{"id":2996,"date":"2024-07-18T18:09:37","date_gmt":"2024-07-18T21:09:37","guid":{"rendered":"https:\/\/anibalsilveira.org\/?page_id=2996"},"modified":"2024-07-18T18:09:37","modified_gmt":"2024-07-18T21:09:37","slug":"elementos-de-anamnese","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/anibalsilveira.org\/fr\/elementos-de-anamnese\/","title":{"rendered":"Elementos de anamnese"},"content":{"rendered":"<p class=\"has-text-align-center\"><strong>ELEMENTOS DE ANAMNESE<\/strong><sup data-fn=\"f7c057b2-305e-447b-b3da-2d213ccbcc4f\" class=\"fn\"><a href=\"#f7c057b2-305e-447b-b3da-2d213ccbcc4f\" id=\"f7c057b2-305e-447b-b3da-2d213ccbcc4f-link\">1<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p>A anamnese assume um papel fundamental como instrumento de investiga\u00e7\u00e3o da altera\u00e7\u00e3o m\u00f3rbida. Na Cl\u00ednica Geral a anamnese \u00e9 mais limitada, abrangendo especialmente os aspectos mais ligados \u00e0 ocorr\u00eancia de diferentes enfermidades no paciente e na sua fam\u00edlia. Trata-se, portanto, do estudo da evolu\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo sob o prisma cl\u00ednico (som\u00e1tico) e apenas, secundariamente, quanto \u00e0s condi\u00e7\u00f5es ambientais a que ele se acha sujeito.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>A \u00eanfase no ambiente ocorre apenas no caso de doen\u00e7a contagiosa ou de origem infecciosa e, nesse caso, \u00e9 antes o ambiente f\u00edsico o que se deve estudar.<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, o pr\u00f3prio exame cl\u00ednico j\u00e1 deveria impor a investiga\u00e7\u00e3o dos fatores psicol\u00f3gicos e sociais presentes na exist\u00eancia do paciente. A atua\u00e7\u00e3o do m\u00e9dico deve ser mais ampla e profunda do que uma mera investiga\u00e7\u00e3o de altera\u00e7\u00e3o org\u00e2nica atual para a ministra\u00e7\u00e3o dos medicamentos espec\u00edficos. A fun\u00e7\u00e3o do m\u00e9dico n\u00e3o se limita \u00e0 cura, mas tamb\u00e9m abrange a preven\u00e7\u00e3o e, em certa medida, tamb\u00e9m \u00e9 respons\u00e1vel pela reintegra\u00e7\u00e3o do paciente \u00e0 comunidade.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>A medicina moderna \u00e9 essencialmente preventiva e tem revelado cada vez mais interesse pelos componentes gen\u00e9ticos, pelos fatores emocionais e pelas condi\u00e7\u00f5es socioculturais presentes nos diferentes quadros m\u00f3rbidos. Em decorr\u00eancia, diversas Escolas M\u00e9dicas v\u00eam assinalando a relev\u00e2ncia da intera\u00e7\u00e3o m\u00e9dico-paciente.<\/p>\n\n\n\n<p>Quanto \u00e0 t\u00e9cnica utilizada para a realiza\u00e7\u00e3o da anamnese podemos levar em conta diversos aspectos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>ROTEIRO<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Devemos utilizar um roteiro pr\u00e9-estabelecido que abranja de modo suficiente as condi\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas e som\u00e1ticas do paciente. Deste modo, o valor do roteiro \u00e9 duplo: ao mesmo tempo que nos permite colher as informa\u00e7\u00f5es pertinentes \u00e0 compreens\u00e3o do quadro cl\u00ednico, e em particular, do indiv\u00edduo que o apresenta, ele imp\u00f5e uma sistematiza\u00e7\u00e3o nos dados obtidos de modo a possibilitar o confronto com casos an\u00e1logos facilitando assim a realiza\u00e7\u00e3o de pesquisas futuras.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>FLEXIBILIDADE DO ROTEIRO<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O contato com o paciente deve ser natural, e os informes dever\u00e3o ser colhidos segundo a ordem de import\u00e2ncia e de interesse atribu\u00eddos pelo paciente, e n\u00e3o pautado em um padr\u00e3o r\u00edgido de quest\u00f5es. A preocupa\u00e7\u00e3o central do entrevistado \u00e9 que dever\u00e1 nortear a sequ\u00eancia da entrevista. Embora baseados num roteiro, as quest\u00f5es dever\u00e3o ser levantadas de acordo com a sucess\u00e3o espont\u00e2nea dos coment\u00e1rios que surgirem durante o processo de intera\u00e7\u00e3o do m\u00e9dico com o examinando.