{"id":2956,"date":"2024-07-16T19:13:18","date_gmt":"2024-07-16T22:13:18","guid":{"rendered":"https:\/\/anibalsilveira.org\/?page_id=2956"},"modified":"2024-09-10T19:04:06","modified_gmt":"2024-09-10T22:04:06","slug":"apanhado-geral-das-condicoes-morbidas-2","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/anibalsilveira.org\/fr\/apanhado-geral-das-condicoes-morbidas-2\/","title":{"rendered":"Apanhado geral das condi\u00e7\u00f5es m\u00f3rbidas"},"content":{"rendered":"<p class=\"has-text-align-center\"><strong>APANHADO GERAL DAS CONDI\u00c7\u00d5ES M\u00d3RBIDAS<\/strong><sup data-fn=\"49210fdb-71dc-4029-a2e1-1c87c0037a01\" class=\"fn\"><a href=\"#49210fdb-71dc-4029-a2e1-1c87c0037a01\" id=\"49210fdb-71dc-4029-a2e1-1c87c0037a01-link\">1<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p>Os aspectos cl\u00ednicos em Psiquiatria decorrem dos dinamismos psicopatol\u00f3gicos. Se n\u00e3o usarmos a psicopatologia, que subentende a patog\u00eanese, n\u00e3o se pode compreender claramente a divis\u00e3o dos v\u00e1rios quadros cl\u00ednicos em Psiquiatria: apenas a descri\u00e7\u00e3o do quadro em si n\u00e3o \u00e9 suficiente.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Se considerarmos o fato de que todas as condi\u00e7\u00f5es m\u00f3rbidas, que atingem uma determinada esfera da personalidade apresentam muitos sintomas em comum, se levamos em conta apenas a sua descri\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o a patog\u00eanese dos sintomas e do quadro cl\u00ednico, n\u00e3o chegaremos a um diagn\u00f3stico adequado.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>O diagn\u00f3stico \u00e9 fundamental para a orienta\u00e7\u00e3o terap\u00eautica. De maneira que a Psiquiatria n\u00e3o baseada na psicopatologia \u00e0 luz da patog\u00eanese \u00e9 uma Psiquiatria falha, que n\u00e3o permite a indica\u00e7\u00e3o terap\u00eautica adequada e que pode falhar neste aspecto fundamental de corre\u00e7\u00e3o, pois n\u00e3o considera o dinamismo fundamental no quadro cl\u00ednico.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Dessa maneira, consideramos a Psiquiatria de um modo um pouco diverso de outros autores porque damos pouca import\u00e2ncia para a descri\u00e7\u00e3o, embora a descri\u00e7\u00e3o do quadro seja o ponto de partida no estudo do paciente, mas a descri\u00e7\u00e3o em si, como t\u00e9cnica, \u00e9 insuficiente porque n\u00e3o permite a necess\u00e1ria interven\u00e7\u00e3o em um plano mais profundo da personalidade.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>A \u00fanica orienta\u00e7\u00e3o que corresponde ao nosso modo de ver \u00e9 a de Kleist, que \u00e9 por n\u00f3s adotada.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Kleist se distingue dos outros autores, mesmo dos construtores da Psiquiatria, como Kraepelin, Bleuler de certa maneira, al\u00e9m de outros. Todos eles, com exce\u00e7\u00e3o de Wernicke, consideravam apenas o aspecto descritivo, o que d\u00e1 uma vantagem qualitativa a Kleist sobre os demais porque permite uma vis\u00e3o mais geral e mais estrutural das psicoses.<\/p>\n\n\n\n<p>Recentemente, Leonhard seguiu em grande parte a linha do pensamento de Kleist. Mas, talvez por influ\u00eancia do ambiente, ou por n\u00e3o ter entendido plenamente a teoria de Kleist, ele ficou apenas na parte descritiva. Ele fez uma s\u00e9rie de subdivis\u00f5es que em geral correspondem \u00e0 de Kleist, mas que tem como ponto central o comportamento cl\u00ednico do paciente. Os psiquiatras, em geral, est\u00e3o mais filiados \u00e0 abordagem cl\u00e1ssica de descri\u00e7\u00e3o dos quadros cl\u00ednicos, procurar a etiologia, mas sem aprofundar pelo estudo da patog\u00eanese.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Isso torna Leonhard mais pr\u00f3ximo dos psiquiatras cl\u00e1ssicos e mais f\u00e1cil de utilizar que a teoria de Kleist. Vemos um reflexo disso nos trabalhos de Ficher, na Inglaterra. Esse autor estudou os quadros cl\u00ednicos da esquizofrenia segundo Kleist e segundo Leonhard. Fez um est\u00e1gio com Leonhard na Alemanha e depois escreveu um trabalho muito interessante sobre Psicopatologia. Quer nos seus trabalhos anteriores, quer nesse livro de Psicopatologia, v\u00ea-se que ele se baseia mais em Leonhard do que em Kleist. Porque \u00e9 mais f\u00e1cil.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Quando Leonhard fez o estudo da gen\u00e9tica nas doen\u00e7as mentais, sob a influ\u00eancia do crit\u00e9rio de Kleist, chegou a conclus\u00f5es muito diferentes daquelas obtidas por autores que estudaram a gen\u00e9tica em psiquiatria \u2013 porque se baseou na divis\u00e3o gen\u00e9tica dos quadros cl\u00ednicos. Depois, Leonhard passou mais para uma linha descritiva e n\u00e3o retomou mais a linha de Kleist.