{"id":985,"date":"2024-03-02T11:14:11","date_gmt":"2024-03-02T14:14:11","guid":{"rendered":"https:\/\/anibalsilveira.org\/?page_id=985"},"modified":"2024-04-28T17:32:29","modified_gmt":"2024-04-28T20:32:29","slug":"teoria-da-abstracao","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/anibalsilveira.org\/fr\/teoria-da-abstracao\/","title":{"rendered":"TEORIA DA ABSTRA\u00c7\u00c3O"},"content":{"rendered":"<h5 class=\"has-text-align-center wp-block-heading\"><strong>TEORIA DA ABSTRA\u00c7\u00c3O<\/strong>\u00b9<\/h5>\n\n\n\n<p>Segundo as concep\u00e7\u00f5es da ci\u00eancia biol\u00f3gica, todos os animais s\u00e3o dotados, em graus diversos, de um conjunto de fun\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas que lhes permitem, atrav\u00e9s da sensibilidade e da motilidade, modificarem, a cada instante, a respectiva conduta em conformidade com as condi\u00e7\u00f5es do mundo exterior. Essa modalidade da vida, chamada vida de rela\u00e7\u00e3o ou animal, coexiste e mant\u00e9m \u00edntima liga\u00e7\u00e3o de m\u00fatua interdepend\u00eancia com as manifesta\u00e7\u00f5es vitais, puramente vegetativas, de conserva\u00e7\u00e3o tanto do indiv\u00edduo quanto da esp\u00e9cie, as quais, por serem as \u00fanicas observ\u00e1veis nos vegetais s\u00e3o englobadas sob a denomina\u00e7\u00e3o geral de vida vegetativa.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos seres humanos, a superior capacidade de todas as suas fun\u00e7\u00f5es nervosas e, em especial, as cerebrais, lhes permitem elaborar, do mundo exterior e de si pr\u00f3prio, imagens cada vez mais complexas e, portanto, mais pr\u00f3ximas da realidade. Essa capacidade, altamente desenvolvida nos homens, gra\u00e7as \u00e0 influ\u00eancia do meio social em que vivem, varia muito de intensidade e de efic\u00e1cia.<\/p>\n\n\n\n<p>De qualquer modo, mesmo quando reduzida aos seus menores graus, a intelig\u00eancia tem por finalidade principal elaborar, a partir das realidades objetivas e subjetivas, isto \u00e9, do meio em que vive o homem, como de si pr\u00f3prio, conhecimentos integrados pelas respectivas imagens cerebrais. E a partir dos sinais que as representam, produzir conhecimentos que permitem tra\u00e7ar, das aludidas realidades, um quadro de situa\u00e7\u00e3o futura, vale dizer, que possibilitem prever os acontecimentos vindouros. Assim, gra\u00e7as a essa opera\u00e7\u00e3o mental, \u00e9 poss\u00edvel ao homem prever, isto \u00e9, agir sobre o mundo, para adapt\u00e1-lo \u00e0s suas conveni\u00eancias, ou quando isto ainda estiver acima de suas for\u00e7as, agir sobre si pr\u00f3prio para resignar-se, provisoriamente, ao fato ainda inacess\u00edvel \u00e0 sua interven\u00e7\u00e3o. A f\u00f3rmula de Comte, conhecer para prever, a fim de prover, sintetiza essa marcha do entendimento humano.<\/p>\n\n\n\n<p>A intelig\u00eancia estimulada pelos sentimentos, trabalha, preponderantemente, no sentido de obter, progressivamente, a melhor concep\u00e7\u00e3o poss\u00edvel da realidade, porquanto disso depende a satisfa\u00e7\u00e3o de necessidades tanto mais numerosas e variadas quanto mais se sobe na escala zool\u00f3gica, e nos homens, quanto mais se aperfei\u00e7oa e desenvolve a estrutura social. Mas, al\u00e9m de seu destino de planejar as atividades pr\u00e1ticas, a intelig\u00eancia, em seus n\u00edveis superiores, dedica-se tamb\u00e9m a idealizar as realidades, poetizando-as para emocionar.