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>PRECIS\u00c3O DOS INFORMES<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Devemos registrar os dados precisos e n\u00e3o as generalidades. Por exemplo, se um paciente refere convuls\u00f5es deve-se procurar saber como elas ocorrem, qual sua frequ\u00eancia, em que condi\u00e7\u00f5es se iniciaram etc., pois n\u00e3o devemos confundir epilepsia com convuls\u00f5es sintom\u00e1ticas. Caso mencione tentativa de suic\u00eddio (feita pelo pr\u00f3prio paciente ou por um parente) n\u00e3o basta anotar este informe. Devemos saber em que circunst\u00e2ncias ocorreu tal fato; se foi um ato impulsivo, s\u00fabito, ou se ocorreu a partir de uma dificuldade de ordem social ou econ\u00f4mica, ou ainda de uma rea\u00e7\u00e3o emocional de ang\u00fastia ou depress\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A men\u00e7\u00e3o de aborto necessita igualmente esclarecimento espec\u00edfico. Foi aborto espont\u00e2neo ou provocado? E, neste caso, como foi provocado? Frequentemente a paciente acredita ter provocado um aborto apenas por ter ingerido certas drogas ou medica\u00e7\u00f5es caseiras \u2013 seria, portanto, uma falha do m\u00e9dico admiti-lo como tal. E, com rela\u00e7\u00e3o a aborto, \u00e9 ainda indispens\u00e1vel o registro da \u00e9poca em que ocorreu. No caso de abortos sucessivos, verificar qual o intervalo ocorrido entre eles para que se possa distinguir se realmente se trata de gesta\u00e7\u00f5es independentes ou de uma gravidez simult\u00e2nea. Poderia, por exemplo, ser o caso de uma mulher com \u00fatero bic\u00f3rneo.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>A precis\u00e3o dos informes exige que o m\u00e9dico n\u00e3o apenas solicite discuss\u00f5es pormenorizadas sobre cada elemento fornecido pelo paciente como tamb\u00e9m que busque em outras fontes \u2013 amigos ou parentes do enfermo \u2013 dados mais completos e definidos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>REGISTRO DOS INFORMES<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Devemos transcrever literalmente os dados mencionados e n\u00e3o procurar dar uma interpreta\u00e7\u00e3o ou um \u201cr\u00f3tulo\u201d a priori ao dist\u00farbio.<\/p>\n\n\n\n<p>A tend\u00eancia natural do psiquiatra \u00e9 a de interpretar o que o paciente menciona e de transcrever um resumo pessoal da anamnese. Assim, se o paciente diz que em certa \u00e9poca de sua vida \u201couvia vozes\u201d, o psiquiatra frequentemente anota \u201calucina\u00e7\u00f5es auditivas\u201d, desconsiderando o modo como foi descrito o fen\u00f4meno e impossibilitando assim a distin\u00e7\u00e3o entre alucina\u00e7\u00e3o, automatismo mental ou ainda um dist\u00farbio moment\u00e2neo resultante de extrema fadiga ou de processo infeccioso.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>SISTEMATIZA\u00c7\u00c3O DOS DADOS<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s a anamnese, o examinador dever\u00e1 redigir os resultados segundo um desenvolvimento l\u00f3gico estruturado pelo roteiro. Deste modo poder\u00e1 chegar ao diagn\u00f3stico e adotar a conduta terap\u00eautica adequada.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Uma vez descrita a t\u00e9cnica de anamnese passaremos a comentar suas modalidades principais: a anamnese objetiva e anamnese subjetiva.