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Com o crit\u00e9rio descritivo n\u00e3o h\u00e1 possibilidade de distinguirmos satisfatoriamente um quadro cl\u00ednico, aquilo que corresponde a um quadro cl\u00ednico geral, ao que corresponde \u00e0 doen\u00e7a mental ou condi\u00e7\u00e3o m\u00f3rbida, que \u00e9 um aspecto mais aprofundado, e quais as implica\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas que esse quadro apresenta. Dessa forma, proceder a pesquisa da gen\u00e9tica psiqui\u00e1trica a partir de Leonhard ficou mais dif\u00edcil, do que quando sob a dire\u00e7\u00e3o doutrin\u00e1ria da escola de Kleist que permitia um estudo mais profundo da psicopatologia e da psiquiatria, porque utilizava o crit\u00e9rio da patog\u00eanese, filiando os dist\u00farbios mentais \u00e0s altera\u00e7\u00f5es estruturais da personalidade.<\/p>\n\n\n\n<p>A divis\u00e3o cl\u00e1ssica que havia na Psiquiatria, desde Kraepelin, foi a divis\u00e3o das psicoses em end\u00f3genas e ex\u00f3genas, sob o ponto de vista do modo em que se desencadeia o quadro cl\u00ednico. No grupo das ex\u00f3genas, o progn\u00f3stico seria melhor, uma vez que o quadro cl\u00ednico se desencadeia por fatores perturbadores do ambiente, portanto, anulados esses fatores, desapareceria tamb\u00e9m o quadro cl\u00ednico. Ao passo que as end\u00f3genas que aparecem sem nenhuma causa desencadeante, s\u00e3o interpretadas como mais graves, porque dependem de condi\u00e7\u00f5es do indiv\u00edduo que n\u00e3o estariam acess\u00edveis a modifica\u00e7\u00f5es feitas pela terap\u00eautica.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Na realidade, logo se viu que isso n\u00e3o corresponde \u00e0s psicoses em geral. Porque as psicoses ex\u00f3genas, que decorrem do atingimento do sistema nervoso central podem ocasionar les\u00f5es que, com o tempo, podem se tornar mais graves, podendo chegar \u00e0 demencia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, h\u00e1 psicoses end\u00f3genas, inclusive aquelas consideradas como irrevers\u00edveis, como a psicose man\u00edaco depressiva, e outras que apareceriam por fases, que regrediam totalmente sem deixar nenhuma sequela.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, h\u00e1 psicoses que aparecem sem nenhum fator desencadeante evidente e que se incluem no grupo das psicoses f\u00e1sicas, que se resolvem sem deixar nenhuma sequela. Portanto, o crit\u00e9rio inicial de que as psicoses ex\u00f3genas s\u00e3o benignas porque desaparecendo as causas desaparece o efeito, ao passo que as end\u00f3genas, por aparecerem sem fatores desencadeantes evidentes, seriam graves porque n\u00e3o h\u00e1 meio de interferir \u2013 seria falho porque os dois grupos envolvem psicoses com evolu\u00e7\u00e3o e com etiologias diferentes.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse caso foi necess\u00e1rio, como Kleist observou, reformular os grupos das Psicoses quanto \u00e0 g\u00eanese. Na realidade, as psicoses ex\u00f3genas correspondem a fatores perturbadores do ambiente, mas se atingem o organismo do indiv\u00edduo \u00e9 tamb\u00e9m uma condi\u00e7\u00e3o extr\u00ednseca ao sistema nervoso, ao c\u00e9rebro, ao enc\u00e9falo. Logo, embora sendo ex\u00f3gena em rela\u00e7\u00e3o ao organismo \u00e9 tamb\u00e9m ex\u00f3gena em rela\u00e7\u00e3o ao c\u00e9rebro \u2013 quando atinge diretamente o organismo e apenas secundariamente o sistema nervoso.<\/p>\n\n\n\n<p>As formas end\u00f3genas surgem sem nenhum fator desencadeante, mas essas surgem ou como altera\u00e7\u00e3o do ambiente celular, quer dizer, do sistema nervoso de sustenta\u00e7\u00e3o, ou como altera\u00e7\u00f5es diretamente ligadas com o fator gen\u00e9tico: assim, representam duas modalidades tamb\u00e9m.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>No esquema de Luxemburger (apresentado a seguir como figura I), verificamos que as condi\u00e7\u00f5es m\u00f3rbidas podem ser caracterizadas, quanto ao aspecto, em fenot\u00edpicas, parat\u00edpicas e genot\u00edpicas.\u00a0<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"798\" height=\"278\" src=\"https:\/\/anibalsilveira.org\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/2024-07-16-10.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-2957\" srcset=\"https:\/\/anibalsilveira.org\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/2024-07-16-10.png 798w, https:\/\/anibalsilveira.org\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/2024-07-16-10-300x105.png 300w, https:\/\/anibalsilveira.org\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/2024-07-16-10-768x268.png 768w, https:\/\/anibalsilveira.org\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/2024-07-16-10-18x6.png 18w\" sizes=\"auto, (max-width: 798px) 100vw, 798px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Nas psicoses end\u00f3genas temos uma desorganiza\u00e7\u00e3o intr\u00ednseca do sistema nervoso, dos neur\u00f4nios, e aquelas que decorrem do ambiente celular mesmo do sistema nervoso. Portanto, h\u00e1 uma duplicidade de a\u00e7\u00e3o num sentido e no outro. O ambiente celular corresponde ao sistema de sustenta\u00e7\u00e3o do sistema nervoso: a<a href=\"https:\/\/anibalsilveira.org\/neuroglia\/\" data-type=\"page\" data-id=\"3152\"> <strong>neuroglia<\/strong><\/a>, os capilares, a vasculariza\u00e7\u00e3o, dentre outras condi\u00e7\u00f5es. Em decorr\u00eancia disso, Kleist prop\u00f4s a divis\u00e3o das psicoses em al\u00f3genas, somat\u00f3genas e neur\u00f3genas.