<\/p>\n\n\n\n<p>As ci\u00eancias e as artes pr\u00e1ticas emanam da primeira modalidade das atividades cerebrais, ao passo que as belas artes, desde a poesia at\u00e9 a arquitetura \u2013 resultam da segunda forma daquelas atividades. Tanto concebendo o mundo para melhor\u00e1-lo, quanto o idealizando, para embelez\u00e1-lo o entendimento trabalha segundo as mesmas leis gerais.<\/p>\n\n\n\n<p>O saber, quer aquele que tem por mira o verdadeiro, quer o que se dedica ao belo, pode ser adquirido usando-se apenas a raz\u00e3o individual ou simultaneamente, a raz\u00e3o coletiva ou social.<\/p>\n\n\n\n<p>A Raz\u00e3o consiste, em \u00faltima an\u00e1lise, na maior ou menor aptid\u00e3o que manifestam os animais superiores e em especial os homens para, mediante o conjunto de suas fun\u00e7\u00f5es cerebrais, descobrirem as liga\u00e7\u00f5es ou as rela\u00e7\u00f5es de depend\u00eancia realmente existentes entre eles pr\u00f3prios e o meio em que vivem, e do qual dependem, de modo a lhes permitir estabelecer an\u00e1logas rela\u00e7\u00f5es entre as respectivas imagens cerebrais. Tanto maiores sejam as liga\u00e7\u00f5es ou rela\u00e7\u00f5es de interdepend\u00eancia assim descobertas e devidamente reproduzidas no c\u00e9rebro, tanto mais racionais e sistem\u00e1ticas ser\u00e3o as concep\u00e7\u00f5es que, de outro modo, ficariam incoerentes, desligadas umas das outras.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A continuidade hist\u00f3rica que, mais do que a solidariedade caracteriza a humanidade, se faz sentir no dom\u00ednio do saber, pelo cont\u00ednuo desenvolvimento da raz\u00e3o coletiva a qual, pela educa\u00e7\u00e3o, \u00e9 transmitida \u00e1 generalidade dos indiv\u00edduos, cujas intelig\u00eancias podem, desse modo, em poucos anos, atingir um n\u00edvel alto de racionalidade que lhes seria inacess\u00edvel com o emprego exclusivo da pr\u00f3pria raz\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Animais soci\u00e1veis que s\u00e3o, possuem os homens not\u00e1vel aptid\u00e3o para uma r\u00e1pida identifica\u00e7\u00e3o de seu estado cerebral com o de outros indiv\u00edduos que veneram ou respeitam por qualquer motivo. Essa assimila\u00e7\u00e3o pode ser feita de dois modos: mediante o uso da f\u00e9 ou confian\u00e7a, geralmente decorrente dos sentimentos altru\u00edstas, respons\u00e1veis pela sociabilidade, ou \u00e0 custa da repeti\u00e7\u00e3o, pelo indiv\u00edduo dos processos indutivos ou dedutivos adequados \u00e0 descoberta das verdades e conhecimentos da causa. A vida em sociedade exige um largo uso da f\u00e9 ou da confian\u00e7a reciproca, sem a qual, certamente, todas as atividades coletivas entrariam em colapso e estagna\u00e7\u00e3o. Sem a f\u00e9 ou confian\u00e7a, cada vez que um indiv\u00edduo fosse ingerir um alimento, teria ele pr\u00f3prio de proceder \u00e0 sua an\u00e1lise para certificar-se de sua pureza.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Identicamente, todas as vezes que uma pessoa fosse atravessar uma ponte, usar um autom\u00f3vel, um bonde ou um elevador, teria de proceder a um pr\u00e9vio e rigoroso exame de suas perfeitas condi\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas. Semelhante atitude, fruto que seria da desconfian\u00e7a generalizada, pode ser observada em todos os casos de psicose, caracterizados pela mania de persegui\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo a teoria das fun\u00e7\u00f5es do c\u00e9rebro, vimos que os seres e as coisas objetivas, nos revelam a sua exist\u00eancia mediante atividades espec\u00edficas as quais excitam, de modo especial, os \u00f3rg\u00e3os da percep\u00e7\u00e3o, produzindo sensa\u00e7\u00f5es. Essas por sua vez, constituem, os elementos sem os quais seriam imposs\u00edveis as constru\u00e7\u00f5es desses seres e coisas, as imagens representativas do mundo exterior.