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>ANAMNESE OBJETIVA<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Corresponde ao levantamento de dados sobre o paciente obtido de modo direto \u2013 atrav\u00e9s das informa\u00e7\u00f5es e observa\u00e7\u00f5es fornecidas por seus parentes ou amigos mais \u00edntimos \u2013 ou de modo indireto \u2013 atrav\u00e9s de refer\u00eancias feitas pelo pr\u00f3prio paciente sobre o que se passou com ele em diferentes \u00e9pocas de sua vida. No caso da anamnese objetiva indireta tomar em conta os fatos objetivos tais como: mudan\u00e7a de emprego, reprova\u00e7\u00e3o escolar, interna\u00e7\u00f5es em hospitais e n\u00e3o as interpreta\u00e7\u00f5es dadas pelo paciente de suas diversas experi\u00eancias. Evidentemente, a maior parte das informa\u00e7\u00f5es objetivas, isto \u00e9, independentes das interpreta\u00e7\u00f5es do paciente, s\u00e3o obtidas durante as entrevistas com a fam\u00edlia e, neste caso, o papel do Servi\u00e7o Social \u00e9 de grande import\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante a anamnese procuramos conhecer o comportamento do paciente nas v\u00e1rias fases de seu desenvolvimento, suas altera\u00e7\u00f5es de humor, sua capacidade de trabalho, seu n\u00edvel de escolaridade, as enfermidades que apresentou, seu comportamento habitual; s\u00e3o os dados retrospectivos da sua hist\u00f3ria cl\u00ednica. Al\u00e9m disso, podemos obter informa\u00e7\u00f5es sobre a organiza\u00e7\u00e3o de sua fam\u00edlia, a natureza de suas rela\u00e7\u00f5es pessoais, seu n\u00edvel socioecon\u00f4mico, o temperamento de seus membros, a ocorr\u00eancia de doen\u00e7as entre eles e, especialmente, o modo de encarar a doen\u00e7a do paciente e os problemas dela decorrentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o ao quadro cl\u00ednico atual obteremos dados sobre as altera\u00e7\u00f5es espec\u00edficas de comportamento reveladas pelo paciente. Frequentemente o paciente j\u00e1 apresentava anteriormente alguns sintomas tais como isolamento, agressividade ou nervosismo e que foram interpretados pelos familiares como \u201cesquisitices\u201d, ou cansa\u00e7o, mas n\u00e3o como altera\u00e7\u00f5es m\u00f3rbidas. Apenas com o aparecimento dos del\u00edrios ou de alucina\u00e7\u00f5es \u00e9 que ent\u00e3o os indiv\u00edduos que convivem com o paciente passaram a consider\u00e1-lo como doente mental.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>ANAMNESE SUBJETIVA<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 realizada com o pr\u00f3prio paciente, procurando apreciar o conte\u00fado de suas experi\u00eancias e a maneira como ele as interpreta.<\/p>\n\n\n\n<p>V\u00e1rios aspectos s\u00e3o considerados na anamnese subjetiva.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>ANTECEDENTES HEREDOL\u00d3GICOS\u00a0<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Embora inclu\u00eddos na anamnese subjetiva dever\u00e3o ser pesquisados tamb\u00e9m com os membros da fam\u00edlia que poder\u00e3o fornecer dados mais precisos sobre a quest\u00e3o. O levantamento desta informa\u00e7\u00e3o \u00e9 fundamental para o diagn\u00f3stico do quadro cl\u00ednico, e para a aprecia\u00e7\u00e3o do colorido particular que ele apresenta em cada caso.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma regra que nos parece essencial consiste em tomarmos o nome de cada um dos parentes, assim como os seus dados pessoais \u2013 idade, sexo, estado civil, profiss\u00e3o \u2013 de modo a fazer convergir a aten\u00e7\u00e3o do informante sobre esta pessoa em particular. Caso contr\u00e1rio, isto \u00e9, se apenas formularmos quest\u00f5es gen\u00e9ricas tais como: \u201cQuais as doen\u00e7as que se apresentaram em sua fam\u00edlia?\u201d; ou, \u201cH\u00e1 algum caso de epilepsia, doen\u00e7as mentais ou alcoolismo na fam\u00edlia?\u201d O informante n\u00e3o poder\u00e1 lembrar-se com precis\u00e3o e tender\u00e1 a negar ou apenas a mencionar os casos mais extremos ou alarmantes.