<\/p>\n\n\n\n<p>As al\u00f3genas s\u00e3o as que o fator patog\u00eanico vem apenas do ambiente exterior. As somat\u00f3genas s\u00e3o as que vem do ambiente exterior, mas atingem, primariamente, o <em>soma<\/em>, o organismo e, secundariamente, provocam altera\u00e7\u00f5es no sistema nervoso. As neur\u00f3genas s\u00e3o intrinsecamente ligadas com o sistema nervoso.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, as somat\u00f3genas s\u00e3o aquelas que est\u00e3o ligadas com o organismo em geral e com o ambiente celular do sistema nervoso, enquanto as neur\u00f3genas s\u00e3o ligadas com o gene, com a contribui\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica, com o genoma do indiv\u00edduo. Isso permite uma caracteriza\u00e7\u00e3o mais precisa dos quadros cl\u00ednicos.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>A psiquiatria norteada pelo crit\u00e9rio descritivo n\u00e3o estabelece essa distin\u00e7\u00e3o entre uma psicose al\u00f3gena, somat\u00f3gena ou neur\u00f3gena, nem permite estabelecer, com certa precis\u00e3o, o seu progn\u00f3stico.<\/p>\n\n\n\n<p>A psiquiatria orientada pela patog\u00eanese verifica como a carga gen\u00e9tica do indiv\u00edduo interfere na configura\u00e7\u00e3o do sistema nervoso, na sua estrutura e no seu funcionamento, al\u00e9m disso, estabelece a susceptibilidade maior ou menor do fator t\u00f3xico, do fator al\u00f3geno, isto \u00e9, elementos diretamente ligados \u00e0 carga gen\u00e9tica. Tal fato foi verificado n\u00e3o com estudos diretamente ligados com Kleist mas com estudos feitos por von <a href=\"https:\/\/anibalsilveira.org\/otmar-freiherr-von-verschuer\/\" data-type=\"page\" data-id=\"3161\"><strong>Verschuer<\/strong><\/a>. Esse autor era geneticista e estudou com g\u00eameos univitelinos e bivitelinos e verificou que muitas das manifesta\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas, da cl\u00ednica em geral, est\u00e3o ligados \u00e0 carga gen\u00e9tica e n\u00e3o do fator t\u00f3xico, ou infeccioso, ou qualquer outro. Um caso que <a href=\"https:\/\/anibalsilveira.org\/otmar-freiherr-von-verschuer\/\" data-type=\"page\" data-id=\"3161\"><strong>Von Verschuer<\/strong><\/a> cita \u00e9 o da pneumonia que pode ter uma evolu\u00e7\u00e3o de hepatiza\u00e7\u00e3o ou pode, como \u00e9 comum, resolver-se rapidamente. Assim, essa doen\u00e7a que aparentemente decorre apenas do fator t\u00f3xico, na realidade traduz no seu comportamento cl\u00ednico apenas a susceptibilidade gen\u00e9tica. Na tuberculose isso \u00e9 mais evidente ainda.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>A considera\u00e7\u00e3o das psicoses como determinadas geneticamente expressa a parte principal e central da concep\u00e7\u00e3o de Kleist. Seguimos essa concep\u00e7\u00e3o porque corresponde melhor ao modo de interpretar a patologia e, especificamente, a psiquiatria. Como ainda vamos ver, um grande n\u00famero de psicoses neur\u00f3genas evolui por fases, n\u00e3o deixam nenhuma sequela e s\u00e3o totalmente revers\u00edveis. Por outro lado, h\u00e1 aquelas que evoluem por surtos e que levam o indiv\u00edduo ao estado demencial, como \u00e9 o caso das formas progressivas na esquizofrenia, na acep\u00e7\u00e3o de Kleist. E h\u00e1 outras, tamb\u00e9m determinadas geneticamente, que apresentam um feitio cl\u00ednico at\u00edpico, pouco compreens\u00edvel pelo aspecto descritivo, porque envolve v\u00e1rias zonas da personalidade.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Dessa forma, vemos que a abordagem psiqui\u00e1trica de fundamentar o diagn\u00f3stico pela avalia\u00e7\u00e3o da carga gen\u00e9tica de um indiv\u00edduo revela dois aspectos:\u00a0<\/p>\n\n\n\n<ol class=\"wp-block-list\">\n<li>quanto a patog\u00eanese geral, isto \u00e9, porque motivo esta ou aquela esfera da personalidade s\u00e3o atingidas, porque uma mais que outra, caracterizando, portanto, a delimita\u00e7\u00e3o geral do quadro cl\u00ednico e a forma de sua evolu\u00e7\u00e3o;<\/li>\n\n\n\n<li>quanto \u00e0 patog\u00eanese particular, isto \u00e9, a express\u00e3o do quadro cl\u00ednico que traduz a participa\u00e7\u00e3o dos sistemas cerebrais atingidos pelo processo; esse fato n\u00e3o significa que, necessariamente, haja altera\u00e7\u00f5es org\u00e2nicas, lesionais, essas podem ser apenas funcionais e mesmo revers\u00edveis.\u00a0<\/li>\n<\/ol>\n\n\n\n<p>O psiquiatra deve estar em condi\u00e7\u00f5es de estabelecer com os dados necess\u00e1rios, atrav\u00e9s de uma observa\u00e7\u00e3o adequada, o tipo cl\u00ednico, a hip\u00f3tese diagn\u00f3stica e o progn\u00f3stico. Logo, o diagn\u00f3stico no \u00e2mbito da escola de Kleist n\u00e3o decorre da avalia\u00e7\u00e3o sobre a evolu\u00e7\u00e3o do quadro cl\u00ednico &#8211; por exemplo, considerar que se trata de uma psicose progressiva porque o paciente tem cinco anos de doen\u00e7a -, mas na avalia\u00e7\u00e3o da carga gen\u00e9tica do indiv\u00edduo em correla\u00e7\u00e3o com o seu quadro cl\u00ednico, de modo a fundamentar uma previs\u00e3o sobre o seu decurso, isto \u00e9, verificar se ele ser\u00e1 ou n\u00e3o progressivo. Naturalmente, isso depende de v\u00e1rios fatores, entre eles, da experi\u00eancia do cl\u00ednico, mas queremos ressaltar a import\u00e2ncia da t\u00e9cnica usada no exame cl\u00ednico e do conceito que se utiliza para estabelecer esse exame.