{"id":3235,"date":"2024-09-06T17:35:47","date_gmt":"2024-09-06T20:35:47","guid":{"rendered":"https:\/\/anibalsilveira.org\/?page_id=3235"},"modified":"2024-09-06T17:37:00","modified_gmt":"2024-09-06T20:37:00","slug":"concepcao-atual-da-psiquiatria-2","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/anibalsilveira.org\/fr\/concepcao-atual-da-psiquiatria-2\/","title":{"rendered":"Concep\u00e7\u00e3o atual da Psiquiatria"},"content":{"rendered":"<p class=\"has-text-align-center\"><strong>CONCEP\u00c7\u00c3O ATUAL DA PSIQUIATRIA<\/strong><sup data-fn=\"b86ed532-eb3c-4545-a11c-d794d961d056\" class=\"fn\"><a href=\"#b86ed532-eb3c-4545-a11c-d794d961d056\" id=\"b86ed532-eb3c-4545-a11c-d794d961d056-link\">1<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p>Vamos referir em tra\u00e7os gerais a concep\u00e7\u00e3o atual da Psiquiatria e o conjunto de disciplinas que constituem a Psiquiatria. A Psiquiatria n\u00e3o pode ser considerada como uma especialidade. \u00c9 uma maneira de encarar os problemas mentais que envolve conhecimentos de ordem psicol\u00f3gica, psicogen\u00e9tica, psicofisiol\u00f3gica e envolve conhecimentos da din\u00e2mica que imp\u00f5e a aplica\u00e7\u00e3o desses conhecimentos para o diagn\u00f3stico do paciente. Finalmente, significa uma corrente terap\u00eautica que visa essencialmente o reajustamento do paciente e a sua reintegra\u00e7\u00e3o na comunidade, bem como um aspecto de ordem preventiva procurando, o tanto quanto poss\u00edvel, prevenir que os dist\u00farbios mentais surjam.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o s\u00e3o apenas os dist\u00farbios mentais decorrentes de problemas t\u00f3xico infecciosos que podem ser prevenidos. H\u00e1 uma s\u00e9rie de circunst\u00e2ncias que fazem com que irrompam em quadros mentais, mesmo graves, que podem ser prevenidos, mas s\u00f3 ser\u00e3o pass\u00edveis de preven\u00e7\u00e3o, se o m\u00e9dico estiver orientado para os v\u00e1rios dinamismos, normais e patol\u00f3gicos, que possam constituir o quadro cl\u00ednico.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Por exemplo, um paciente que \u00e9 sujeito a convuls\u00f5es e que tem per\u00edodos de aus\u00eancia. Frequentemente, pode apresentar estado crepuscular como consequ\u00eancia de convuls\u00f5es. Outras vezes, o estado crepuscular aparece como aut\u00f4nomo, sem nenhuma rela\u00e7\u00e3o com a crise convulsiva. E nesse estado o paciente pode ter comportamentos grav\u00edssimos. Temos visto casos de homic\u00eddios, \u00e0s vezes coletivos, sendo v\u00e1rias pessoas atingidas por um indiv\u00edduo em estado crepuscular. Se esse paciente for tratado convenientemente, se pudermos orientar a terap\u00eautica no sentido de evitar o estado crepuscular, \u00e9 poss\u00edvel evitar acidentes graves dessa ordem. N\u00e3o se pode evitar que ele tenha uma psicose, mas pode-se evitar um quadro cl\u00ednico mais grave. Isso pode ser observado nos notici\u00e1rios dos jornais: uma pessoa que tem comportamento \u00edntegro e, de repente, tem uma atitude discordante com aquilo que se conhece a seu respeito. Essa finalidade preventiva seria uma finalidade preventiva imediata.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Mas h\u00e1 outro aspecto, mais geral, que \u00e9 chamada de preven\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica, que s\u00f3 pode ser estabelecida atrav\u00e9s do aconselhamento gen\u00e9tico. Para isso \u00e9 necess\u00e1rio que haja uma articula\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os p\u00fablicos, porque isso n\u00e3o \u00e9 fun\u00e7\u00e3o de consult\u00f3rio particular: \u00e9 fun\u00e7\u00e3o de sanitarista.