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Iniciamos o estudo heredol\u00f3gico fazendo indaga\u00e7\u00f5es sobre a fam\u00edlia estrita do paciente. Em primeiro lugar perguntamos sobre os irm\u00e3os. Ent\u00e3o pedimos o nome do irm\u00e3o mais velho, assim como os seus dados pessoais, as altera\u00e7\u00f5es som\u00e1ticas ou cl\u00ednicas que tenha apresentado, as caracter\u00edsticas de seu temperamento. Tais indaga\u00e7\u00f5es dever\u00e3o prosseguir em rela\u00e7\u00e3o aos demais irm\u00e3os, em ordem de nascimento, assim como o esclarecimento da exist\u00eancia, ou n\u00e3o, de g\u00eameos \u2013 univitelinos ou bivitelinos. Solicitamos ainda que o paciente (ou informante) mencione os irm\u00e3os falecidos \u2013 nome, ordem do nascimento em rela\u00e7\u00e3o aos demais, idade em que morreu e a causa (ou a que foi atribu\u00edda).<\/p>\n\n\n\n<p>Outra informa\u00e7\u00e3o importante \u00e9 a relativa \u00e0 ocorr\u00eancia de um segundo casamento e a exist\u00eancia de meio-irm\u00e3o. Nesse caso precisamos distinguir se se trata ou n\u00e3o de irm\u00e3o consangu\u00edneo, isto \u00e9, filho do mesmo pai e de m\u00e3es diferentes. Tal distin\u00e7\u00e3o \u00e9 importante em gen\u00e9tica porque se, por exemplo, o paciente menciona que o seu meio-irm\u00e3o teve uma doen\u00e7a mental haver\u00e1 maior rela\u00e7\u00e3o se os dois forem uterinos do que se forem consangu\u00edneos. Sabemos que muitos tra\u00e7os s\u00e3o transmitidos geneticamente atrav\u00e9s da m\u00e3e; s\u00e3o os tra\u00e7os ligados aos cromossomos sexuais. Entre a s\u00e9rie de irm\u00e3os, vivos e mortos, precisamos tamb\u00e9m saber se houve algum caso de aborto ou natimorto. \u00c0s vezes precisamos esclarecer que por \u201cirm\u00e3os\u201d, queremos dizer irm\u00e3os e irm\u00e3s.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, tamb\u00e9m \u00e9 necess\u00e1rio conhecermos os termos utilizados por indiv\u00edduos de cada n\u00edvel social. Por exemplo, a que ele se refere quando menciona que um dos irm\u00e3os teve \u201cdoen\u00e7a do semioto\u201d ou \u201cdoen\u00e7a do macaco\u201d (desidrata\u00e7\u00e3o). Este aspecto envolve o problema de comunica\u00e7\u00e3o estabelecido entre paciente e m\u00e9dico.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s a tomada dos dados relativos aos irm\u00e3os \u2013 linha colateral direta \u2013 passaremos \u00e0s perguntas sobre os pais do paciente \u2013 linha ascendente direta \u2013 e, ent\u00e3o, as mesmas informa\u00e7\u00f5es dever\u00e3o ser obtidas, al\u00e9m de verificarmos se existe algum outro tipo de parentesco entre seus genitores. E, quando for o caso, usaremos o mesmo procedimento para os filhos do paciente \u2013 linha descendente direta. A seguir, passaremos aos av\u00f3s do paciente &#8211; linha ascendente direta, mas afastada &#8211; se vivos, sua condi\u00e7\u00e3o de sa\u00fade, tra\u00e7os de personalidade mais evidentes, partos gemelares, abortos, se mortos, a causa da morte etc. E, finalmente, deveremos levantar dados an\u00e1logos sobre seus ascendentes colaterais \u2013 tios e tias de linhas paterna e materna; sobre colaterais indiretos \u2013 primos e primas de ambas as linhagens e os descendentes indiretos \u2013 sobrinhos e sobrinhas, filhos dos tios paternos e maternos.<\/p>\n\n\n\n<p>Desta forma teremos colhido um conjunto de tra\u00e7os de personalidade, de caracter\u00edsticas f\u00edsicas, de condi\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas, de desajustamentos emocionais (suic\u00eddio, homic\u00eddio, rea\u00e7\u00f5es neur\u00f3ticas), peculiares \u00e0 fam\u00edlia do paciente.