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, se determinarmos, como fez Kleist, o grupo das psicoses neur\u00f3genas, em que algumas evoluem de modo revers\u00edvel e outras de forma progressiva, temos:\u00a0<\/p>\n\n\n\n<ol class=\"wp-block-list\">\n<li>psicoses revers\u00edveis, nas quais a carga gen\u00e9tica, isto \u00e9, a maneira como se exprime o genoma do indiv\u00edduo abrange elementos da patog\u00eanese, que torna o caso benigno, com tend\u00eancia \u00e0 remiss\u00e3o integral dos sintomas;<\/li>\n\n\n\n<li>psicoses progressivas, que evoluem para um estado demencial, em um per\u00edodo de tempo vari\u00e1vel, segundo o caso cl\u00ednico e, principalmente, conforme a carga gen\u00e9tica do indiv\u00edduo.<\/li>\n<\/ol>\n\n\n\n<p>Algumas das psicoses revers\u00edveis surgem esporadicamente, outras, por fases previs\u00edveis. Dessa forma, as psicoses revers\u00edveis podem ser distinguidas nas que evoluem por surtos e nas que evoluem por fases. Se n\u00e3o utilizamos esse crit\u00e9rio patog\u00eanico quanto ao quadro cl\u00ednico, portanto, quanto \u00e0 configura\u00e7\u00e3o dos sintomas, n\u00e3o temos um ponto de apoio para fazer o progn\u00f3stico.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Vemos ent\u00e3o como \u00e9 frequente um paciente ser considerado esquizofr\u00eanico, porque apresenta uma doen\u00e7a revers\u00edvel por surtos. Isso foi o primeiro embate de Kleist, com a concep\u00e7\u00e3o cl\u00ednica de Bleuler e de Kraepelin: havia um paciente que deveria ir ao estado demencial, mas o processo se detinha em uma certa fase da evolu\u00e7\u00e3o, deixando apenas defeitos de personalidade ou com remiss\u00e3o completa dos sintomas.<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, a <a href=\"https:\/\/anibalsilveira.org\/demencia-precoce\/\" data-type=\"page\" data-id=\"3114\"><strong>dem\u00eancia precoce<\/strong><\/a> caracterizada pela fase demencial logo no in\u00edcio da doen\u00e7a, teve que ser distribu\u00edda em v\u00e1rios grupos, uns que chegavam \u00e0 fase demencial, e outros que n\u00e3o levavam \u00e0 demencia\u00e7\u00e3o, por falha no crit\u00e9rio utilizado para o diagn\u00f3stico, que apenas levou em conta a descri\u00e7\u00e3o cl\u00ednica. Isto \u00e9, os casos que, descritivamente, pareciam ser um surto esquizofr\u00eanico, na realidade expressavam o surto de uma psicose benigna revers\u00edvel, com uma configura\u00e7\u00e3o cl\u00ednica compar\u00e1vel \u00e0 esquizofrenia, que \u00e9 uma forma progressiva.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Outras, como a psicose man\u00edaco depressiva surgem por fases, mas muitos <a href=\"https:\/\/anibalsilveira.org\/quadros-clinicos-que-aparecem-por-fases\/\" data-type=\"page\" data-id=\"3191\"><strong>quadros cl\u00ednicos aparecem por fases<\/strong><\/a> e, no entanto, n\u00e3o s\u00e3o psicose man\u00edaco-depressiva.<\/p>\n\n\n\n<p>O surto psic\u00f3tico \u00e9 um processo que rompe sem qualquer rela\u00e7\u00e3o direta com a configura\u00e7\u00e3o cl\u00ednica pr\u00e9-m\u00f3rbida do paciente: o quadro surge bruscamente, depois desaparece, podendo n\u00e3o mais se repetir.<\/p>\n\n\n\n<p>No caso das psicoses f\u00e1sicas h\u00e1 uma repeti\u00e7\u00e3o: se pode prever o comportamento do paciente na fase psic\u00f3tica, comparando com o que ele era na fase pr\u00e9-m\u00f3rbida, correspondendo ao conceito de quadro hom\u00f4nimo, na acep\u00e7\u00e3o de Kleist.<\/p>\n\n\n\n<p>Como os autores, em geral, n\u00e3o levaram em conta o aspecto gen\u00e9tico, como fez Kleist, passaram a procurar explica\u00e7\u00f5es para os casos individuais. Da\u00ed, a no\u00e7\u00e3o de \u201csurtos delirantes dos degenerados\u201d dada por Magnan, no s\u00e9culo passado, \u00e9poca em que se considerava a doen\u00e7a mental como sintoma de degenera\u00e7\u00e3o. Lombroso utilizou isso na psiquiatria forense, na criminalidade, e os autores, em geral, adotaram essa ideia na psiquiatria cl\u00ednica: as manifesta\u00e7\u00f5es foram interpretadas como atavismo do indiv\u00edduo. Quando verificaram que o indiv\u00edduo podia ter manifesta\u00e7\u00f5es dessa ordem &#8211; e depois regredir completamente o quadro cl\u00ednico -, passaram a dar esse nome de \u201csurto delirante dos degenerados\u201d: seriam pacientes com tend\u00eancia para a \u201cdegenera\u00e7\u00e3o\u201d, mas que n\u00e3o eram permanentemente anormais.