{"id":3254,"date":"2024-09-10T19:49:14","date_gmt":"2024-09-10T22:49:14","guid":{"rendered":"https:\/\/anibalsilveira.org\/?page_id=3254"},"modified":"2024-09-10T19:49:14","modified_gmt":"2024-09-10T22:49:14","slug":"delirio-alucinatorio-cronico-de-roxo-2","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/anibalsilveira.org\/fr\/delirio-alucinatorio-cronico-de-roxo-2\/","title":{"rendered":"Del\u00edrio alucinat\u00f3rio cr\u00f4nico de Roxo"},"content":{"rendered":"<p class=\"has-text-align-center\"><strong>DELIRIO ALUCINAT\u00d3RIO CR\u00d4NICO DE ROXO<\/strong><sup data-fn=\"5638311f-a682-492d-bc73-a89a9d28ec23\" class=\"fn\"><a href=\"#5638311f-a682-492d-bc73-a89a9d28ec23\" id=\"5638311f-a682-492d-bc73-a89a9d28ec23-link\">1<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m denominado Del\u00edrio Sistematizado Cr\u00f4nico; suprimimos o termo sistematizado porque se \u00e9 cr\u00f4nico j\u00e1 \u00e9 sistematizado. Foi Roxo que, em 1913, apresentou em Congresso um trabalho acerca desse quadro, como uma condi\u00e7\u00e3o diversa da Esquizofrenia.<\/p>\n\n\n\n<p>Kraepelin mostrou que essas formas t\u00eam a tend\u00eancia a sistematizar-se e cita um quadro que corresponde ao \u201cDel\u00edrio circunscrito de Kleist\u201d (uma das formas de Parafrenia). Magnan tamb\u00e9m descreveu diversos quadros com del\u00edrios persecut\u00f3rios, mas seus casos todos evolu\u00edram para a demencia\u00e7\u00e3o. Falret assinalava que nessa forma sistem\u00e1tica, n\u00e3o havia dem\u00eancia, s\u00f3 havia o del\u00edrio.<\/p>\n\n\n\n<p>Na caracteriza\u00e7\u00e3o de Roxo, o quadro aparece entre os 40 e 45 anos de idade, por tanto mais tarde na vida do indiv\u00edduo, existem alucina\u00e7\u00f5es tipo automatismo mental verbal-auditivo, apresenta um car\u00e1ter permanente e n\u00e3o leva \u00e0 dem\u00eancia, ao contr\u00e1rio da parafrenia que aparece mais cedo.<\/p>\n\n\n\n<p>O diagn\u00f3stico diferencial deve ser feito com a arteriosclerose cerebral. A diferen\u00e7a do del\u00edrio alucinat\u00f3rio cr\u00f4nico de Roxo \u00e9 que as alucina\u00e7\u00f5es aparecem quase repentinamente, ao contr\u00e1rio da arteriosclerose onde ocorrem periodicamente, havendo momentos de remiss\u00e3o, havendo tamb\u00e9m irritabilidade, o que n\u00e3o h\u00e1 no Del\u00edrio de Roxo.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Esse quadro cl\u00ednico \u00e9 uma forma atenuada das psicoses constitucionais (Grupo IV) que tem um colorido afetivo, isto \u00e9, uma patog\u00eanese afetiva que faz com que o indiv\u00edduo tente ocultar, no in\u00edcio, as alucina\u00e7\u00f5es. Esta rea\u00e7\u00e3o \u00e0 alucina\u00e7\u00e3o, mais tarde, vai passando e o sujeito vai aceitando as mesmas como realidade e com reminisc\u00eancia identifica as vozes.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0 primeira vista \u00e9 dif\u00edcil distingui-lo dos quadros com remiss\u00e3o ou outras formas que se manifestam como quadros delirantes. Portanto, o Del\u00edrio Alucinat\u00f3rio Cr\u00f4nico de Roxo, \u00e9 permanente, mas n\u00e3o progressivo. \u00c9 poss\u00edvel que haja uma tend\u00eancia gen\u00e9tica para micro hemorragias.