{"id":3296,"date":"2024-09-11T19:53:48","date_gmt":"2024-09-11T22:53:48","guid":{"rendered":"https:\/\/anibalsilveira.org\/?page_id=3296"},"modified":"2024-09-11T19:53:48","modified_gmt":"2024-09-11T22:53:48","slug":"parafrenia-segundo-kleist-parafrenia-em-sentido-estrito","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/anibalsilveira.org\/fr\/parafrenia-segundo-kleist-parafrenia-em-sentido-estrito\/","title":{"rendered":"Parafrenia segundo Kleist. Parafrenia em sentido estrito"},"content":{"rendered":"<p class=\"has-text-align-center\"><strong>PARAFRENIA SEGUNDO KLEIST<\/strong><sup data-fn=\"82b12413-6a78-4d34-a561-de2ce84dbfb3\" class=\"fn\"><a href=\"#82b12413-6a78-4d34-a561-de2ce84dbfb3\" id=\"82b12413-6a78-4d34-a561-de2ce84dbfb3-link\">1<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p>O nome parafrenia vem de <em>phrenos<\/em>, mente e <em>para<\/em>, ao lado: portanto, \u00e9 um desvio do trabalho mental que caracteriza essencialmente a parafrenia. N\u00e3o estou certo se foi Kraepelin quem introduziu esse termo. Na escola francesa, o que se chama parafrenia hoje, tinha o nome de del\u00edrio cr\u00f4nico, del\u00edrio sistematizado ou del\u00edrio alucinat\u00f3rio. Na escola alem\u00e3, tinha o nome de <em>Wahn<\/em>, del\u00edrio tamb\u00e9m ou ent\u00e3o <em>Verr\u00fccktheit: <\/em>deslocamento ou desvio da personalidade.<\/p>\n\n\n\n<p>No s\u00e9culo passado, Pinel definiu um grupo que era distinto da melancolia, distinto da mania. Mais tarde, Esquirol descreveu os casos de monomania, que distinguia das manias, onde havia um est\u00edmulo afetivo como fundamental, de outras onde o aspecto era mais de ordem intelectual. Assim, a monomania intelectual de Esquirol foi logo aceita como sendo uma variedade delirante. Isso correspondia ao termo que os alem\u00e3es usavam como <em>Verr\u00fccktheit.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Ainda na escola francesa, em 1868, Morel descreveu os casos de loucura delirante, chamando aten\u00e7\u00e3o para o aspecto particular do fato de haver concep\u00e7\u00f5es anormais baseadas em del\u00edrio. Em 1872, Falret descreveu mais precisamente esse quadro. O trabalho de Falret n\u00e3o conhecemos, n\u00e3o tivemos acesso a esse livro, nem existe mais tamb\u00e9m, de modo que \u00e9 dif\u00edcil encontrar-se. Mas Falret, citado pelos autores daquela ocasi\u00e3o, estabelece uma concep\u00e7\u00e3o muito pr\u00f3xima da que denominamos parafrenia nos dias de hoje. Falret mostrou que havia um del\u00edrio cr\u00f4nico que tinha uma evolu\u00e7\u00e3o muito particular: uma fase inicial delirante interpretativa, uma fase alucinat\u00f3ria subsequente e uma fase francamente delirante, geralmente, com del\u00edrio de grandeza. Observem que \u00e9 uma abordagem de interpretar a doen\u00e7a como um cont\u00ednuo, em que h\u00e1 fases que se sucedem. No Brasil, Juliano Moreira, estudando essa quest\u00e3o, mostrou que h\u00e1 uma fase chamada de rumina\u00e7\u00e3o, em que o indiv\u00edduo fica interpretando as coisas que se passam em torno dele, uma fase seguinte de excita\u00e7\u00e3o, de n\u00e3o estar bem ainda seguro de que aquelas coisas s\u00e3o reais (portanto, duvidando em certo ponto), que converge para um quadro alucinat\u00f3rio e, finalmente, para um quadro delirante permanente.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais tarde, em 1891, Magnan retomou o problema dos del\u00edrios e achou que havia &#8211; nesse grupo descrito pelos autores anteriores, inclusive o grupo de Falret -, dois aspectos fundamentais: um que se caracterizava pelo del\u00edrio alucinat\u00f3rio e outro em que h\u00e1 um del\u00edrio puro, isto \u00e9, um del\u00edrio que obedece a uma sistematiza\u00e7\u00e3o. A partir de Magnan, portanto, temos o chamado del\u00edrio cr\u00f4nico alucinat\u00f3rio e o del\u00edrio cr\u00f4nico sistem\u00e1tico, no qual n\u00e3o h\u00e1 nenhum elemento senso-perceptivo como aspecto fundamental do quadro.