{"id":3289,"date":"2024-09-11T19:50:08","date_gmt":"2024-09-11T22:50:08","guid":{"rendered":"https:\/\/anibalsilveira.org\/?page_id=3289"},"modified":"2024-09-11T19:50:08","modified_gmt":"2024-09-11T22:50:08","slug":"identificacao-das-formas-clinicas-do-grupo-maniaco-depressivo","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/anibalsilveira.org\/fr\/identificacao-das-formas-clinicas-do-grupo-maniaco-depressivo\/","title":{"rendered":"Identifica\u00e7\u00e3o das formas cl\u00ednicas do grupo man\u00edaco-depressivo"},"content":{"rendered":"<p class=\"has-text-align-center\"><strong>IDENTIFICA\u00c7\u00c3O DAS FORMAS CL\u00cdNICAS DO GRUPO MAN\u00cdACO-DEPRESSIVO<\/strong><sup data-fn=\"e1587b2d-2afc-4f0b-a861-d1ee96939e42\" class=\"fn\"><a href=\"#e1587b2d-2afc-4f0b-a861-d1ee96939e42\" id=\"e1587b2d-2afc-4f0b-a861-d1ee96939e42-link\">1<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p>A psicose man\u00edaco-depressiva \u00e9 considerada pela maioria dos autores como uma entidade cl\u00ednica, mas aprofundando um pouco no seu estudo vemos que n\u00e3o se trata de uma entidade \u00fanica, mas de um grupo.<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira descri\u00e7\u00e3o bem precisa desse grupo foi de Pinel (Philipe Pinel, o grande reformador da assist\u00eancia psiqui\u00e1trica) e, em seguida, de Esquirol (assistente de Pinel). Esquirol fez parte de uma comiss\u00e3o na Fran\u00e7a de avalia\u00e7\u00e3o de diversos hospitais psiqui\u00e1tricos, ele se impressionou com as condi\u00e7\u00f5es sub-humanas, como \u00e9 caracter\u00edstico em muitos hospitais psiqui\u00e1tricos do mundo de hoje em dia, contra a qual se revoltou intensamente e resolveu dedicar-se a modificar a assist\u00eancia psiqui\u00e1trica na Fran\u00e7a. Ele publicou o seu trabalho cl\u00ednico em 1838 ao qual denominou de \u201cPatogenia e Tratamento de Doen\u00e7as Mentais\u201d, caracterizando-o como o fruto de 40 anos de estudo e de conviv\u00eancia com os pacientes: portanto, a sua descri\u00e7\u00e3o dos quadros cl\u00ednicos foi baseada, fundamentalmente, na sua experi\u00eancia cl\u00ednica. Assim, estabeleceu uma classifica\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es m\u00f3rbidas em:\u00a0<\/p>\n\n\n\n<ol class=\"wp-block-list\">\n<li>Mania<\/li>\n\n\n\n<li>Monomania<\/li>\n\n\n\n<li>Melancolia (que \u00e9 outro aspecto)<\/li>\n\n\n\n<li>Demonomania (que \u00e9 um tipo especial de mania)<\/li>\n\n\n\n<li>Les\u00e2nias secund\u00e1rias, isto \u00e9, doen\u00e7as demenciais que s\u00e3o consequ\u00eancia de infec\u00e7\u00e3o ou intoxica\u00e7\u00e3o<\/li>\n\n\n\n<li>Epilepsia\u00a0<\/li>\n\n\n\n<li>Idiotia.<\/li>\n<\/ol>\n\n\n\n<p>Ele descreveu com muita precis\u00e3o os quadros que foram considerados como Mania e Melancolia, inclusive discutindo a patog\u00eanese. Ele descreveu um grupo de doen\u00e7as mentais que se caracterizavam pela agita\u00e7\u00e3o ps\u00edquica intensa, pelo excesso de euforia, de produ\u00e7\u00e3o mental ampliada, com fuga de ideias, algumas formas com del\u00edrios, outras sem del\u00edrios e todas elas caracterizadas pela expansividade, pela libera\u00e7\u00e3o ps\u00edquica, particularmente, no campo da motilidade.