<\/p>\n\n\n\n<p>O aconselhamento gen\u00e9tico deve ser feito no sentido de evitar um quadro psic\u00f3tico end\u00f3geno. Por conseguinte, o fato de se falar num quadro end\u00f3geno, n\u00e3o implica que este quadro seja irremov\u00edvel. A maneira pessimista de encarar isso \u00e9 comum n\u00e3o s\u00f3 entre leigos, mas tamb\u00e9m entre muitos m\u00e9dicos, que procuram convencer-se e assegurar ao paciente de que o quadro psiqui\u00e1trico n\u00e3o \u00e9 heredit\u00e1rio.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>O psiquiatra n\u00e3o \u00e9 apenas o que faz diagn\u00f3stico e trata do paciente, a sua fun\u00e7\u00e3o principal \u00e9 para o aconselhamento correto e, para isso, \u00e9 preciso conhecer a psicopatologia, que n\u00e3o seja fundamentada apenas na descri\u00e7\u00e3o do quadro cl\u00ednico.<\/p>\n\n\n\n<p>A nossa maneira particular de encarar a psicopatologia d\u00e1 a esse termo a acep\u00e7\u00e3o de dinamismos psicol\u00f3gicos anormais, que se entendem como g\u00eanese dos sintomas e do quadro cl\u00ednico em si mesmo. Essa distin\u00e7\u00e3o nos parece muito importante porque um mesmo quadro cl\u00ednico pode apresentar caracteres sintomatol\u00f3gicos inteiramente diversos, ou ent\u00e3o, quadros cl\u00ednicos inteiramente distintos podem ter express\u00e3o cl\u00ednica id\u00eantica. Se n\u00e3o compreendermos isto, n\u00e3o podemos fazer diagn\u00f3stico correto. E o diagn\u00f3stico n\u00e3o \u00e9 um r\u00f3tulo, mas um resumo dos conceitos que o psiquiatra faz em rela\u00e7\u00e3o ao paciente, quanto ao fator desencadeante, quanto \u00e0 configura\u00e7\u00e3o e quanto ao progn\u00f3stico do quadro cl\u00ednico e, naturalmente, quanto \u00e0 orienta\u00e7\u00e3o terap\u00eautica que depende desse conjunto de conhecimentos.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>A psiquiatria, portanto, tem de se basear numa por\u00e7\u00e3o de disciplinas, n\u00e3o pode ser considerada como uma especialidade. O psiquiatra tem uma s\u00e9rie de fun\u00e7\u00f5es que decorrem uma das outras, n\u00e3o pode ser psicoterapeuta se n\u00e3o conhecer o dinamismo psicol\u00f3gico normal, e se n\u00e3o for psicoterapeuta, for apenas psiquiatra cl\u00ednico ele n\u00e3o est\u00e1 preenchendo todas as suas fun\u00e7\u00f5es. A neurologia faz parte da psiquiatria. O exame psicol\u00f3gico n\u00e3o \u00e9 um exame complementar, faz parte do exame psiqui\u00e1trico, aprofunda aspectos que o psiquiatra n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es de investigar.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando estudarmos a semiologia veremos as diferen\u00e7as entre exame ps\u00edquico, exame psicol\u00f3gico e exame psiqui\u00e1trico. A maioria das dificuldades que aparecem reside neste fato da necessidade de se apreciar os fen\u00f4menos sob v\u00e1rios prismas diferentes, e isto \u00e9 fun\u00e7\u00e3o da cl\u00ednica.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>A psiquiatria, como a compreendemos hoje, decorre de uma s\u00e9rie de aspectos de ordem filos\u00f3fica, de ordem cl\u00ednica geral e que se constituem como especialidade desde o s\u00e9culo passado. At\u00e9 o s\u00e9culo passado as condi\u00e7\u00f5es mentais m\u00f3rbidas eram consideradas como se fossem independentes da personalidade, era o quadro da doen\u00e7a que se estabelecia como se fosse um aspecto novo no indiv\u00edduo, que o tornava alheio \u00e0 popula\u00e7\u00e3o m\u00e9dia e \u00e0 vida comunit\u00e1ria, da\u00ed o nome de aliena\u00e7\u00e3o. Mas, na realidade, os primeiros tratadistas que foram os autores hipocr\u00e1ticos, e mais tarde Arist\u00f3teles, j\u00e1 previam esse entrela\u00e7amento de n\u00edveis de personalidade. Como dizia Hip\u00f3crates, na natureza humana tudo converge, tudo