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Mais tarde, em 1910, S\u00e9rieux e Capgras fizeram um estudo muito completo dos quadros delirantes cr\u00f4nicos e estabeleceram um conceito, n\u00e3o especialmente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 parafrenia, mas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 chamada paran\u00f3ia, delimitando um aspecto que acho fundamental: no del\u00edrio sistematizado de Magnan, n\u00e3o existe o fator senso-perceptivo. Isto foi uma caracteriza\u00e7\u00e3o fundamental para o conceito de del\u00edrio cr\u00f4nico ou paran\u00f3ia, como chamavam Serieux e Capgras.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Na Alemanha, cumpre relembrar que Kahlbaum estudou pacientes com quadros delirantes, que ele denominou de <em>Verr\u00fccktheit, <\/em>ressaltando o aspecto da atividade delirante prim\u00e1ria.\u00a0\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1868, Griesinger retomou os trabalhos da escola francesa, citou inclusive Falret, que era contempor\u00e2neo, e Morel tamb\u00e9m, e estabeleceu uma forma inovadora de an\u00e1lise &#8211; j\u00e1 pela patog\u00eanese -, dos quadros delirantes cr\u00f4nicos que tanto Kahlbaum como Morel compreendiam como de origem puramente intelectual: considerou que o fundamental n\u00e3o era o fen\u00f4meno intelectual e sim um fen\u00f4meno afetivo.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, temos, com Griesinger, o in\u00edcio do estudo patogen\u00e9tico, uma abordagem que se tornaria mais frequente na escola alem\u00e3, de procurar ver nos quadros cl\u00ednicos os fatores patog\u00eanicos, isto \u00e9, qual seria a causa do surgimento do dist\u00farbio.<\/p>\n\n\n\n<p>Dessa forma, Griesinger estabeleceu v\u00e1rios tipos de altera\u00e7\u00e3o: os del\u00edrios secund\u00e1rios, a <em>Verr\u00fccktheit <\/em>secund\u00e1ria, os del\u00edrios que aparecem por si pr\u00f3prios ou aut\u00f4nomos, de causa end\u00f3gena e esse del\u00edrio que tem por base o aspecto afetivo fundamentalmente. Nessa mesma dire\u00e7\u00e3o foi conduzido o trabalho de Westphal. Mais tarde, Gaupp delimitou v\u00e1rias formas de paranoia: a paranoia intelectual, a paranoia com del\u00edrio de ci\u00fames e finalmente, a <a href=\"https:\/\/anibalsilveira.org\/paranoia-abortiva-2\/\" data-type=\"page\" data-id=\"3166\"><strong>paranoia abortiva<\/strong><\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Kraepelin retomou, mais tarde, esse problema quando fez a divis\u00e3o dos quadros cl\u00ednicos em formas end\u00f3genas e formas secund\u00e1rias ou formas ex\u00f3genas. Em 1895, n\u00e3o tinha ainda definido os quadros de parafrenia. Considerava as dem\u00eancias em geral retomando os estudos de Kahlbaum e de Hecker (as dem\u00eancias catat\u00f4nicas e hebefr\u00eanica, respectivamente), assim como as dem\u00eancias paranoides. Com a evolu\u00e7\u00e3o dos seus estudos delimitou, no \u00e2mbito da dem\u00eancia precoce, dois tipos: um com uma precoce e r\u00e1pida evolu\u00e7\u00e3o para o estado demencial e outro que chamou de esquizofrenia, na acep\u00e7\u00e3o de Bleuler, porque o dist\u00farbio traduzia um comprometimento no sentido do contato do paciente com o mundo exterior, mas n\u00e3o uma decad\u00eancia intr\u00ednseca da capacidade mental, al\u00e9m de isolar um outro grupo que \u00e9 a chamada Parafrenia.