as per\u00edcias da previd\u00eancia ou com as empresas tamb\u00e9m podem ser encaminhadas coletivamente. N\u00e3o se pode perder de vista que os CRST e os CAPS podem e devem se assumir como p\u00f3los irradiadores culturais, no \u00e2mbito de um determinado territ\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Tenho preconizado, nas in\u00fameras oficinas de trabalho que realizei em in\u00fameros estados brasileiros \u2013 S\u00e3o Paulo, Tocantins, Par\u00e1, Bahia, Amazonas -, que o processo de investiga\u00e7\u00e3o diagn\u00f3stica deve se desdobrar em duas fases, tendo como fio condutor dois instrumentos: um para coleta e s\u00edntese dos dados e outro como roteiro da investiga\u00e7\u00e3o do nexo causal (ambos s\u00e3o anexados a este texto).<\/p>\n\n\n\n<p>O primeiro instrumento corresponde ao levantamento de dados, habitualmente realizado na pr\u00e1tica cl\u00ednica cotidiana. O segundo instrumento constitui um conjunto de perguntas, relacionadas \u00e0s queixas ou sintomas, vinculadas aos agravos mais freq\u00fcentes relacionados \u00e0s situa\u00e7\u00f5es ou cargas de trabalho, mais comuns, com reconhecido potencial patog\u00eanico. Ambos os instrumentos devem ser aplicados individualmente, devendo, no entanto, envolver o trabalho integrado de uma equipe interdisciplinar.<\/p>\n\n\n\n<p>Na fase de levantamento de dados, deve ser caracterizada a hist\u00f3ria de vida do trabalhador, a sua din\u00e2mica familiar, a hist\u00f3ria do seu transtorno mental atual e queixas pregressas, realizado o exame f\u00edsico e neurol\u00f3gico sum\u00e1rio e o exame ps\u00edquico, visando a apreens\u00e3o do seu complexo sintom\u00e1tico.<\/p>\n\n\n\n<p>Na segunda fase, podemos considerar duas etapas. Na primeira etapa, os t\u00e9cnicos identificar\u00e3o, por consenso, os sintomas mais relevantes para caracterizar o quadro cl\u00ednico fundamental, os dados relevantes da anamnese e os principais achados do exame f\u00edsico e neurol\u00f3gico; verificar\u00e3o a necessidade de exames complementares, estabelecer\u00e3o as hip\u00f3teses diagn\u00f3sticas, far\u00e3o os encaminhamentos iniciais, avaliar\u00e3o a necessidade de afastamento do trabalho e de desencadeamento de a\u00e7\u00e3o de vigil\u00e2ncia e, finalmente, confirmar\u00e3o ou n\u00e3o a suspeita de rela\u00e7\u00e3o com o trabalho.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Confirmada a suspeita de rela\u00e7\u00e3o com o trabalho, se passa para a segunda etapa: o aprofundamento da investiga\u00e7\u00e3o das cargas ps\u00edquicas complexas de trabalho, envolvidas na configura\u00e7\u00e3o do quadro cl\u00ednico, utilizando o roteiro de investiga\u00e7\u00e3o j\u00e1 mencionado.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Pela sua freq\u00fc\u00eancia, o roteiro priorizou as seguintes cargas de trabalho: ass\u00e9dio moral, ass\u00e9dio sexual, discrimina\u00e7\u00e3o racial, exposi\u00e7\u00e3o a agrot\u00f3xicos, metais e solventes org\u00e2nicos, situa\u00e7\u00e3o de estresse, sobrecarga de trabalho, trabalho penoso, trabalho degradante, trabalho em turnos, trabalho noturno, situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade, condi\u00e7\u00e3o de desfilia\u00e7\u00e3o do mundo do trabalho.