<\/p>\n\n\n\n<p>O c\u00e9rebro \u00e9 assim alimentado, estimulado e regulado pelo pr\u00f3prio meio c\u00f3smico em que vive. O entendimento, por\u00e9m, n\u00e3o fica passivo ante esses dados objetivos, ele os dirige, transforma e assimila, sob o impulso dos interesses que o estiverem aguilhoando. Inicialmente, gra\u00e7as ao \u00f3rg\u00e3o da observa\u00e7\u00e3o concreta, o c\u00e9rebro re\u00fane ou refere todas as sensa\u00e7\u00f5es a uma imagem \u00fanica ou sint\u00e9tica, que assim, reproduz a proximidade do objeto de onde provieram as sensa\u00e7\u00f5es. Formam-se, assim, as chamadas imagens concretas, adstritas a seres individuais. Simultaneamente, ou n\u00e3o, prosseguindo o est\u00edmulo de um interesse qualquer, interv\u00e9m a contempla\u00e7\u00e3o abstrata, que dissocia as imagens subjetivas, independentes umas das outras, sem as referir ao objeto de onde provieram.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Dessa elabora\u00e7\u00e3o cerebral, participa a elabora\u00e7\u00e3o indutiva, que comparando sensa\u00e7\u00f5es atuais com as antigas, j\u00e1 deduzidas as imagens, descobre os aspectos ou propriedades comuns, elimina os atributos particulares, aplaina as diferen\u00e7as individuais e acaba por construir novas imagens que n\u00e3o referentes a nenhum dos objetos individualmente, mas a todos indistintamente, porque compostos por aquilo que de comum existe entre eles. Esse trabalho intelectual \u00e9 conhecido sob o nome de abstra\u00e7\u00e3o. Seus frutos s\u00e3o as leis indutivas. Abstrair (do latim abs \u2013 traere \u2013 retirar de) consiste, pois, em separar uns dos outros, pela an\u00e1lise, os fen\u00f4menos, as propriedades, os atributos que integram os objetos ou seres reais, bem como as rela\u00e7\u00f5es existentes entre eles, n\u00e3o obstante n\u00e3o existem tais propriedades e atributos sen\u00e3o em seres ou coisas individuais, nos quais coexistem englobadamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Meditar sobre tais fen\u00f4menos ou propriedade, sem os referir a nenhum dos seres concretos nos quais hajam sido inicialmente contemplados, constitui o aspecto b\u00e1sico dessa elevada elabora\u00e7\u00e3o cerebral com a qual, pouco a pouco, se constr\u00f3i a nossa raz\u00e3o abstrata.<\/p>\n\n\n\n<p>Se toda imagem concreta ou sint\u00e9tica, corresponde a um objeto ou a um ser, independentes de nosso c\u00e9rebro, o mesmo n\u00e3o acontece com as imagens abstratas, ou anal\u00edticas, que s\u00e3o subjetivas, isto \u00e9, existem apenas em nosso entendimento, conquanto sejam sempre constru\u00eddas com materiais provenientes ou inspirados pela realidade objetiva.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O processo de forma\u00e7\u00e3o dos conceitos \u00e9 uma forma de abstra\u00e7\u00e3o que afeta numerosos aspectos e propriedades secund\u00e1rias dos seres ou objetos que interessam no momento. O conceito de animal, por exemplo, surge na medida que v\u00e3o abstraindo ou eliminando os aspectos ou atributos particulares que diferenciam os animais uns dos outros para conservar, apenas os que s\u00e3o comuns a todos eles.