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Na realidade, esses surtos n\u00e3o indicavam tend\u00eancia para uma \u201cpsicose cr\u00f4nica dos degenerados\u201d. Pelo contr\u00e1rio: poderiam ocorrer em indiv\u00edduos perfeitamente normais e que, bruscamente, tinham um surto dessa ordem, modificando sua maneira de trabalhar, de ligar-se com os demais e que mais tarde voltariam desse surto sem deixar nenhuma sequela. Assim, definitivamente, na concep\u00e7\u00e3o de Kleist, o surto \u00e9 uma maneira de evolu\u00e7\u00e3o do quadro cl\u00ednico que pode ser, geneticamente, prevista. Por essa raz\u00e3o, incorporamos a an\u00e1lise da carga gen\u00e9tica para interpretar a patog\u00eanese da doen\u00e7a mental.<\/p>\n\n\n\n<p>Em s\u00edntese: a carga gen\u00e9tica traduz a tend\u00eancia, maior ou menor, concentrada ou dilu\u00edda, em uma determinada fam\u00edlia, de ocorr\u00eancia de psicoses. Dessa maneira, se torna poss\u00edvel distinguir dois grupos de psicoses: o grupo das psicoses end\u00f3genas, com maior concentra\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica, de car\u00e1ter permanente ou progressivo e, outro grupo, com uma dilui\u00e7\u00e3o dessa carga gen\u00e9tica, constitu\u00eddo por psicoses benignas, com tend\u00eancia \u00e0 remiss\u00e3o integral dos sintomas.<\/p>\n\n\n\n<p>O grupo das psicoses end\u00f3genas, psicose man\u00edaco depressiva e esquizofrenia, traduzem no colorido geral do quadro cl\u00ednico, a maneira como as diferentes esferas da personalidade \u00e9 atingida no processo, sem haver nenhuma causa t\u00f3xica ou infecciosa.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>O <a href=\"https:\/\/anibalsilveira.org\/grupo-das-psicoses-benignas\/\" data-type=\"page\" data-id=\"3123\"><strong>grupo das psicoses benignas<\/strong><\/a>, com remiss\u00e3o integral dos sintomas<sup data-fn=\"024ed18d-3442-48bf-8dd7-fb80154a0a85\" class=\"fn\"><a href=\"#024ed18d-3442-48bf-8dd7-fb80154a0a85\" id=\"024ed18d-3442-48bf-8dd7-fb80154a0a85-link\">2<\/a><\/sup>, \u00e9 o segundo a ser considerado e que traduz na sua patog\u00eanese as \u00e1reas cerebrais envolvidas dinamicamente, e n\u00e3o por les\u00e3o: expressando o quadro cl\u00ednico na sua configura\u00e7\u00e3o particular, conforme os sistemas cerebrais envolvidos, isto \u00e9, reiteramos, a sua patog\u00eanese. Logo, temos a patog\u00eanese geral, que corresponde aos dinamismos e a patog\u00eanese cerebral que d\u00e1 os sintomas do quadro cl\u00ednico.<\/p>\n\n\n\n<p>Um outro grupo que integramos aos quadros end\u00f3genos \u00e9 o formado pela Epilepsia e pela Oligofrenia, que apresentam uma condi\u00e7\u00e3o permanente, e n\u00e3o progressiva.\u00a0\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Na concep\u00e7\u00e3o de Kleist \u00e9 poss\u00edvel estabelecer essas correla\u00e7\u00f5es porque ele usou o crit\u00e9rio de filiar os dist\u00farbios mentais \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es normais correspondentes e compreendendo tanto uma como outras, ligadas \u00e0 estrutura cerebral. Por isso, desde o in\u00edcio, ele reuniu esses dois aspectos &#8211; a patologia e a fisiologia cerebral -, na t\u00e9cnica de estudar cada quadro cl\u00ednico de per si.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Para situar a teoria de Kleist, no contexto geral da psiquiatria, temos que estudar a sua base te\u00f3rica precedente que foi dada por Wernicke. Carl Wernicke, que faleceu em 1905 em um acidente na floresta negra, tinha estabelecido a correla\u00e7\u00e3o entre as esferas ps\u00edquicas e o quadro cl\u00ednico, que foi retomado e ampliado por Kleist. Wernicke filiava o quadro cl\u00ednico \u00e0 estrutura cerebral e dividia as esferas da personalidade em dois tipos: autopsique e alopsique, que eram conceitos correntes na ocasi\u00e3o.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Para Wernicke, o indiv\u00edduo poderia ter um processo m\u00f3rbido qualquer, lesional, org\u00e2nico, din\u00e2mico, funcional, que envolvia a esfera alops\u00edquica, dando um colorido particular ao quadro cl\u00ednico, com alucina\u00e7\u00f5es, com conceitos delirantes etc. Ou poderia atingir a esfera autops\u00edquica, que vai interferir com a no\u00e7\u00e3o de si pr\u00f3prio, com a orienta\u00e7\u00e3o quanto a si mesmo, quanto ao pr\u00f3prio corpo etc. Essas duas esferas de Wernicke explicavam os processos cl\u00ednicos de todas as patologias mentais. Ele escolheu Kleist como seu seguidor, embora fosse um de seus disc\u00edpulos mais novos. Em 1908, Kleist retomou as psicoses descritas por Wernicke, como a Psicose da Motilidade \u2013 descrita como um processo caracter\u00edstico que aparecia de um modo espetacular, caracterizado por mobiliza\u00e7\u00e3o excessiva, motilidade desordenada e que chamava a aten\u00e7\u00e3o, imediatamente, como se fosse uma mania por causa do deslocamento cont\u00ednuo do indiv\u00edduo e da produ\u00e7\u00e3o excessiva, no aspecto motor. Wernicke a denominou como Psicose da Motilidade por se tratar de um aspecto da autopsique, que seria a no\u00e7\u00e3o de si pr\u00f3prio, a euforia, o bem-estar, que seria caracter\u00edstico da mania, mas, na verdade, correspondia a um surto de excita\u00e7\u00e3o ps\u00edquica com euforia.