<\/p>\n\n\n\n<p>Transcrevemos a seguir o texto de Roxo, extra\u00eddo do seu livro:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNo dia 8 de agosto de 1913 tive ocasi\u00e3o de apresentar ao Congresso M\u00e9dico, reunido em Londres, um trabalho subordinado a esta ep\u00edgrafe. Nele expunha ideias minhas referentes a um certo grupo de doentes que todos observam, mas que nem todos encaram pelo mesmo feitio. Foi sempre objeto de discuss\u00e3o em psiquiatria a quest\u00e3o dos del\u00edrios cr\u00f4nicos que tendo merecido grande aten\u00e7\u00e3o de Magnan, que criou o termo del\u00edrio cr\u00f4nico, veio de novo, ultimamente, reavivar debates com a concep\u00e7\u00e3o de Kraepelin das parafrenias.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00a0Num estudo um tanto superficial poderia parecer que as parafrenias resolveriam bem o problema e que o del\u00edrio sistematizado alucinat\u00f3rio cr\u00f4nico nelas bem caberia. No entanto, meditando-se no problema, v\u00ea-se que \u00e9 isto um erro, o que procurarei evidenciar, frisando-lhe os caracteres pr\u00f3prios e os que lhe permitem a diferencia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Os doentes de del\u00edrio sistematizado alucinat\u00f3rio cr\u00f4nico t\u00eam, no in\u00edcio de seu mal, um dist\u00farbio de cenestesia. N\u00e3o se sentem bem, vivem tristes, mal-humorados e muito desconfiados. Procuram viver isolados. Nada lhes d\u00e1 prazer. Neste interim se desenvolve uma zoada que pode ser devida a um pouco de cera, catarro na trompa de Eust\u00e1quio, a modifica\u00e7\u00f5es de press\u00e3o sangu\u00ednea nos vasos dos canais semicirculares da orelha m\u00e9dia, havendo anemia ou hiperemia, a qualquer afec\u00e7\u00e3o do labirinto, etc. Em vez de recorrer aos cuidados de um especialista, come\u00e7a o doente a prestar aten\u00e7\u00e3o demasiada aos zumbidos e a esmerilhar detalhes neles. \u00c0s vezes, dizem que h\u00e1 um sibilo constante, ou um barulho semelhante ao de um caramujo que se lhes encostasse ao ouvido, ou ao de um apito de locomotiva, ou parecido com o do vento a soprar pelas frestas. Come\u00e7a o doente a ter como verdadeira ideia obsessiva a zoada e, \u00e0 for\u00e7a de dar a ela toda a aten\u00e7\u00e3o, entra a perceber que no meio daquele barulho confuso h\u00e1 alguma coisa que lembra a voz humana. A princ\u00edpio escuta sons confusos, depois s\u00edlabas destacadas, depois frases isoladas e, finalmente, express\u00f5es completas.<\/p>\n\n\n\n<p>No in\u00edcio, n\u00e3o consegue reconhecer pela voz quem lhe fala, mas no fim de pouco tempo identifica perfeitamente a voz que lhe tortura os dias, \u00e0 de uma dada pessoa, de suas rela\u00e7\u00f5es. Sucede que as palavras que vai escutando, s\u00e3o sempre insultuosas e um del\u00edrio de persegui\u00e7\u00e3o se constitui de modo perfeitamente l\u00f3gico e razo\u00e1vel.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>A intelig\u00eancia se mant\u00e9m perfeitamente \u00edntegra e, \u00e0s vezes, at\u00e9 se pode desenvolver pela longa medita\u00e7\u00e3o e cultivo, no rebuscar constantemente da g\u00eanese dos fen\u00f4menos que sobre ele atuam.