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Em s\u00edntese, Kraepelin admitiu, inicialmente, a dem\u00eancia precoce no sentido de Morel, a esquizofrenia como uma forma atenuada, uma forma mais benigna da dem\u00eancia precoce e um grupo a parte que achou que deveria ser isolado, a parafrenia.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Kraepelin refez v\u00e1rias vezes essa classifica\u00e7\u00e3o. Inicialmente em 1905, em que publicou a primeira edi\u00e7\u00e3o da \u201cPsiquiatria Cl\u00ednica\u201d, onde prop\u00f4s uma divis\u00e3o baseada apenas no colorido fundamental do quadro cl\u00ednico. Posteriormente, estabeleceu a diferencia\u00e7\u00e3o da parafrenia e da paran\u00f3ia. Finalmente, em 1921, incorporou a parafrenia no grupo VII da sua classifica\u00e7\u00e3o, sendo constitu\u00eddo por v\u00e1rias express\u00f5es: a forma expansiva; a forma sistem\u00e1tica, que \u00e9 mais dif\u00edcil de se apreciar porque o indiv\u00edduo n\u00e3o exterioriza diretamente (o contr\u00e1rio do que se passa na forma expansiva); a forma fabulat\u00f3ria, que \u00e9 a mais produtiva e a parafrenia fant\u00e1stica, que corresponde \u00e0 Fantasiofrenia de Kleist. Essas formas caracterizadas por Kraepelin delimitaram a configura\u00e7\u00e3o da parafrenia, como um tipo particular de doen\u00e7a mental, do grupo da dem\u00eancia precoce. A dem\u00eancia paranoide seria um grupo e a parafrenia outro grupo. Para estabelecer essa distin\u00e7\u00e3o, Kraepelin se baseou no crit\u00e9rio evolutivo. Porque s\u00e3o quadros cl\u00ednicos que aparecem mais tardiamente na vida do indiv\u00edduo, que se prolongam muito mais, sem chegar logo ao estado demencial. Al\u00e9m disso, cumpre reiterar, h\u00e1 o colorido cl\u00ednico geral exteriorizado nos del\u00edrios dos doentes, sejam os del\u00edrios fant\u00e1sticos ou a forma expansiva, ruidosa, nas quais o indiv\u00edduo se acha dotado de poderes especiais.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais tarde, Bleuler concebeu o conceito de esquizofrenia, em uma acep\u00e7\u00e3o diferente da de Kraepelin, porque o que interessa estudar no quadro cl\u00ednico, na sua abordagem, \u00e9 a dissocia\u00e7\u00e3o da mente. Kraepelin utilizou essa terminologia para caracterizar uma forma atenuada, um quadro menos grave do que o da dem\u00eancia precoce, isto \u00e9, Kraepelin valorizou mais o processo evolutivo do que o processo din\u00e2mico.<\/p>\n\n\n\n<p>Na realidade, em \u00faltima an\u00e1lise, Bleuler n\u00e3o reformulou o trabalho de Kraepelin, conservando no grupo da esquizofrenia as formas simples, catat\u00f4nica, hebefr\u00eanica, paranoide e incluiu a parafrenia.<\/p>\n\n\n\n<p>Houve, portanto, uma dilui\u00e7\u00e3o, um retrocesso, uma menor precis\u00e3o no conceito que estava sendo delineado com muita clareza por Kraepelin. Bleuler ampliou o conceito de dem\u00eancia precoce, mas outros autores investiram em fazer uma revis\u00e3o, especialmente Kehrer, em Munster na Westphalia e Kolle. Kurt Kolle estudou n\u00e3o s\u00f3 o grupo da parafrenia, mas tamb\u00e9m a paranoia, no sentido de Kraepelin.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais tarde, Kraepelin isolou a Paranoia como uma variedade espec\u00edfica. Na terminologia de Kehrer e de Kolle, a Paranoia passou a ser um aspecto da esquizofrenia, na acep\u00e7\u00e3o de Bleuler.