consente e tudo conspira, e n\u00e3o h\u00e1 um elemento \u00fanico que possa estar perturbado sem que os outros tamb\u00e9m n\u00e3o estejam. Isso hoje em dia \u00e9 o que \u00e9 ultramoderno na psicologia. Entretanto, isto vem de quatro s\u00e9culos antes de Cristo. Arist\u00f3teles endossou esse ponto de vista e deu contribui\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias ao estudo da personalidade. Por exemplo, observou que o indiv\u00edduo sujeito ao Mal Sagrado (Epilepsia) e que contra\u00eda a Quart\u00e3 (Mal\u00e1ria), ficava livre das convuls\u00f5es: o que corresponde \u00e0 malarioterapia. Mais tarde prevaleceram as ideias filos\u00f3ficas de Kant e de Leibniz, dentre outros, sobre a mente. Mas esses pensadores s\u00f3 consideraram os dinamismos mentais normais e n\u00e3o os patol\u00f3gicos. Os patol\u00f3gicos seriam uma discord\u00e2ncia completa dos normais. Esses pensadores focalizaram n\u00e3o a personalidade integral, mas a maneira como essa personalidade entra em contato com o mundo exterior.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Com o advento da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa houve uma modifica\u00e7\u00e3o completa na maneira de conceber as rela\u00e7\u00f5es interpessoais. Foi quando Pinel estabeleceu a concep\u00e7\u00e3o atual da Psiquiatria. Pinel tentou classificar as doen\u00e7as mentais em v\u00e1rios quadros, mas procurou dar a esses quadros uma compreens\u00e3o natural\u00edstica. N\u00e3o filiou diretamente as doen\u00e7as mentais como express\u00e3o do c\u00e9rebro, mas procurou dar uma compreens\u00e3o dos v\u00e1rios quadros m\u00f3rbidos: os que evolu\u00edam para o estado demencial, as formas chamadas ves\u00e2nicas e outras que evolu\u00edam para a remiss\u00e3o, a idiotia tempor\u00e1ria, como se dizia naquela \u00e9poca.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Pouco mais tarde, Gall relacionou todas as anormalidades e os atributos normais ao c\u00e9rebro. Gall revolucionou completamente a concep\u00e7\u00e3o da psiquiatria e foi extremamente combatido por isto. Foi considerado antirreligioso. Gall protestou contra isso afirmando que n\u00e3o podia ser considerado um ateu, j\u00e1 que tinha proposto uma sede cerebral para o instinto religioso. O m\u00e9rito de Gall foi o de mostrar que todas as fun\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas dependem do c\u00e9rebro, mas n\u00e3o do c\u00e9rebro como um todo, mas de por\u00e7\u00f5es do c\u00e9rebro que funcionam em conjunto. O que se diz de Gall em geral \u00e9 inteiramente falso.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Ele estabeleceu exatamente isto: naquela \u00e9poca os grandes pensadores admitiam as fun\u00e7\u00f5es cerebrais como sendo as intelectuais, mas as v\u00edsceras e o cora\u00e7\u00e3o sediavam a coragem e a afetividade, mas Gall anunciou que tamb\u00e9m as fun\u00e7\u00f5es afetivas decorriam do funcionamento cerebral. Gall criou a frenologia que foi posteriormente deturpada pelos seguidores, mas que trouxe a concep\u00e7\u00e3o fundamental de que todas as fun\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas decorrem do c\u00e9rebro. Naturalmente, considerou como fun\u00e7\u00f5es cerebrais tanto as normais, quanto as patol\u00f3gicas. Broussais, alertado por Comte que chamou sua aten\u00e7\u00e3o para a frenologia, escreveu um tratado sobre a irrita\u00e7\u00e3o e a loucura. Ele atribu\u00eda a loucura a perturba\u00e7\u00f5es gerais, especialmente do intestino e criou o m\u00e9todo da sangria para aliviar os humores. Comte fez uma an\u00e1lise da obra de Broussais e nesta an\u00e1lise, Comte usou a sua pr\u00f3pria experi\u00eancia. Teve uma perturba\u00e7\u00e3o mental, tipo