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>No caso vertente, a base de toda idea\u00e7\u00e3o \u00e9 falsa, porque depende de alucina\u00e7\u00e3o, mas, \u00e0 parte isto, o silogismo \u00e9 t\u00e3o perfeito como em qualquer pessoa mentalmente s\u00e3. Se qualquer de n\u00f3s tivesse uma pessoa a nos insultar constantemente, n\u00e3o poderia deixar de enfurecer-se. Compreende-se, pois, muito bem que o doente do del\u00edrio sistematizado alucinat\u00f3rio cr\u00f4nico viva irritad\u00edssimo contra o seu suposto perseguidor e que se torne um elemento perigos\u00edssimo para o infeliz, no qual ele alveja todo o seu rancor. \u00c9 uma quest\u00e3o de identifica\u00e7\u00e3o de voz, e qualquer um pode ser escolhido como perseguidor. N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio ser uma pessoa das rela\u00e7\u00f5es di\u00e1rias do doente: qualquer pode ser visado.<\/p>\n\n\n\n<p>V\u00ea-se, pois, quanto \u00e9 perigoso o doente de del\u00edrio sistematizado alucinat\u00f3rio cr\u00f4nico, que pode premeditar um homic\u00eddio com todas as cautelas e depois buscar justificar o seu ato, descrevendo com todos os foros de verossimilhan\u00e7a uma persegui\u00e7\u00e3o atroz que afirma lhe haver sido movida. Como a intelig\u00eancia persista \u00edntegra, n\u00e3o h\u00e1 coisa alguma imposs\u00edvel de se realizar, no mecanismo da persegui\u00e7\u00e3o que descreve.<\/p>\n\n\n\n<p>A persegui\u00e7\u00e3o vai pouco a pouco se tornando mais acentuada e \u00e9 ela sempre baseada em alucina\u00e7\u00f5es do ouvido que o doente est\u00e1 convencido de que sejam a pura express\u00e3o da realidade. A princ\u00edpio, o doente experimenta a tortura do del\u00edrio persecut\u00f3rio e n\u00e3o reage. Procura evitar o conv\u00edvio social, entrega-se \u00e0 medita\u00e7\u00e3o e o leva a cogitar porque o perseguem.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando chega \u00e0 conclus\u00e3o de que \u00e9 tudo o fruto de uma perversidade e que nada fez, para que merecesse este padecer, quando reconhece numa dada pessoa o autor de tudo, resolve vingar-se e torna-se perseguido-perseguidor.<\/p>\n\n\n\n<p>Um ponto muito importante no del\u00edrio que venho descrevendo, \u00e9 que <em>nunca h\u00e1 del\u00edrio de grandezas<\/em> e que, portanto, o doente jamais afirma ter sido perseguido porque tivessem inveja dele ou seja muito rico e poderoso. As alucina\u00e7\u00f5es do ouvido dominam absolutamente o quadro cl\u00ednico e s\u00f3 excepcionalmente se antolham as dos outros sentidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Longos anos decorre a doen\u00e7a, sempre com o mesmo del\u00edrio persecut\u00f3rio, e ainda mesmo quando o alienado j\u00e1 tenha sacrificado um infeliz inocente, em quem personificou o inimigo, o del\u00edrio se n\u00e3o esgota a\u00ed. Outros inimigos surgem e a trama perdura.<\/p>\n\n\n\n<p>A dem\u00eancia senil pode mais tarde epilogar o mal, pelo mesmo feitio, por\u00e9m, porque o faz em qualquer um cujo c\u00e9rebro sofra as consequ\u00eancias naturais da desnutri\u00e7\u00e3o provocada pelas altera\u00e7\u00f5es da esclerose vascular. Outrora havia a grande preocupa\u00e7\u00e3o de separar os del\u00edrios sistematizados em dois grandes grupos, segundo coexistia ou n\u00e3o o fator degenerativo. Se degenerado, dever-se-ia pensar em paranoia; se n\u00e3o degenerado, em del\u00edrio cr\u00f4nico. Era o tempo em que se dava a m\u00e1xima import\u00e2ncia aos estigmas f\u00edsicos, em que se prestava toda aten\u00e7\u00e3o aos dados antropom\u00e9tricos. Hoje o essencial \u00e9 a meiopragia ps\u00edquica ou nervosa ou o desequil\u00edbrio mental permanente.