<\/p>\n\n\n\n<p>Da mesma forma, Kraepelin mostrou que n\u00e3o somente o grupo parafr\u00eanico era esquizofrenia, mas a pr\u00f3pria paranoia correspondia a uma forma esquizofr\u00eanica tamb\u00e9m, estudando a parte gen\u00e9tica, bem entendido. Assim, vemos que Kraepelin destacou da parafrenia o grupo da paranoia. No entanto, incluiu o grupo da paranoia, n\u00e3o nas formas de origem som\u00e1tica, grupo II, mas no grupo IV em que os problemas eram de ordem constitucional. Assim, como caracter\u00edstica fundamental havia, em primeiro lugar, a doen\u00e7a man\u00edaco-depressiva e, em segundo lugar, a paranoia.<\/p>\n\n\n\n<p>De modo que Kolle, fazendo revis\u00e3o dos antigos quadros cl\u00ednicos de Kraepelin e de Kehrer, ambos utilizando o crit\u00e9rio fenomenol\u00f3gico, portanto, mais no sentido da descri\u00e7\u00e3o cl\u00ednica, n\u00e3o como gen\u00e9tica, chegaram \u00e0 conclus\u00e3o de que n\u00e3o havia raz\u00e3o para isolar esquizofrenia, parafrenia e paranoia: tudo seria uma coisa s\u00f3, um grupo \u00fanico, com manifesta\u00e7\u00f5es vari\u00e1veis de paciente para paciente.<\/p>\n\n\n\n<p>Em s\u00edntese, quando analisamos a classifica\u00e7\u00e3o inicial de Kraepelin (1913) temos o grupo da dem\u00eancia precoce com a forma hebefr\u00eanica, catat\u00f4nica, paranoide, a forma simples, e a Esquizofasia, que n\u00e3o tinha isolado inicialmente. Posteriormente, englobou a Esquizofazia nas esquizofrenias tamb\u00e9m. A parafrenia constituia um grupo \u00e0 parte, dentro da dem\u00eancia precoce, uma categoria particular com um decurso tamb\u00e9m particular. Bleuler retomou praticamente os mesmos quadros, apenas incluiu a parafrenia no grupo da esquizofrenia sem chegar a identific\u00e1-la corretamente. Ficou ent\u00e3o a esquizofrenia de forma hebefr\u00eanica, a esquizofrenia catat\u00f4nica, esquizofrenia paranoide, esquizofrenia de forma simples e englobando ent\u00e3o, todos os aspectos que Kraepelin havia dissociado antes, a esquizofasia e a parafrenia.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Kleist, pelo contr\u00e1rio, dissociou cada um desses grupos em v\u00e1rias formas distintas porque apresentam uma evolu\u00e7\u00e3o caracter\u00edstica, possuem uma condi\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica diferente e a patog\u00eanese do quadro cl\u00ednico tamb\u00e9m \u00e9 vari\u00e1vel de um quadro para outro. N\u00e3o foi apenas uma dissocia\u00e7\u00e3o para criar termos novos, foi um estudo mais aprofundado, baseado na observa\u00e7\u00e3o de pacientes durante muitos anos e depois revistos em catamnese (o importante nisto foi ver o que foi constante no quadro desde o in\u00edcio, aquilo que se modificou e a g\u00eanese da modifica\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m).<\/p>\n\n\n\n<p>Quanto \u00e0 parafrenia, Kleist a compreendeu em um sentido diverso de Kraepelin.\u00a0 Para Kleist a parafrenia corresponde a tipos bem definidos e temos, primeiramente, uma forma em que a interpreta\u00e7\u00e3o se apresenta como fator caracter\u00edstico, uma outra, a Psicose Progressiva de Refer\u00eancia apresenta uma maneira distinta de reagir, com falseamento da realidade, ante os est\u00edmulos (j\u00e1 n\u00e3o perceptivos) e, finalmente, o Del\u00edrio Circunscrito que apresenta uma coer\u00eancia maior com o quadro cl\u00ednico e o dist\u00farbio \u00e9 muito menos evidente no comportamento do paciente, isto \u00e9, n\u00e3o revela dist\u00farbio nenhum na primeira apresenta\u00e7\u00e3o do paciente, s\u00f3 com o tempo, com a conviv\u00eancia ou com o estudo do paciente em v\u00e1rias condi\u00e7\u00f5es diversas \u00e9 que podemos surpreender o del\u00edrio.<\/p>\n\n\n\n<p>Como ser\u00e1 discutido mais adiante, Leonhard prop\u00f4s uma modifica\u00e7\u00e3o que consideramos um retrocesso. Ele incorporou no grupo da parafrenia algumas formas paranoides de Kleist: a Psicose Progressiva de Inspira\u00e7\u00e3o e a Psicose Progressiva de Influ\u00eancia. Leonhard tomou a parafrenia como sin\u00f4nimo de esquizofrenia paranoide e incluiu, as tr\u00eas formas de parafrenia de Kleist, num grupo \u00e0 parte que chamou de Parafrenia Afetiva.