\u00a0\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Passo 3 &#8211; Conclus\u00e3o do caso<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, se procede \u00e0 elabora\u00e7\u00e3o do relat\u00f3rio final: uma s\u00edntese dos dados, o quadro cl\u00ednico fundamental, estabelecido o diagn\u00f3stico, confirmada ou n\u00e3o a rela\u00e7\u00e3o causal, notifica\u00e7\u00e3o pelo SINAN e pelo sistema CAT, indicando se houve afastamento do trabalho e encaminhamento ao INSS e assinalado o tratamento proposto. Este relat\u00f3rio \u00e9 assinado por todos os t\u00e9cnicos envolvidos no processo de investiga\u00e7\u00e3o diagn\u00f3stica.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>A grande preval\u00eancia dos agravos \u00e0 sa\u00fade mental relacionados ao trabalho exige um investimento especial, de recursos humanos, na rede de CRST, para implementar o trabalho aqui desenhado. O mais adequado a fazer \u00e9 estruturar um N\u00facleo de Sa\u00fade Mental e Trabalho em cada CRST. Esse n\u00facleo desempenhar\u00e1 um papel imprescind\u00edvel na propaga\u00e7\u00e3o e supervis\u00e3o, do conhecimento e das pr\u00e1ticas em sa\u00fade mental e trabalho, para as equipes dos CAPS. Um integrante b\u00e1sico destes n\u00facleos deve ser o psic\u00f3logo. Na falta de um psiquiatra ser\u00e1 necess\u00e1rio envolver um m\u00e9dico, capacit\u00e1-lo e inseri-lo em um processo de acompanhamento e de supervis\u00e3o, por um psiquiatra de refer\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Tratamento e reabilita\u00e7\u00e3o psicossocial<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Os agravos \u00e0 sa\u00fade mental relacionados ao trabalho representam a doen\u00e7a do trabalho de maior preval\u00eancia entre os trabalhadores, por esta raz\u00e3o, a demanda por diagn\u00f3stico e acompanhamento dos casos afastados do trabalho e a reabilita\u00e7\u00e3o psicossocial dos casos mais graves, com comprometimento irrevers\u00edvel da capacidade de trabalho, representam um grande desafio para os t\u00e9cnicos do SUS envolvidos com a sa\u00fade do trabalhador e com a sa\u00fade mental.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>As a\u00e7\u00f5es de tratamento e de reabilita\u00e7\u00e3o psicossocial devem ser organizadas de forma a contemplar um conjunto de procedimentos individuais e coletivos, a serem executados no \u00e2mbito das pr\u00e1ticas de aten\u00e7\u00e3o da rede do SUS, norteadas por uma abordagem que responda \u00e0s necessidades de ordem objetiva e subjetiva dos trabalhadores, isto \u00e9, que articula procedimentos e pr\u00e1ticas de acompanhamento (inclusive previdenci\u00e1rio) e reabilita\u00e7\u00e3o psicossocial.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>As pr\u00e1ticas individuais subentendem as consultas t\u00e9cnicas &#8211; com periodicidade vari\u00e1vel, de acordo com a necessidade, para tratamento e avalia\u00e7\u00e3o cl\u00ednica; elabora\u00e7\u00e3o de relat\u00f3rios\/laudos para fins legais e\/ou previdenci\u00e1rios.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>As pr\u00e1ticas grupais subentendem o trabalho grupal cuja tarefa permanente visa a elabora\u00e7\u00e3o das dificuldades encontradas na experi\u00eancia cotidiana do \u201cviver a vida\u201d, de forma que este espa\u00e7o coletivo possa representar uma refer\u00eancia para esses trabalhadores, permitindo-lhes vivenciar uma experi\u00eancia instigadora, desencadeando por meio de um \u201cprocesso de confronta\u00e7\u00e3o interna\u201d a constru\u00e7\u00e3o de uma atitude ressignificadora diante da sua realidade, criando a possibilidade de incorpora\u00e7\u00e3o de novos referenciais ideol\u00f3gicos, sociais e humanit\u00e1rios, que lhes abrir\u00e1 a perspectiva de ressignificar as suas pr\u00f3prias vidas. \u00c9 importante ressaltar que este trabalho grupal tem a perspectiva de um processo que deve ter como princ\u00edpios, a constru\u00e7\u00e3o da autonomia, o fortalecimento da identidade e um objetivo libert\u00e1rio e emancipat\u00f3rio<sup data-fn=\"838fa5fa-5793-4289-a3e2-bcc8a56cfacd\" class=\"fn\"><a href=\"#838fa5fa-5793-4289-a3e2-bcc8a56cfacd\" id=\"838fa5fa-5793-4289-a3e2-bcc8a56cfacd-link\">15<\/a><\/sup>.