<\/p>\n\n\n\n<p>Se uma pessoa sem a menor tara neurop\u00e1tica pode ter confus\u00e3o mental ou neurastenia, o mesmo j\u00e1 n\u00e3o sucede em rela\u00e7\u00e3o ao del\u00edrio cr\u00f4nico. Para que uma pessoa com zumbidos nos ouvidos, possa vir a acreditar que a perseguem, quer isto dizer que o c\u00e9rebro \u00e9 pouco resistente e que o fator meiopr\u00e1gico nele coexiste.<\/p>\n\n\n\n<p>Sintetizando, v\u00ea-se que o <em>del\u00edrio sistematizado alucinat\u00f3rio cr\u00f4nico <\/em>\u00e9 por mim concebido como um <em>del\u00edrio sistematizado de persegui\u00e7\u00e3o<\/em>, baseado em <em>alucina\u00e7\u00f5es<\/em> quase exclusivamente auditivas, que se desenvolvem pouco a pouco, a princ\u00edpio elementares e mais tarde comuns e verbais; em que o indiv\u00edduo se torna <em>perseguido-perseguidor; <\/em>em que <em>n\u00e3o h\u00e1 decad\u00eancia intelectual;<\/em> em que se <em>n\u00e3o constata del\u00edrio de grandeza ou de qualquer outro feitio que n\u00e3o o persecut\u00f3rio, <\/em>e que a <em>dem\u00eancia senil <\/em>pode sobrevir como uma conting\u00eancia natural.<\/p>\n\n\n\n<p>Roger Therry em These de Lille, de 1934, diz ter encontrado nos delirantes cr\u00f4nicos, reflexos rotulianos exagerados (33%), tremor das extremidades (30%), reflexos pupilares luminosos med\u00edocres ou abolidos (25%), desigualdade pupilar (15%), tremores fibrilares da face (13%), o que tudo prova que o sistema nervoso geral n\u00e3o fica imune. Courtois e Beley verificaram no l\u00edquido c\u00e9falo-raquidiano ligeira hyperalbuminose (0,40 a 0,60). H\u00e1 em muitas vezes a extens\u00e3o da curva de precipita\u00e7\u00e3o do benjoin na zona mening\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes de procurar demonstrar a raz\u00e3o de ser do del\u00edrio sistematizado alucinat\u00f3rio cr\u00f4nico e de provar que n\u00e3o \u00e9 ele a mesma coisa que outras individualidades que t\u00eam sido criadas, parece mais met\u00f3dico assinalar logo que n\u00e3o \u00e9 ele a mesma coisa que a <em>paranoia.<\/em> Outrora chamava-se paranoia qualquer del\u00edrio sistematizado. Hoje em dia \u00e9 admitido como paranoia um del\u00edrio sistematizado, em que n\u00e3o h\u00e1 alucina\u00e7\u00f5es ou desempenham elas um papel inteiramente secund\u00e1rio. No del\u00edrio alucinat\u00f3rio tudo se baseia em alucina\u00e7\u00f5es. S\u00e3o elas que fazem com que o doente tire conclus\u00f5es erradas.<\/p>\n\n\n\n<p>Na paranoia h\u00e1 uma ideia falsa e, firmado nela, vai o doente tirar conclus\u00f5es l\u00f3gicas de premissas falsas. \u00c9 um v\u00edcio de interpreta\u00e7\u00e3o origin\u00e1rio que d\u00e1 um alicerce falso para todo o castelo de ideias do doente.<\/p>\n\n\n\n<p>Orgulho e desconfian\u00e7a representam qualidades intr\u00ednsecas do paranoico; no delirante cr\u00f4nico, tamb\u00e9m tal se verifica, havendo, por\u00e9m aqui mais desconfian\u00e7a do que orgulho e, no outro caso, mais este do que aquela. Sempre que o del\u00edrio depender \u00fanica e exclusivamente de alucina\u00e7\u00f5es, n\u00e3o se deve pensar em paranoia \u2013 e assim j\u00e1 se tem um elemento poderos\u00edssimo para firmar o diagn\u00f3stico diferencial.