autot\u00f3xica e esteve internado no sanat\u00f3rio de Esquirol, onde ficou meses sem melhora. Mais tarde saiu e obteve recupera\u00e7\u00e3o plena e verificou que as leis que ele tinha estabelecido, como leis normais da mente humana foram cedendo, passo a passo, \u00e0 medida em que ele ia entrando num estado de loucura. \u00c0 medida que retornou \u00e0 normalidade recuperou todas as fun\u00e7\u00f5es. Fez a cr\u00edtica do seu surto mental e chamou a aten\u00e7\u00e3o de Broussais para a import\u00e2ncia da obra de Gall. Broussais procurou dar uma concep\u00e7\u00e3o etiol\u00f3gica das doen\u00e7as mentais, t\u00e3o geral quanto poss\u00edvel. Mais tarde outros autores mostraram a rela\u00e7\u00e3o entre o estado cerebral e as fun\u00e7\u00f5es m\u00f3rbidas ps\u00edquicas. Entre eles, Baillager estudou uma s\u00e9rie de doen\u00e7as mentais retificando em parte as concep\u00e7\u00f5es de Pinel e em parte as de Esquirol que foram intermedi\u00e1rias entre as de Pinel e Baillager.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Depois, Griesinger dava uma concep\u00e7\u00e3o geral das doen\u00e7as mentais especialmente as formas confusionais. Mais tarde, retomando a rela\u00e7\u00e3o entre a mente e o c\u00e9rebro, Broca descreveu o c\u00e9lebre caso de afasia motora num paciente que tinha les\u00e3o cerebral, verificando a sede dessa les\u00e3o, em um local previsto por Baillager. Bouillet<strong> <\/strong>mostrou que a correla\u00e7\u00e3o entre o centro da linguagem de Gall correspondia ao centro da linguagem que era lesado no caso de afasia de Broca.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Mas ainda nessa \u00e9poca todas as doen\u00e7as mentais eram muito pouco compreendidas. As duas tentativas de classifica\u00e7\u00e3o foram, principalmente, a de Pinel e a de Esquirol, que procuraram estabelecer g\u00eanero e classe como se fazia na sistem\u00e1tica geral da Hist\u00f3ria Natural. <a href=\"https:\/\/anibalsilveira.org\/valentin-magnan\/\" data-type=\"page\" data-id=\"3219\"><strong>Valentin Magnan<\/strong><\/a> que faleceu em 1916, influenciado pelas ideias da \u00e9poca de degenera\u00e7\u00e3o mostrou que alguns dos pacientes descritos por Esquirol, e antes por Pinel, eram pacientes que n\u00e3o eram idiotas, mas tinham uma doen\u00e7a mental que chamou de estupidez, caracterizando o estupor que conhecemos hoje. E isto j\u00e1 foi um elemento para diagn\u00f3stico diferencial entre a idiotia, a depress\u00e3o, as dem\u00eancias e esse quadro agudo estuporoso descrito por outros autores, <a href=\"https:\/\/anibalsilveira.org\/theodor-hermann-meynert\/\" data-type=\"page\" data-id=\"3210\"><strong>Meynert<\/strong><\/a> principalmente. Jackson (1835-1911) estabeleceu aquela teoria dos n\u00edveis de funcionamento cerebral, teoria que decorre indiretamente de Herbert Spencer e indiretamente de Comte. Eram os n\u00edveis de dissolu\u00e7\u00e3o e de integra\u00e7\u00e3o. Fez uma interpreta\u00e7\u00e3o din\u00e2mica das fun\u00e7\u00f5es mentais, classificando n\u00e3o somente quanto \u00e0 patogenia, mas quanto \u00e0 din\u00e2mica cerebral. No fim do s\u00e9culo XIX come\u00e7ou-se a fazer uma sistematiza\u00e7\u00e3o dos conhecimentos da psiquiatria. Na Alemanha, <a href=\"https:\/\/anibalsilveira.org\/carl-wernicke\/\" data-type=\"page\" data-id=\"3095\"><strong>Wernicke<\/strong><\/a> e Kraepelin trabalharam no campo da psicopatologia ao lado de <strong><a href=\"https:\/\/anibalsilveira.org\/theodor-hermann-meynert\/\" data-type=\"page\" data-id=\"3210\">Meynert<\/a> <\/strong>e outros psiquiatras, que como todos os psiquiatras daquela \u00e9poca, tinham conhecimentos profundos de anatomia patol\u00f3gica, da din\u00e2mica cerebral, praticavam o hipnotismo e procuravam filiar os dist\u00farbios mentais a quadros bem definidos. Naquela \u00e9poca surgiu a sistematiza\u00e7\u00e3o principal, que foi a de Kraepelin, classificando os quadros cl\u00ednicos em end\u00f3genos e quadros resultantes de efeitos t\u00f3xicos: da\u00ed o termo psicose end\u00f3gena e ex\u00f3gena.