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1911, Kleist estudou esse grupo da Psicose da Motilidade com um crit\u00e9rio mais rigoroso: era necess\u00e1rio fazer uma distin\u00e7\u00e3o dos pacientes que estavam arrolados por Wernicke, como tendo Psicose da Motilidade. Assim, Kleist verificou que alguns desses pacientes pertenciam ao grupo das catatonias, mais precisamente da forma hipercin\u00e9tica, que depois evolu\u00edram para o estado demencial.<\/p>\n\n\n\n<p>Dessa forma, desde o in\u00edcio, Kleist percebeu a distin\u00e7\u00e3o daquilo que era realmente vinculado com certo diagn\u00f3stico com o que aparentava ser, apenas, como descri\u00e7\u00e3o. A partir dessa primeira contribui\u00e7\u00e3o, Kleist presumiu que era necess\u00e1rio fazer um desmembramento dos diferentes quadros cl\u00ednicos, ampliando os seus estudos aos pacientes que tinham sido estudados por Kraepelin e mais tarde por Bleuler. Isto levou Kleist a seguir uma rota completamente diversa de ambos: Kraepelin filiou os diversos quadros cl\u00ednicos a um grupo \u00fanico (esquizofrenia, psicose man\u00edaco depressiva e a epilepsia); Bleuler fundiu todas essas, e mais outras pela descri\u00e7\u00e3o do quadro cl\u00ednico, em um grupo que chamou de esquizofrenia.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Sucessivamente, Kleist dissociou os v\u00e1rios quadros cl\u00ednicos, acompanhando o paciente com catamnese e com a anamnese objetiva retr\u00f3grada, e verificou que os pacientes formavam um grupo completamente heterog\u00eaneo, onde n\u00e3o era poss\u00edvel aplicar um conceito \u00fanico. Isso foi caracter\u00edstico do modo inicial de estudar de Kleist.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Em seguida, fez um estudo pela patog\u00eanese cerebral desses dois grupos de Wernicke &#8211; alopsique e autopsique \u2013 e verificou que tamb\u00e9m esses dois grupos deveriam ser desmembrados quanto \u00e0 concep\u00e7\u00e3o de filia\u00e7\u00e3o dos quadros cl\u00ednicos aos sistemas cerebrais. Ele mostrou que a Autopsique \u00e9 uma esfera que envolve a parte afetiva, profunda instintiva, e a Alopsique, \u00e9 uma esfera que corresponde \u00e0 manifesta\u00e7\u00e3o mais diferenciada do pr\u00f3prio indiv\u00edduo e que subentendia a liga\u00e7\u00e3o com o mundo exterior, em geral, e no aspecto social, tanto no plano das rela\u00e7\u00f5es interpessoais, como no aspecto mais abstrato, com filia\u00e7\u00e3o \u00e0 ancestralidade e \u00e0 concep\u00e7\u00e3o religiosa.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Isto remeteu Kleist \u00e0 necessidade de aprofundar a diferencia\u00e7\u00e3o das esferas. Assim, Kleist desmembrou na esfera Autopsique, uma parte que ele chamou de Timopsique, que se referia mais \u00e0 parte afetiva porque \u00e9 a rea\u00e7\u00e3o afetiva do indiv\u00edduo que \u00e9 atingida de prefer\u00eancia; uma outra parte que ele chamou de Somatopsique, que se referia a uma liga\u00e7\u00e3o com o pr\u00f3prio corpo do indiv\u00edduo e a Autopsique propriamente, que se referia \u00e0 pr\u00f3pria identidade do indiv\u00edduo.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Em outras palavras, o indiv\u00edduo toma contato com o mundo em tr\u00eas n\u00edveis: integrando as rea\u00e7\u00f5es afetivas da situa\u00e7\u00e3o (Timopsique), integrando os dados proprioceptivos, a no\u00e7\u00e3o de si pr\u00f3prio quanto ao aspecto som\u00e1tico (Somatopsique) e integrando a parte que lhe permite a identifica\u00e7\u00e3o de si pr\u00f3prio no sentido abstrato, a no\u00e7\u00e3o de si pr\u00f3prio (Autopsique). Importante assinalar que essas rela\u00e7\u00f5es n\u00e3o se d\u00e3o no sentido intelectual ou cognitivo, mas sim no sentido afetivo. Portanto, todas t\u00eam em comum o contato que o indiv\u00edduo estabelece, a integra\u00e7\u00e3o dos est\u00edmulos que ele estabelece no plano afetivo, embora ele refira s\u00f3 aos impulsos e instintos, ou s\u00f3 ao corpo ou \u00e0 no\u00e7\u00e3o subjetiva de si pr\u00f3prio.<\/p>\n\n\n\n<p>Do mesmo modo, diferenciou a Alopsique como constitu\u00edda de uma parte que corresponde \u00e0quilo que vem do mundo exterior, a Alopsique propriamente dita, que traduz o contato afetivo com o mundo que rodeia o indiv\u00edduo e que s\u00f3 pode se dar atrav\u00e9s dos sentidos, dos \u00f3rg\u00e3os sensoriais. E uma outra parte, que mantem o indiv\u00edduo conectado com um n\u00edvel mais social, mais interpessoal, que Kleist chamou de Cenopsique, ceno vem do grego koinos (\u03ba\u03bf\u03b9\u03bd\u03bf\u03c2), liga\u00e7\u00e3o com os demais no plano geral, afetivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Finalmente, uma parte conectada com um sentido mais global, que ele chamou de Holopsique, envolvendo um plano mais abstrato, religioso. Vejam que a distin\u00e7\u00e3o que Kleist fez das esferas foi mais completa e mais complexa que a de Wernicke.