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Em ambos, o encadeamento de ideias \u00e9 perfeitamente l\u00f3gico e os doentes pensam t\u00e3o bem como qualquer pessoa s\u00e3. A diferencia\u00e7\u00e3o com esta consiste em que a base do racioc\u00ednio \u00e9 falsa: na paranoia, uma ideia, no del\u00edrio alucinat\u00f3rio, uma alucina\u00e7\u00e3o. Ser\u00e1 o del\u00edrio sistematizado de Magnan? N\u00e3o. O <em>del\u00edrio cr\u00f4nico <\/em>de Magnan ou <em>Psicose Sistem\u00e1tica Progressiva de Garnier<\/em> \u00e9 constitu\u00eddo essencialmente por um per\u00edodo de rumina\u00e7\u00e3o mental ou de interpreta\u00e7\u00e3o delirante, um per\u00edodo persecut\u00f3rio, um per\u00edodo com <em>del\u00edrios de grandezas <\/em>e o per\u00edodo final de dem\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>No per\u00edodo inicial do del\u00edrio cr\u00f4nico de Magnan h\u00e1 ilus\u00f5es e o doente vive desconfiado de tudo e de todos. Pensa que o estejam olhando, que o ridicularizam, que lhe queiram fazer mal.<\/p>\n\n\n\n<p>As alucina\u00e7\u00f5es particularmente auditivas, se desenvolvem no come\u00e7o do segundo per\u00edodo. Justifica-se o del\u00edrio de persegui\u00e7\u00e3o e o doente encontra demonstra\u00e7\u00f5es dela nas alucina\u00e7\u00f5es que cada vez mais se desenvolvem e se aperfei\u00e7oam. Vem depois o del\u00edrio de grandeza e o motivo por que tanto o perseguem, \u00e9 a inveja, porque ele \u00e9 muito rico, \u00e9 filho de reis, \u00e9 o apaixonado de nobres. Desenvolve-se, posteriormente, o ep\u00edlogo demencial. Magnan descreveu tudo isto como se desenvolvendo vagarosa e metodicamente.<\/p>\n\n\n\n<p>O quadro esquem\u00e1tico que descreveu, n\u00e3o foi aceito por seus disc\u00edpulos, e Legrain, o principal continuador de suas ideias, admite a exist\u00eancia do del\u00edrio cr\u00f4nico sem os quatro per\u00edodos. O del\u00edrio sistematizado alucinat\u00f3rio cr\u00f4nico n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa que o del\u00edrio de Magnan, <em>porque nunca tem del\u00edrio de grandeza <\/em>e h\u00e1 uma certa diferen\u00e7a no per\u00edodo inicial.<\/p>\n\n\n\n<p>J. Falret descreveu o <em>del\u00edrio de persegui\u00e7\u00e3o de evolu\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica<\/em> como constitu\u00eddo por quatro fases: fase de interpreta\u00e7\u00e3o delirante, de alucina\u00e7\u00f5es do ouvido ou per\u00edodo de est\u00e1dio; de perturba\u00e7\u00f5es da sensibilidade; de estereotipa\u00e7\u00e3o ou <em>del\u00edrio de grandezas.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Nele se firmou Magnan quando criou o seu del\u00edrio, mas quer um, quer outro, diferem do que venho descrevendo.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>O <em>del\u00edrio sistematizado agudo dos degenerados<\/em> ou del\u00edrio subit\u00e2neo ou afluxo delirante consiste em um del\u00edrio que aparece de repente, com toda sua intensidade, sem que haja previamente qualquer per\u00edodo preparat\u00f3rio. Dura, no m\u00e1ximo, algumas semanas. O teor do del\u00edrio varia: ora persecut\u00f3rio, ora grandioso, ora religioso etc. Ora h\u00e1 muitas alucina\u00e7\u00f5es, ora h\u00e1 apenas interpreta\u00e7\u00f5es delirantes. O del\u00edrio \u00e9 polimorfo e passa rapidamente de persegui\u00e7\u00e3o a grandeza, por exemplo.<\/p>\n\n\n\n<p>Muitos casos que outrora tinham a rubrica de del\u00edrio sistematizado agudo dos degenerados, cabem melhor na psicose man\u00edaco-depressiva. No entanto, v\u00ea-se bem que s\u00e3o diferentes do del\u00edrio sistematizado alucinat\u00f3rio cr\u00f4nico.