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Esquirol caracterizava a Mania como uma afec\u00e7\u00e3o cerebral cr\u00f4nica, sem febre habitualmente, e caracterizada pela perturba\u00e7\u00e3o e pela exalta\u00e7\u00e3o da sensibilidade, da intelig\u00eancia e da vontade, ao passo que a Melancolia, conhecida desde Pinel, apresentava um aspecto oposto a esse quadro. Nessa \u00e9poca, outros autores deram mais extens\u00e3o ao termo Melancolia e denominaram melanc\u00f3lico todo del\u00edrio parcial, cr\u00f4nico e sem febre (portanto, j\u00e1 incluindo na melancolia o aspecto delirante).\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Esquirol prop\u00f4s a palavra Monomania, formada de mono (\u00fanico), \u00fanico; e de mania (mania), que para ele exprimia o car\u00e1ter essencial dessa esp\u00e9cie de loucura em que o del\u00edrio \u00e9 parcial, permanente, alegre ou triste (s\u00e3o duas formas, portanto, distintas na monomania: alegre ou triste, quanto \u00e0 express\u00e3o do estado da alma do indiv\u00edduo). Descreve a monomania exatamente como o que se considera, hoje em dia, a psicose man\u00edaco-depressiva. Ele mostrou duas formas: a monomania caracterizada por uma paix\u00e3o dominante alegre ou triste (paix\u00e3o era o termo que se usavam para os sentimentos) excitante ou opressivo, que produz o del\u00edrio fixo e permanente, desejos e determina\u00e7\u00f5es relativas ao car\u00e1ter da paix\u00e3o dominante, divide-se, naturalmente, em monomania propriamente dita, que tem como sinal caracter\u00edstico um del\u00edrio parcial e uma paix\u00e3o excitante ou alegre; e em monomania caracterizada por um del\u00edrio parcial e uma paix\u00e3o triste ou opressiva (ent\u00e3o s\u00e3o dois aspectos distintos, um em que h\u00e1 o elemento com del\u00edrio e outro sem del\u00edrio, apenas a manifesta\u00e7\u00e3o alegre ou triste).<\/p>\n\n\n\n<p>Ele foi censurado por Heinreth, professor da Alemanha, que fez notas ao trabalho dele quando foi vertido para o alem\u00e3o, em que o censurava por achar que o del\u00edrio n\u00e3o faz parte da mania. Ele considerava que isso era uma incongru\u00eancia de Esquirol, mas Esquirol explicou dizendo o seguinte: o que caracterizava o quadro cl\u00ednico da monomania \u00e9 o aspecto delirante, portanto, ele fez uma an\u00e1lise da patogenia que \u00e9 oposta da que fazemos hoje: atribuia ao dist\u00farbio intelectual, a excita\u00e7\u00e3o enorme que levava o indiv\u00edduo a fazer um trabalho saltu\u00e1rio, dispersar a aten\u00e7\u00e3o, ter a fuga de ideias e exteriorizar ideias de grandeza incompat\u00edvel com a sua situa\u00e7\u00e3o. Em outras formas reconhecia que, primeiramente, ocorria a rea\u00e7\u00e3o afetiva, que acarretava o colorido intelectual como repercuss\u00e3o desse estado.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Em s\u00edntese, a mania de Esquirol corresponde a dois quadros: um quadro com excita\u00e7\u00e3o, com movimenta\u00e7\u00e3o ruidosa, com trabalho mental saltu\u00e1rio e um outro quadro com del\u00edrio. Diferenciou a mania caracterizada pela monomania com del\u00edrio e a monomania simples, isto \u00e9, aquela em que h\u00e1 apenas a exalta\u00e7\u00e3o do humor, a exterioriza\u00e7\u00e3o ruidosa da movimenta\u00e7\u00e3o, sem o aspecto delirante.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, ele incluiu o aspecto do del\u00edrio na monomania que corresponde ao quadro de Mania, hoje em dia. Os psiquiatras contempor\u00e2neos descrevem uma forma delirante de mania, que pode at\u00e9 chegar a um estado de furor: estado m\u00e1ximo de excita\u00e7\u00e3o ps\u00edquica e de excita\u00e7\u00e3o motora, produzindo um quadro que no limite apresenta um aspecto confusional, um embrutecimento aparente do indiv\u00edduo.