\u00a0\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Vigil\u00e2ncia em Sa\u00fade Mental e Trabalho<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Essa \u00e9 uma frente ainda em aberto, no campo da sa\u00fade mental e trabalho. Ser\u00e1 um longo e dif\u00edcil percurso at\u00e9 que consigamos sistematizar um conhecimento suficiente, e como reconhecer o caminho das pedras. De qualquer forma, temos que partir dos mesmos pressupostos e dos procedimentos j\u00e1 conhecidos do campo da vigil\u00e2ncia em sa\u00fade. Considero que temos que adotar, como ponto de partida, as diretrizes e os procedimentos preconizados pelo Protocolo de Vigil\u00e2ncia em Sa\u00fade do Trabalhador do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, bem como do disposto na portaria GM 3.120\/99.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>A vigil\u00e2ncia em sa\u00fade do trabalhador deve considerar a multiplicidade de fatores envolvidos na determina\u00e7\u00e3o dos agravos \u00e0 sa\u00fade mental relacionados ao trabalho. N\u00e3o podemos esquecer que, invariavelmente, estaremos diante de uma somat\u00f3ria de cargas de trabalho: f\u00edsicas, qu\u00edmicas, biol\u00f3gicas, fisiol\u00f3gicas, mec\u00e2nicas e ps\u00edquicas.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>\u00a0Por sua vez, as cargas ps\u00edquicas assumem uma configura\u00e7\u00e3o complexa, mesmo quando focalizadas \u201cseparadamente\u201d, traduzindo o que denominei neste ensaio de cargas ps\u00edquicas complexas de trabalho. Dar visibilidade a estes mecanismos invis\u00edveis \u00e9 o nosso maior desafio.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ol class=\"wp-block-list\">\n<li>ANTUNES, R.. Adeus ao Trabalho?. S\u00e3o Paulo, Cortez, 1995.<\/li>\n\n\n\n<li>BASAGLIA, F. A institui\u00e7\u00e3o negada. S\u00e3o Paulo, Graal, 1985.<\/li>\n\n\n\n<li>BASAGLIA, F. et al. La salud de los trabajadores. M\u00e9xico, Nueva Imagem, 1984.<\/li>\n\n\n\n<li>BERLINGUER, G. 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(Org) A dana\u00e7\u00e3o do trabalho. Rio de Janeiro: Te Cor\u00e1, 1997, p. 19-63.<\/li>\n\n\n\n<li>SELIGMANN-SILVA, E. Desgaste mental no trabalho dominado. Rio de Janeiro, Cortez\/UFRJ, 1994.\u00a0<\/li>\n\n\n\n<li>SELIGMANN-SILVA, E.. Crise econ\u00f4mica, trabalho e sa\u00fade mental. In Angerami, V.A. (org) Crise, Trabalho e Sa\u00fade Mental no Brasil. S\u00e3o Paulo, Tra\u00e7o, 1986, 54-132.<\/li>\n\n\n\n<li>SELIGMANN-SILVA, E.. Psicopatologia da recess\u00e3o. In Seligmann-Silva, E. Desgaste Mental no Trabalho Dominado. S\u00e3o Paulo, Cortez\/UFRJ, 1994.<\/li>\n\n\n\n<li>SILVEIRA, A. A psicopatologia e a psiquiatria orientadas pela Teoria Sociol\u00f3gica da Personalidade e pelo crit\u00e9rio da patog\u00eanese. Aulas e artigos, 1935\/1978. Consultar: <a href=\"http:\/\/www.anibalsilveira.org\">www.anibalsilveira.org<\/a>.\u00a0<\/li>\n\n\n\n<li>WHO, Environmental Health Criteria, 1-102, 1997.