<\/p>\n\n\n\n<p>Las\u00e9gue, num trabalho publicado em 1852, no qual Falret e Magnan se basearam, apresentou ideias muito boas sobre o <em>del\u00edrio de persegui\u00e7\u00e3o<\/em>, mas seu estudo \u00e9 feito, sob um ponto de vista geral, nas diversas doen\u00e7as em que este del\u00edrio se pode encontrar, e nele n\u00e3o h\u00e1 a menor ideia de sistematiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Morel foi um dos primeiros que admitiu a transforma\u00e7\u00e3o do del\u00edrio de persegui\u00e7\u00e3o em del\u00edrio de grandezas. Magnan julgava este elemento indispens\u00e1vel ao seu del\u00edrio. J. Falret admitia, em 1877, a exist\u00eancia do del\u00edrio de grandezas em um ter\u00e7o dos casos de del\u00edrio de persegui\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica. V\u00ea-se pois, que no tipo de Las\u00e9gue e no de J. Falret se admite que possa haver del\u00edrio de persegui\u00e7\u00e3o sem del\u00edrio de grandezas, e no de J. Falret, mesmo com a presen\u00e7a de sistematiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O del\u00edrio sistematizado alucinat\u00f3rio cr\u00f4nico tem a sua individualidade bem caracterizada, convindo, no entanto, notar que este tipo tem o seu feitio mais parecido sem megalomania, que J. Falret considera como poss\u00edvel, embora menos frequente. Esta modalidade de J. Falret difere, por\u00e9m, muito do del\u00edrio alucinat\u00f3rio por numerosos outros predicados.<\/p>\n\n\n\n<p>Na <em>alucinose cr\u00f4nica <\/em>de Dupr\u00e9 e Gelma h\u00e1 numerosas alucina\u00e7\u00f5es, mormente auditivas, mas o indiv\u00edduo as recebe passivamente, sem interferir, portanto, na sua sistematiza\u00e7\u00e3o ou nelas demoradamente meditar. Dupr\u00e9 e Gelma frisam bem que nestes casos n\u00e3o h\u00e1 a menor ideia delirante. \u00c9 uma s\u00edndrome puramente alucinat\u00f3rio, em que n\u00e3o h\u00e1 qualquer interpreta\u00e7\u00e3o ou concep\u00e7\u00e3o delirante. V\u00ea-se, pois, que a alucinose cr\u00f4nica \u00e9 bem diferente do del\u00edrio alucinat\u00f3rio que venho expondo.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m igual a ele a <em>psicose alucinat\u00f3ria cr\u00f4nica<\/em> de Gilbert Ballet. Nela h\u00e1 inicialmente um estado cenest\u00e9sico penoso, seguindo-se a ele del\u00edrio de persegui\u00e7\u00e3o e de grandeza, havendo, al\u00e9m disso, <em>desagrega\u00e7\u00e3o inicial e persistente da personalidade e o fen\u00f4meno do eco do pensamento.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>No del\u00edrio alucinat\u00f3rio cr\u00f4nico o doente nunca perde a sua personalidade. Verdade \u00e9 que o saudoso e not\u00e1vel Professor Ballet dizia que, quando h\u00e1 alucina\u00e7\u00e3o, j\u00e1 h\u00e1 uma desagrega\u00e7\u00e3o da personalidade, o que me n\u00e3o parece razo\u00e1vel. De fato, pela circunst\u00e2ncia de receber impress\u00f5es de cousas que n\u00e3o existem, n\u00e3o se deve deduzir que o doente j\u00e1 n\u00e3o tenha a sua individualiza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o tenha a s\u00edntese de sensa\u00e7\u00f5es que lhe d\u00e1 a no\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio eu.<\/p>\n\n\n\n<p>O fen\u00f4meno do eco do pensamento \u00e9 um testemunho de profundo dist\u00farbio da cenestesia e de not\u00e1vel abaixamento do n\u00edvel intelectual. Para que uma pessoa de intelig\u00eancia normal acredite e afirme que lhe roubam o pensamento e o divulguem, \u00e9 preciso que tenha deca\u00eddo muito, pois a id\u00e9ia \u00e9 muito pueril, verdadeiramente absurda.