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, a monomania simples se caracteriza apenas pelo aspecto da expansividade afetiva, pela motilidade exagerada, e pelo trabalho mental acelerado decorrente disso, mas sem a presen\u00e7a de concep\u00e7\u00f5es delirantes.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Dessa forma, Esquirol fez a primeira descri\u00e7\u00e3o da mania com condi\u00e7\u00f5es independentes: a melancolia em que o \u00e2nimo \u00e9 depressivo, o trabalho mental lento, falta de contato com o mundo exterior, o indiv\u00edduo fica voltado para si pr\u00f3prio, como diria mais tarde Griesinger. E outra forma que \u00e9 a forma que ele chamou monomania, porque o del\u00edrio \u00e9 parcial quando houver, ou apenas h\u00e1 uma manifesta\u00e7\u00e3o sem generalidade dos quadros delirantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de Esquirol houve uma s\u00e9rie de estudos, ainda no \u00e2mbito da Fran\u00e7a: Falret descrevia duas formas de quadros delirantes, tipo man\u00edaco, que ele chamou de \u201cLoucura Circular\u201d; Bellainger denominou \u201cLoucura de dupla forma\u201d e Bouillud, anterior a esses dois autores, descreveu a mania e a melancolia, usando os mesmos termos de Pinel, como duas formas independentes. Bouillaud, como sabem, ligava o quadro mental \u00e0 patologia cerebral, inclusive aceitava as localiza\u00e7\u00f5es de Gall. Cronologicamente, temos: Pinel (1745-1826), Esquirol (1772-1840), Falret (1794-1870), Bauillaud (1796-1881) e Beillainger (1800-1889).\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Depois disso, na Alemanha, v\u00e1rios autores seguiram um curso paralelo: Wernicke (1850-1905), Kafft-Ebing (1840-1902) e Griesinger (1817-1860).<\/p>\n\n\n\n<p>Posteriormente, temos Kraepelin (1856-1926) e depois Kleist (1879-1961), que foi quem trouxe a contribui\u00e7\u00e3o realmente importante, mais ou menos na linha de Wernicke.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 Wernicke, os autores em geral simplesmente aceitavam o aspecto descritivo na psiquiatria, concep\u00e7\u00e3o que se verifica ainda hoje na maioria dos autores: procuravam as causas, procuravam o que h\u00e1 de afinidade no curso cl\u00ednico e na evolu\u00e7\u00e3o e faziam a descri\u00e7\u00e3o que abrangia todos os aspectos.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Wernicke instituiu uma orienta\u00e7\u00e3o muito diversa, muito semelhante \u00e0 de Esquirol em que procurava a patogenia dos quadros, baseou o estudo dele, n\u00e3o na descri\u00e7\u00e3o do quadro cl\u00ednico, mas na interpreta\u00e7\u00e3o da configura\u00e7\u00e3o dos quadros cl\u00ednicos \u00e0 luz da patogenia. Essa foi a caracter\u00edstica de Wernicke, e o \u00fanico autor que o seguiu foi Karl Kleist. Ambos representam uma abordagem te\u00f3rica que trouxe uma compreens\u00e3o muito mais precisa sobre os diversos quadros cl\u00ednicos e, por essa raz\u00e3o, os consideramos como os fundadores da psiquiatria contempor\u00e2nea.