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Certamente o racioc\u00ednio abstrato afasta-se da realidade, mas esse caminho para evidenciar as liga\u00e7\u00f5es caracter\u00edsticas, isto \u00e9, \u00e0s leis que exprimem a interdepend\u00eancia dos fen\u00f4menos ou acontecimentos, \u00e9 o melhor caminho para conhecer. Pode-se mesmo dizer que a elabora\u00e7\u00e3o, elevando-se do concreto ao abstrato, n\u00e3o se afasta da verdade, pelo contr\u00e1rio, dela se aproxima por atingir os seus aspectos mais gerais e comuns a todos os seres e coisas.<\/p>\n\n\n\n<p>Generalizando ou induzindo por abstra\u00e7\u00e3o, a raz\u00e3o te\u00f3rica isola e destaca cada fen\u00f4meno de todos os outros que com ele realmente coexistem para compar\u00e1-lo com os que lhes s\u00e3o semelhantes. A abstra\u00e7\u00e3o substitui a observa\u00e7\u00e3o direta dos seres e coisas quaisquer pelo estudo (geral) isolado de cada um dos diversos tipos de suas atividades que podemos perceber direta ou indiretamente.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m das abstra\u00e7\u00f5es muito simples, correspondente \u00e0s propriedades ou fen\u00f4menos gerais como: extens\u00e3o, forma, peso, temperatura, eletricidade, alto, baixo, belo etc., a elabora\u00e7\u00e3o cria tamb\u00e9m imagens abstratas complexas. O conceito expresso pela palavra \u00e1rvore, por exemplo, abrange todas as propriedades comuns \u00e0s mangueiras, \u00e0s laranjeiras, etc., com exclus\u00e3o por\u00e9m daquelas que forem exclusivas ou caracter\u00edsticas de cada esp\u00e9cie de \u00e1rvore, em particular; do mesmo modo que com a palavra objeto, nos referimos simultaneamente \u00e0 forma, ao peso, \u00e0 cor, etc. que em geral s\u00e3o percept\u00edveis em todos os objetos concretos, sem que por\u00e9m, tornemos expl\u00edcitas qual forma, qual cor, etc., isto \u00e9, sem que individualizemos o objeto. S\u00e3o imagens gen\u00e9ricas constru\u00eddas pelo entendimento.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O conjunto de nossas abstra\u00e7\u00f5es forma no interior do c\u00e9rebro, um mundo subjetivo que reflete e reproduz de modo simplificado e, portanto, aproximativo, o mundo objetivo, existente fora, e independente de n\u00f3s, cuja imensa diversidade real n\u00e3o comporta imagens que o abranja e descreva tal como \u00e9. Esse \u00faltimo desiderato \u00e9 mui parcialmente alcan\u00e7ado pela raz\u00e3o concreta, cujas imagens materiais est\u00e3o, por isso mesmo, restritas aos seres corp\u00f3reos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Na medida que concep\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas se aproximam das realidades objetivas, perdem generalidade e reciprocidade. Esse admir\u00e1vel repert\u00f3rio de saber coletivo, que \u00e9 a linguagem, no dizer de Comte, \u00e9 formado de sinais f\u00f4nicos, todos correspondentes, salvo os substantivos pr\u00f3prios, a ideias abstratas, sem as quais ela n\u00e3o seria poss\u00edvel. Todas as palavras como correr, amar, cavalo, esfera, cara feio, terr\u00edvel, p\u00e1tria, vida etc., exprimem ideias abstratas, n\u00e3o individualizadas.<\/p>\n\n\n\n<p>O imenso e variad\u00edssimo estoque de abstra\u00e7\u00f5es de que se vai enriquecendo a linguagem, na medida da evolu\u00e7\u00e3o social, constitui fecundo tesouro indispens\u00e1vel \u00e0 cria\u00e7\u00e3o das ci\u00eancias, das t\u00e9cnicas, e das artes positivas, como tamb\u00e9m \u00e0 elabora\u00e7\u00e3o das fantasias teol\u00f3gicas e metaf\u00edsicas. A capacidade de abstrair \u00e9, portanto, uma das propriedades mais preciosas do entendimento humano.