<\/p>\n\n\n\n<p>Penso que o quadro de Ballet corresponde antes \u00e0 <em>dem\u00eancia precoce paranoide. <\/em>Ali\u00e1s j\u00e1 Gilbert Ballet, na Sociedade de Psiquiatria de Paris, em 18 de junho de 1914, dizia que os doentes de psicose alucinat\u00f3ria cr\u00f4nica podiam ter ou deixar de ter abaixamento do n\u00edvel intelectual, mas quando este se verificava, era muito r\u00e1pido, devendo estes casos caber na dem\u00eancia precoce paranoide, ficando os outros na psicose alucinat\u00f3ria. Dava, portanto, uma boa parte \u00e0 dem\u00eancia paranoide.<\/p>\n\n\n\n<p>O del\u00edrio sistematizado alucinat\u00f3rio cr\u00f4nico n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa que esta. Nele n\u00e3o existe a perda da afetividade, a perda da iniciativa, a associa\u00e7\u00e3o extravagante de ideias, o del\u00edrio de posse f\u00edsica e o fen\u00f4meno do eco do pensamento, que s\u00e3o peculiares \u00e0 esquizofrenia paranoide. O delirante cr\u00f4nico pode ter \u00f3dio de uma pessoa, mas n\u00e3o vai escolher, como o esquizofr\u00eanico os pr\u00f3prios genitores ou pessoas outras que mais estimasse.<\/p>\n\n\n\n<p>Iniciativa tem-na demais, pois longamente medita a vingan\u00e7a e lhe sopesa todas as possibilidades de execu\u00e7\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 o menor abaixamento do n\u00edvel intelectual que permita a associa\u00e7\u00e3o extravagante de ideias e o eco do pensamento, nem t\u00e3o pouco dist\u00farbio profundo da personalidade que tolere o del\u00edrio de posse f\u00edsica.<\/p>\n\n\n\n<p>Para diferencia\u00e7\u00e3o com a esquizofrenia, al\u00e9m dos caracteres cl\u00ednicos que assignalei, h\u00e1, muito modernamente, a rea\u00e7\u00e3o de Kottmann. Nos Anales M\u00e9dico Psychologique, de abril de 1934, Hamel, Chavaret e Rojer, a descreveram com cuidado. Tira-se em jejum sangue venoso, junta-se a 1 cc3 de soro isento de hemoglobina, 25 centigramas de solu\u00e7\u00e3o de iodeto de pot\u00e1ssio a meio por cento, 30 centigramas de solu\u00e7\u00e3o de nitrato de prata a meio por cento. Depois de exposi\u00e7\u00e3o durante vinte minutos \u00e0 a\u00e7\u00e3o de uma l\u00e2mpada de cem velas, cada tubo recebe 50 centigramas de uma solu\u00e7\u00e3o de hidroquinona a 25 centigramas por cento.<\/p>\n\n\n\n<p>Na psicose alucinat\u00f3ria cr\u00f4nica a rea\u00e7\u00e3o de Kotmann mostrou-se acelerada, demonstrando uma diminui\u00e7\u00e3o de atividade da tireoide (de 1 \u00bd a 10 minutos). Em 80 a 90% dos casos de dem\u00eancia precoce, a rea\u00e7\u00e3o \u00e9 muito mais r\u00e1pida, nunca passando de 2 minutos. Na psicose man\u00edaco-depressiva verificaram hipertireoidismo e a rea\u00e7\u00e3o demorou meia hora e, mesmo \u00e0s vezes, muitas horas.<\/p>\n\n\n\n<p>Lendo-se com cuidado o estudo cl\u00ednico da parafrenia, v\u00ea-se que nela h\u00e1 um elemento constante: o abaixamento do n\u00edvel intelectual. S\u00f3 com a presen\u00e7a deste se poderia conceber que doentes, anteriormente bem inteligentes, possam vir a se convencer de tantas baboseiras como no seu del\u00edrio ostentam.