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00a0Se n\u00e3o atentarmos para a patog\u00eanese dos quadros cl\u00ednicos, para os seus dinamismos patog\u00eanicos, como se forma o quadro cl\u00ednico, n\u00e3o estamos progredindo coisa alguma, n\u00e3o temos a possibilidade de distinguir os quadros com maior precis\u00e3o, em benef\u00edcio do paciente: porque para um estudo, qualquer orienta\u00e7\u00e3o serve, mas para beneficiar o paciente, para atender o paciente, \u00e9 indispens\u00e1vel termos em mente a patogenia. De modo que a escola que seguimos \u00e9 essencialmente patog\u00eanica. \u00c9 importante assinalar que n\u00e3o filiamos diretamente o sintoma no dist\u00farbio cerebral, isto \u00e9 abuso de interpreta\u00e7\u00e3o: na realidade o quadro cl\u00ednico n\u00e3o depende diretamente da altera\u00e7\u00e3o cerebral, n\u00e3o \u00e9 uma les\u00e3o org\u00e2nica do c\u00e9rebro ou uma altera\u00e7\u00e3o din\u00e2mica do c\u00e9rebro que causam o quadro cl\u00ednico. O quadro cl\u00ednico se configura pela estrutura psicol\u00f3gica que comp\u00f5e o indiv\u00edduo, que reage dentro de uma situa\u00e7\u00e3o qualquer, no plano m\u00f3rbido, exagerando apenas aquelas tend\u00eancias que s\u00e3o evidenciadas no seu quadro normal. De qualquer forma, cumpre assinalar que s\u00e3o condi\u00e7\u00f5es ligadas de uma maneira ou de outra com o substrato do c\u00e9rebro.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Vemos com Kraepelin uma tend\u00eancia sint\u00e9tica para associar os quadros cl\u00ednicos aparentados entre si. Kraepelin fundiu os quadros que apresentavam no seu processo evolutivo, uma altern\u00e2ncia peri\u00f3dica de fases com excita\u00e7\u00e3o ou com depress\u00e3o, em torno de uma forma \u00fanica de psicose, que seria chamada Psicose Man\u00edaco-Depressiva.<\/p>\n\n\n\n<p>Wernicke come\u00e7ou a fazer um trabalho, quase que concomitantemente com o de Kraepelin, em que procurava distinguir os quadros n\u00e3o pela sua configura\u00e7\u00e3o, mas pela maneira como surgiam os sintomas, do que derivavam esses sintomas, filiando-os diretamente \u00e0 patologia cerebral.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Veremos que Kleist seguiu a linha de Wernicke, naquela ocasi\u00e3o Kleist, ainda com 26 anos, foi designado pelo pr\u00f3prio Wernicke como continuador da sua pr\u00f3pria cl\u00ednica (isso soube depois tomando os pap\u00e9is que ele tinha deixado). E foi realmente Kleist quem apreendeu esse sistema de trabalho e o aplicou de uma maneira extraordinariamente f\u00e9rtil na cl\u00ednica e na patologia em geral.<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, temos duas maneiras diversas de encarar a Psicose Man\u00edaco-Depressiva: uma entidade cl\u00ednica \u00fanica ou um grupo de psicoses de certa maneira independentes entre si, embora tenham uma certa afinidade que \u00e9 dada pela carga gen\u00e9tica comum a todos os pacientes, porque eles t\u00eam como caracter\u00edstica a perturba\u00e7\u00e3o de uma determinada esfera da personalidade.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Kraepelin descreveu com muita precis\u00e3o as formas de Psicose Man\u00edaco-Depressiva, assinalando a maneira como surgem, isto \u00e9, se s\u00e3o precedidos de uma fase oposta \u00e0quela que se manifesta no quadro cl\u00ednico atual; se est\u00e3o ligados com a tend\u00eancia gen\u00e9tica; se traduzem no quadro cl\u00ednico uma manifesta\u00e7\u00e3o da personalidade, antes da fase psic\u00f3tica (estrutura pr\u00e9-psic\u00f3tica) e, finalmente, a sua g\u00eanese: se end\u00f3gena ou ex\u00f3gena.