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Neste caso perde-se o fator patogen\u00e9tico, fica um quadro \u00fanico com uma s\u00e9rie de manifesta\u00e7\u00f5es discordantes entre si e que corresponde realmente a formas cl\u00ednicas distintas pela patog\u00eanese, e pelo aspecto gen\u00e9tico tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>Como procuramos sempre salientar, o processo de diferencia\u00e7\u00e3o dos quadros cl\u00ednicos conduzido por Kleist foi sempre baseado no estudo da patog\u00eanese.<\/p>\n\n\n\n<p>O crit\u00e9rio descritivo utilizado por Leonhard, na an\u00e1lise dos quadros cl\u00ednicos, o levou a incorporar, no grupo da parafrenia algumas formas caracterizadas como paranoides por Kleist. Assim foi o caso dos quadros confabulat\u00f3rio e o fant\u00e1stico. Ambos, pela evolu\u00e7\u00e3o, pela carga gen\u00e9tica e pelo colorido cl\u00ednico, podem ser considerados como duas formas distintas que tem em comum entre si, apenas o aspecto de serem delirantes. Mas eles s\u00e3o t\u00edpicos ou sistem\u00e1ticos, pois desde o in\u00edcio do quadro cl\u00ednico mant\u00e9m o mesmo colorido.<\/p>\n\n\n\n<p>Duas outras formas que exigem uma distin\u00e7\u00e3o com as formas parafr\u00eanicas s\u00e3o a Psicose Progressiva de Inspira\u00e7\u00e3o, na qual o dinamismo patog\u00eanico parte do indiv\u00edduo para o meio exterior e na Psicose Progressiva de Influ\u00eancia, o dinamismo patog\u00eanico parte dos outros, ou do meio ambiente, para o indiv\u00edduo. Aqui cumpre apontar que a psicose de inspira\u00e7\u00e3o e a de influ\u00eancia s\u00e3o duas formas que se confundem com as benignas correspondentes, isto \u00e9, que apresentam uma evolu\u00e7\u00e3o benigna, n\u00e3o progressiva, que tamb\u00e9m apresentam esse aspecto da influ\u00eancia e da inspira\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Por sua vez, a forma parafr\u00eanica de refer\u00eancia tem uma evolu\u00e7\u00e3o cl\u00ednica distinta e com o tempo vai se tornando cada vez mais arrastada e mais amplificado o atrito com o ambiente, ao passo que na psicose de influ\u00eancia ou na de inspira\u00e7\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 esse problema de alargar-se o atrito, de pleitear, reclamar, protestar, muito caracter\u00edstico na psicose progressiva de refer\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Psicose Progressiva de Interpreta\u00e7\u00e3o o elemento fundamental do quadro cl\u00ednico \u00e9 o aspecto interpretativo dos dados, n\u00e3o \u00e9 tanto a ocorr\u00eancia de alucina\u00e7\u00f5es ou da rea\u00e7\u00e3o afetiva, \u00e9 mais interpreta\u00e7\u00e3o dos dados em si, por essa raz\u00e3o, \u00e9 mais restrito o quadro cl\u00ednico, do que na forma de refer\u00eancia. Finalmente, no Del\u00edrio Circunscrito, temos muito mais coer\u00eancia na express\u00e3o do quadro cl\u00ednico, no qual o indiv\u00edduo tem certa no\u00e7\u00e3o de que o que ele est\u00e1 dizendo \u00e9 delirante, as concep\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o aceit\u00e1veis pelos demais, por essa raz\u00e3o h\u00e1 uma tend\u00eancia para ocultar a atividade delirante, nas outras formas de parafrenias isso n\u00e3o ocorre, ou n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o evidente.