<\/li>\n<\/ol>\n\n\n<ol class=\"wp-block-footnotes\"><li id=\"09e2e1e2-71bb-4f0b-bfdb-76c08884c4f0\">\u00a0Na ades\u00e3o subordinada, condicionada pela conting\u00eancia, daqueles que necessitam de trabalhar para viver. <a href=\"#09e2e1e2-71bb-4f0b-bfdb-76c08884c4f0-link\" aria-label=\"Aller \u00e0 la note de bas de page 1\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"1c538648-23cf-46a2-a271-2c56cefe1c4d\">Na contemporaneidade, uma \u201csociedade regulada pelo mercado\u201d, nas palavras de Al Gore, transformado em arauto da luta mundial contra o aquecimento global, pelos instrumentos de comunica\u00e7\u00e3o da ordem dominante. <a href=\"#1c538648-23cf-46a2-a271-2c56cefe1c4d-link\" aria-label=\"Aller \u00e0 la note de bas de page 2\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"48038bd2-cb70-4148-8919-ea57cf7e8cd9\">Por esta raz\u00e3o prop\u00f5em a produ\u00e7\u00e3o desejante como categoria de uma psiquiatria materialista dial\u00e9tica. <a href=\"#48038bd2-cb70-4148-8919-ea57cf7e8cd9-link\" aria-label=\"Aller \u00e0 la note de bas de page 3\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"7c975457-7d68-482f-a9bf-178c31b7b3f4\">Considerado por L\u00eanin, um dos ide\u00f3logos burgueses mais significativos do seu tempo. A seu respeito, Marx reconheceu que \u201csabia mais das ci\u00eancias do que Hegel\u201d. <a href=\"#7c975457-7d68-482f-a9bf-178c31b7b3f4-link\" aria-label=\"Aller \u00e0 la note de bas de page 4\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"e5d4866c-a376-43f8-885b-30902d9582a7\">A partir de 1987 este movimento se transforma no movimento nacional da luta antimanicomial. <a href=\"#e5d4866c-a376-43f8-885b-30902d9582a7-link\" aria-label=\"Aller \u00e0 la note de bas de page 5\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"00888ae0-a4d1-4365-badb-fa338ff95cfe\">\u00a0Em 1988, apresentei um trabalho com este t\u00edtulo, na disciplina \u201cEstado e Sociedade\u201d, no \u00e2mbito do Mestrado em Sociologia\/PUC, sob a orienta\u00e7\u00e3o do Prof.Dr. Octavio Ianni. N\u00e3o conclui este mestrado, pela op\u00e7\u00e3o em assumir a coordena\u00e7\u00e3o do Programa de Sa\u00fade do Trabalhado de S\u00e3o Paulo (1989\/1990). <a href=\"#00888ae0-a4d1-4365-badb-fa338ff95cfe-link\" aria-label=\"Aller \u00e0 la note de bas de page 6\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"e01796f7-6b63-4374-aad3-84bad4afe98c\">Popper. K.R. \u2013 A l\u00f3gica da pesquisa cient\u00edfica. <a href=\"#e01796f7-6b63-4374-aad3-84bad4afe98c-link\" aria-label=\"Aller \u00e0 la note de bas de page 7\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"c210b505-95cf-4e74-8b38-3723a6768758\">DIESAT \u2013 Departamento Intersindical de Estudos e Pesquisas de Sa\u00fade e dos Ambientes de Trabalho. Esta pesquisa foi coordenada por Herval Pina Ribeiro, envolvendo uma equipe multidisciplinar. <a href=\"#c210b505-95cf-4e74-8b38-3723a6768758-link\" aria-label=\"Aller \u00e0 la note de bas de page 8\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"f10d5546-43ba-494d-a835-461bf0e352ad\">Os resultados obtidos foram analisados \u00e0 luz da bibliografia (basicamente internacional) relacionada com o processo de trabalho na avia\u00e7\u00e3o comercial, consubstanciando a demanda dos trabalhadores, que conquistaram o alojamento separado reivindicado. <a href=\"#f10d5546-43ba-494d-a835-461bf0e352ad-link\" aria-label=\"Aller \u00e0 la note de bas de page 9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"9a03925e-ecca-41d2-93d8-160ae319c9fd\">A partir de outubro de 1990, assumi a coordena\u00e7\u00e3o do CRST Mooca, na qual permaneci at\u00e9 1992. <a href=\"#9a03925e-ecca-41d2-93d8-160ae319c9fd-link\" aria-label=\"Aller \u00e0 la note de bas de page 10\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"cb61f090-5285-48d2-b964-f29123dc54c9\">Setor de Conicaleiras, onde mais de 350 trabalhadoras apresentavam LER\/DORT.