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>No caso, a Psicose Man\u00edaco-depressiva era o tipo caracter\u00edstico de psicose end\u00f3gena, embora cr\u00f4nica, decorria por surtos intercalados com intervalos inteiramente livre da psicose, o que deu, no \u00e2mbito da Psiquiatria Forense, a no\u00e7\u00e3o de \u201cintervalo l\u00facido\u201d. O indiv\u00edduo est\u00e1 doente, mas tem intervalos l\u00facidos, mas se cometeu um crime na fase do intervalo l\u00facido ele \u00e9 respons\u00e1vel pelo crime, mas \u00e9 isento se estiver na fase de surto psic\u00f3tico, porque ele n\u00e3o \u00e9 respons\u00e1vel, pois n\u00e3o estava agindo de acordo com o ju\u00edzo comum.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Essa no\u00e7\u00e3o de psicose peri\u00f3dica ou de psicose man\u00edaco depressiva tem uma conota\u00e7\u00e3o semelhante num caso ou no outro, consoante com o decurso e de como surge o surto: primeiramente, \u00e9 um quadro cl\u00ednico que aparece espontaneamente, sem nenhuma causa desencadeante necess\u00e1ria. O quadro pode ocorrer por fases, pode repetir-se com a mesma sintomatologia ou pode aparecer com sintomatologia discordante de uma fase para outra. Outra quest\u00e3o \u00e9 que os surtos tendem a mudar na medida que transcorre a idade do indiv\u00edduo, no entanto, podemos constatar que essa tend\u00eancia e a consequ\u00eancia desse amiudamento das fases, que seria o estado demencial, pode decorrer de uma observa\u00e7\u00e3o inadequada, porque esse grupo \u00e9 pass\u00edvel de ser confundido com numerosas condi\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas: pode se tratar de um erro de aprecia\u00e7\u00e3o devido ao crit\u00e9rio que se utilizou para o diagn\u00f3stico psiqui\u00e1trico. No caso, onde haja realmente um estado demencial, como consequ\u00eancia do amiudamento das fases da doen\u00e7a, pode tratar-se de uma psicose progressiva, uma forma de esquizofrenia.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Psicose Man\u00edaco-depressiva o indiv\u00edduo apresenta, ap\u00f3s a fase do surto, uma recupera\u00e7\u00e3o total da sua capacidade mental, n\u00e3o deixa nenhuma sequela, nenhum tra\u00e7o do surto m\u00f3rbido, e o paciente reconhece muito bem que superou o surto e na pr\u00f3xima vez sabe e reconhece que vai entrar em uma nova fase da doen\u00e7a mental.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, a reversibilidade do quadro cl\u00ednico \u00e9 outra caracter\u00edstica fundamental do grupo da psicose man\u00edaco depressiva. O fator heredit\u00e1rio tamb\u00e9m foi estudado e h\u00e1 uma concord\u00e2ncia muito grande entre o quadro cl\u00ednico que um paciente apresenta com o quadro cl\u00ednico apresentado por pessoas da sua fam\u00edlia. Dessa forma, a anamnese heredol\u00f3gica da qual resulta o \u201cheredoprogn\u00f3stico emp\u00edrico\u201d (emp\u00edrico, porque resultante da observa\u00e7\u00e3o, simplesmente) revela que o indiv\u00edduo tem na fam\u00edlia casos an\u00e1logos \u00e0queles apresentados na fase m\u00f3rbida.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse car\u00e1ter f\u00e1sico leva os psiquiatras em geral a reconhecerem tipos diversos de fases, isto \u00e9, fases que se alternam, fases que se repetem ou fases que t\u00eam tipos diversos e ainda uma terceira possibilidade, que foi verificada clinicamente, da fus\u00e3o de fases no mesmo indiv\u00edduo.