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Uma outra psiquiatria é possível?

Partimos do pressuposto de que o contexto social e histórico é um fator patogênico relevante, no âmbito do que compreendemos e que está sendo comprovado, ampla e sistematicamente por evidências, como “produção social do sofrimento psíquico”.
Nesse sentido, consideramos consistente a concepção do sofrimento psíquico, em todas as suas modalidades, como expressão da interação de dinâmicas sociais e culturais com disposições internas de natureza subjetiva, traduzindo determinados arranjos da estrutura da personalidade, e com disposições internas de natureza objetiva, isto é, com determinadas configurações biológicas, cerebrais e fisiogenéticas que constituem, no seu conjunto, a singularidade de um determinado indivíduo, compreendido aqui como um agente social imerso em um determinado contexto social, cultural e histórico.
Dessa forma, uma teoria psiquiátrica mais abrangente teria que integrar esses três aspectos: a dimensão social e cultural, a dinâmica psíquica e a relação dessa com a atividade cerebral, sobretudo.
Nesse sentido, em nosso modo de ver, a psiquiatria ainda se encontra em uma fase pre-paradigmática, na acepção de Kuhn. Isto é, não existe sequer um candidato a um paradigma hegemônico que traduza uma teoria psiquiátrica fundamentada em uma compreensão da relação entre a dinâmica psíquica normal ou patológica com a atividade cerebral. E muito menos da relação disso com as implicações culturais e históricas do mundo externo e essas em relação dialética com as disposições geneticamente herdadas.
Os artigos apresentados a seguir trazem ao debate a questão se uma outra psiquiatria é possível. Nesse âmbito, colocamos a nossa proposta de uma psiquiatria fundamentada em uma abordagem sociológica. Agregamos a esse debate outros autores contemporâneos que propõem uma abordagem psiquiátrica comprometida com a implementação de práticas de atenção de base comunitária e que problematizam a questão da produção social massiva da farmacodependencia.

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