<\/p>\n\n\n\n<p>Comte mostrou tamb\u00e9m que a raz\u00e3o concreta, ao procurar descobrir as rela\u00e7\u00f5es existentes entre os objetos e seres diretamente, n\u00e3o \u00e9 capaz de os abranger e correlacionar sen\u00e3o em n\u00famero muito restrito. Somente a raz\u00e3o abstrata ou cient\u00edfica, permite atingir aquela generalidade de rela\u00e7\u00f5es, isto \u00e9, aquela racionalidade necess\u00e1ria a uma ampla concep\u00e7\u00e3o do mundo e do homem, na qual se enquadram, simultaneamente, pelo menos de modo esquem\u00e1tico, todos os casos ou todas as modalidades das exist\u00eancias objetivas. \u00c9 preciso, pois, abstrair para poder generalizar, para poder prever os acontecimentos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A Humanidade n\u00e3o pode prescindir nem de seus conhecimentos te\u00f3ricos, nem dos pr\u00e1ticos; os primeiros nos d\u00e3o, do mundo e do homem, um esquema geral, conquanto relativamente distanciados da realidade objetiva. Os segundos, delimitados e orientados pelos primeiros, completam em cada caso particular, o aludido esquema geral, permitindo maior aproxima\u00e7\u00e3o da realidade, indispens\u00e1vel \u00e0s atividades pr\u00e1ticas. A passagem das concep\u00e7\u00f5es abstratas para os planos objetivos, isto \u00e9, a transi\u00e7\u00e3o da teoria para a pr\u00e1tica, constitui uma das mais dif\u00edceis tarefas, mas tamb\u00e9m das mais indispens\u00e1veis, porquanto todo trabalho intelectual, deve ter um destino social, isto \u00e9, amar e conhecer, para bem servir \u00e0 Humanidade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 mediante o estudo do homem e do mundo, isto \u00e9, dos diversos modos de sua exist\u00eancia num\u00e9rica, geom\u00e9trica, mec\u00e2nica, astron\u00f4mica, f\u00edsica, qu\u00edmica, biol\u00f3gica, sociol\u00f3gica, que as medita\u00e7\u00f5es indutiva e dedutiva resolvem o problema de conhecer a ordem universal de modo a poder prever os acontecimentos e, portanto, prover de conformidade com os interesses sociais.<\/p>\n\n\n\n<p>Pondo de lado as atividades intelectuais de cunho est\u00e9tico, elabora o entendimento, a partir das mais concretas e objetivas e, por isso mesmo, mais espont\u00e2neas, concep\u00e7\u00f5es cada vez mais abstratas e mais gerais, at\u00e9 atingir aquelas que segundo Comte, constituem a Filosofia Primeira.<\/p>\n\n\n\n<p>O saber que integra a Filosofia Primeira corresponde \u00e0s concep\u00e7\u00f5es abstratas de generalidade superior, isto \u00e9, aquelas nas quais, al\u00e9m de se abstra\u00edrem os seres em que se contemplam os fen\u00f4menos tamb\u00e9m se afasta a considera\u00e7\u00e3o da natureza pr\u00f3pria a cada uma dessas categorias de atributos.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse saber supremo, ponto de vista geral sobre o conjunto de ordem cosmol\u00f3gica e humana, sem entrar, por\u00e9m, em nenhum de seus detalhes, surgiu, historicamente, como n\u00e3o poderia deixar de ser, depois de um suficiente desenvolvimento da Filosofia Segunda, dedicada ao estudo de cada um dos aludidos grupos de fen\u00f4menos. Do mesmo modo, esta \u00faltima s\u00f3 come\u00e7ou se formar, com Tales, baseada em vasto cabedal pr\u00e1tico e experimental a que Comte, denominou Filosofia Terceira. Somente o estudo sistem\u00e1tico de cada um desses conjuntos de conhecimentos permitir\u00e1 caracteriz\u00e1-los melhor.