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Cabe fazer uma distin\u00e7\u00e3o entre v\u00e1rios aspectos: da chamada psicose mista, do quadro misto e da fase mista. O quadro misto apresenta, no mesmo indiv\u00edduo, os dois aspectos: uma fase de mania e uma fase de depress\u00e3o em seguida. Na fase mista \u00e9 quando o paciente apresenta, na pr\u00f3pria fase psic\u00f3tica, sintomas de um quadro e sintomas do outro. Na psicose mista existe uma associa\u00e7\u00e3o com outra psicose que n\u00e3o do grupo man\u00edaco depressivo, por exemplo, a epilepsia, a esquizofrenia. Portanto, os conceitos de psicose mista, quadro misto e fase mista n\u00e3o se superp\u00f5em. Cumpre assinalar que a psicose \u00e9 mista quanto \u00e0 fase, isto \u00e9, aparecem surtos de mania e de melancolia: s\u00e3o fases distintas, traduzindo quadros mistos da Psicose Man\u00edaco depressiva. Em s\u00edntese: quadro cl\u00ednico \u00e9 uma coisa, a fase \u00e9 outra e a psicose \u00e9 outra.<\/p>\n\n\n\n<p>No caso da psicose man\u00edaco depressiva com fases alternantes, o paciente reconhece muito bem a pr\u00f3pria fase, a maneira como o indiv\u00edduo vive aquela fase, a experi\u00eancia \u00e9 muito caracter\u00edstica para o paciente. Tivemos uma paciente que dizia que tinha o \u201cnervoso agitado\u201d e o \u201cnervoso triste\u201d, de modo que o nervoso agitado para ela era muito mais agrad\u00e1vel e tinha uma recorda\u00e7\u00e3o muito desagrad\u00e1vel do \u201cnervoso triste\u201d. Quando no \u201cnervoso agitado\u201d, ela fazia muita coisa, tomava atitudes, ia visitar os filhos que moravam em outra cidade, tomava conta da casa, enfim, tinha uma iniciativa enorme. Isso lhe dava muita satisfa\u00e7\u00e3o e ela reconhecia claramente esses dois aspectos. Ali\u00e1s, fiz um Rorschach com essa paciente e deu um colorido distinto de um quadro e outro. Fases alternantes s\u00e3o essas que se modificam \u00e0s vezes.<\/p>\n\n\n\n<p>Tem a forma circular (termo usado por Falret) que se aplica aos pacientes onde, por exemplo, h\u00e1 o in\u00edcio com a forma depressiva, passando em seguida, sem intervalo, para uma fase de libera\u00e7\u00e3o ps\u00edquica, um est\u00edmulo excessivo, uma expansividade, depois volta para a fase de depress\u00e3o: portanto, sem haver uma passagem, um intervalo, de uma fase para a outra.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 as fases que Kraepelin chamou mistas propriamente, em que descreveu aquelas em que predominam a rea\u00e7\u00e3o motora intensa, com deambula\u00e7\u00e3o, com uma atividade ruidosa, com uma capacidade de racioc\u00ednio, inclusive com humor deprimido. Outras, pelo contr\u00e1rio, tem uma depress\u00e3o que \u00e9 fundamental no quadro, mas com excita\u00e7\u00e3o ps\u00edquica muito intensa e com motilidade aumentada tamb\u00e9m.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>As tr\u00eas esferas da personalidade que Kraepelin chamava de afetividade ou humores, a vontade que corresponde \u00e0 motilidade ou \u00e0 cona\u00e7\u00e3o, e a intelectual, se manifestam de um modo diferente em cada quadro. Vemos que predomina, fundamentalmente, no quadro cl\u00ednico, o envolvimento da esfera afetiva e as outras duas ou acompanham ou discordam dessa rea\u00e7\u00e3o. Assim, temos na mania e na melancolia uma manifesta\u00e7\u00e3o global da personalidade. E temos as fases em que se alternam a domin\u00e2ncia das v\u00e1rias esferas.