<\/p>\n\n\n\n<p>Esses tr\u00eas tipos, portanto, s\u00e3o formas que Kleist chamou at\u00edpicas ou extensivas, extensivas porque envolvem no decurso outras esferas da personalidade que n\u00e3o s\u00e3o aquelas atingidas desde o in\u00edcio da doen\u00e7a, isto \u00e9, que conferem o seu colorido cl\u00ednico inicial.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Enfim, sob o ponto de vista da patog\u00eanese essas tr\u00eas formas da parafrenia de Kleist, divergem das formas paranoide de inspira\u00e7\u00e3o e de influ\u00eancia, porque nestas o dist\u00farbio se mant\u00e9m na mesma esfera da personalidade atingida desde o in\u00edcio do quadro cl\u00ednico.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Nas tr\u00eas formas de parafrenia, sempre extensivas, temos a participa\u00e7\u00e3o da esfera afetiva e da esfera conativa de modo mais acentuado do que nas formas paranoides de inspira\u00e7\u00e3o e de influ\u00eancia. No entanto, cumpre ressaltar que as formas de inspira\u00e7\u00e3o e de influ\u00eancia, tamb\u00e9m apresentam a participa\u00e7\u00e3o de dinamismos afetivos ou conativos. Na psicose de influ\u00eancia h\u00e1 o elemento conativo, o indiv\u00edduo sente que os demais agem sobre ele, h\u00e1 uma sensa\u00e7\u00e3o de que est\u00e1 sendo dominado, que est\u00e1 sendo dirigido. Na psicose de inspira\u00e7\u00e3o, h\u00e1 o elemento afetivo, que transparece no dinamismo que parte do individuo para o mundo exterior, h\u00e1 um colorido afetivo que n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o acentuado nas outras duas manifesta\u00e7\u00f5es at\u00edpicas ou extensivas. O del\u00edrio circunscrito apenas se refere a uma condi\u00e7\u00e3o delirante, \u00e0s vezes n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o que chame a aten\u00e7\u00e3o de in\u00edcio ou que d\u00ea motivo para o indiv\u00edduo ocultar. Tivemos um paciente que n\u00e3o explicava bem por que estava internado, retinha uma s\u00e9rie de informa\u00e7\u00f5es que achava que n\u00e3o devia comunicar. Esse aspecto dava, como resultado, uma discord\u00e2ncia entre aquilo que o paciente pensava (ou raciocinava) com a maneira como agia e essa discord\u00e2ncia, n\u00e3o traduzia uma falta de l\u00f3gica, expressava o fato dele ter, de prefer\u00eancia, uma rea\u00e7\u00e3o afetiva, sentir que aquilo n\u00e3o devia ser explicado, ser revelado, ent\u00e3o procurava ocultar e, dessa forma, cometia contradi\u00e7\u00f5es que s\u00e3o caracter\u00edsticas desse quadro cl\u00ednico.<\/p>\n\n\n\n<p>Como quadro geral, a parafrenia, no sentido de Kleist, \u00e9 como a parafrenia em rela\u00e7\u00e3o a Kraepelin, aparece mais tardiamente do que as outras formas. Em segundo lugar, a maneira como o indiv\u00edduo apresenta o quadro cl\u00ednico \u00e9 aceit\u00e1vel \u00e0 primeira vista, quer dizer, n\u00e3o h\u00e1 uma dissocia\u00e7\u00e3o essencial e evidente, como nos casos das formas paranoides. Aqui temos uma maior coer\u00eancia no quadro; em contato com o paciente vamos saber que realmente aquilo que apresenta \u00e9 fruto da sua imagina\u00e7\u00e3o, menos acentuada do que na Fantasiofrenia, por exemplo, que \u00e9 uma forma de dem\u00eancia precoce e menos do que na Confabulose Progressiva, onde tamb\u00e9m h\u00e1 uma tend\u00eancia expansiva. E tamb\u00e9m, na compara\u00e7\u00e3o com a Psicose Progressiva de Inspira\u00e7\u00e3o, na qual o indiv\u00edduo tem uma certa expansividade e revela id\u00e9ias que n\u00e3o s\u00e3o de grandeza, de autoafirma\u00e7\u00e3o, mas s\u00e3o, em certa medida, ide\u00edas de coisas que produz ou como realizador de grandes coisas, \u00e0s vezes pode estar ligado com fen\u00f4menos alucinat\u00f3rios: isto n\u00e3o \u00e9 essencial ao quadro cl\u00ednico, mas muitas vezes a inspira\u00e7\u00e3o, tem por base, o