{"id":964,"date":"2024-02-19T12:15:47","date_gmt":"2024-02-19T15:15:47","guid":{"rendered":"https:\/\/anibalsilveira.org\/?page_id=964"},"modified":"2024-04-28T17:30:42","modified_gmt":"2024-04-28T20:30:42","slug":"sensacao-e-percepcao","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/anibalsilveira.org\/fr\/sensacao-e-percepcao\/","title":{"rendered":"SENSA\u00c7\u00c3O E PERCEP\u00c7\u00c3O"},"content":{"rendered":"<h4 class=\"has-text-align-center wp-block-heading\"><strong>SENSA\u00c7\u00c3O E PERCEP\u00c7\u00c3O<\/strong>\u00b9<\/h4>\n\n\n\n<p>Deixando \u00e0 parte o setor conativo da personalidade, para o qual as correla\u00e7\u00f5es psicofisiol\u00f3gicas exigiriam maiores coment\u00e1rios para que se tornem compreens\u00edveis, faremos algumas considera\u00e7\u00f5es sobre a outra zona de contato com o ambiente: as fun\u00e7\u00f5es intelectuais e especificamente o trabalho sensorial.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 atrav\u00e9s dos sentidos que o intelecto se liga, em dire\u00e7\u00e3o centr\u00edpeta, com a realidade exterior, no duplo mister de corrigir as concep\u00e7\u00f5es do mundo externo, e dessa maneira, contribuir para a sistematiza\u00e7\u00e3o das ci\u00eancias.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Da\u00ed o n\u00famero de categorias sens\u00f3rias que os autores em geral fixam em cinco, pese ainda que a cl\u00ednica e a pesquisa anatomopatol\u00f3gica j\u00e1 tenham demonstrado que o tato, em <em>latu sensu,<\/em> compreende quatro sentidos distintos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Blainville, subdividiu o tato em tr\u00eas categorias desde 1829, desmembrando dele a muscula\u00e7\u00e3o e a calori\u00e7\u00e3o. Comte, secundado por Audiffrent<strong>\u00b2<\/strong>, desmembrou ainda do tato, a eletri\u00e7\u00e3o. S\u00e3o, portanto, oito as categorias e n\u00e3o cinco.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No quadro abaixo se apresenta a classifica\u00e7\u00e3o dos sentidos, segundo a especificidade, elaborada por Agliberto Xavier<strong>\u00b3<\/strong>:&nbsp;<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh7-us.googleusercontent.com\/_fOwYvTN6gyAwx9Q_gIkEVazMys9aQUR_6vu4hjKqowfiWM_dsq6-0V-05pWxYVv0tmSPViogE3bCUJIVe708mWtr3NFngilo47PDBQbCm381pkqj17zomNWYI7lBzPZu3i287niKYNkEvNRCxHKAw\" alt=\"TabelaDescri\u00e7\u00e3o gerada automaticamente com confian\u00e7a m\u00e9dia\"\/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Em qualquer dessas categorias sensoriais, o trabalho fundamental se desdobra em tr\u00eas fases e pressup\u00f5e a exist\u00eancia de tr\u00eas tipos distintos de estrutura:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>(1) \u00f3rg\u00e3o perif\u00e9rico, sobre o qual incide o est\u00edmulo, de onde resulta a impress\u00e3o sensorial;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>(2) elementos de condu\u00e7\u00e3o, nervo sensorial ou sensitivo que transmite o est\u00edmulo;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>(3) o n\u00facleo cinzento sensorial, subcortical, que recebe o est\u00edmulo atrav\u00e9s dessas fibras nervosas, de onde a sensa\u00e7\u00e3o propriamente dita.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, para que o aparelho sensorial, atinja a finalidade que lhe \u00e9 caracter\u00edstica, essas fases preliminares n\u00e3o bastam. A sensa\u00e7\u00e3o n\u00e3o se torna consciente sem que sobre ela incida o trabalho propriamente intelectual, isto \u00e9, sem que haja percep\u00e7\u00e3o. Isto implica em mais dois tempos, pelo menos, na extens\u00e3o do trabalho, envolvendo dois tipos de estrutura:<\/p>\n\n\n\n<p>(4) a transmiss\u00e3o da sensa\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s das vias sensitivas intracerebrais, isto \u00e9, subcortico-corticais;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>(5) as \u00e1reas do c\u00f3rtex frontal destinadas a essa fun\u00e7\u00e3o ps\u00edquica de observa\u00e7\u00e3o. Assim, entre o est\u00edmulo perif\u00e9rico e a percep\u00e7\u00e3o ter\u00edamos os seguintes processos principais: impress\u00e3o sensorial, imagem sensorial (sensa\u00e7\u00e3o), imagem prim\u00e1ria (percep\u00e7\u00e3o).