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Kraepelin descreveu seis fases: estupor man\u00edaco, depress\u00e3o agitada, mania improdutiva, mania depressiva, depress\u00e3o mais fuga de ideias e mania acin\u00e9tica. Essas formas f\u00e1sicas mistas, descritas por Kraepelin constituem modalidades at\u00edpicas, por serem mistas de um polo e de outro. Reproduzimos no quadro I, estas formas de Kraepelin, conforme exemplificada por Weingandt.\u00a0<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"792\" height=\"375\" src=\"https:\/\/anibalsilveira.org\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/2024-09-11-6.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-3290\" srcset=\"https:\/\/anibalsilveira.org\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/2024-09-11-6.png 792w, https:\/\/anibalsilveira.org\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/2024-09-11-6-300x142.png 300w, https:\/\/anibalsilveira.org\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/2024-09-11-6-768x364.png 768w, https:\/\/anibalsilveira.org\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/2024-09-11-6-18x9.png 18w\" sizes=\"auto, (max-width: 792px) 100vw, 792px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>A partir da utiliza\u00e7\u00e3o do crit\u00e9rio patogen\u00e9tico, Kleist mostrou que esses quadros cl\u00ednicos at\u00edpicos, correspondiam a um conjunto muito heterog\u00eaneo de quadros cl\u00ednicos. Ele mostrou que a psicose da motilidade que Wernicke tinha descrito era uma forma muito pr\u00f3xima \u00e0s da mania, sendo confundida na fase da mania pelos autores. Kleist demonstrou que a Psicose da Motilidade de Wernicke \u00e9 uma entidade cl\u00ednica diversa, que tem uma carga gen\u00e9tica um pouco diversa, e tem um comportamento tamb\u00e9m diverso.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Dessa forma, a primeira diferencia\u00e7\u00e3o que Kleist fez foi no pr\u00f3prio material cl\u00ednico de Wernicke, ele distinguiu aqueles casos que realmente eram Psicose da Motilidade de outras formas de psicose, que evolu\u00edam progressivamente, embora apresentassem uma motilidade exuberante, exagerada, na ocasi\u00e3o do estudo cl\u00ednico. Assim, Kleist seguiu uma norma contr\u00e1ria de Kraepelin, ele procurou dissociar de um determinado conjunto de quadros cl\u00ednicos, aqueles casos que correspondiam \u00e0 entidade cl\u00ednica em estudo e outros que tinham apenas a apar\u00eancia fenomenol\u00f3gica, descritiva, do quadro cl\u00ednico em causa. Demostrou que muitos casos com Mania ou Psicose Man\u00edaco-depressiva eram pacientes que tinham Psicose da Motilidade, na qual estabelece, como crit\u00e9rio fundamental, o exagero da motilidade com consci\u00eancia desse aspecto, que corresponderia \u00e0 expansividade da mania. Al\u00e9m disso, demonstrou que h\u00e1 na pr\u00f3pria Psicose Man\u00edaco-depressiva dois tipos diversos de heredologia.<\/p>\n\n\n\n<p>Por um lado, a Mania, como um quadro que tem uma coer\u00eancia com a carga gen\u00e9tica na fam\u00edlia, a melancolia ou a depress\u00e3o, com sintomas equivalentes (a depress\u00e3o seria o aspecto cl\u00ednico e a melancolia seria a entidade cl\u00ednica). Por outro lado, tinha a Psicose Man\u00edaco- depressiva em que havia uma carga gen\u00e9tica discordante (em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 gen\u00e9tica da fam\u00edlia). Portanto, temos uma forma monopolar, monof\u00e1sica e outra multif\u00e1ria ou bipolar.