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Poderemos tamb\u00e9m notar que muitos destes tra\u00e7os aparecem de modo acentuado e n\u00edtido no paciente e com diferentes graus de atenua\u00e7\u00e3o na fam\u00edlia. \u00c0s vezes ocorre uma mesma tend\u00eancia nos dois ramos, paterno e materno, e assim conjugados resultam num determinado quadro cl\u00ednico com colorido espec\u00edfico no paciente em quest\u00e3o.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Pela descri\u00e7\u00e3o das altera\u00e7\u00f5es mentais de alguns dos parentes do paciente podemos ter uma no\u00e7\u00e3o mais ou menos precisa da natureza progressiva, peri\u00f3dica ou meramente reativa do quadro cl\u00ednico mencionado.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, \u00e9 importante verificar a \u00e9poca em que ocorreram as diferentes manifesta\u00e7\u00f5es m\u00f3rbidas mais caracter\u00edsticas da fam\u00edlia. Tal aspecto \u00e9 indispens\u00e1vel para que possamos fazer a chamada \u201ccorre\u00e7\u00e3o de idade\u201d nos casos para fins estat\u00edsticos. Assim, poderemos saber quais dos parentes ter\u00e3o, antes da \u00e9poca em que se poderia manifestar, uma determinada doen\u00e7a, ou ainda quais ser\u00e3o muito jovens para a manifesta\u00e7\u00e3o da condi\u00e7\u00e3o m\u00f3rbida estudada.<\/p>\n\n\n\n<p>Como j\u00e1 dissemos, torna-se indispens\u00e1vel solicitar para entrevista pessoas, em geral parentes, capazes de esclarecer determinadas informa\u00e7\u00f5es sobre os dados heredol\u00f3gicos fornecidos pelo paciente. N\u00e3o nos parece adequada a simples exclus\u00e3o dos casos \u201cn\u00e3o esclarecidos suficientemente\u201d ou, o que seria mais grave, a sua inclus\u00e3o entre os parentes \u201csem altera\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas mais graves\u201d. Portanto, no caso de informa\u00e7\u00f5es insuficientes devemos recorrer ao Servi\u00e7o Social para a localiza\u00e7\u00e3o e a convoca\u00e7\u00e3o de informante adequado.<\/p>\n\n\n\n<p>Considerando que o crit\u00e9rio heredol\u00f3gico \u00e9 aspecto fundamental nesta linha psiqui\u00e1trica que propomos, deveremos levantar exaustivamente os dados na anamnese.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>ANTECEDENTES PESSOAIS<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Os antecedentes pessoais do paciente dever\u00e3o ser investigados atrav\u00e9s dos dados fornecidos durante a anamnese subjetiva para posteriormente serem confrontados com as informa\u00e7\u00f5es colhidas na anamnese objetiva.<\/p>\n\n\n\n<p>Em linhas gerais, o que pretendemos neste ponto da anamnese \u00e9 o conhecimento da hist\u00f3ria do desenvolvimento do indiv\u00edduo e mais especificamente as caracter\u00edsticas de sua personalidade pr\u00e9-m\u00f3rbida.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, sempre que poss\u00edvel, ao estabelecer a posi\u00e7\u00e3o do paciente entre os irm\u00e3os devemos indagar as condi\u00e7\u00f5es de nascimento (normal, a termo, operat\u00f3rio, ocorr\u00eancia de trauma, anoxia). Em seguida, o desenvolvimento neuropsicomotor (quando sustentou a cabe\u00e7a, quando se virou sozinho, quando se sentou e andou, controle de esf\u00edncteres) e quais as condi\u00e7\u00f5es de aleitamento e alimenta\u00e7\u00e3o. Se apresentou ou ainda apresenta altera\u00e7\u00f5es do sono (sonambulismo, sono agitado, ranger de dentes, sonil\u00f3quios, pavor noturno). Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 hist\u00f3ria cl\u00ednica: mol\u00e9stias que sofreu, se houve complica\u00e7\u00f5es, os acidentes, traumas cranianos, cirurgias. Quanto ao ajustamento psicossocial: como estabeleceu as primeiras rela\u00e7\u00f5es interpessoais, o tipo de relacionamento que manteve no lar, sua vida escolar (conflitos com colegas ou professores, dificuldades no aprendizado, falta de interesse ou motiva\u00e7\u00e3o), suas atividades profissionais (n\u00edvel de ajustamento, rendimento e estabilidade em seus empregos), suas cren\u00e7as religiosas (misticismo, supersti\u00e7\u00e3o, natureza de suas concep\u00e7\u00f5es sobre o sobrenatural), crises econ\u00f4micas na fam\u00edlia, mudan\u00e7as de cidade ou de casa. E, fundamentalmente, suas rea\u00e7\u00f5es emocionais durante o curso de seu desenvolvimento: tipo de adapta\u00e7\u00e3o \u00e0s circunst\u00e2ncias diversas, comportamento sexual, h\u00e1bitos, tra\u00e7os de personalidade, hist\u00f3ria conjugal, se for o caso, natureza dos conflitos interpessoais e modo de reagir a eles (ansiedade, medo, inseguran\u00e7a, fobias, rea\u00e7\u00f5es depressivas, apatia, instabilidade de humor, impulsividade, timidez, submiss\u00e3o, sugestionabilidade, entusiasmo, autoconfian\u00e7a, autonomia), projetos futuros. Finalmente, assinalar as mudan\u00e7as que ocorreram em seu comportamento. Por exemplo: sempre foi uma crian\u00e7a dif\u00edcil e submissa, mas, subitamente, come\u00e7ou a manifestar agressividade ou exibicionismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Devemos, ent\u00e3o, distinguir a intensidade da interfer\u00eancia dos fatores emocionais, quer sejam intr\u00ednsecos ao temperamento do indiv\u00edduo, quer sejam resultantes predominantemente de conting\u00eancias externas, ambientais. O estudo dos conflitos emocionais exige o conhecimento de sua origem e de sua evolu\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o o simples registro de sua presen\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>HIST\u00d3RIA DA MOL\u00c9STIA ATUAL<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Verificar quando surgiram os primeiros sintomas. Se for o caso, os antecedentes imediatos e remotos do quadro atual. De que modo o paciente percebeu as altera\u00e7\u00f5es em seu comportamento e sentimentos. Como reagiu a estas altera\u00e7\u00f5es. Quais a explica\u00e7\u00f5es que procura dar aos sintomas apresentados: se reconhece seu estado m\u00f3rbido, se dissimula as altera\u00e7\u00f5es mais graves, se busca explica\u00e7\u00f5es \u201csobrenaturais\u201d (esp\u00edritos, supersti\u00e7\u00f5es) ou poderes extrassensoriais (telepatia, premoni\u00e7\u00e3o).<\/p>\n\n\n\n<p>Pesquisar se anteriormente apresentou manifesta\u00e7\u00f5es an\u00e1logas e quais os tratamentos a que foi submetido, sua natureza e efeitos. Ressaltar os fatores ambienciais que eventualmente tenham representado um papel no desencadeamento da mol\u00e9stia, ou na sua patoplastia. Finalmente, com o aux\u00edlio da enfermagem e da Terapia Ocupacional indagar sobre seu comportamento no ambiente atual.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>CONFRONTO DOS DADOS DAS ANAMNESES OBJETIVA E SUBJETIVA<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Devemos confrontar os dados obtidos nas duas modalidades da anamnese uma vez que a ocorr\u00eancia de discord\u00e2ncia acentuada entre elas j\u00e1 poder\u00e1 ser um ind\u00edcio importante da situa\u00e7\u00e3o patol\u00f3gica.<\/p>\n\n\n\n<p>O estudo comparativo de dados nos permitir\u00e1 o esclarecimento do diagn\u00f3stico, ou a solicita\u00e7\u00e3o dos exames subsidi\u00e1rios espec\u00edficos ao caso. E, quando poss\u00edvel, fornecer\u00e1 meios para a corre\u00e7\u00e3o de conflitos no ambiente familiar, o que exige o conhecimento preciso de temperamentos, do modo de ser caracter\u00edstico da fam\u00edlia, de suas dificuldades econ\u00f4micas. N\u00e3o podemos evitar uma doen\u00e7a, mas at\u00e9 certo ponto podemos evitar desajustamentos na constela\u00e7\u00e3o familiar. Assim, do ponto de vista preventivo, deveremos solicitar para exame ps\u00edquico a presen\u00e7a dos parentes do paciente, que, pelas informa\u00e7\u00f5es obtidas, j\u00e1 apresentaram dist\u00farbios emocionais, embora de natureza menos acentuada que a do paciente.