<\/p>\n\n\n\n<p>Os autores de hoje, que n\u00e3o aceitam Kraepelin, n\u00e3o aceitam porque surgiram dados novos na psiquiatria. Kraepelin deu um sentido progn\u00f3stico \u00e0 sua classifica\u00e7\u00e3o. A psicose end\u00f3gena tende ao estado demencial, salvo no caso da psicose man\u00edaco depressiva que seria uma psicose end\u00f3gena constitucional revers\u00edvel e peri\u00f3dica. Entre as psicoses end\u00f3genas estabeleceu dois tipos fundamentais: as que tinham uma remiss\u00e3o completa e as que levavam a um estado demencial. Havia na classifica\u00e7\u00e3o de Kraepelin uma simplifica\u00e7\u00e3o e ao mesmo tempo inclu\u00eda uma causa de erro muito grande, no que diz respeito ao diagn\u00f3stico psiqui\u00e1trico, porque nesta fus\u00e3o de quadros em que havia remiss\u00e3o total e dem\u00eancia ele tinha inclu\u00eddo pacientes de tipo inteiramente diferentes. Assim, ele criou uma fus\u00e3o de quadros cl\u00ednicos de autores que tinham descrito na Fran\u00e7a e na Alemanha condi\u00e7\u00f5es m\u00f3rbidas que eram de tipo progressivo e juntou todas elas num grupo \u00fanico. Kahlbaum havia descrito a catatonia, Hecker tinha descrito a Hebefrenia, Morel na Fran\u00e7a tinha descrito a Dem\u00eancia precoce, Kraepelin reuniu todas essas formas e deu a elas o nome de dem\u00eancia precoce. Um diagn\u00f3stico que envolvia um progn\u00f3stico grave, mas todas tinham em comum um aspecto, o da desagrega\u00e7\u00e3o da personalidade, da perda de contato com o mundo exterior. Kraepelin ao criar esse grupo de psicoses end\u00f3genas seguiu uma via inteiramente diversa da de <a href=\"https:\/\/anibalsilveira.org\/carl-wernicke\/\" data-type=\"page\" data-id=\"3095\"><strong>Wernicke<\/strong><\/a>, que procurava estabelecer o quadro cl\u00ednico e depois relacion\u00e1-lo \u00e0 personalidade anterior, procurar situar no plano da personalidade as esferas que tinham dist\u00farbios mais importantes e dar ao quadro cl\u00ednico a denomina\u00e7\u00e3o correspondente a esse aspecto. Ele descreveu com min\u00facias o que chamamos hoje de automatismo mental, por exemplo, as ideias aut\u00f3ctones dele s\u00e3o ideias que vem do automatismo mental. Associou aspectos da psicopatologia a aspectos da patologia cerebral, da neurologia e desentranhou daquele grupo, que Kraepelin havia reunido, os quadros que s\u00e3o pass\u00edveis de remiss\u00e3o integral, embora pare\u00e7am demenciais, dando um progn\u00f3stico mais preciso, mais exato, baseado no dinamismo psicopatol\u00f3gico. Constitui uma s\u00e9rie grande de quadros psiqui\u00e1tricos que n\u00e3o eram conhecidos e que estavam englobados nesse grupo, de uma maneira inteiramente diversa daquela que seguiu Bleuler.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Este procurou associar os quadros cl\u00ednicos, n\u00e3o por serem end\u00f3genos ou ex\u00f3genos, mas pelo colorido que apresentavam. O grupo da esquizofrenia que ele criou, dando esse nome \u00e0 doen\u00e7a porque o caracter\u00edstico principal era a cis\u00e3o da personalidade, que correspondia ao quadro cl\u00ednico de Kraepelin. A \u00fanica diferen\u00e7a est\u00e1 em que n\u00e3o mencionava a dem\u00eancia como integrante do diagn\u00f3stico. Era um quadro pass\u00edvel de remiss\u00e3o porque os pacientes que estavam rotulados de dem\u00eancia precoce, \u00e0s vezes regrediam integralmente. Mas, nessa