<\/p>\n\n\n\n<p>Em s\u00edntese, as Filosofias Primeira e Segunda cont\u00eam todo o saber abstrato at\u00e9 o momento obtido pela Humanidade. Os conhecimentos, emp\u00edricos ou pr\u00e1ticos, integram a Filosofia Terceira.<\/p>\n\n\n\n<p>A l\u00f3gica, concebida como o estudo das opera\u00e7\u00f5es de entendimento em seus esfor\u00e7os no sentido da elabora\u00e7\u00e3o dos conhecimentos te\u00f3ricos ou pr\u00e1ticos, n\u00e3o deve, segundo Comte, ficar separada desses resultados de sua pr\u00f3pria atividade, visto como que \u00e9 raciocinando que se aprende a raciocinar, e n\u00e3o discorrendo sobre a arte de raciocinar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O estudo do m\u00e9todo devendo, pois, ser insepar\u00e1vel do da doutrina, os esclarecimentos a respeito das opera\u00e7\u00f5es realizadas pelo esp\u00edrito, dever\u00e3o efetuar-se a prop\u00f3sito dos casos simples, suficientemente, claros e precisos, em que a opera\u00e7\u00e3o l\u00f3gica estiver em a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O positivismo, desse modo, n\u00e3o desliga o estudo te\u00f3rico, nem o tiroc\u00ednio pr\u00e1tico, da l\u00f3gica, do ensino das ci\u00eancias, as quais, na verdade, constituem o seu melhor campo de aplica\u00e7\u00e3o e exerc\u00edcio.<\/p>\n\n\n\n<p>Toda opera\u00e7\u00e3o l\u00f3gica nada mais \u00e9 do que o concurso normal (isto \u00e9, n\u00e3o patol\u00f3gico) de sentimentos, imagens, sinais para a elabora\u00e7\u00e3o, em cada caso, das concep\u00e7\u00f5es mais convenientes aos nossos interesses morais, intelectuais ou pr\u00e1ticos. Nessas opera\u00e7\u00f5es, os sentimentos p\u00f5em, com energia, os problemas e excitam os demais \u00f3rg\u00e3os cerebrais que fazem ent\u00e3o surgir as imagens e os sinais de qualquer modo ligados ao caso.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>As imagens d\u00e3o clareza e nitidez \u00e0 composi\u00e7\u00e3o. Os sinais facultam precis\u00e3o, concis\u00e3o, e rapidez aos encadeamentos l\u00f3gicos, ora substituindo-se a certos sentimentos ou imagens, ora sugerindo novos sentimentos e imagens com que estejam relacionados. O encadeamento dos elementos que integram cada opera\u00e7\u00e3o l\u00f3gica, se processa mediante a elabora\u00e7\u00e3o indutiva ou a elabora\u00e7\u00e3o dedutiva ou ainda por ambas.<\/p>\n\n\n\n<p>Induzir ou generalizar, consiste em estender a todos os casos semelhantes, uma rela\u00e7\u00e3o constante descoberta mediante o exame direto de reduzido n\u00famero de manifesta\u00e7\u00f5es do fen\u00f4meno considerado. Das numerosas imagens de \u00e1rvores que temos no c\u00e9rebro, tais como as da mangueira, do abacateiro etc., a elabora\u00e7\u00e3o indutiva consegue assinalar e destacar aspectos comuns, como o da exist\u00eancia em todas elas, das ra\u00edzes, caules e folhas. O seu trabalho logo se completa, generalizando este fato, mediante o enunciado de uma propriedade abstrata ou lei de semelhan\u00e7a: todas as \u00e1rvores s\u00e3o dotadas de ra\u00edzes, caules e folhas. O mesmo m\u00e9todo l\u00f3gico pode assinalar tamb\u00e9m que se \u00e1rvores produzem frutos e generalizar essa rela\u00e7\u00e3o constante de depend\u00eancia do aparecimento dos frutos \u00e0 exist\u00eancia, pr\u00e9via, das flores. Nesse \u00faltimo caso, institui-se indutivamente, uma lei de sucess\u00e3o: todas as \u00e1rvores que florescem, produzem frutos.