<\/p>\n\n\n\n<p>Na realidade o problema psicofisiol\u00f3gico se mostra muito mais complexo ainda, tanto pelo dinamismo quanto pelas estruturas envolvidas no processo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Primeiramente, como fen\u00f4meno intelectual essencialmente ativo, a percep\u00e7\u00e3o depende do interesse, ou seja, da motiva\u00e7\u00e3o afetiva que a determinou, pressupondo assim a participa\u00e7\u00e3o pr\u00e9via das esferas afetiva e conativa da personalidade. No plano anat\u00f4mico, devemos recordar a concep\u00e7\u00e3o de Audiffrent, hoje plenamente sancionada pela anatomia cerebral: estabelece que de cada n\u00facleo sensorial partem dois feixes de conex\u00e3o, respectivamente, para a regi\u00e3o intelectual do c\u00e9rebro (c\u00f3rtex frontal) e para a regi\u00e3o afetiva (c\u00f3rtex parietal, t\u00eamporo-parietal ou occipital ou mesmo cerebelar).<\/p>\n\n\n\n<p>Discutir a identifica\u00e7\u00e3o dos n\u00facleos cinzentos em apre\u00e7o, e pormenorizar outros aspectos pertinentes ao assunto, seria transpor os limites desta exposi\u00e7\u00e3o. Procuramos, portanto, resumir essa interpreta\u00e7\u00e3o din\u00e2mica com o seguinte esquema:&nbsp;<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh7-us.googleusercontent.com\/k51fGmukvvQYeJ_2FmDQmMgVyir8V6LwWKHVkllsmJs9VNOo00CT1lnwR6IxQI3BN8EJ4rw4N-mwFrBAnR8-hq50xZzE5ve80-31igtt84C-oFDsE35xFDWe3yG2aUKkMlfanl4xAXIFg-qQJVsF2g\" alt=\"http:\/\/www.psiquiatriageral.com.br\/cerebro\/f8.jpg\"\/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p><strong>Processos psicofisiol\u00f3gicos da percep\u00e7\u00e3o, no caso, visual \u2013 Esquema baseado no Princ\u00edpio de Audiffrent<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>E. \u2013 est\u00edmulo; I. \u2013 impress\u00e3o sensorial; S. \u2013 sensa\u00e7\u00e3o; A. \u2013 rea\u00e7\u00e3o afetiva, inconsciente, ante o est\u00edmulo; P. \u2013 percep\u00e7\u00e3o; em linhas de pontos-e-tra\u00e7os \u2013 vias de condu\u00e7\u00e3o do n\u00facleo sensorial ao c\u00f3rtex afetivo, no caso, tapete e fibras que v\u00e3o \u00e0 \u00e1rea 19; em pontilhado \u2013 liga\u00e7\u00e3o do n\u00facleo com o c\u00f3rtex frontal, ainda n\u00e3o demonstrada anatomicamente; em linhas interrompidas \u2013 vias occipito-frontais.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Aqui est\u00e1 representado o sentido da vis\u00e3o por ser o mais caracter\u00edstico da organiza\u00e7\u00e3o humana e, em consequ\u00eancia, aquele cujos dinamismos se acham mais bem conhecidos. Segundo essa concep\u00e7\u00e3o o fen\u00f4meno da percep\u00e7\u00e3o propriamente dito consiste na fus\u00e3o, ao n\u00edvel do c\u00f3rtex frontal, entre o influxo carreado diretamente pela vibra\u00e7\u00e3o do n\u00facleo subcortical e o influxo que este \u00faltimo ali faz chegar atrav\u00e9s do c\u00f3rtex posterior. Dessa s\u00e9rie de processos decorrem outros aspectos que a imagem prim\u00e1ria pode assumir:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<ol class=\"wp-block-list\"><li>o da evoca\u00e7\u00e3o, ou imagem mn\u00eamica ou recordada, dinamismo no qual o est\u00edmulo inicial parte da regi\u00e3o afetiva para a intelectual e da\u00ed para o n\u00facleo subcortical correspondente;&nbsp;<\/li><li>o da ilus\u00e3o sensorial, em que a percep\u00e7\u00e3o \u00e9 falseada afetivamente, porque a resson\u00e2ncia afetiva ou emocional sobrepuja o est\u00edmulo direto concomitante;&nbsp;<\/li><li>o da alucina\u00e7\u00e3o \u2013 imagem alucinat\u00f3ria \u2013 quando anormalmente o est\u00edmulo afetivo faz vibrar o n\u00facleo subcortical ao mesmo tempo em que ativa a regi\u00e3o intelectual \u2013 donde o n\u00e3o reconhecimento quanto \u00e0 subjetividade da imagem.&nbsp;<\/li><\/ol>\n\n\n\n<p>Nessa s\u00e9rie de fen\u00f4menos psicofisiol\u00f3gicos, os dois extremos, percep\u00e7\u00e3o normal e alucina\u00e7\u00e3o, t\u00eam em comum, portanto, a fus\u00e3o dos dois influxos sensoriais, direto e indireto; e apenas diferem no tocante \u00e0 din\u00e2mica \u2013 quanto \u00e0 origem do est\u00edmulo que deu margem ao reconhecimento.