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"782\" height=\"252\" src=\"https:\/\/anibalsilveira.org\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/2024-09-11-7.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-3291\" srcset=\"https:\/\/anibalsilveira.org\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/2024-09-11-7.png 782w, https:\/\/anibalsilveira.org\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/2024-09-11-7-300x97.png 300w, https:\/\/anibalsilveira.org\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/2024-09-11-7-768x247.png 768w, https:\/\/anibalsilveira.org\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/2024-09-11-7-18x6.png 18w\" sizes=\"auto, (max-width: 782px) 100vw, 782px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Em s\u00edntese, temos na psicose man\u00edaco depressiva uma tend\u00eancia gen\u00e9tica diversa da psicose monof\u00e1sica. Al\u00e9m disso, h\u00e1 outros quadros cl\u00ednicos que n\u00e3o s\u00e3o Psicose Man\u00edaco-depressiva, mas que t\u00eam uma semelhan\u00e7a devido ao comprometimento da mesma esfera da personalidade: a esfera afetiva, primariamente.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Utilizando o crit\u00e9rio patogen\u00e9tico, ele estabeleceu nesse grupo a que ele chamou Psicose Man\u00edaco-depressiva, dois tipos: a Psicose Man\u00edaco-depressiva, que \u00e9 menos frequente, ou mais rara e as psicoses f\u00e1sicas, monopolares, que correspondem \u00e0s psicoses circulares ou psicoses peri\u00f3dicas.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>E diferenciou dessas duas, as psicoses f\u00e1sicas que n\u00e3o s\u00e3o Psicose Man\u00edaco-depressiva, mas que s\u00e3o f\u00e1sicas tamb\u00e9m, a que ele chamou de cicloides, porque tem o caracter\u00edstico fundamental relacionado com a doen\u00e7a circular. Dessa forma, as formas cicloides foram isoladas como um quadro cl\u00ednico \u00e0 parte, porque tem semelhan\u00e7a, do ponto de vista descritivo, mas n\u00e3o se confundem quando analisamos sob o prisma da patog\u00eanese.\u00a0 Karl Leonhard procurou estudar essas formas de Kraepelin de modo mais aprofundado, usando o crit\u00e9rio de Kleist, mas veremos mais adiante que a quest\u00e3o da orienta\u00e7\u00e3o diagn\u00f3stica pela patog\u00eanese, seguido por Kleist, n\u00e3o foi seguida muito a fundo por Leonhard.<\/p>\n\n\n<ol class=\"wp-block-footnotes\"><li id=\"e1587b2d-2afc-4f0b-a861-d1ee96939e42\">Texto organizado pelo Dr. Roberto Fasano Neto, em 2003, a partir de aula de An\u00edbal Silveira, provavelmente ministrada na d\u00e9cada de setenta do s\u00e9culo passado em Campinas, na UNICAMP, anotada em espanhol pela Dra. Dora Martinic Morales, sendo revista, em 10\/10\/22, por integrantes da Comiss\u00e3o de Revis\u00e3o do CEPAS: Fl\u00e1vio Vivacqua, Francisco Drumond de Moura, Paulo Palladini e Roberto Fasano Neto. Tradu\u00e7\u00e3o ao portugu\u00eas de Roberto Fasano. <a href=\"#e1587b2d-2afc-4f0b-a861-d1ee96939e42-link\" aria-label=\"Aller \u00e0 la note de bas de page 1\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><\/ol>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>IDENTIFICA\u00c7\u00c3O DAS FORMAS CL\u00cdNICAS DO GRUPO MAN\u00cdACO-DEPRESSIVO A psicose man\u00edaco-depressiva \u00e9 considerada pela maioria dos autores como uma entidade cl\u00ednica, mas aprofundando um pouco no seu estudo vemos que n\u00e3o se trata de uma entidade \u00fanica, mas de um grupo. 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