<\/p>\n\n\n\n<p>A indu\u00e7\u00e3o pode ser feita por observa\u00e7\u00e3o, experimenta\u00e7\u00e3o, nomenclatura, compara\u00e7\u00e3o e filia\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Na indu\u00e7\u00e3o por observa\u00e7\u00e3o, o fen\u00f4meno cuja lei procuramos, \u00e9 contemplando tal como se produz espontaneamente, sem que nele se provoque qualquer modifica\u00e7\u00e3o. \u00c9 o m\u00e9todo da astronomia, cujos fen\u00f4menos s\u00e3o apenas observados. As leis b\u00e1sicas da f\u00edsica, s\u00e3o em geral obtidas pelo m\u00e9todo experimental, porquanto os fen\u00f4menos correspondentes, manifestando-se em corpos terrestres ao nosso alcance, podem ser produzidos pela observa\u00e7\u00e3o e pela elabora\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A nomenclatura e a compara\u00e7\u00e3o, modalidades do m\u00e9todo indutivo, tem seus melhores campos de aplica\u00e7\u00e3o em qu\u00edmica e biologia respectivamente.<\/p>\n\n\n\n<p>O primeiro desses dois processos l\u00f3gicos, consistem em induzir propriedades ou rela\u00e7\u00f5es entre as subst\u00e2ncias compostas e os componentes, mediante as aproxima\u00e7\u00f5es ou semelhan\u00e7as postas em relevo pelas classifica\u00e7\u00f5es naturais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O outro m\u00e9todo comparativo, consiste em contemplar um fen\u00f4meno em suas sucessivas fases de crescente complica\u00e7\u00f5es. Meditando-se, por exemplo, a respeito da respira\u00e7\u00e3o tegumentar, que \u00e9 mais simples e caracter\u00edsticas dos seres inferiores, passa-se, com relativa facilidade, a compreens\u00e3o da respira\u00e7\u00e3o traqueal, e por fim, \u00e0 respira\u00e7\u00e3o pulmonar, que constitui a forma mais complexa desse fen\u00f4meno biol\u00f3gico, cujas leis podem assim descobrir com a maior facilidade e seguran\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>A sociologia institui suas leis utilizando-se, principalmente, do m\u00e9todo conhecido sob o nome de filia\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. Esse m\u00e9todo opera uma verdadeira compara\u00e7\u00e3o das diversas fases da evolu\u00e7\u00e3o social, cada uma das quais se filia \u00e0 anterior e serve de base \u00e0 seguinte.<\/p>\n\n\n\n<p>Descobertos, pela indu\u00e7\u00e3o, os princ\u00edpios ou as leis fundamentais de cada categoria de fen\u00f4menos, torna-se poss\u00edvel o emprego do m\u00e9todo dedutivo, o qual consiste em fazer emanar daqueles princ\u00edpios, outros conhecimentos, neles implicitamente contidos, como consequ\u00eancia necess\u00e1ria do fato geral. \u00c9 o m\u00e9todo preponderante em matem\u00e1tica, cujas bases indutivas s\u00e3o t\u00e3o espont\u00e2neas e simples que passam desapercebidas.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 um terceiro m\u00e9todo geral, o construtivo, altamente empregado pela ci\u00eancia moral. \u00c9 ele caracterizado pela maior interven\u00e7\u00e3o do subjetivismo que orienta e seleciona as indu\u00e7\u00f5es e dedu\u00e7\u00f5es no sentido de dar \u00e0s elabora\u00e7\u00f5es l\u00f3gicas a forma mais bela e simp\u00e1tica, isto \u00e9, favor\u00e1vel ao altru\u00edsmo. Quando se diz que a f\u00edsica \u00e9 a ci\u00eancia experimental, ou que a experi\u00eancia \u00e9 o m\u00e9todo f\u00edsico, deve-se entender que tal m\u00e9todo \u00e9 o mais empregado nessa ci\u00eancia, ou ainda que \u00e9 no estudo dos fen\u00f4menos correspondentes