<\/p>\n\n\n\n<p>O delirante cr\u00f4nico n\u00e3o perde a intelig\u00eancia e tem um del\u00edrio perfeitamente l\u00f3gico e poss\u00edvel. No delirante cr\u00f4nico nunca h\u00e1 del\u00edrio de grandezas, o que existe na parafrenia sistem\u00e1tica. N\u00e3o se sente inteiramente dominado pela vontade dos outros, nem acredita que lhe possam roubar o pensamento e divulg\u00e1-lo, como ocorre no parafr\u00eanico. N\u00e3o existem tamb\u00e9m del\u00edrio er\u00f3tico e religioso.<\/p>\n\n\n\n<p>O parafr\u00eanico tem alucina\u00e7\u00f5es, quer de vista, quer de ouvido, quer de gosto etc., ao passo que o delirante cr\u00f4nico tem quase exclusivamente do ouvido.<\/p>\n\n\n\n<p>V\u00ea-se, pois, que um e outro t\u00eam caracteres diferentes e que, para que se sinta natural admitir a distin\u00e7\u00e3o, basta meditar com aten\u00e7\u00e3o nos predicados fundamentais que o pr\u00f3prio Kraepelin d\u00e1 \u00e0 parafrenia sistem\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p>Quem observa com cuidado doentes em hosp\u00edcios e casas de sa\u00fade, obter\u00e1 tipos cl\u00ednicos perfeitos de del\u00edrio sistematizado alucinat\u00f3rio cr\u00f4nico. Muitos tenho visto, e quando neles medito, cada vez mais me conven\u00e7o da individualidade do del\u00edrio que expus em Londres. O Dr. Athanagildo Ferraz que foi \u00f3timo interno da Cl\u00ednica Psiqui\u00e1trica, publicou em 1921 uma excelente tese a respeito do del\u00edrio que descrevi, na qual a par de grande clareza e intelig\u00eancia na exposi\u00e7\u00e3o das minhas ideias, se encontra uma observa\u00e7\u00e3o caracter\u00edstica de um doente do Instituto de Neuropatologia que a v\u00e1rias turmas de alunos foi apresentado.<\/p>\n\n\n\n<p>Leroy e Medacovitach, no Congresso de Barcelona, de maio de 1929, assinalaram que em <em>aut\u00f3psias de indiv\u00edduos <\/em>que tinham <em>demoradas alucina\u00e7\u00f5es de ouvido<\/em>, tinham sido encontradas no c\u00e9rebro les\u00f5es de meningoencefalite no lobo temporal. O professor Jakob, num \u00f3timo curso que aqui deu em 1928, o mesmo verificou.<\/p>\n\n\n\n<p>O <em>tratamento<\/em> do del\u00edrio sistematizado alucinat\u00f3rio cr\u00f4nico visa especialmente impedir que, dominado completamente pelo del\u00edrio de persegui\u00e7\u00e3o, possa vir a fazer mal a algu\u00e9m\u201d.<\/p>\n\n\n<ol class=\"wp-block-footnotes\"><li id=\"5638311f-a682-492d-bc73-a89a9d28ec23\">Texto organizado por Roberto Fasano Neto, em 2003, a partir de aula de An\u00edbal Silveira proferida em 12\/08\/71, em Campinas, sem refer\u00eancia de quem a compilou, sendo revista, em 16\/01\/23, por integrantes da Comiss\u00e3o de Revis\u00e3o do CEPAS: Fl\u00e1vio Vivacqua, Francisco Drumond de Marcondes de Moura, Paulo Palladini e Roberto Fasano Neto. As refer\u00eancias adicionais em azul ser\u00e3o vinculadas a um texto relacionado com um determinado autor ou um determinado assunto. <a href=\"#5638311f-a682-492d-bc73-a89a9d28ec23-link\" aria-label=\"Aller \u00e0 la note de bas de page 1\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><\/ol>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>DELIRIO ALUCINAT\u00d3RIO CR\u00d4NICO DE ROXO Tamb\u00e9m denominado Del\u00edrio Sistematizado Cr\u00f4nico; suprimimos o termo sistematizado porque se \u00e9 cr\u00f4nico j\u00e1 \u00e9 sistematizado. Foi Roxo que, em 1913, apresentou em Congresso um trabalho acerca desse quadro, como uma condi\u00e7\u00e3o diversa da Esquizofrenia. 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