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ao que nos parece \u00e9 a este aspecto distintivo que se refere Hughlings-Jackson, segundo a men\u00e7\u00e3o de Russell Brain, o qual lhe endossa a interpreta\u00e7\u00e3o: \u201cAs percep\u00e7\u00f5es normais, para Jackson, \u201csimbolizam\u201d um mundo de objetos f\u00edsicos. Percep\u00e7\u00f5es ilus\u00f3rias ou alucinat\u00f3rias diferem das normais, n\u00e3o na qualidade perceptual, mas no malogro (failure) do valor simb\u00f3lico. Elas j\u00e1 n\u00e3o simbolizam de modo acurado, ou talvez de modo algum, os objetos f\u00edsicos\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Buscaino descreve claramente a participa\u00e7\u00e3o de vias intracerebrais e, principalmente, a fus\u00e3o entre imagens subjetivas e est\u00edmulos perif\u00e9ricos no fen\u00f4meno da percep\u00e7\u00e3o. Considera, entretanto, a retina como sede dessa converg\u00eancia, o que n\u00e3o nos parece defens\u00e1vel: \u201cDurante o fen\u00f4meno da vis\u00e3o consciente os est\u00edmulos que sobem da periferia suscitam mais ou menos nitidamente as recorda\u00e7\u00f5es, pondo em atividade os agrupamentos celulares e as vias nos quais se concretiza a lat\u00eancia das imagens; e determinam, atrav\u00e9s dos mecanismos centroperif\u00e9ricos, varia\u00e7\u00f5es at\u00e9 na periferia retiniana. Portanto, no decorrer do fen\u00f4meno da percep\u00e7\u00e3o, a periferia retiniana recebe os est\u00edmulos do mundo externo e ao mesmo tempo os que prov\u00eam do mundo cerebral do indiv\u00edduo. A retina funciona, assim, quase como uma tela para aparelhos de proje\u00e7\u00e3o, numa de cujas faces se projetasse uma imagem enquanto outra se projeta na face oposta. O \u2018coincidir\u2019 de ambas as \u2018imagens\u2019 \u2013 a considerar-se n\u00e3o no sentido grosseiramente \u00f3ptico no termo, mas no complexo de processos nervosos particulares \u2013 leva ao \u2018reconhecimento\u2019.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\"><strong><sub><sup>\u00b9 Aula de An\u00edbal Silveira, sem refer\u00eancia de data ou local, ou a quem a tenha compilado. Revista em 03\/05\/22 por integrantes da Comiss\u00e3o de Revis\u00e3o do CEPAS: Flavio Vivacqua, Francisco Drumond de Moura, Paulo Palladini e Roberto Fasano.<\/sup><\/sub><\/strong><\/h6>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\"><strong><sub><sup>\u00b2&nbsp;Audiffrent, G. \u2013 Du cerveau et de l\u2019innervation \u2013 Dunot, Paris; 1869.<\/sup><\/sub><\/strong><\/h6>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\"><strong><sub><sup>\u00b3 Xavier, Agliberto. \u2013 Fun\u00e7\u00f5es do C\u00e9rebro. Livraria S. Jos\u00e9, Rio de Janeiro, 1962.<\/sup><\/sub><\/strong><\/h6>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>SENSA\u00c7\u00c3O E PERCEP\u00c7\u00c3O\u00b9 Deixando \u00e0 parte o setor conativo da personalidade, para o qual as correla\u00e7\u00f5es psicofisiol\u00f3gicas exigiriam maiores coment\u00e1rios para que se tornem compreens\u00edveis, faremos algumas considera\u00e7\u00f5es sobre a outra zona de contato com o ambiente: as fun\u00e7\u00f5es intelectuais e especificamente o trabalho sensorial. \u00c9 atrav\u00e9s dos sentidos que o intelecto se liga, em [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-964","page","type-page","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/anibalsilveira.org\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/964","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/anibalsilveira.org\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/anibalsilveira.org\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/anibalsilveira.org\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/anibalsilveira.org\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=964"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/anibalsilveira.org\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/964\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2048,"href":"https:\/\/anibalsilveira.org\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/964\/revisions\/2048"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/anibalsilveira.org\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=964"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/anibalsilveira.org\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=964"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/anibalsilveira.org\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=964"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}