\u00a0 <a href=\"#cb61f090-5285-48d2-b964-f29123dc54c9-link\" aria-label=\"Aller \u00e0 la note de bas de page 11\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"d06a5e1d-c114-46b6-b528-f1b38b388891\">Ver a este prop\u00f3sito <a href=\"#d06a5e1d-c114-46b6-b528-f1b38b388891-link\" aria-label=\"Aller \u00e0 la note de bas de page 12\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"e392997d-286c-45e3-8cce-e769d8985d2d\">Na minha pr\u00e1tica cl\u00ednica adoto a Teoria Sociol\u00f3gica da Personalidade, sistematizada por An\u00edbal Silveira ao longo de sua vida (1932\/1979). Uma s\u00edntese desta teoria pode ser encontrada em Epilepsia e Personalidade, de L\u00facia Maria Salvia Coelho, S\u00e3o Paulo, \u00c1tica, 1975. <a href=\"#e392997d-286c-45e3-8cce-e769d8985d2d-link\" aria-label=\"Aller \u00e0 la note de bas de page 13\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"383c6218-9178-427c-992c-d98ad2b9fba2\">\u00a0No \u00e2mbito da escola alem\u00e3, estas psicoses foram, originariamente, denominadas de psicoses degenerativas por Kleist e de psicoses marginais pelo seu disc\u00edpulo Schroeder. <a href=\"#383c6218-9178-427c-992c-d98ad2b9fba2-link\" aria-label=\"Aller \u00e0 la note de bas de page 14\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"838fa5fa-5793-4289-a3e2-bcc8a56cfacd\">Ver a esse prop\u00f3sito o texto \u201cPr\u00e1ticas grupais em sa\u00fade mental e sa\u00fade do trabalhador\u201d , Francisco Drumond de Moura, 2005. Consultar: <a href=\"about:blank\">www.anibalsilveira.org \u2013 <\/a>Se\u00e7\u00e3o Programa de Forma\u00e7\u00e3o e Supervis\u00e3o, Programa de Forma\u00e7\u00e3o B\u00e1sica ou Se\u00e7\u00e3o Sa\u00fade Mental e Trabalho. <a href=\"#838fa5fa-5793-4289-a3e2-bcc8a56cfacd-link\" aria-label=\"Aller \u00e0 la note de bas de page 15\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><\/ol>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>APONTAMENTOS TE\u00d3RICOS E T\u00c9CNICOS PARA A INVESTIGA\u00c7\u00c3O DA RELA\u00c7\u00c3O ENTRE AGRAVOS \u00c0 SA\u00daDE MENTAL E O TRABALHO Francisco Drumond Marcondes de Moura Introdu\u00e7\u00e3o O trabalho compromete os v\u00e1rios sistemas biol\u00f3gicos dos trabalhadores de diferentes formas, produzindo n\u00e3o apenas disfun\u00e7\u00f5es e les\u00f5es som\u00e1ticas, mas tamb\u00e9m rea\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas, podendo desencadear processos psicol\u00f3gicos e psicopatol\u00f3gicos especificamente relacionados \u00e0s [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"footnotes":"[{\"content\":\"\u00a0Na ades\u00e3o subordinada, condicionada pela conting\u00eancia, daqueles que necessitam de trabalhar para viver.\",\"id\":\"09e2e1e2-71bb-4f0b-bfdb-76c08884c4f0\"},{\"content\":\"Na contemporaneidade, uma \u201csociedade regulada pelo mercado\u201d, nas palavras de Al Gore, transformado em arauto da luta mundial contra o aquecimento global, pelos instrumentos de comunica\u00e7\u00e3o da ordem dominante.\",\"id\":\"1c538648-23cf-46a2-a271-2c56cefe1c4d\"},{\"content\":\"Por esta raz\u00e3o prop\u00f5em a produ\u00e7\u00e3o desejante como categoria de uma psiquiatria materialista dial\u00e9tica.\",\"id\":\"48038bd2-cb70-4148-8919-ea57cf7e8cd9\"},{\"content\":\"Considerado por L\u00eanin, um dos ide\u00f3logos burgueses mais significativos do seu tempo. 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