fus\u00e3o de quadros, ele explicitou mais ainda a causa do erro que estava impl\u00edcita na concep\u00e7\u00e3o de Kraepelin. Kleist seguiu via totalmente diversa de Kraepelin nesse aspecto. J\u00e1 no s\u00e9culo passado surgiram os estudos emp\u00edricos estat\u00edsticos da gen\u00e9tica humana. Nasceu da\u00ed a necessidade de ser estabelecida a previs\u00e3o, do ponto de vista gen\u00e9tico, da patog\u00eanese dos quadros cl\u00ednicos. A psiquiatria, a psicopatologia e a psicologia n\u00e3o s\u00e3o ci\u00eancias. Se dermos \u00e0 ci\u00eancia um car\u00e1ter de estudo sistem\u00e1tico que permite a previs\u00e3o dos fen\u00f4menos independente dos seres, n\u00e3o podemos dizer que a psiquiatria seja uma ci\u00eancia, \u00e9 um estudo de aplica\u00e7\u00e3o, estudo que se baseia no conhecimento cient\u00edfico. Assim a fisiologia n\u00e3o \u00e9 ci\u00eancia, como a anatomia n\u00e3o \u00e9, s\u00e3o aplica\u00e7\u00f5es particulares. A psiquiatria como a medicina \u00e9 arte e n\u00e3o ci\u00eancia. A Moral \u00e9 a ci\u00eancia que corresponde \u00e0 psiquiatria. A Moral seria o conjunto das leis que regem a concep\u00e7\u00e3o do homem.<\/p>\n\n\n<ol class=\"wp-block-footnotes\"><li id=\"b86ed532-eb3c-4545-a11c-d794d961d056\">Texto organizado por Roberto Fasano, em 2003, a partir de aula de An\u00edbal Silveira, ministrada em 04 de mar\u00e7o de 1969 em Curso de Psicologia M\u00e9dica na UNICAMP, Campinas, sem refer\u00eancia de quem a compilou. Revisto em 27\/09\/22 por integrantes da Comiss\u00e3o de Revis\u00e3o do CEPAS: Flavio Vivacqua, Francisco Drumond de Moura, Paulo Palladini e Roberto Fasano. As refer\u00eancias adicionais em azul ser\u00e3o vinculadas a um texto relacionado com um determinado autor ou um determinado assunto. <a href=\"#b86ed532-eb3c-4545-a11c-d794d961d056-link\" aria-label=\"Aller \u00e0 la note de bas de page 1\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><\/ol>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>CONCEP\u00c7\u00c3O ATUAL DA PSIQUIATRIA Vamos referir em tra\u00e7os gerais a concep\u00e7\u00e3o atual da Psiquiatria e o conjunto de disciplinas que constituem a Psiquiatria. 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As refer\u00eancias adicionais em azul ser\u00e3o vinculadas a um texto relacionado com um determinado autor ou um determinado assunto.\",\"id\":\"b86ed532-eb3c-4545-a11c-d794d961d056\"}]"},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3235","page","type-page","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/anibalsilveira.org\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/3235","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/anibalsilveira.org\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/anibalsilveira.org\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/anibalsilveira.org\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/anibalsilveira.org\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3235"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/anibalsilveira.org\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/3235\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3240,"href":"https:\/\/anibalsilveira.org\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/3235\/revisions\/3240"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/anibalsilveira.org\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3235"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/anibalsilveira.org\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3235"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/anibalsilveira.org\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3235"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}