que esse m\u00e9todo revela melhor suas caracter\u00edsticas e sua fecundidade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Desse modo, h\u00e1 sempre, para cada ci\u00eancia, um m\u00e9todo mais adequado, o qual passa a distingui-la. \u00c9 preciso, no entanto, ter em vista que as ci\u00eancias s\u00e3o institu\u00eddas com o aux\u00edlio das totalidades dos m\u00e9todos l\u00f3gicos de que disp\u00f5e a Humanidade. Entre eles h\u00e1, por\u00e9m, uma ordem de subordina\u00e7\u00e3o, porque n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel deduzir, sem que se haja previamente induzido, nem construir sem suficientes indu\u00e7\u00f5es e dedu\u00e7\u00f5es preparat\u00f3rias.<\/p>\n\n\n\n<p>Induzir para deduzir, a fim de construir, tal a s\u00famula dessa sequ\u00eancia. Finalmente resumiremos essas indica\u00e7\u00f5es dizendo que a abstra\u00e7\u00e3o fornece \u00e0 l\u00f3gica as imagens e os sinais de que ela necessita para que, sob o impulso dos sentimentos, possa elaborar tanto fic\u00e7\u00f5es est\u00e9ticas, quanto realidades cient\u00edficas e os planos pr\u00e1ticos que constituem o objetivo da poesia, da ci\u00eancia e da ind\u00fastria.<\/p>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\"><strong><sub><sup>\u00b9Texto baseado em aula sem refer\u00eancia de data e de local, utilizado pela Sociedade Rorschach de S\u00e3o Paulo e pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina de Jundia\u00ed. Revista em 17\/05\/22 por integrantes da Comiss\u00e3o de Revis\u00e3o do CEPAS: Flavio Vivacqua, Francisco Drumond de Moura, Paulo Palladini e Roberto Fasano.<\/sup><\/sub><\/strong><\/h6>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>TEORIA DA ABSTRA\u00c7\u00c3O\u00b9 Segundo as concep\u00e7\u00f5es da ci\u00eancia biol\u00f3gica, todos os animais s\u00e3o dotados, em graus diversos, de um conjunto de fun\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas que lhes permitem, atrav\u00e9s da sensibilidade e da motilidade, modificarem, a cada instante, a respectiva conduta em conformidade com as condi\u00e7\u00f5es do mundo exterior. Essa modalidade da vida, chamada vida de rela\u00e7\u00e3o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-985","page","type-page","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/anibalsilveira.org\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/985","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/anibalsilveira.org\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/anibalsilveira.org\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/anibalsilveira.org\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/anibalsilveira.org\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=985"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/anibalsilveira.org\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/985\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2052,"href":"https:\/\/anibalsilveira.org\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/985\/revisions\/2052"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/anibalsilveira.org\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=985"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/anibalsilveira.org\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=985"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/anibalsilveira.org\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=985"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}