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, Wernicke situava essas duas esferas em \u00e1reas espec\u00edficas do c\u00e9rebro e Kleist mostrou que isso n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, mas sim o dinamismo que permite o contato com o mundo exterior \u00e9 o que constitui as esferas de Kleist. Assim, todas elas s\u00e3o rea\u00e7\u00f5es afetivas, mas, na Timopsique, o indiv\u00edduo reage intrinsecamente com a pr\u00f3pria afetividade, quer no sistema de impulsos, quer quando sente realmente a realidade exterior de um modo afetivo. Na Somatopsique, ainda h\u00e1 um contato com o mundo exterior, mas no sentido de experimentar as pr\u00f3prias rea\u00e7\u00f5es, enquanto na Autopsique o indiv\u00edduo tem a no\u00e7\u00e3o de si pr\u00f3prio. Ora, tanto a Timopsique como a Somatopsique, em parte, integram impulsos que vem da parte b\u00e1sica fundamental do indiv\u00edduo, no processo de desenvolvimento da sua personalidade, portanto, vinculadas a zonas mais profundas da estrutura de personalidade. N\u00e3o h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o espacial entre um aspecto e outro, mas sim com os dinamismos: o que produz os dinamismos da Timopsique s\u00e3o rea\u00e7\u00f5es mais profundas que est\u00e3o ligadas ao hipot\u00e1lamo e com o tronco cerebral. A Somatopsique tem uma parte relacionada com as no\u00e7\u00f5es proprioceptivas do indiv\u00edduo e uma parte ligada ao tato e de contacto com o mundo exterior, atrav\u00e9s das impress\u00f5es ou das rea\u00e7\u00f5es musculares e envolve, portanto, uma zona parietal, parte anterior central na convexidade do c\u00e9rebro. A Autopsique envolve as mesmas zonas, mas com uma fun\u00e7\u00e3o diferente, de integrar todos os aspectos a uma unidade subjetiva, portanto, como identidade de si pr\u00f3prio: as zonas da convexidade cerebral s\u00e3o as mesmas, quer na tomada de contato com o mundo exterior, atrav\u00e9s das sensa\u00e7\u00f5es, quer atrav\u00e9s da no\u00e7\u00e3o abstrata do mundo exterior.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>A Alopsique subentende fundamentalmente os sentidos. Todos eles t\u00eam uma representa\u00e7\u00e3o cortical e t\u00eam uma representa\u00e7\u00e3o na esfera afetiva. Kleist demonstrou, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 olfa\u00e7\u00e3o, uma representa\u00e7\u00e3o cortical ligada fundamentalmente \u00e0 parte afetiva do indiv\u00edduo e, ao mesmo tempo, ligada \u00e0 no\u00e7\u00e3o do mundo exterior: h\u00e1 sempre um aspecto ligado, fundamentalmente, \u00e0 parte afetiva e um aspecto ligado com o mundo exterior, em segundo lugar.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Foi interessante porque quando se estabeleceu a localiza\u00e7\u00e3o no c\u00e9rebro, a olfa\u00e7\u00e3o foi vinculada \u00e0 parte primitiva do c\u00e9rebro, envolvendo uma integra\u00e7\u00e3o pelo corpo caloso, com uma parte localizada no lobo piriforme do c\u00e9rebro e outra na parte posterior do lobo temporal: duas zonas, uma ligada \u00e0 parte paleocerebral e outra neocerebral e ambas ligadas \u00e0 olfa\u00e7\u00e3o. Foi Kleist quem primeiro demonstrou esse fato.<\/p>\n\n\n\n<p>A liga\u00e7\u00e3o no mundo exterior, mesmo no plano instintivo, como por exemplo, a rela\u00e7\u00e3o sexual, nos animais menos diferenciados, decorre muito dos est\u00edmulos olfativos que surgem como c\u00f3digo, como informa\u00e7\u00e3o para a zona afetiva do c\u00e9rebro.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>De modo que todas as fra\u00e7\u00f5es alops\u00edquicas t\u00eam uma fra\u00e7\u00e3o que corresponde a uma zona b\u00e1sica, situada na parte mais primitiva \u2013 olfativa, gustativa e depois uma fra\u00e7\u00e3o ligada com o mundo exterior \u2013 audi\u00e7\u00e3o, vis\u00e3o, tato \u2013 na parte da convexidade cerebral.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>A Cenopsique \u00e9 uma parte mais diferenciada, pois se refere \u00e0s rela\u00e7\u00f5es interpessoais, o eu social: mas tamb\u00e9m tem uma parte localizada na zona primitiva do c\u00e9rebro, a zona orbit\u00e1ria e, uma parte de reg\u00eancia localizada na convexidade cerebral.<\/p>\n\n\n\n<p>Somente Kleist fez essas verifica\u00e7\u00f5es que hoje nos permite o estudo da fisiologia comparada e do estudo da personalidade tamb\u00e9m no sentido comparado. De modo que a pr\u00f3pria rela\u00e7\u00e3o com o mundo exterior, em um plano mais diferenciado, como na Cenopsique (vincula\u00e7\u00e3o social) traz um componente que \u00e9 ligado com a zona orbit\u00e1ria do c\u00e9rebro.\u00a0 Isso \u00e9 muito importante na cl\u00ednica para compreender o dinamismo envolvido na patog\u00eanese do quadro cl\u00ednico de pacientes com graves dist\u00farbios sociais que apresentam altera\u00e7\u00f5es na zona orbit\u00e1ria do c\u00e9rebro.<\/p>\n\n\n\n<p>A Alopsique est\u00e1 tamb\u00e9m ligada com o mundo abstrato do indiv\u00edduo; ent\u00e3o esta seria, apenas, uma fun\u00e7\u00e3o cortical da convexidade cerebral. As zonas que perfazem fun\u00e7\u00f5es abstratas, envolvem as mesmas \u00e1reas que as da Autopsique, logo, n\u00e3o h\u00e1 uma localiza\u00e7\u00e3o exclusiva para um aspecto ou para outro.