aspecto alucinat\u00f3rio tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando come\u00e7amos a nossa atividade cl\u00ednica at\u00ednhamo-nos \u00e0 escola francesa. Dessa forma, admit\u00edamos os v\u00e1rios quadros de parafrenia: a alucinat\u00f3ria e a interpretativa ou sistem\u00e1tica. Outras formas que Kleist tinha descrito, a forma fant\u00e1stica e a forma com id\u00e9ias de grandeza n\u00e3o correspondiam \u00e0 parafrenia na nossa acep\u00e7\u00e3o. Quando conhecemos os trabalhos de Kleist verificamos que essas duas formas estavam, de alguma maneira, inclu\u00eddas na sua sistem\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p>Para um diagn\u00f3stico mais assertivo das formas parafr\u00eanicas \u00e9 necess\u00e1rio observar muito tempo o paciente, ter dados objetivos que permitam aferir as concep\u00e7\u00f5es que est\u00e1 apresentando, especialmente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 forma de del\u00edrio circunscrito.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>De qualquer forma, do ponto de vista da patog\u00eanese, h\u00e1 dois aspectos que devemos acentuar na an\u00e1lise da parafrenia. Fundamentalmente, o decurso, que \u00e9 mais tardio, a carga gen\u00e9tica \u00e9 diferente, \u00e9 distinta, e o aspecto de ser vari\u00e1vel durante o decurso do quadro cl\u00ednico, embora nenhum deles chegue ao estado demencial, a variabilidade decorre de ser atingida de prefer\u00eancia a esfera afetiva, ou a conativa, ou a intelectual, que s\u00e3o os elementos patog\u00eanicos que permitem explicar o quadro cl\u00ednico e a evolu\u00e7\u00e3o do quadro cl\u00ednico: o diagn\u00f3stico n\u00e3o \u00e9 feito pela evolu\u00e7\u00e3o, mas a an\u00e1lise da evolu\u00e7\u00e3o est\u00e1 impl\u00edcita no diagn\u00f3stico que fazemos.<\/p>\n\n\n\n<p>No \u00e2mbito da compara\u00e7\u00e3o com o grupo das formas delirantes paranoides, temos a Somatopsicose progressiva, a Autopsicose Progressiva e a Alucinose Progressiva. Nessas, o elemento fundamental \u00e9 dado pela participa\u00e7\u00e3o da afetividade, embora de modo diverso.<\/p>\n\n\n\n<p>A afetividade \u00e9 que d\u00e1 um colorido, mais no sentido vegetativo, no quadro cl\u00ednico da Somatopsicose e mais na no\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria identidade (subjetiva), da interpreta\u00e7\u00e3o do que se passa com o pr\u00f3prio indiv\u00edduo, no caso da Autopsicose. Em rela\u00e7\u00e3o ao contacto com o mundo exterior, tendo em vista a ocorr\u00eancia de alucina\u00e7\u00e3o ou automatismo mental, temos a Alucinose Progressiva.<\/p>\n\n\n\n<p>Notem que \u00e9 a afetividade o setor de origem relacionado, genetica e patogen\u00e9ticamente falando, ao quadro cl\u00ednico. Por\u00e9m, patogeneticamente, de modo diverso: na Somatopsicose, na rela\u00e7\u00e3o com o setor instintivo da personalidade, na Autopsicose na rela\u00e7\u00e3o com a no\u00e7\u00e3o de si pr\u00f3prio (portanto, o estado subjetivo mais intelectual) e na Alucinose com o contato com o mundo exterior no sentido aferente, n\u00e3o eferente.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Na Confabulose Progressiva temos a participa\u00e7\u00e3o da esfera conativa, como elemento fundamental da patog\u00eanese, acarretando um contacto mais expansivo, mais produtivo em rela\u00e7\u00e3o ao meio ambiente. Na Psicose Progressiva de Inspira\u00e7\u00e3o e na Psicose Progressiva de Influ\u00eancia, formas de dem\u00eancia precoce paranoide ou esquizofrenia paranoide, temos a perturba\u00e7\u00e3o fundamental que se passa na esfera intelectual, mas nessa participa\u00e7\u00e3o temos tamb\u00e9m um colorido mais ligado com o aspecto afetivo ou conativo, no caso da inspira\u00e7\u00e3o e no caso da influ\u00eancia, respectivamente, ou somente afetivo como no caso da Fantasiofrenia. De qualquer forma, \u00e9 uma esfera \u00fanica que \u00e9 atingida.