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>CONCLUS\u00c3O<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em suma, as finalidades da anamnese em geral, e da anamnese psiqui\u00e1trica em particular, s\u00e3o as seguintes:<\/p>\n\n\n\n<ol class=\"wp-block-list\">\n<li>Defini\u00e7\u00e3o precisa do diagn\u00f3stico \u2013 n\u00edvel de interfer\u00eancia da carga gen\u00e9tica e das condi\u00e7\u00f5es ambientais.<\/li>\n\n\n\n<li>Solicita\u00e7\u00e3o de exames subsidi\u00e1rios neurol\u00f3gicos, bioqu\u00edmicos e psicol\u00f3gicos.<\/li>\n\n\n\n<li>Preven\u00e7\u00e3o de desajustamentos e de dist\u00farbios latentes, especialmente aqueles que apresentar\u00e3o consequ\u00eancias mais graves (tais como suic\u00eddio ou homic\u00eddio) tanto no paciente como em outros membros da sua fam\u00edlia.<\/li>\n\n\n\n<li>Reintegra\u00e7\u00e3o do paciente \u00e0 comunidade \u2013 auxiliado pela t\u00e9cnica psicol\u00f3gica de orienta\u00e7\u00e3o familiar ou de psicologia com o paciente e pelas provid\u00eancias de ordem econ\u00f4mica e social a serem tomadas pelo Servi\u00e7o Social.<\/li>\n<\/ol>\n\n\n\n<p><strong>ESBO\u00c7O<\/strong><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"984\" height=\"855\" src=\"https:\/\/anibalsilveira.org\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/2024-07-18.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-2997\" srcset=\"https:\/\/anibalsilveira.org\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/2024-07-18.png 984w, https:\/\/anibalsilveira.org\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/2024-07-18-300x261.png 300w, https:\/\/anibalsilveira.org\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/2024-07-18-768x667.png 768w, https:\/\/anibalsilveira.org\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/2024-07-18-14x12.png 14w\" sizes=\"auto, (max-width: 984px) 100vw, 984px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n<ol class=\"wp-block-footnotes\"><li id=\"f7c057b2-305e-447b-b3da-2d213ccbcc4f\">Texto organizado por Roberto Fasano, em 2003, a partir de aula proferida por An\u00edbal Silveira, sem refer\u00eancia a data e lugar e de quem a compilou. O texto foi utilizado como roteiro na Resid\u00eancia M\u00e9dica em Psiquiatria no Complexo Hospitalar de Juquery e na Faculdade de Medicina de Jundia\u00ed, durante a d\u00e9cada de setenta. Revisto em 19\/02\/22 por integrantes da Comiss\u00e3o de Revis\u00e3o do CEPAS: Flavio Vivacqua, Francisco Drumond de Moura, Paulo Palladini e Roberto Fasano. <a href=\"#f7c057b2-305e-447b-b3da-2d213ccbcc4f-link\" aria-label=\"Aller \u00e0 la note de bas de page 1\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><\/ol>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ELEMENTOS DE ANAMNESE A anamnese assume um papel fundamental como instrumento de investiga\u00e7\u00e3o da altera\u00e7\u00e3o m\u00f3rbida. Na Cl\u00ednica Geral a anamnese \u00e9 mais limitada, abrangendo especialmente os aspectos mais ligados \u00e0 ocorr\u00eancia de diferentes enfermidades no paciente e na sua fam\u00edlia. Trata-se, portanto, do estudo da evolu\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo sob o prisma cl\u00ednico (som\u00e1tico) e [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"footnotes":"[{\"content\":\"Texto organizado por Roberto Fasano, em 2003, a partir de aula proferida por An\u00edbal Silveira, sem refer\u00eancia a data e lugar e de quem a compilou. O texto foi utilizado como roteiro na Resid\u00eancia M\u00e9dica em Psiquiatria no Complexo Hospitalar de Juquery e na Faculdade de Medicina de Jundia\u00ed, durante a d\u00e9cada de setenta. 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