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>A zona cortical frontal \u00e9 que perfaz a fun\u00e7\u00e3o da abstra\u00e7\u00e3o de todos os dados ligados com o mundo exterior. Essa distribui\u00e7\u00e3o das esferas de Kleist n\u00e3o \u00e9 a mesma das esferas da personalidade que utilizamos, que considera tr\u00eas esferas: a da afetividade, a da atividade e a da intelig\u00eancia. Por essa raz\u00e3o, podemos, perfeitamente, compreender as esferas de Kleist: n\u00e3o h\u00e1 incompatibilidade entre ambas, apenas o modo de interpretar as diferencia. O fen\u00f4meno fundamental \u00e9 o da observa\u00e7\u00e3o dos fatos, agora sua interpreta\u00e7\u00e3o pode ser de uma maneira ou de outra, dependendo da teoria que usamos para interpret\u00e1-los. No entanto, se os fatos contradisserem a teoria, ent\u00e3o a teoria deve ser reformulada.<\/p>\n\n\n<ol class=\"wp-block-footnotes\"><li id=\"49210fdb-71dc-4029-a2e1-1c87c0037a01\">Texto organizado por Roberto Fasano, em 2003, a partir de aula de An\u00edbal Silveira, proferida no curso de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Ci\u00eancias M\u00e9dicas da UNICAMP, no ano de 1971, sem refer\u00eancia de quem a compilou. Revisto em 26\/09\/22 por integrantes da Comiss\u00e3o de Revis\u00e3o do CEPAS: Flavio Vivacqua, Francisco Drumond de Moura, Paulo Palladini e Roberto Fasano. <a href=\"#49210fdb-71dc-4029-a2e1-1c87c0037a01-link\" aria-label=\"Aller \u00e0 la note de bas de page 1\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"024ed18d-3442-48bf-8dd7-fb80154a0a85\">An\u00edbal Silveira denominou esse grupo de Psicoses Diat\u00e9ticas, apontando para os fatores patog\u00eanicos exteriores na sua patog\u00eanese (di\u00e1tese\/tens\u00e3o). Aqui se coloca a linha divis\u00f3ria da Psiquiatria Biol\u00f3gica (dom\u00ednio da loucura como express\u00e3o individual) da Psiquiatria orientada pela patog\u00eanese (que leva em considera\u00e7\u00e3o, para al\u00e9m do cabedal gen\u00e9tico dos indiv\u00edduos, a dimens\u00e3o coletiva dos fatores patog\u00eanicos a que est\u00e3o submetidos: o contexto social e hist\u00f3rico nos quais est\u00e3o imersos, bem como com a sua vincula\u00e7\u00e3o com o mundo do trabalho e, no \u00e2mbito deste, com as condi\u00e7\u00f5es e seu processo de trabalho. <a href=\"#024ed18d-3442-48bf-8dd7-fb80154a0a85-link\" aria-label=\"Aller \u00e0 la note de bas de page 2\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><\/ol>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>APANHADO GERAL DAS CONDI\u00c7\u00d5ES M\u00d3RBIDAS Os aspectos cl\u00ednicos em Psiquiatria decorrem dos dinamismos psicopatol\u00f3gicos. Se n\u00e3o usarmos a psicopatologia, que subentende a patog\u00eanese, n\u00e3o se pode compreender claramente a divis\u00e3o dos v\u00e1rios quadros cl\u00ednicos em Psiquiatria: apenas a descri\u00e7\u00e3o do quadro em si n\u00e3o \u00e9 suficiente.\u00a0 Se considerarmos o fato de que todas as condi\u00e7\u00f5es [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"footnotes":"[{\"content\":\"Texto organizado por Roberto Fasano, em 2003, a partir de aula de An\u00edbal Silveira, proferida no curso de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Ci\u00eancias M\u00e9dicas da UNICAMP, no ano de 1971, sem refer\u00eancia de quem a compilou. 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Aqui se coloca a linha divis\u00f3ria da Psiquiatria Biol\u00f3gica (dom\u00ednio da loucura como express\u00e3o individual) da Psiquiatria orientada pela patog\u00eanese (que leva em considera\u00e7\u00e3o, para al\u00e9m do cabedal gen\u00e9tico dos indiv\u00edduos, a dimens\u00e3o coletiva dos fatores patog\u00eanicos a que est\u00e3o submetidos: o contexto social e hist\u00f3rico nos quais est\u00e3o imersos, bem como com a sua vincula\u00e7\u00e3o com o mundo do trabalho e, no \u00e2mbito deste, com as condi\u00e7\u00f5es e seu processo de trabalho.\",\"id\":\"024ed18d-3442-48bf-8dd7-fb80154a0a85\"}]"},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-2956","page","type-page","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/anibalsilveira.org\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/2956","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/anibalsilveira.org\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/anibalsilveira.org\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/anibalsilveira.org\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/anibalsilveira.org\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2956"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/anibalsilveira.org\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/2956\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3246,"href":"https:\/\/anibalsilveira.org\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/2956\/revisions\/3246"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/anibalsilveira.org\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2956"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/anibalsilveira.org\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2956"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/anibalsilveira.org\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2956"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}