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando se refere \u00e0s parafrenias, no sentido de Kleist, temos a participa\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 das esferas intelectual, conativa e afetiva, mas de todas em conjunto, alteradas de modo prim\u00e1rio.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Nas formas paranoides a altera\u00e7\u00e3o envolve, primariamente, uma determinada esfera e, secundariamente, outras esferas da personalidade que caracterizam o quadro cl\u00ednico: portanto, envolvem mais os sistemas ps\u00edquicos mobilizados no contacto com o meio exterior.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Nas parafrenias h\u00e1 um dist\u00farbio prim\u00e1rio n\u00e3o s\u00f3 da esfera inicial, intelectual, mas tamb\u00e9m da esfera conativa e da esfera afetiva. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 participa\u00e7\u00e3o da esfera conativa h\u00e1 a Psicose Progressiva de Interpreta\u00e7\u00e3o e a Psicose Progressiva de Refer\u00eancia. No Del\u00edrio Circunscrito, temos a participa\u00e7\u00e3o da esfera afetiva predominantemente, donde vem a no\u00e7\u00e3o que o indiv\u00edduo tem de que as concep\u00e7\u00f5es que apresenta s\u00e3o um dist\u00farbio, s\u00e3o uma anomalia, portanto, discordantes da realidade e da\u00ed passa a tentar ocultar esse dist\u00farbio.<\/p>\n\n\n\n<p>Enfim, a diferen\u00e7a fundamental que h\u00e1 entre Kleist e os outros autores \u00e9 que ele se baseou na patog\u00eanese. A descri\u00e7\u00e3o do quadro cl\u00ednico \u00e9 o que os autores em geral fazem. Podemos observar o indiv\u00edduo por quinze, vinte anos ou mais que isto, at\u00e9 trinta anos, sem que haja um estado demencial caracterizado, mas h\u00e1 um aspecto de incapacidade que se torna percept\u00edvel. Nas formas de esquizofrenia paran\u00f3ide, por outro lado, o indiv\u00edduo chega mais cedo ao estado demencial.<\/p>\n\n\n\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 parafrenia, portanto, o essencial \u00e9 diferenciar os pacientes que \u00e0s vezes se confundem, especialmente a forma circunscrita com a paranoia ou a fantasiofrenia, quando o indiv\u00edduo elabora uma s\u00e9rie de coisas que n\u00e3o tem nenhuma base l\u00f3gica, mas ele assume como se fosse realidade, configurando, portanto, um dinamismo afetivo na patog\u00eanese do quadro cl\u00ednico.<\/p>\n\n\n<ol class=\"wp-block-footnotes\"><li id=\"82b12413-6a78-4d34-a561-de2ce84dbfb3\">Texto organizado por Roberto Fasano Neto, em 2003, a partir de aula de An\u00edbal Silveira, sem refer\u00eancia de data e lugar, sendo revista, em 30\/11\/22, por integrantes da Comiss\u00e3o de Revis\u00e3o do CEPAS: Fl\u00e1vio Vivacqua, Francisco Drumond de Marcondes de Moura, Paulo Palladini e Roberto Fasano Neto. As refer\u00eancias adicionais em azul ser\u00e3o vinculadas a um texto relacionado com um determinado autor ou um determinado assunto. <a href=\"#82b12413-6a78-4d34-a561-de2ce84dbfb3-link\" aria-label=\"Aller \u00e0 la note de bas de page 1\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><\/ol>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>PARAFRENIA SEGUNDO KLEIST O nome parafrenia vem de phrenos, mente e para, ao lado: portanto, \u00e9 um desvio do trabalho mental que caracteriza essencialmente a parafrenia. N\u00e3o estou certo se foi Kraepelin quem introduziu esse termo. 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